segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A reprovável política da presidência da FCT: Milhões de euros para as universidades do país de Trump e privação e estrangulamento para excelentes investigadores portugueses

 

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/10/a-cegueira-da-presidencia-da-fundacao.html

No post anterior critiquei a presidência da FCT por se dispensar de exercer o discernimento que justifica a sua própria existência e por actuar como agente da descapitalização científica nacional. As suas estranhas prioridades de financiamento obrigam-me agora a confrontá-la com outra manifestação dessa abdicação. Para a oitava edição do concurso CEEC, um concurso altamente selectivo, o único somente com jurados estrangeiros, a salvo da conhecida praga dos concursos combinados, como afirmou um certo Reitor, foram anunciados cerca de 63 milhões de euros. Entretanto, para as parcerias com universidades do país do inqualificável Trump, estão reservados, pasme-se, mais de 90 milhões de euros.

Que subserviência doentia é esta que deixa sem financiamento investigadores avaliados por júris estrangeiros como excelentes, enquanto assegura dezenas de milhões de euros ás universidades do país de Trump? E que sentido de solidariedade nacional preside a uma política tão infame que reserva tamanha generosidade ao mesmo país cuja administração deporta furiosamente centenas de cidadãos portugueses, incluindo pessoas que ali construíram quase toda a sua vida, como por exemplo uma Portuguesa que lá viveu ao longo de quase 60 anos ? https://www.rtp.pt/noticias/mundo/vivia-nos-eua-ha-57-anos-a-historia-de-uma-portuguesa-deportada_v1695582

PS - Infelizmente os erros da presidência da FCT não se esgotam na referida e altamente danosa política. Para as bolsas de doutoramento de 2026, anunciou 145 milhões de euros, mais do dobro do compromisso financeiro do concurso CEEC. Num post de 25 de Abril de 2025, já questionara essa opção pelo financiamento generoso na formação de doutorados, quando ao mesmo tempo uma consulta no site do IEFP mostrava que já havia mais de 2.600 doutorados desempregados. Se as empresas não querem e nem sequer precisam de os contratar, porque o Estado já lhes entrega de mão beijada, centenas de milhões de euros em subsídios, para alegadas actividades de investigação, como denunciou no mês de Agosto um Colega da Universidade de Aveiro, por que razão insiste a presidência da FCT numa alocação de verbas públicas que denuncia uma confrangedora ausência de discernimento?

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A cegueira da presidência da Fundação para a Ciência e Tecnologia perante problemas que afligem milhões de portugueses

Em Fevereiro de 2025, divulguei num dos meus blogues, os resultados de um inquérito internacional efectuado que identificou a saúde e os problemas energéticos, entre as principais prioridades que os cidadãos esperam ver assumidas pela comunidade científica. 

Por uma estranha coincidência nessa altura divulguei também que Portugal possui um recorde europeu particularmente preocupante e até vergonhoso, pois é o país europeu com a maior percentagem de pobreza energética. https://pachecotorgal.com/2025/02/11/por-que-razao-viver-em-casas-frias-faz-tao-mal-a-saude/

Entretanto, desde o inicio de 2026 a guerra de Trump contra o Irão veio agravar a vulnerabilidade energética e pressionar os preços à escala mundial. Aos constrangimentos no abastecimento somam-se mais recentemente os ataques dos Houthis às infra-estruturas sauditas e às rotas marítimas, o aumento da procura de petróleo por parte da China e os danos provocados pelos ataques ucranianos às refinarias russas, que reduzem a disponibilidade de combustíveis para exportação. A conjugação destas pressões sobre a oferta e a procura dificulta uma descida sustentada dos preços da energia, o que irá agravar de forma substancial a factura energética e também a situação das famílias portuguesas que não conseguem aquecer adequadamente as suas habitações.

Como se as referidas vulnerabilidade não fossem já suficientemente graves, o comboio de tempestades que atingiu Portugal no início de 2026 afectou mais de 200 mil habitações, segundo o coordenador da Estrutura de Missão para a Recuperação da Região Centro. Portanto às casas que os portugueses não conseguem comprar e às casas que não conseguem aquecer juntam-se agora milhares de casas cuja reparação ou reconstrução ameaça ultrapassar a capacidade financeira das famílias. Construir e reabilitar com maior rapidez, menor custo, melhor desempenho energético e maior resistência a fenómenos meteorológicos extremos tornou-se pelas referidas razões uma evidente urgência nacional.

Perante este cenário, seria legítimo esperar que a presidência da Fundação para a Ciência e a Tecnologia demonstrasse, nas suas decisões de financiamento, alguma correspondência entre as prioridades científicas e as necessidades dos cidadãos cujos impostos a sustentam. Seria expectável que a área da Engenharia Civil que tem um contributo directo para enfrentar dois dos problemas mais prementes do país, não só por melhorar o desempenho energético das habitações e desenvolver soluções que permitam construir e reabilitar de forma mais rápida e económica, fosse discriminada positivamente. Todavia, os resultados dos concursos de contratação de investigadores, através dos concursos CEEC, ontem divulgados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, revelam precisamente o contrário, pois à referida área da Engenharia Civil couberam menos vagas do que à Sociologia, metade das vagas atribuídas à História e apenas um terço das vagas destinadas à área da Filosofia. 

Ao fazer do volume de candidaturas em cada área o critério soberano de selecção, esta presidência da FCT escolheu a comodidade de abdicar de formular uma política científica, limitando-se a conferir autoridade institucional a um automatismo estatístico. Desta abdicação resulta a exclusão de excelentes investigadores de Engenharia Civil, cujo mérito se torna irrelevante perante a aritmética administrativa: penaliza-se a excelência porque a presidência se dispensa de exercer o discernimento que justifica a sua própria existência. Os beneficiários desta singular concepção do interesse nacional serão os países ricos do Norte da Europa, onde essas competências encontram procura e reconhecimento. Portugal financia a formação; a FCT facilita a exportação e economias mais prósperas arrecadam os benefícios. É uma generosidade de Estado exercida à custa de um país que não pode dar-se a esse luxo. Para Portugal, fica a factura de uma instituição que, incumbida de fortalecer a capacidade científica nacional, acaba por actuar como agente da sua descapitalização.

Com que fundamento se considera a referida distribuição de vagas adequada a um país que enfrenta pobreza energética, habitação inacessível, milhares de casas a necessitar de reabilitação urgente e uma pressão crescente sobre os custos da energia? Não constituem os resultados referidos uma demonstração flagrante da cegueira da FCT perante alguns dos problemas mais graves e persistentes que afectam vários milhões de portugueses?

PS - Como divulguei há apenas uma semana atrás, o programa CEBE, que reúne quatro universidades dinamarquesas e a prestigiada universidade suíça ETH Zürich, coloca a área da Engenharia Civil no centro de uma ambiciosa resposta científica aos desafios do ambiente construído, da energia e da emergência climática. Este exemplo torna ainda mais flagrante a cegueira da presidência da FCT, logo num país onde milhões de cidadãos vivem as consequências da degradação das habitações e da pobreza energética, esta instituição atribui uma expressão residual à contratação de investigadores numa área directamente ligada à resolução desses problemas. Uma presidência da FCT que não reconhece a referida urgência revela uma preocupante incapacidade institucional de distinguir entre administrar burocraticamente concursos e servir efectivamente o superior interesse público.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

A Ghent University Study of 3,164 Academic Spin-Offs Exposes a Question Top European Universities Would Rather Avoid Answering

When a university spin-off becomes an international success, the institution wastes precious little time claiming its share of the glory. The founders appear in speeches, promotional videos and annual reports; their company is presented as proof that the university turns research into wealth. Yet the publicity establishes only where the company began. It does not show how much the university actually contributed to what the founders built or whether they succeeded because of its support, despite its limitations, or largely beyond its reach.

A Ghent University-led study published in the Strategic Management Journal examined the performance of 3,164 academic spin-offs founded over a decade, originating from 212 universities in 99 European regions. Regional differences accounted for approximately 27% of the variation in return on assets and 16% of the variation in sales in the authors’ models. The effect attributable to the individual university was negligible. 

That finding raises a question larger than whether universities exaggerate their contribution to individual companies. Are they claiming institutional credit for advantages supplied by an entire region? Investors, skilled workers, prospective customers and other firms all shape the environment in which a spin-off grows. The study does not tell us which of those factors drove any particular company’s success. It does show that performance varied substantially more across regions than across parent universities.  As I argued in Europe’s Humiliating Exodus, Europe too often mistakes regional advantage for institutional excellence. A university that presents a successful spin-off as proof of its own exceptional capacity must therefore explain why the credit belongs chiefly to the institution, rather than to the wider ecosystem in which the company developed.

This does not make universities irrelevant. They may have produced the original research, trained the founders and helped the company get off the ground. But they did not, by virtue of that connection alone, hire every employee, secure every investment, win every customer or conquer every market. The temptation to claim the whole success is hardly mysterious: a study in the Journal of Management Studies found that spin-offs can cast a reputational “halo” over their parent universities and even benefit their research income. The company’s success becomes a university asset, whether or not the university can show how much it contributed to achieving it. Celebrate the founders, by all means. But if an institution wants credit for the company they built, it should provide evidence of its own contribution.

PS - I previously wrote about Sword Health’s acquisition of a German rival. It is the kind of international triumph that universities love to associate with their names. But who built the company, persuaded investors, won customers and made that acquisition possible? What, specifically, did the Portuguese university (U.Aveiro) contribute to those achievements? The European study cannot apportion credit for Sword Health. It does give us a reason to demand evidence before allowing any institution to claim an entrepreneur’s success as its own.