quarta-feira, 4 de março de 2026

A refinada hipocrisia de um professor catedrático da Universidade de Coimbra


Depois das várias e fracassadas tentativas do reitor da universidade mais endogâmica de Portugal para atacar, sem sucesso, a legislação que se prevê venha a integrar o RJIES com o objetivo de combater a endogamia académica, vide post acessível no link supra, sabe-se agora que parece ter "passado" essa incumbência ao professor catedrático de Medicina, Robalo Cordeiro, cuja faculdade recorde-se apresenta uma taxa de endogamia de 99%, e que surge hoje na página 19 do jornal Público a protagonizar um exercício de refinada hipocrisia.

O seu lamentável artigo é um exercício de corporativismo travestido de preocupação pública. A proposta do RJIES não proíbe a contratação de doutorados “da casa”; limita-se a exigir um requisito mínimo de 40% de docentes formados noutra instituição. Transformar esse limiar modesto numa ameaça à continuidade dos cuidados de saúde constitui uma dramatização oportunista. Trata-se de uma tentativa de ocultar o óbvio embaraçoso: instituições que, no passado, favoreceram sistematicamente candidatos internos, prejudicando outros apenas por não pertencerem “à casa”, pretendem agora continuar a fazê-lo ao abrigo de uma exceção oportunista

Invocar “graves disfunções” hospitalares para defender a manutenção das contratações endogâmicas é uma manobra retórica que tem tanto de lamentável como de desesperada: desloca-se o debate sobre o mérito da proposta em discussão para o medo do colapso do sistema. Como se a qualidade da Medicina dependesse da absorção automática dos seus próprios doutorados e não da competição aberta e do mérito, precisamente os mecanismos que fortalecem instituições de qualidade.

A alegação de que as faculdades de Medicina são um “caso particular” não passa de um pobre argumento de exceção para preservar privilégios. Todas as áreas científicas poderiam invocar especificidades; mas fazê-lo aqui serve apenas para proteger interesses instalados. Quando quem beneficia de um modelo fechado exige isenção das regras destinadas a abrir esse modelo, não está a defender o interesse público está apenas a proteger privilégios. A hipocrisia é evidente: rebatiza-se a manutenção do fechamento como “estabilidade”, apresenta-se a defesa de interesses instalados como “continuidade” e invoca-se o bem comum para bloquear regras mínimas destinadas a travar a viciação concursal sistemática.

Porém, aquilo que está realmente em causa e sobre o qual eu escrevi numa carta que enviei ao Editor-Chefe de uma revista cientifica é que diversos catedráticos íntegros e corajosos, não se coibiram de denunciar o problema central, tendo associado a endogamia académica a riscos profundos para a integridade do ensino superior. O catedrático Michael Athans que esteve alguns anos na Universidade de Lisboa, afirmou que certos “ditadores académicos” forçam a contratação dos seus alunos medíocres, utilizando a endogamia como mecanismo para ocultar a sua própria incompetência e também que a contratação sistemática desses alunos pode perpetuar a mediocridade geral. Já o catedrático Gines-Mora foi mais longe, interpretando a endogamia como uma expressão de corrupção sistémica, em que as lealdades pessoais substituem o mérito, corroendo a transparência e a ética. No conjunto, estas análises descrevem a endogamia como um mecanismo de reprodução de poder e de proteção de interesses instalados que compromete seriamente o mérito e a integridade do ensino superior.

PS - O que teria sido óptimo é que o supracitado professor catedrático Robalo Cordeiro, que agora assim escreve de forma tão descarada, antes não se tivesse remetido a um silêncio muito pouco corajoso, num processo nebuloso que foi noticiado pela revista Sábado, que envergonha a Universidade de Coimbra e onde até se falou em "dinastias" de famílias https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/insinuacao-de-plagio-em-doutoramento-abre-caca-as-bruxas-em-coimbra?

segunda-feira, 2 de março de 2026

Sobre o negócio imensamente lucrativo das revistas científicas e sobre a perversidade da avaliação de desempenho à Portuguesa

https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/03/the-monopoly-of-scientific-journals-has.html

Há alguns anos atrás saudei, no post acessível no link supra, uma iniciativa da Comissão Europeia, para ajudar a arruinar os lucros imensos das revistas científicas internacionais. Trata-se de uma plataforma de publicação em acesso aberto, destinada principalmente a investigadores financiados por programas-quadro da União Europeia (como o Horizon 2020 e o Horizon Europe). A referida plataforma adota um modelo de revisão por pares aberta pós-publicação e não cobra taxas aos autores.

Para além desse repositório científico, é importante referir que existe um outro, mantido pelo conhecido CERN e o qual já contém quase 3 milhões de registos científicos, (Artigos científicos, preprints, relatórios, teses, dados, software, apresentações etcque é muito mais abrangente e no qual há poucos dias coloquei algumas cartas que foram enviadas a Editores de conhecidas revistas científicas internacionais, criticando artigos que foram publicados nessas revistas https://pachecotorgal.com/2026/02/28/two-letters-and-a-critique-about-a-recent-nature-article-by-scientists-affiliated-with-harvard-university/

Infelizmente, o atual modelo de avaliação de desempenho de professores e investigadores em Portugal acaba por contribuir, de forma perversa, para os lucros dessas revistas, ao privilegiar publicações em revistas com maior fator de impacto. Ao fazê-lo, ignora as críticas amplamente fundamentadas que diversos cientistas têm dirigido a esse indicador, como aquela que destaquei num post que obteve vários milhares de visualizações. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/evaluating-researchers-in-fast-and.html

PS - Constitui uma violação grosseira do princípio do mérito, sendo além disso eticamente inaceitável e também intelectualmente desonesto, que se atribua uma avaliação de desempenho superior a um professor ou investigador que publicou artigos em revistas do quartil Q1 em detrimento de quem publicou em revistas Q2, se, na realidade os artigos dos primeiros foram olimpicamente ignorados pela comunidade científica, tendo recebido um número irrisório de citações, ao passo que os dos segundos tiveram um elevado impacto na mesma comunidade tendo recebido milhares de citações, inclusive por parte de cientistas de topo.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Estado Português tem de pedir autorização aos criminosos para poder confiscar os bens resultantes de actividades criminosas


No caderno principal da ultima edição do semanário Expresso, dois procuradores defendem legislação recentemente aprovada na Assembleia da República que permite ao Estado Português apropriar-se do produto de atividades criminosas. Convém, porém, recordar que esta lei não nasceu propriamente de um súbito rasgo de virtude dos deputados, mas apenas da obrigação de transpor para a ordem jurídica interna uma diretiva europeia. https://expresso.pt/opiniao/2026-02-26-para-que-o-crime-nao-compense-64d2b598

Que os referidos Procuradores tenham sentido a necessidade de defender publicamente essa legislação mostra bem como ela conseguiu irritar muitos no nosso país, que não descansarão enquanto a mesma não for revogada. São, aliás, os mesmos canalhas que se mostram perfeitamente confortáveis com um sistema jurídico inominável que permite que qualquer indivíduo com dinheiro suficiente pode aspirar à prescrição qualquer crime, bastando, para tal, mudar de advogado todos os meses ou, se for preciso, todas as semanas. Pouco os perturba que essa cultura de impunidade tenha contribuído para que o Chega, um partido de oportunistas liderado por um oportunista mor (amigo do politico mais corrupto de toda a Europa e discípulo de alguém acusado de crimes de pedofiliatenha crescido de um para sessenta deputados, pois para os referidos canalhas quanto pior melhor já que estão habituados a enriquecer à conta das omissões legislativas da República.   

Recordo que o primeiro autor do artigo é o conhecido e corajoso Procurador geral-adjunto Jubilado Euclides Dâmaso, que há poucos anos escreveu um artigo onde acusou as ruinosas elites Portuguesas de terem uma falta de vergonha tão imensa que era suficiente para fazer "corar o mais rasteiro dos gatunos" https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2023/12/procurador-geral-adjunto-jubilado-acusa.html Mas, antes disso, o referido Procurador já tinha criticado de forma muito pouco suave o facto de a justiça deste país ser absolutamente incapaz de confiscar os bens resultantes de atividades criminosas, num texto onde então recordei que o Estado português apenas tinha conseguido confiscar 0,01% do produto dessas atividades criminosas. O que significa que, por cada 1 milhão de euros de origem criminosa, a justiça deste país apenas conseguiu confiscar 100 euros. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/12/o-procurador-geral-adjunto-que-da-dores.html

PS - Nem de propósito, hoje o jornal Público, o conhecido advogado Francisco Teixeira da Mota, comenta um caso relacionado com uma agente de execução que é acusada de desviar 352 mil euros, o qual se arrasta há 12 anos e cujos crimes correm risco de prescrição, mas que relativamente ao mesmo caso a justiça tenha sido bastante rápida a condenar o conhecido activista José Manuel Coelho, na penhora da sua pensão e numa multa de valor astronómico, por conta de ter criticado a referida agente de execução, "no seu conhecido estilo, nomeadamente referindo-a, entre outras expressões, como “uma burlona”, “uma corrupta, https://www.publico.pt/2026/02/28/opiniao/opiniao/justica-accao-2166302