segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Oportuna petição para colocar o vencimento dos deputados ao mesmo nível da Suíça

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/09/quatro-indicadores-quatro-ultimos.html

Na sequência daquilo que escrevi na parte final do post acessível no link supra, sobre os salários dos professores do ETH Zurich, reproduzo abaixo uma proposta de petição: 

Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República,

  1. Considerando que, na Suíça, a remuneração inicial de um professor catedrático da ETH Zürich corresponde a cerca de três vezes a remuneração parlamentar média de um deputado federal;

  2. Considerando que Portugal não dispõe, de dinheiro para triplicar os vencimentos dos professores universitários e investigadores;

  3. Considerando no entanto que existe uma solução muitíssimo mais económica para o Estado e inteiramente dependente apenas da vontade dos deputados;

As cidadãs e os cidadãos abaixo assinados requerem, em coerência com o elevado apreço que Portugal afirma dedicar à ciência, a revisão do estatuto remuneratório dos titulares de cargos políticos, sem que a redução seja neutralizada pela atribuição de outros abonos ou suplementos, fixando o vencimento dos deputados em 1700 euros brutos por mês.

As senhoras e os senhores deputados têm agora uma oportunidade histórica de dar o exemplo, se o país não pode aumentar os salários dos professores universitários e investigadores, podem aquelas e aqueles reduzir os seus até reproduzirem a proporção salarial observada na Suíça entre os deputados federais e os professores da ETH Zürich. Portugal poupará cerca de 8 milhões de euros por ano e ainda poderá proclamar ao mundo que alcançou o padrão suíço de valorização da ciência. Será uma proeza política ímpar, por elevar o estatuto relativo de quem produz ciência sem lhe pagar mais um cêntimo.

domingo, 27 de setembro de 2026

Quatro indicadores, quatro últimos lugares: a putativa excelência científica portuguesa de uma certa área posta à prova

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/09/a-excelencia-cientifica-portuguesa.html

Na sequência do post anterior, dedicado ao desempenho dececionante dos investigadores portugueses mais destacados nas áreas científicas contempladas pelos prémios Nobel, faz todo o sentido avaliar, em cada uma dessas áreas, a distância que separa Portugal de outros países. Comecemos pela área da Economia. Uma pesquisa efectuada hoje na Scopus aos 20 artigos mais citados associados a Portugal e a cada um de dez outros países coloca Portugal em último lugar nos quatro indicadores apresentados na tabela supra.

O contraste com Espanha é particularmente embaraçoso e até mesmo humilhante, dos seus 20 artigos mais citados na área da Economia, 18 ultrapassam as mil citações; em Portugal, apenas seis o conseguem. Significa isso que a investigação das "excelentes" unidades de investigação da economia em Portugal anda a escolher questões com pouca relevância internacional ou haverá outra explicação mais miserável para aquele subdesempenho ?

Na verdade, Portugal nem sequer pode reclamar como seus os tais seis artigos com mais de mil citações, pois dois deles são da autoria de investigadores portugueses que trabalham no estrangeiro, pelo que eles pertencem aos países onde aqueles trabalham. O artigo mais citado, com mais de 4000 citações, tem como primeiro autor João M. C. Santos Silva, catedrático cujo trabalho contribui para o prestígio da ciência britânica. Por que haveria ele de querer permanecer num país onde um catedrático cujos trabalhos receberam milhares de citações recebe exatamente o mesmo que outro cuja produção científica soma umas poucas dezenas de citações? Porque haveria ele de querer permanecer num país que, escandalosamente, paga mais à classe política do que aos seus investigadores de topo?

Sobre esta vergonha faço notar que há vários anos critico o facto dos vencimentos dos cargos políticos e também dos muitos cargos que aqueles distribuem de forma generosa por familiares e amigos, ser superior aquilo que as universidades pagam a investigadores de topo, exatamente ao contrário do que acontece nos países do Norte da Europa. A comparação com a Suíça é bastante elucidativa, um deputado federal recebe cerca de 78 mil euros anuais, enquanto a ETH Zürich paga salários anuais entre 206 mil e 282 mil euros aos prof. associados e entre 241 mil e 317 mil euros aos catedráticos. Ou seja, mesmo no início da escala, um catedrático daquela universidade recebe mais do triplo de um deputado. Assim se Portugal quiser respeitar a mesma proporção e assim deixar de desvalorizar os seus professores universitários e investigadores, tem duas opções, ou triplica o seu vencimento ou corta o vencimento dos deputados para cerca de 1700 euros por mês. 

PS - Recordo que em dezembro de 2023, divulguei neste blogue um estudo de um prestigiado catedrático holandês de Economia, publicado no Journal of Informetrics, que dava algumas pistas sobre os fatores associados a uma maior probabilidade de ganhar o Nobel da Economia.

sábado, 26 de setembro de 2026

A excelência científica Portuguesa pelas ruas da amargura à excepção da Engenharia

A conhecida firma bilionária Clarivate Analytics acaba de anunciar o nome dos 22 investigadores nas áreas da Física, da Química, da Medicina e da Economia que, em 2026, entram no Hall of Citation Laureates. Vide lista no final do post. A seleção resulta de um escrutínio exigente, os analistas daquela firma identificam os autores de artigos científicos de influência excepcional que tenham recebido milhares de citações. E o histórico da métrica dá peso ao método utilizado, pois dos 487 investigadores que até ao momento já foram selecionados para integrar aquele "clube", 89 receberam posteriormente um prémio Nobel. 

Desgraçadamente, Portugal continua sem conseguir colocar um único investigador no restrito e prestigiado grupo supracitado. É uma ausência bastante incómoda num país onde uma teia de interesses instalados que sequestrou o sistema universitário ajudou a multiplicar as classificações de Excelente atribuídas a um número anormalmente elevado de unidades de investigação. Mas que excelência científica é esta, afinal, que nem sequer consegue colocar um único cientista entre os quase 500 que integram o Hall of Citation Laureates?

A realidade é que, como escrevi em abril de 2025, numa crítica a um artigo de uma investigadora de uma instituição de ensino superior da Rússia, na qual citei um estudo publicado em 2021 na revista Higher Education Quarterly, as grandes descobertas exigem coragem para correr riscos intelectuais e desafiar ideias estabelecidas, coragem essa que os investigadores endogâmicos não possuem. E, sendo Portugal um campeão europeu da endogamia académica, havendo até reitores que a defendem ferozmente, não será, afinal, assim tão surpreendente que não haja um único cientista português no Hall of Citation Laureates. O que é surpreendente é haver tanta alegada "excelência" logo num país que, em vários indicadores científicos, fica abaixo da Grécia, da Roménia e da pobre Argentina.

Mas, como escrevi num post de 7 de agosto no qual listei cinco conselhos para jovens investigadores, é precisamente na era da IA que mais precisamos de cientistas verdadeiramente corajosos. A IA pode, fazer muitas coisas; não pode, porém, mostrar pelo próprio exemplo o que significa pagar o preço de desafiar uma autoridade, defender uma verdade inconveniente ou persistir numa linha de investigação que todos aconselham a abandonar. A coragem científica aprende-se com quem efectivamente correu esses riscos e suportou as suas consequências, algo que a IA não é capaz de fazer. E uma universidade endogâmica, onde cobardes formam outros cobardes, também não. Quando uma universidade premeia a subserviência e castiga a coragem, a sua excelência existe apenas no papel. As descobertas que mudarão o mundo nascerão onde investigadores corajosos formam outros igualmente corajosos, tudo o resto é administração da mediocridade.

PS - Infelizmente não há nenhum prémio Nobel para a área da Engenharia que é precisamente aquela que em Portugal consegue fazer aquilo que muitas outras não conseguem https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/07/porque-e-que-em-portugal-so-engenharia.html


Hall of Citattion Laureates 2026

Canadá

Daniel J. Drucker…………Medicina

China

     Qikun Xue…………..……..Física

Dinamarca

Jens Juul Holst…………..Medicina

Israel

Jacob Sagiv………………Química

Japão

Chihaya Adachi…………..Física

Suíça

Nicola A. Spaldin…………Física

 

Estados Unidos

Svetlana Mojsov………….Medicina

James G. Fujimoto……….Medicina

David Huang………………Medicina

Eric A. Swanson………….Medicina

Timothy A. Springer………Medicina

Stephen R. Forrest……….Física

Mark E. Thompson……….Física

David L. Allara…………….Química

Ralph G. Nuzzo…………..Química

Harry B. Gray……………..Química

Jay R. Winkler…………….Química

David R. Liu……………….Química

Susan C. Athey……………Economia

Hal R. Varian………………Economia

Michael D. Woodford……..Economia

Sidney G. Winter………….Economia