segunda-feira, 25 de maio de 2026

A quem interessa fabricar uma Academia que ladra baixinho e nunca morde ?


"que probabilidade têm professores promovidos pela obediência de conseguir formar alunos livres, críticos e intelectualmente independentes? E quanto é que custa a Portugal, em inovação adiada e atraso estrutural, essa cultura de submissão?" https://pachecotorgal.com/2026/04/27/o-erro-do-presidente-da-dst/

Na sequência do meu post de abril passado, no qual deixei duas perguntas cruciais, que volto a reproduzir no início deste texto, e também na sequência de um post que publiquei há cerca de três anos, dedicado a académicos corajosos, bem como de vários outros posts ainda mais antigos, entre os quais um de especial actualidade, com o esclarecedor título Como pode a Universidade interpelar a sociedade se os professores universitários têm medo de falar?, aproveito esta oportunidade, tão oportuna quanto necessária, para reproduzir abaixo um recente artigo do Professor Associado Domingos Caeiro, publicado no Expresso, cujo título é, por si só, bastante elucidativo:

Fábrica de conformistas: como a universidade trocou o pensamento pelo mercado

Domingos Caeiro

A academia portuguesa sucumbiu à lógica da empresa e ao silêncio estratégico. Quando as universidades deixam de pensar e de contestar, a democracia perde a sua última reserva crítica

Este artigo não é sobre a recente aprovação do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES). Mas não pode ignorá-la. O novo diploma, ao generalizar sob uma mesma fórmula tudo o que é superior — da universidade ao politécnico —, revela, logo à partida, uma pobreza de visão estratégica que é, ela própria, sintomática do mal maior que aqui se denuncia. Embora o RJIES mencione inovação, internacionalização e sustentabilidade como eixos estruturantes, falha em traduzir esses princípios em medidas concretas e ambiciosas. Seria essencial que um diploma desta magnitude assumisse um papel verdadeiramente transformador: que estabelecesse mecanismos robustos capazes de garantir não apenas a menção dessas prioridades, mas a sua efetiva materialização no sistema. Em vez disso, oferece-nos enunciados programáticos sem vinculação operacional.

Mas há uma aberração que merece destaque próprio: a possibilidade de agências estrangeiras acreditarem cursos nacionais. Trata-se, provavelmente, da alteração mais polémica e mais perigosa de todo o diploma. A A3ES — Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior —, atualmente a única agência nacional de acreditação, poderá ver a sua autoridade minada por critérios divergentes ou até contraditórios. Num cenário de duplo padrão de avaliação, arrisca-se ainda a ver diminuída a sua relevância e o seu financiamento, num caos regulatório sem precedente. É imperioso clarificar que as acreditações externas deverão ser complementares e nunca substitutivas da acreditação nacional, salvo quando integradas no Registo Europeu de Garantia de Qualidade no Ensino Superior (EQAR) e asseguradas por acordos bilaterais formais. Imagine-se um curso de engenharia acreditado por uma agência estrangeira de critérios menos exigentes, mas rejeitado pela A3ES. Qual prevalece? Esta é uma pergunta sem resposta no diploma — e sem resposta não há Estado, há anarquia regulatória.

É neste contexto — o de uma universidade já fragilizada por décadas de colonização gerencialista — que o legislador opta por fragilizá-la ainda mais. O que se segue não é, pois, uma análise jurídica do RJIES, mas antes um diagnóstico mais fundo: o de uma instituição que perdeu o fio à própria identidade.

O paradoxo é desconcertante: nunca a democracia esteve tão ameaçada, e nunca as universidades estiveram tão silenciosas. Habermas já tinha identificado este fenómeno com precisão — estudantes e professores, historicamente portadores de inquietude intelectual, mantêm hoje uma passividade que não é meditação reflexiva, mas capitulação tácita perante uma ordem de coisas que, há três décadas, teria provocado indignação coletiva. Não assistimos a uma crise circunstancial; testemunhamos a metamorfose profunda da academia numa entidade que já não reconhece as próprias origens.

A universidade contemporânea sofre aquilo que Habermas designou como colonização do mundo-da-vida pelo sistema. Imperativos económicos e burocráticos invadiram esferas que operavam segundo lógicas comunicativas e éticas, transformando a instituição numa empresa prestadora de serviços educativos. A linguagem tornou-se reveladora: estudantes transformaram-se em "clientes"; programas de estudo, em "produtos"; investigação, em "transferência de conhecimento"; pensamento crítico, em "competências transversais". Bill Readings (Universidade em Ruínas,1996) dissecou esta reconfiguração: a cultura cede lugar ao discurso da "excelência", conceito cuja genialidade perversa reside na vacuidade semântica. Não possui referente externo nem conteúdo interno; todos concordam com a sua necessidade porque não significa rigorosamente nada. Serve apenas como denominador administrativo que permite quantificar o inquantificável, auditar o que não deveria ser auditável.

Pensamos através da linguagem. E quando o nosso próprio uso linguístico é corrompido pelo discurso dominante, a ideologia que tudo é um mercado torna-se reinscrita nas práticas quotidianas, operando ao nível mais fundamental da consciência. A universidade não foi conquistada de fora para dentro; foi colonizada de dentro para fora, pela adoção voluntária de uma gramática que lhe é estranha.

O projeto tem êxito notável: a universidade neoliberal não falha em educar. Produz exatamente a subjetividade de que o capitalismo financeirizado necessita. Se a lógica sistémica mina o terreno do mundo-da-vida, o resultado é um sistema que fabrica sujeitos neoliberais perfeitamente ajustados: indivíduos hipercompetitivos, perpetuamente endividados, obcecados com métricas quantificáveis, incapazes de valorizar o que não pode ser monetizado, desinteressados de solidariedades coletivas não instrumentais.

Consideremos a trajetória típica do estudante contemporâneo. Inicia endividado, encarando a educação como investimento em "capital humano"— redução do ser humano a ativo económico. Durante o percurso, é permanentemente avaliado, classificado, ordenado em rankings. É levado a aprender que importa ter bom desempenho em avaliações padronizadas, não é necessário compreender profundamente. Descobre que perguntas incómodas prejudicam classificações; reproduzir acriticamente garante sucesso. Observa docentes precários dedicando energias desproporcionadas a relatórios burocráticos, formulários de auditoria, candidaturas a financiamento, tarefas que nada têm com ensino substantivo. Ao concluir, não emerge como cidadão crítico, mas como unidade produtiva ansiosa, ajustada à precariedade que o mercado impõe. A universidade cumpriu a função reformulada — mas deixou de ser universidade.

O conformismo não atinge apenas estudantes. O corpo docente, que historicamente constituiu reserva de pensamento crítico — desde o affaire Dreyfus até Maio de 1968 —, viu esse papel dissolver-se progressivamente. O académico contemporâneo encontra-se capturado numa rede de constrangimentos que lhe reduz o espaço de intervenção pública a quase nada.

A precarização representa o primeiro vetor (e a proposta de Lei Laboral não é o exemplo): proporção crescente do ensino é assegurada por docentes em situação precária: contratos a termo, bolseiros, assistentes convidados. Estes compreendem que expressar posições controversas pode significar não renovação de contrato. Mas mesmo os académicos com vínculos estáveis enfrentam pressões sistemáticas. Os regimes obsessivos (por vezes autocráticos) de avaliação tornaram-se mecanismos de disciplinamento subtil mas eficaz. A carreira depende exclusivamente de métricas quantificáveis: artigos publicados, citações recebidas, financiamento captado. Estas métricas não medem qualidade intelectual genuína, simulam essa medição através de indicadores que se tornaram fins em si mesmos.

O resultado é um corpo docente exausto, administrando obsessivamente a "marca académica", envolvido em jogos estratégicos de publicação — o menor artigo publicável, os tópicos com maior potencial de citação —, com cada vez menos tempo para a reflexão demorada, inovadora e arriscada que caracteriza o pensamento crítico transformador.

A própria natureza do trabalho intelectual foi reconfigurada. O conhecimento universitário é concebido como "inovação" ao serviço da "economia do conhecimento". As ciências sociais e humanas, que cumpriam função crítica sobre a sociedade, são progressivamente marginalizadas, subfinanciadas, consideradas "improdutivas" porque não geram patentes comercializáveis. Esta marginalização não é acidental. Uma universidade orientada para força de trabalho qualificada e conhecimento “comercializável” não necessita de historiadores que questionem narrativas, sociólogos que analisem dominação, filósofos que interroguem os fundamentos éticos do sistema. Necessita de engenheiros, gestores e técnicos; certamente que serão profissionais competentes, mas, maioritariamente, desprovidos de ferramentas para pensar o sistema como totalidade

A esfera pública universitária, que Habermas identificou como espaço privilegiado de debate racional-crítico, foi sistematicamente corroída. A autonomia tornou-se fictícia quando o financiamento provém de fontes com agendas específicas ou é atribuído segundo lógicas competitivas que privilegiam o "impacto económico". O tempo livre desapareceu sob avalanche administrativa. A comunidade fragmentou-se numa hierarquia rígida de contratos e precariedade. O ethos argumentativo cedeu a lógicas gestionárias onde as decisões são tomadas por “gestores” segundo critérios de eficiência económica.

Desapareceram também os espaços informais — cafés universitários, corredores, bibliotecas como locais de encontro — onde o pensamento crítico coletivo se formava. Estudantes correm entre aulas e empregos precários, sem tempo para o ócio produtivo. Professores trabalham isolados, interagindo por correio eletrónico e plataformas digitais. As reuniões tornaram-se sessões de gestão burocrática.

A caracterização da geração estudantil como conformista merece nuances. Quem ingressou no ensino superior depois de 2008 conheceu apenas austeridade permanente, precariedade normalizada e futuro incerto. Observaram pais com formação superior enfrentarem desemprego, endividamento e erosão de direitos. Aprenderam, pragmaticamente, que a educação superior já não garante mobilidade social; funciona, quando muito, como requisito mínimo para evitar a exclusão total.

A comparação histórica é reveladora. Os estudantes de 1968 eram beneficiários do maior período de expansão económica do século XX — os chamados "trinta anos gloriosos". Viviam num tempo de pleno emprego, de expansão do Estado social, de futuro aparentemente aberto. Essa segurança material criava espaço para a experimentação política e para a transformação cultural. Contrariamente, os estudantes contemporâneos habitam uma insegurança económica estrutural. O estudante endividado, que trabalha para pagar propinas e sobreviver, não dispõe de tempo para o ativismo sustentado. A ansiedade constante não promove contestação, promove conformismo estratégico, adaptação calculista. Assistimos a uma geração sem horizonte de utopia.

Acresce que a linguagem da contestação se tornou problemática. As grandes narrativas emancipatórias perderam credibilidade com a erosão das democracias e a integração da social-democracia no consenso neoliberal. Não existem projetos políticos radicais capazes de mobilizar massivamente. O vazio de horizonte utópico não é preguiça intelectual — é consequência de um empobrecimento histórico real.

A questão transcende largamente o âmbito académico: conseguirá a sociedade democrática sobreviver quando as instituições responsáveis pela formação de cidadãos críticos se transformaram em fábricas de sujeitos neoliberais? A universidade silenciosa não representa apenas um problema educativo, constitui sintoma de uma patologia democrática profunda. E quando o legislador, em vez de curar, agrava, permitindo, por exemplo, que agências estrangeiras de acreditação de qualidade duvidosa avaliem cursos nacionais, desautorizando implicitamente a A3ES, o diagnóstico torna-se ainda mais sombrio.

Não se trata de saudosismo. A universidade do passado tinha os seus próprios vícios, as suas hierarquias fechadas, os seus dogmatismos. O que se reclama não é a restauração de um tempo que não existiu plenamente, mas a recuperação de uma função: a de espaço onde o pensamento pode ser livre, onde a crítica não tem preço, onde o futuro não é apenas gerido, mas imaginado.

Enquanto a universidade não se reconhecer a si própria, enquanto não perceber que a sua crise não é orçamental, mas ontológica, o prognóstico, na ausência de intervenção radical, permanece profundamente inquietante para o futuro das nossas democracias.

sábado, 23 de maio de 2026

The Harvard’s Study and the Portuguese Unicorn That Devoured a German Rival

A study published in Science by researchers from Harvard Medical School has established a milestone in the evolution of AI-assisted medicine that is difficult to ignore: an OpenAI reasoning model outperformed experienced physicians in diagnosing and managing patients in a Boston emergency department using only electronic health records.  https://www.science.org/doi/10.1126/science.adz4433

But the deepest consequence of this breakthrough may not be felt first in Boston, London, or Berlin. It may be felt in rural villages, underserved regions, and low-income communities where hospitals are distant, doctors are scarce, and medical consultations remain out of reach. According to the 2025 WHO and World Bank UHC report, 4.6 billion people still lack full access to essential health services. For them, an AI diagnostic system available through a smartphone would not be a luxury. It could be the first real gateway to clinical guidance, early detection, and lifesaving care.

In this context, Sword Health deserves particular attention. The Portuguese unicorn is already applying AI to healthcare at global scale and, as of February 2026, says it has treated more than 700,000 patients across its AI care platform while delivering over 10 million AI care sessions. Its recent $285 million acquisition of German rival Kaia Health, expanding its reach in the United States while opening a major foothold in Germany’s reimbursed digital-health market, shows that AI medicine is no longer a distant promise but an emerging international infrastructure for prevention, treatment, rehabilitation, and follow-up care. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/11/the-deepening-roots-of-portuguese.html 

PS - This revolution also challenges medical education. Students now entering medical schools may need far more than technical excellence. They will need deeper formation in ethical judgment, responsibility, trust, compassion, and empathy — the human values that should guide the use of increasingly powerful machines.Yet even this frontier is becoming more complex. A recent study by Swiss researchers suggests that AI can be perceived as more empathetic than humans. https://www.nature.com/articles/s44271-025-00258-x

Update after 1 day - Blogger analytics indicate that the majority of views for this post come from Germany (17%), the USA (14%), and Brazil (5%). 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

A improvável nova febre Portuguesa que vai dar uma ajuda ao Governo de Montenegro

 

A revista Sábado dedicou um extenso artigo de nada menos do que 11 páginas sobre a “febre das caminhadas e corridas”, um fenómeno verdadeiramente extraordinário num país que, durante demasiado tempo, se habituou a figurar como campeão do sedentarismo entre dezenas de países, como recordava um artigo da revista Visão, em Maio de 2024

Recordo também que há apenas cinco anos, divulguei um artigo da conhecida revista The Economist sobre o saudável passatempo nacional da Coreia do Sul. Na altura, lamentei que o passatempo nacional português continuasse a ser a visualização de jogos de futebol, seguida de intermináveis horas de comentários alienantes sobre esses mesmos jogos.  https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/01/os-passatempos-dos-diferentes-paises.html

Pelos vistos, algo de verdadeiramente invulgar aconteceu, entretanto, neste país. De repente, há milhares de portugueses a romper com a velha tradição do sedentarismo e a aproximarem-se, de forma surpreendente, do modelo coreano. Quem deve estar a esfregar as mãos de contente é o Primeiro-Ministro Luís Montenegro, que talvez já esteja a fazer contas aos 3.000 milhões de euros que o Estado poderá poupar anualmente, segundo o estudo que divulguei aqui https://pachecotorgal.com/2024/05/30/uma-ajuda-ao-pouco-informado-governo-portugues-para-conseguir-poupar-anualmente-milhares-de-milhoes-de-euros/

PS - É claro que uma população fisicamente ativa também tem as suas "desvantagens", pelo menos para quem governa. Quanto maior o nível de atividade física de um povo, maior tende a ser a sua energia cívica, a sua participação comunitária e, inevitavelmente, a sua exigência política. Portugueses que caminham mais, pensam mais. E portugueses que pensam mais, conformam-se muito menos. Talvez o primeiro-ministro deva por isso "fazer bem as contas" antes de se congratular com a referida poupança bilionária.