sexta-feira, 31 de julho de 2026

The Unacknowledged Thermodynamic Price of the Modern Corporate University

A living cell preserves an extraordinarily organised interior in a universe governed by increasing entropy. It maintains membranes, genetic information and complex biochemical processes, yet it does not violate the second law of thermodynamics because it is not an isolated system. It imports concentrated energy and organised matter, transforming them into heat, waste and degraded materials. Its internal order is therefore purchased through a greater production of disorder outside its boundaries. Life survives not by defeating entropy, but by exploiting it. This idea, associated with Schrödinger’s “negative entropy” and Prigogine’s dissipative structures, contains an uncomfortable lesson, every organised system has a metabolic cost, every zone of visible order generates disorder elsewhere.

The same principle applies to individual existence. Human beings construct internal order through routines, careers, identities, relationships and carefully defended narratives about themselves. Yet that order requires constant exchanges with the outside world. A person who closes himself to criticism, affection, uncertainty and unfamiliar ideas may preserve stability, but it is the stability of a crystal rather than the dynamic order of a flame. More disturbingly, personal equilibrium is often achieved by exporting disorder into less visible places. The professional who appears controlled in public may transfer his frustration to his family; the admired leader may depend upon the exhaustion of subordinates; one person’s tranquillity may be financed by another’s anxiety. The moral question is therefore not whether our lives appear orderly, but where the fatigue, conflict and damage required to preserve that order are ultimately deposited.

Scientific research offers an especially revealing example. A published article appears as an orderly progression from question to method, evidence and conclusion. In reality, every polished result normally rests upon failed experiments, rejected manuscripts, abandoned hypotheses, unusable datasets and intellectual dead ends. These are not merely signs that research has malfunctioned; they are often the unavoidable cost of discovery. A scientific culture that publishes only successful outcomes and reconstructs every project as a clean sequence of rational decisions conceals its own metabolism. For researchers, this is a liberating insight: uncertainty and failure are frequently part of the process rather than deviations from it. Original research exists between excessive order and excessive disorder. Too much order produces repetition and safe incrementalism; too much disorder produces incoherence. Discovery requires enough structure to accumulate knowledge and enough instability for something unexpected to emerge.

Universities reproduce this logic institutionally. They import funding, student ambition, academic labour and talent, transforming them into graduates, publications, technologies and prestige. Yet the crucial question remains: where does their disorder go? Institutional stability may depend upon precarious researchers, exhausted support staff, invisible doctoral labour and the transfer of uncertainty towards those least able to resist it. The university remains orderly because insecurity has been displaced downwards. Excellence therefore cannot be judged solely through rankings, publications and strategic plans. It must also account for abandoned researchers, bureaucratic overload, suppressed dissent and talent trained at public expense and then allowed to leave. A university may appear highly efficient precisely because it has become exceptionally skilled at concealing its entropy. 

P.S. This argument also returns us to my 2021 post, The Success of Organisations in the Twenty-First Century Requires a Minimum of Rebellion and Chaos. A university that eliminates dissent, intellectual friction, failed experiments and uncomfortable voices does not become more orderly; it becomes scientifically dead. What passes for institutional stability is often merely stagnation protected by bureaucracy, conformity disguised as collegiality and intellectual cowardice systematically elevated into a dominant model of governance.  https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/academia-portuguesa-necessita-de.html

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Porque é que em Portugal Só a Engenharia Consegue Converter Talento Individual Em Competitividade Institucional ?

 

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/07/o-improvavel-investigador-que-vai.html

Sobre os investigadores mais influentes a nível mundial (Top 0.5% do ranking Elsevier Stanford), mencionados no post acessível no link supra, uma análise da sua distribuição por grandes áreas científicas, cor azul na imagem supra, mostra que ao nível individual, o perfil é relativamente equilibrado, as Ciências Naturais e Exatas representam 31%, as Engenharias 30% e as Ciências Médicas e da Saúde 22%. Porém, quando a análise se desloca dos indivíduos para os departamentos cientificamente mais competitivos, segundo os resultados do Top 100 do ranking de Shanghai, assinalados a cor vermelha, esse equilíbrio desmorona-se de forma inequívoca. As Engenharias absorvem 71% das posições, enquanto cada uma das restantes quatro grandes áreas se reduz a uns modestos 7%.

O contraste revela uma fragilidade estrutural que nenhuma contagem de investigadores de topo consegue disfarçar, Portugal possui, nas Ciências Naturais e Exatas e também na Saúde, numerosos cientistas de elevado impacto internacional, mas esse talento permanece demasiado disperso para gerar departamentos capazes de competir entre os cem melhores do mundo. Existem é certo algumas ilhas de excelência, mas não a massa crítica necessária para construir poder científico institucional. Nas Engenharias, pelo contrário, a concentração de talento individual, sobretudo nas universidades de Lisboa, Porto e Minho, permite converter mérito individual em capacidade coletiva, reputação departamental e reconhecimento internacional. Quando porém se deixa de contabilizar os cientistas mais influentes e se avalia a força das instituições, o referido equilíbrio desaparece, apenas a Engenharia consegue transformar excelência pessoal em potencial científico institucional. 

PS - É justo que se diga, que embora isso não seja percetível na imagem supra, que a área das ciências naturais e exactas é a segunda mais capaz de converter talento individual em competitividade institucional, algo que porém só se consegue perceber utilizando os resultados do Top200 do ranking Shanghai, onde aparece com 21%, bastante atrás dos 51% das engenharias, mas muito à frente dos 10% das ciências sociais e humanidades, e dos 9% da medicina e das ciências agrárias e veterinárias que disputam entre si o 5º lugar. 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Uma proposta de alteração do regulamento de avaliação dos investigadores - RAPI

Nos diversos regulamentos de avaliação do pessoal investigador - RAPI uma publicação entra na avaliação de desempenho apenas uma vez, no biénio em que é publicada. Nesse momento, é avaliada exclusivamente com base num único critério, o quartil da revista em que foi publicada. Trata-se de um juízo ex ante e por procuração, que erradamente confunde o impacto médio da revista antes sequer de o artigo ter tido qualquer vida científica própria.

Assim, dois artigos publicados na mesma revista Q1 recebem exatamente a mesma pontuação, independentemente do seu impacto posterior. Tanto vale um artigo que tenha recebido mais de 500 citações, como um outro artigo que nunca seja lido nem citado. Findo o biénio avaliado, o artigo desaparece definitivamente do sistema de avaliação. O seu destino científico real a partir daí torna-se completamente invisível para o RAPI.
Em síntese, o RAPI atual responde com grande precisão à pergunta: Quanto produziu este investigador? Mas é completamente incapaz de responder à pergunta que verdadeiramente interessa: A investigação deste investigador teve impacto?
A introdução de um parâmetro de impacto diferido permite por isso responder a essa questão. Não se trata, portanto, de um refinamento cosmético do RAPI, mas de corrigir uma grave e incompreensível omissão estrutural do próprio modelo de avaliação.
Existe, porém, uma razão ainda mais ambiciosa para integrar no RAPI-UM um parâmetro de impacto diferido. A Universidade do Minho tem a oportunidade de liderar, em Portugal, uma mudança que nenhuma outra instituição teve até agora a visão de conceber ou a coragem de concretizar. As universidades de referência não se limitam a reproduzir os modelos existentes, elas são capazes de antecipar os seus limites e de criarem padrões mais exigentes. Ao reconhecer que o valor de uma publicação não se esgota no impacto médio da revista que a acolheu, mas se revela na influência científica que efetivamente exerce, a Universidade do Minho poderá transformar uma lacuna do sistema nacional numa afirmação inequívoca de liderança, inovação e rigor científico
É certo que um biénio constitui uma janela temporal demasiado curta para avaliar, através das citações, o impacto das publicações nele produzidas. Nada impede, porém, que sejam contabilizadas as citações recebidas durante esse período por trabalhos publicados anteriormente. O referido indicador consideraria exclusivamente as citações recebidas durante o biénio por publicações anteriores ao seu início. Em termos práticos, responderia à importante questão: quantos dos artigos do investigador estiveram cientificamente ativos, em termos de citações, durante o biénio e com que intensidade? 
O RAPI deixaria, assim, de premiar quase exclusivamente a quantidade para passar a reconhecer aquilo que verdadeiramente distingue a investigação relevante, a sua capacidade de influenciar e transformar a ciência à escala mundial. Acresce que a introdução deste mecanismo no RAPI é tecnicamente simples, bastando criar um parâmetro que valorize essas citações de forma análoga ao cálculo do índice h, com a seguinte redação:
A pontuação relativa ao parâmetro do impacto diferido é obtida a partir do índice h bienal (h-bi) do avaliado, definido como o maior número inteiro h tal que h publicações do avaliado, anteriores ao início do período em avaliação, receberam, cada uma, pelo menos h citações durante esse período (auto-citações excluídas). A classificação parcial resulta da comparação do h-bi com os valores de referência fixados para cada categoria e centro de investigação.
Faço notar que o cálculo do supracitado indicador de impacto diferido (h-bi) pode ser obtido de forma bastante rápida e simples recorrendo a uma ferramenta de IA e utilizando o procedimento que foi descrito aqui https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/06/uma-ferramenta-de-autoavaliacao.html
PS - Sobre o tema supra recordo aquilo que escrevi há vários meses atrás: "como os investigadores nacionais adaptam o seu desempenho aos incentivos institucionais, enquanto não houver mudanças na avaliação de desempenho, que reduzam o anormalmente elevado valor das publicações, e passem a valorizar...o impacto científico (o verdadeiro calcanhar de Aquiles da ciência nacional), irão continuar a bater tristes recordes de publicações, mesmo que isso prejudique a competitividade internacional das universidades Portuguesas e a própria ciência mundial." https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/11/o-sistema-cientifico-nacional-esta.html