quarta-feira, 1 de julho de 2026

U.Minho: A segunda e mais grave omissão reitoral que deve preocupar a academia

 

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/06/uminho-5-duvidas-e-uma-omissao-reitoral.html

Na sequência do post anterior, acessível no link supra, onde critiquei um artigo do Reitor da Universidade do Minho sobre o problema das universidades europeias terem cada vez menos estudantes, e sobre o facto de não ser solução pôr os mesmos jovens a circular entre universidades, pois tal não resolve o problema, apenas o redistribui, importa agora sublinhar uma segunda omissão, provavelmente mais séria, a possibilidade de a IA destruir parte relevante do mercado formativo tradicional.

O problema já não é apenas saber quantos jovens existem. É saber que formação ainda estarão dispostos a comprar, que diploma continuará a ter valor e que competências justificarão anos de propinas, deslocações e alojamento. Durante décadas, a universidade vendeu uma promessa estável, estudar vários anos, obter um diploma e entrar num mercado que reconhecia esse diploma como sinal de competência profissional. Essa cadeia começou agora a ser corroída a um ritmo bastante acelerado.

Muitas tarefas cognitivas que sustentavam a promessa económica de tantos cursos estão a ser automatizadas. As empresas percebem que nem sempre precisam de diplomados com formações longas quando conseguem formar utilizadores operacionais em ciclos mais curtos. E o próprio estudante pergunta se vale a pena pagar caro por uma formação lenta, quando parte do conhecimento instrumental se obtém de forma rápida, personalizada e barata. Isto não significa que as universidades deixem de ser necessárias. Significa algo pior para quem vive da inércia, deixarão de ser automaticamente necessárias, vide a declaração do catedrático jubilado Robert Reich, "A four-year college degree isn’t necessary for many of tomorrow’s good jobs" https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/05/pessimas-noticias-para-recem-diplomados.html

E é aqui que a tal linguagem das alianças, da mobilidade e dos consórcios se revela bastante pequena. Uma universidade pode assinar dezenas de memorandos mas se continuar a vender a mesma formação abstrata, burocrática e desligada das mutações reais do trabalho, estará apenas a decorar uma estrutura em perda de relevância.

E é também aqui que regressa o importante dilema do Presidente do Técnico sobre  Como conseguir transformar docentes naquilo que eles não querem ou não conseguem ser" Se os professores deixaram de ser os únicos mediadores entre o saber e os estudantes, então o professor deixa de poder limitar-se a expor informação. Passa a ter de orientar pensamento crítico, treinar julgamento autónomo rigoroso e a inspirar exigência intelectual.

Porém durante décadas as universidades contrataram e promoveram docentes sobretudo com base na antiguidade e também como confessou um conhecido catedrático, hoje Reitor de uma universidade no Norte do país, no facto dos candidatos terem feito favores aos colegas mais velhos. Não os escolheram certamente por serem mentores inspiracionais ou apóstolos da pedagogia. E agora descobrem, demasiado tarde, que não se fabricam professores transformadores e inspiradores com os critérios endogâmicos, clientelares, corporativos e conformistas que durante décadas premiaram "...a obediência, quando não a mediocridade", catedrático Jorge Calado dixit.

PS - Inesperada e até algo ironicamente é precisamente o curso de engenharia civil cuja procura académica sofreu uma hecatombe há uma década atrás que se assume como uma das áreas menos vulneráveis à substituição pela IA porque está diretamente ligada à proteção da vida (vide a recente tragédia Venezuelana), à segurança coletiva e ao funcionamento diário da sociedade. Edifícios, pontes, estradas, barragens, redes de água, saneamento e energia não são abstrações digitais, são sistemas físicos onde os erros podem matar. Projetar, construir e reabilitar infraestruturas exige presença em obra, conhecimento de solos, de materiais, de clima, de normas nacionais e em muitos casos de regulamentos locais. Acresce que as obras de engenharia civil são concebidas para durar décadas, o que implica garantias legais, exigências de desempenho ao longo do tempo e responsabilidade técnica continuada por parte dos engenheiros civis. A inteligência artificial pode apoiar cálculos e modelos, mas não substitui os engenheiros civis que interpretam incertezas e tomam decisões perante riscos estruturais, sísmicos, hidráulicos ou ambientais e que assumem responsabilidades legais permanentes. E num planeta cada vez mais quente, a importância da engenharia civil irá tornar-se incontornável. Um parque habitacional envelhecido e projectado para outro clima terá de resistir ao calor extremo, muito pior do que aquele que agora atinge a Europa, a secas, a cheias, a incêndios e à degradação acelerada. A habitação deixará assim de significar apenas construção ou eficiência energética para se tornar o lugar onde a engenharia civil actua como o garante da dignidade humana perante a emergência climática.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Europe’s Furnace Homes: The Price of Political Cowardice, Paid by the Vulnerable

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/06/europe-cannot-air-condition-its-way-out.html

Still following my previous post, “On Europe’s catastrophic heatwave collapse” (linked above), Reuters has now revealed the architectural dimension of the disaster: Europe is not merely being hit by extreme heat. It is being hit by extreme heat inside buildings designed to resist a different century.Not badly built. Worse: efficiently built for the wrong enemy. Built to preserve warmth. Built to defeat winter. Built for a Europe that has disappeared from the climate system but remains alive in building codes, renovation policies and official complacency.https://www.reuters.com/business/environment/hot-stuck-paris-london-homes-not-built-heat-2026-06-26/

This is the real scandal. Europe spent decades improving buildings for one half of the climate problem while neglecting the other, insulating, sealing and regulating in the name of energy efficiency, with winter as the dominant model. Now those same buildings trap heat with the efficiency of a well-designed mistake. This is not merely discomfort. It is architectural obsolescence on a continental scale. Parisian attic flats beneath zinc roofs become furnaces. London homes overheat. Schools close. Hospitals struggle. The elderly are told to stay indoors, as if indoors were still a place of protection. A dwelling can satisfy every formal standard and still fail at the most basic civilisational function: protecting human beings from hostile weather.

Reuters reports that only around a quarter of European households have air conditioning, compared with roughly 90% in the United States and Japan. At first, this may sound like ecological virtue. In reality, it exposes Europe’s immense adaptation gap: neither the cooling equipment of richer societies nor the passive resilience that would make such equipment largely unnecessary, but a housing stock stranded between old climate assumptions and new thermal realities. This is why the usual language has become unbearable. Strategy. Resilience. Renovation wave. Climate neutrality. Just transition. The vocabulary is immaculate. The buildings are not. Europe’s problem is not the absence of documents; it is the absence of consequences. Policymakers knew heatwaves would intensify. They knew dense cities, ageing populations, poor housing and insufficient cooling would collide. Yet overheating was still treated as a secondary inconvenience rather than a public-health emergency.

And Europe cannot simply import the American answer of mass air conditioning. It may cool those who can afford it, but it also raises peak electricity demand and can worsen the urban heat-island effect. The answer is not more machines attached to bad buildings and failed policy and political cowardice. It is external shading before decorative façades, cool roofs before slogans, passive cooling before dependence on peak electricity, and deep renovation measured not by winter savings alone, but by summer survivability. Because survivability is the word Europe still avoids. A building is not sustainable if it becomes dangerous during a heatwave. A city is not resilient because it has a plan. It is resilient only if its poorest, oldest and sickest residents can survive the next thermal shock without luck, charity or wet towels.

The tragedy is not that Europe lacked knowledge. It had the knowledge, the money, the universities, the engineers, the climate models, the directives, the committees and the warning signs and still managed to build, renovate and regulate its way into a furnace.

Declaration of competing interests - I am currently preparing a new edition of Eco-efficient Materials for Reducing Cooling Needs in Buildings and Construction, originally published by Elsevier in 2020. What could once be framed as a specialised technical field, cool pavements, façades, roofs, smart glazing and passive cooling technologies has now become a matter of public urgency: whether European buildings can still protect human beings in the climate they actually inhabit, rather than in the climate for which they were designed.

sábado, 27 de junho de 2026

Uma ferramenta de autoavaliação científica que muitos investigadores ainda não usam

 

Agora que vários concursos para lugares de professor catedrático começaram a exigir valores mínimos de h-index na plataforma Scopus, como há tempos dei conta aqui https://pachecotorgal.com/2023/08/05/mais-um-concurso-para-um-lugar-de-professor-catedratico-que-exige-um-h-index-minimo-igual-ou-superior-a-15-2/ aproveito agora para divulgar uma forma simples de estimar a previsão de crescimento do h-index Scopus.

Depois de aceder ao perfil do investigador na plataforma Scopus:

1.º Clique em “Search results format”.

2.º Clique em “Citation overview”.

3.º Não selecione a opção predefinida “All documents on this page”; escolha a segunda opção.

4.º Clique no ícone “Export” para gerar um ficheiro em formato CSV.

5.º Faça o upload do referido ficheiro para um modelo de IA e solicite uma análise da evolução anual das citações dos seus artigos, identificando quais os trabalhos que continuam a ganhar impacto, quais os que parecem ter estabilizado e de que forma essa dinâmica poderá influenciar a previsão futura de crescimento do h-index Scopus.

Esta estimativa não deve ser vista apenas como um exercício prospetivo, mas também como uma ferramenta útil de autoavaliação científica. Ao analisar a evolução das citações dos seus artigos, cada investigador pode perceber se a sua produção científica se encontra numa trajetória sustentada de crescimento em termos de impacto, ou se, pelo contrário, começou a revelar sinais de estagnação. Essa informação pode ajudar a ajustar estratégias de publicação, colaboração e até a selecionar temas de investigação mais competitivos.

Recordo que, há cinco anos, divulguei no meu primeiro blogue um estudo realizado por investigadores Alemães, com base numa amostra de mais de mil professores daquele país, que revelou que quase 40% não sabiam como se calculava o h-index ou julgavam sabê-lo, mas falharam um teste básico sobre o seu cálculo. Segundo os autores desse artigo, este resultado revelava um paradoxo significativo, pois uma métrica capaz de influenciar carreiras académicas, reputações científicas e processos de avaliação continuava a ser mal compreendida por uma parte considerável da comunidade académica alemã. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/04/university-of-dusseldorfdo-researchers.html

PS - Para o meu caso concreto, a previsão estimou um h-index Scopus de 68 em 2030 num cenário otimista e de 65 num cenário conservador. Por uma questão de prudência, decidi registar no meu perfil ORCID uma estimativa inferior: 63.  https://orcid.org/0000-0001-7767-6787