domingo, 8 de fevereiro de 2026

Universidades Portuguesas: Premiar a inércia e a estagnação, castigar o mérito e condenar o país ao empobrecimento

 

Ainda na sequência do post anterior, acessível no link supra, onde afirmei que não era verdadeira a declaração da Universidade de Lisboa, que de forma pouco rigorosa, se vangloriou de ser "a universidade mais empreendedora de Portugal", já que na verdade está apenas em 8º lugar no indicador relativo ao investimento médio captado por startup, ainda por cima com um valor apenas ligeiramente superior ao do Politécnico de Leiria, faz sentido revisitar um post mais antigo com o sugestivo título "Quanto é que Portugal perde com um sistema (comunista a todos os títulos) que premeia a inércia e incentiva a preguiça ?" 

No referido post divulguei aquilo que me foi transmitido por um quase aposentado professor catedrático de uma reputada universidade da Suécia, cujas investigações estiveram na origem da ChromoGenics, e com o qual ao longo de quase uma década e meia editei mais de uma dezena de livros, Claes Goran-Granqvist, que naquele país um professor universitário pode dedicar um dia por semana a actividades remuneradas fora da universidade, sem ser prejudicado no seu vencimento. Em Portugal, pelo contrário, se um professor universitário fizer o mesmo, mesmo que o faça fora do horário de serviço, é castigado com um corte substancial de nada menos de 33% do seu salário mensal ilíquido. 

Este regime força, na prática, os professores universitários a evitarem colaborações remuneradas com a indústria ou a criação das suas próprias empresas, impedindo-os de beneficiar da valorização económica das suas investigações. Mas mais grave ainda, priva o nosso país do valor económico associado à transformação desse conhecimento em atividade empresarial, emprego qualificado e crescimento económico nacional competitivo e sustentável, que é absolutamente indispensável para reter o talento que diariamente abandona Portugal de forma continuada, progressiva, sistemática e irreversível.

Estamos perante uma prática profundamente anacrónica, frontalmente oposta às melhores práticas internacionais, cujo efeito concreto é premiar a inércia e a estagnação, penalizar e perseguir o esforço e sufocar o mérito. O contraste com a rica universidade suíça ETH Zurich, onde os professores-auxiliares auferem entre 10.000-15.000 euros/mês, que não por acaso é a segunda universidade melhor classificada na Europa no ranking de geração das startups mais valiosas (cf. relatório Deep Tech 2025) não podia ser mais elucidativo, pois aquela instituição concede licenças sabáticas de um ano aos seus docentes e investigadores para que possam criar startups. 

Resumindo e concluindo, enquanto que nas universidades portuguesas a criação de valor é tratada como uma infração merecedora de elevada penalização salarial, nas universidades suíças é reconhecida como parte integrante da missão académica, sendo valorizada e incentivada como um instrumento estratégico de prosperidade económica e social. https://entrepreneurship.ethz.ch/startup-stories/explore-startup-portraits-and-success-stories/uebersicht-eth-spin-offs.html

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Serendipity Revisited: What 533 Nobel Prizes Reveal About Breakthrough Science


A recent paper published in Scientometrics explores whether scientific breakthroughs—including those often labeled as “serendipitous”—can be explained in causal and statistical terms. The study tests a fundamental hypothesis: whether there is an underlying logical structure to how discoveries emerge, rather than breakthroughs arising purely by chance.

The analysis covers science’s most influential and canonized discoveries, encompassing all 533 Nobel Prize–winning discoveries from the prize’s inception in 1901 through 2022. Given that not all major discoveries receive a Nobel Prize, the study also examines landmark discoveries documented in leading science textbooks, including “top 100” lists of the greatest scientists and their contributions across disciplines and historical periods. The central conclusion is that scientific discovery is far less random than commonly assumed. What are often described as “serendipitous” breakthroughs are, in most cases, enabled by the development and application of new tools and methods, rather than by chance alone. These tools create the conditions in which unexpected findings become possible, repeatable, and increasingly likely.  https://link.springer.com/article/10.1007/s11192-025-05503-y

But if future breakthroughs depend more on tools than on luck, does that mean the future of science is being shaped less by curiosity and more by whoever controls the money, the machines, and the infrastructure, often quietly and without public accountability, deciding what we get to discover and what stays out of sight? And as new tools set the limits of what can be known, will the things we never discover be written off as bad luck or seen for what they are, the result of choices about what gets built, shared, or kept out of reach, with lasting uneven consequences, for who wins, who loses, and whose realities never get noticed?

PS - I find it unfortunate that A. Krauss, the author of the aforementioned study did not cite a closely related study published in Nature Communications, discussed in my previous post, “The Hidden Equations Behind Scientific Progress: The Art of Engineering Serendipity.” That work reinforces the central message that even the most surprising scientific breakthroughs are not acts of pure chance, but emerge from deeper regularities that can be understood, anticipated, and shaped through causal and statistical insight. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/02/the-hidden-equations-behind-scientific.html

Update after 1 day — Statistics show that the top three foreign countries engaging with this post are Germany, the USA, and Finland. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O jornal Público volta hoje a dar destaque a um ranking universitário da pura treta


Infelizmente, o jornal Público volta hoje a dar destaque a um ranking universitário da pura treta. O mais irónico é que isso seja feito pelo mesmo jornal que, há poucos meses atrás, e de forma negligente, nada noticiou sobre as instituições de ensino superior portuguesas que conseguiram o milagre de ultrapassar as melhores universidades da Alemanha em cinco áreas científicas no prestigiado ranking Shanghai por áreas de 2025Um resultado extraordinário, que deveria ter suscitado orgulho coletivo e ajudado a promover uma reflexão urgente sobre o enorme esforço desenvolvido, e a estratégia bem-sucedida dessas áreas científicas e a possibilidade de replicar esse modelo noutras áreas científicas, com vista a elevar a competitividade da ciência portuguesa. Em vez disso, aquele jornal opta agora por dar visibilidade a um ranking de qualidade profundamente duvidosa, com elevado potencial para confundir e desinformar os leitores, em particular aqueles muitos que não possuem conhecimentos mínimos sobre rankings universitários, pelo que mais não me resta assim do que reproduzir abaixo o mesmo comentário contundente que já havia feito num post anterior:

"Mais uma vez o jornal Público não se coibe de promover hoje um ranking da treta, o  QS World University Rankings.  Ou talvez no jornal Público não saibam que o ranking Shanghai, o único ranking a nível mundial que contabiliza os prestigiados prémios Nobel, é o único ranking mencionado num documento da Comissão Europeia sobre excelência científica

Ou talvez no jornal Público não saibam aquilo que conhecidos académicos, como o conhecido professor catedrático David Blanchflower, ou o professor catedrático da universidade de Oxford Simon Marginson, escreveram, em termos nada elogiosos sobre o ranking QS, reproduzidos na parte final deste post.
 
E quem não se lembra daquele outro ranking da treta, também noticiado pelo mesmo jornal Público, que dizia que a Católica era a melhor universidade Portuguesa ranking esse que o então Presidente da A3ES, o catedrático Alberto Amaral, reduziu a pó em dois artigos no Expresso, lembrando que os critérios relativos a citações desse famigerado ranking até colocavam universidades do Irão, do Egito e da Jordânia à frente da própria Universidade de Cambridge. 
 
Porém ainda antes mesmo dos referidos dois artigos do catedrático Alberto Amaral terem sido publicados no Expresso eu enviei na altura um email a alguns milhares de Colegas com o sugestivo título "UCatólica é a melhor universidade Portuguesa____Fake news, incompetência ou ambas?"https://www.docdroid.net/S7WaBal/fake-news-incompetencia-ou-ambas-docx
 
O mais irónico é que o mesmo jornal Público que costuma dar destaque a rankings da treta disse zero sobre o ranking Shanghai por áreas científicas divulgado recentemente https://www.jn.pt/local/noticias/braga/braga/uminho-entre-as-melhores-universidades-do-mundo-em-18-areas-cientificas-12446554.html  o que suscita legitimas dúvidas sobre quais são realmente os critérios jornalisticos do jornal Público. Se os do rigor jornalistico como apregoam aos quatro ventos ou os da desinformação encapotada. Uma coisa é certa como assinante do jornal Público considero uma vergonha pagar para ser "informado" sobre rankings que valem pouco mais do que lixo. 
 
PS - É importante recordar que o famigerado QS World University Rankings é produzido pela firma Quacquarelli Symonds, que foi fundada por um Italiano espertalhaço de nome Nunzio Quacquarelli, quando andou a fazer o seu MBA, firma essa que 
ganha milhões a vender (aos incautos) estrelas e outros serviços de aconselhamento, sobre como subir nos rankings. Vide email de 2018, https://www.docdroid.net/uniDTYH/vice-reitor-docx onde comentei o facto da Universidade de Coimbra ter sido um dos pagantes desse caro serviço, apesar de muito ironicamente isso não ter impedido logo a seguir que essa universidade caisse no ranking Shanghai. Email esse que na altura até foi divulgado pelo Carlos Fiolhais no seu blog.

Selecção de comentários de várias académicos sobre o ranking (da pura treta) QS: 

-David Blanchflower in an article for the New Statesman entitled "The QS Rankings are a load of old baloney"
"This ranking is complete rubbish and nobody should place any credence in it.The results are based on an entirely flawed methodology that underweights the quality of research and overweights fluff"
 
-Simon Marginson, professor of higher education at University of Oxford:
"I will not discuss the QS ranking because the methodology is not sufficiently robust"
 
-Fred L. Bookstein, Horst Seidler, Martin Fieder and Georg Winckler in the journal Scientometrics:
"There are far too many anomalies in the change scores of the various indices"
 
-Isidro F. Aguillo, Judit Bar-Ilan, Mark Levene, José Luis Ortega in the journal Scientometrics:
"The QS is based on a not large and not representative enough survey that means the results are biased towards certain countries"
 
-H. Jons and M. Hoyler in the Geoforum; Journal of Physical, Human, and Regional Geosciences
"The QS ranking was also criticized for the low response rates of the review surveys and for a general lack of methodological transparency"
 
-V. Safon in the journal Scientometrics:
"the majority of the received questionnaires come from English-speaking countries, clearly favoring their universities"

-Mu-Hsuan Huang in the journal Research Evaluation:
"the statistic data adopted by QS Rankings should be further questioned."
 
Andrejs Rauhvargers in Global University Rankings and their Impact- Report II:
"QS admits that a university may occasionally be nominated as excellent and ranked in a subject in which it “neither operates programmes nor research”