quarta-feira, 26 de agosto de 2026

As manobras agostinhas do Governo sobre um escândalo de 1000 milhões de euros

Na sequência de um artigo do Público, que critiquei de forma pouco suave no meu blogue e que me levou a dirigir ao provedor do jornal a mensagem reproduzida no final deste texto, partilho abaixo uma intervenção particularmente esclarecedora que recebi do colega Daniel Ferreira Polónia, da Universidade de Aveiro, sempre atento àquilo que vai surgindo no Diário da República, mesmo durante o sonolento mês de Agosto, quando o país está de férias e o escrutínio público também parece ir a banhos.

Se o objectivo do Governo, ao reservar Agosto para publicar semelhantes pérolas jurídicas, era fazer passar discretamente um escândalo de mil milhões de euros, não precisava de ter recorrido a tais manobras agostinhas. A lamentável e muito distraída imprensa nacional já se encarregou de garantir o silêncio, aparentemente muito mais interessada no tamanho do tanque do ministro da Administração Interna do que no destino de mil milhões de euros. Pelos critérios mediáticos nacionais, o tanque é um grande escândalo; mil milhões de euros são apenas um pequeno pormenor de Agosto.
E como é possível que o CRUP assista, cobarde, mudo e quedo, ao desaparecimento dos tais mil milhões de euros que deveriam ter sido utilizados para financiar as unidades do sistema científico nacional, cuja avaliação recordo critiquei no final do texto aqui
Cumprimentos
Pacheco Torgal


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De: Daniel Polónia
Enviado: 21 de agosto de 2026 20:16
Para: F. Pacheco Torgal 
Assunto: Re: Queixa ao Provedor do Jornal Público sobre uma noticia acerca de uma farsa que se repete todos os anos
 
Saiu no Diário da República de 21 de Agosto. Vale a pena dois minutos:
https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/170-2026-1160679204
(Altera o Código Fiscal do Investimento, prorrogando o regime do SIFIDE II até 2026 e revogando a possibilidade de aplicação indireta do SIFIDE II através de fundos de investimento)

Em português corrente. O SIFIDE permite às empresas abater ao IRC o que gastam em investigação. Desde 2014, e sobretudo depois de o Orçamento para 2020 lhe fixar as condições, bastava meter o dinheiro num fundo, com a promessa de que o fundo depois investiria em investigação a sério. O desconto no imposto foi imediato. A investigação, em boa parte, nunca apareceu. Estão por aplicar mais de mil milhões de euros — e quem o diz é o preâmbulo do decreto, não a oposição. O mesmo preâmbulo admite, preto no branco, que a via indirecta «traduziu-se num desincentivo ao investimento direto em I&D». Está lá escrito.

O desconto já foi dado. Havia devolução para quem não aplicasse o dinheiro a tempo, e o prazo estava a chegar — o decreto di-lo, age «em face da proximidade do prazo». Solução: desfaz o aperto de 2023, repõe cinco anos em vez de três, repõe o mínimo de 80% para as contribuições de 2021 a 2023, e alarga o que conta como investigação. Passa a servir a compra de equipamento e software do catálogo do Portugal 2030, até 20% de cada fundo e 20 milhões por empresa participada, com efeitos retroactivos a 1 de Janeiro.

O contabilista assina que a despesa existe, está regular e foi paga (artigo 40.º, n.º 14). E o número seguinte diz-lhe expressamente que não responde por saber se aquilo é investigação ou não: essa é competência «exclusiva» da Agência para a Investigação e Inovação. Não é um buraco na lei — é uma escolha da lei. Com que meios e com que método valida uma agência mais de mil milhões de euros?

E nós? A 31 de Julho, treze politécnicos passaram a Universidades Politécnicas — foi essa a notícia do sector no mesmo Verão em que o Estado admitiu ter isto tudo por aplicar. Do CRUP e do CCISP não conheço uma linha sobre este dinheiro; se disseram e me escapou, corrijam-me que eu divulgo.

Agora deixem-me explicar-vos porque é que isto me irrita a título pessoal:
Eu não leio isto no jornal.
Vivo nisto.

Subfinanciamento crónico, ausência de recursos, gente altamente qualificada em sub-emprego permanente, a produzir ciência indexada com meios que envergonhariam uma escola secundária. E um benefício que se desconta no imposto só chega a quem já paga muito imposto: quem precisa não tem lucro onde descontar.

Declaração de interesses: trabalhei na Agência Nacional de Inovação, hoje Agência para a Investigação e Inovação — a entidade a quem este decreto entrega, em exclusivo, esta validação. Tudo o que afirmo é público e verificável nas fontes.

Daniel Polónia
A título estritamente individual
https://orcid.org/0000-0001-8194-4713

Fontes:
— Decreto-Lei n.º 170/2026, de 21 de Agosto: https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/170-2026-1160679204
— Relatório de avaliação da despesa fiscal, U-Tax: https://info.portaldasfinancas.gov.pt/pt/dgci/divulgacao/Area_Beneficios_Fiscais/Assessment_Report_Tax_Expenditure_Portugal/Paginas/default.aspx



On Sun, 2 Aug 2026 at 12:54, F. Pacheco Torgal wrote:
Exmo Sr. Provedor do jornal Público,
C/C a outros jornalistas do Público e de outros jornais 

Como assinante do jornal Público, custa-me pagar para ler notícias cuja linguagem as fazem parecer saídas de um gabinete ministerial. Foi precisamente esse problema que hoje comentei no meu blogue: https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/08/uma-farsa-que-se-repete-todos-os-anos.html 

Da imprensa espera-se escrutínio das narrativas governamentais e independência perante o poder. Da imprensa que pago espero um rigor ainda maior. Quando um jornal se limita a reproduzir indicadores oficiais sem os submeter a análise crítica, torna-se legítimo perguntar se estamos a pagar por informação ou por propaganda revestida de respeitabilidade jornalística.
Acresce o texto demolidor que reproduzo abaixo, a propósito do meu post, que há pouco recebi de um colega professor da Universidade de Aveiro. Por razões de reserva, não divulgo desde já a sua identidade, mas poderei facultar o respetivo contacto, caso me seja solicitado e mediante a sua autorização.
Cumprimentos
Pacheco Torgal

domingo, 23 de agosto de 2026

The Failure of Autonomous AI Scientists and the Nobel Laureate Who Wants a Different AI

In a recent Princeton-led study, Kirgis et al. gave frontier AI agents the central research questions of two unpublished NeurIPS 2026 papers, along with six days and thousands of dollars’ worth of computing resources. The agents completed all the required coding and experimental engineering without human assistance, yet made no substantial progress on the underlying research problems. When the authors of the original studies evaluated the resulting manuscripts, they awarded them just 2/6 and 1/6 unequivocal rejectionshttps://arxiv.org/abs/2607.27191

Their failure was not primarily technical. The agents could write code, run experiments and assemble superficially credible manuscripts; what they lacked was scientific judgement. They repeatedly misjudged the standard required for publishable research, responded unimaginatively to weaknesses in their experimental designs, failed to reconsider or abandon unproductive directions, managed resources poorly and gradually lost sight of their original instructions. In other words, they could operate the machinery of research but could not reliably determine which questions were worth pursuing, which evidence mattered or which conclusions were scientifically justified.

A complementary study suggests that these limitations extend far beyond two failed papers. The authors analysed more than 25,000 agent runs across eight scientific domains, finding that available evidence was ignored in 68% of reasoning traces and that refutation prompted agents to revise their beliefs in only 26%. These patterns persisted even when agents were shown nearly complete examples of successful reasoning. Curiously, Kirgis et al. cite neither this study, which appeared more than three months earlier and offers a compelling explanation for many of their findings, nor an already available study by Xie et al., previously discussed on this blog, in a post titled "The 52.7% Problem: Why the AI Scientist Still Cannot Be Trusted with Evidence", which similarly exposed serious limitations in the ability of AI agents to perform rigorous scientific evidence synthesis reliably and independently. Their failure to engage with either study constitutes a pair of conspicuous and rather puzzling omissions.

Taken together, these findings cast serious doubt on predictions that AI will soon automate science and unleash explosive recursive self-improvement. They do not by themselves settle what we should build instead, but they sharpen the case for a different direction. As I argue in the post Civilizational Futures: Five Normative Imperatives for a Science-Based Civilization, AI should serve as intellectual scaffolding, it should enable humanity to build higher than it could alone while ultimately leaving behind stronger, more independent minds rather than deeper technological dependence. Writing in Nature three days after this post was first published, Nobel laureate Daron Acemoglu makes a parallel case, urging us to abandon the obsession with artificial general intelligence and instead build pro-worker” AI that amplifies human expertise rather than eliminating the people who possess it. In science, this means using AI to expand researchers’ capacity to formulate hypotheses, interrogate evidence and challenge assumptions not pursuing the premature fantasy of autonomous machine scientists. Until agents can reason seriously about evidence, refutation and uncertainty, AI will remain far better at convincingly imitating the visible production of research than at genuinely reproducing the intellectual process through which reliable knowledge is created.

sábado, 22 de agosto de 2026

Ensino superior: projeções de procura até 2029 num curso fundamental e uma área emergente entre os imperativos do futuro

 

A imagem supra mostra a evolução das colocações na primeira fase no curso de engenharia civil ao longo dos últimos 21 anos, onde é evidente que 2026 representa um ano de viragem traduzido por uma forte recuperação da procura deste curso. O número de colocados nesta 1.ª fase aumenta de 571 para 670, correspondendo a mais 99 alunos num único ano (+17,3%), com crescimento simultâneo no ensino universitário, de 428 para 496 (+15,9%), e ainda mais expressivo no politécnico, de 143 para 174 (+21,7%).Particularmente positivo é o facto desta expansão não resultar apenas do aumento global do número das vagas, mas ser acompanhada por taxas de ocupação bastante elevadas nas principais escolas e, em vários casos, por uma subida das notas de entrada, sinal evidente de um reforço efetivo da atratividade do curso de engenharia civil. A UPorto apresenta a nota do último colocado mais elevada do país (15,9 valores), seguida pelo UPol do Porto (15,2 valores) e pela Universidade do Minho (15,1 valores), que assim relegam o Instituto Superior Técnico para o 3º lugar nacional.

A imagem referida apresenta ainda dois cenários de evolução para os próximos três anos. Num cenário moderado, baseado numa continuação linear da recuperação recente, o número total de alunos colocados na 1.ª fase poderá ultrapassar a barreira dos 800 em 2029. Num segundo cenário, mais dinâmico, baseado na taxa média de crescimento observada nos últimos anos, poderá aproximar-se dos 900 colocados. Não se trata, naturalmente, apenas de previsões, mas de exercícios prospetivos que ajudam a perceber a dimensão que a recuperação da procura poderá assumir caso a tendência recente se consolide.

E não é certamente por acaso que isso esteja a acontecer precisamente agora, pois a necessidade de engenheiros civis tende a aumentar numa altura em que o nosso país enfrenta simultaneamente o envelhecimento da profissão, uma grave crise habitacional, enormes necessidades de reabilitação de edifícios e infraestruturas e uma adaptação cada vez mais urgente às consequências cada vez mais severas, frequentes e dispendiosas das alterações climáticas. Sobre esta procura futura, reproduzo abaixo o conteúdo de um email que enviei em fevereiro do corrente ano acerca do futuro da Engenharia Civil em Portugal.

Nele se percebe que a questão decisiva já não é se Portugal vai precisar de mais engenheiros civis. Vai certamente. A questão é saber se as escolas de Engenharia Civil serão capazes de aproveitar esta mudança de ciclo para formar os profissionais de que o país realmente necessitará, engenheiros civis preparados para um mundo muito diferente daquele para o qual a profissão foi desenhada no século passado, uma realidade marcada por escassez de recursos, alterações climáticas, eventos extremos, e exigências crescentes de resiliência. 

Acresce que, ao contrário de outras áreas da engenharia, a Engenharia Civil é uma das menos vulneráveis à substituição pela IA, já que lida com sistemas físicos onde os erros não provocam apenas falhas técnicas, podem destruir cidades e matar milhares de pessoas. A IA poderá apoiar cálculos e modelos, mas não conseguirá substituir os engenheiros civis que tem de tomar decisões em contexto de incerteza, perante riscos estruturais, sísmicos, hidráulicos e outros e assumem, durante décadas, a responsabilidade legal pelas infraestruturas de que depende a própria sociedade.

PS - A urgente necessidade de antecipar o futuro da Engenharia Civil constitui, aliás, um pequeno exemplo de uma questão civilizacional muito mais ampla que discuti noutro contexto. Entre os cinco imperativos que aí propus para orientar o progresso tecnológico, está precisamente a capacidade de conhecer não apenas o mundo que existe, mas também aquele que está a emergir. Aproveito, por isso, para divulgar que, há poucos dias, a conhecida editora Elsevier aprovou uma proposta minha para a segunda edição de um livro dedicado precisamente a um dos temas emergentes da área da Engenharia Civil. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/07/o-contributo-da-investigacao-na-area-da.html


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De: F. Pacheco Torgal 
Enviado: 21 de fevereiro de 2026 09:32
Assunto: O futuro da Engenharia Civil em Portugal ?
 
Se, ainda antes dos inúmeros estragos causados pelos sucessivos comboios de tempestades que arrasaram um grande número de edifícios e infraestruturas em Portugal, o actual bastonário da Ordem dos Engenheiros já denunciava que o número anual de aposentados na área da engenharia civil superava o número de diplomados, uma situação já de si grave num país atolado numa crise habitacional, então a situação torna-se agora muito mais preocupante, pois os elevados danos provocados pelas referidas tempestades levarão vários anos a reparar, durante os quais ainda mais se agravará o referido défice de engenheiros civis. Será isto apenas azar dos Távoras?
E o que é que os cursos de engenharia civil não fizeram, ou não foram capazes de fazer, para que o crescimento deste curso não se ficasse apenas por um valor residual de 3% ao ano, correspondente a um total de colocados inferior a seis centenas, quando antes de 2011 este curso acolhia na primeira fase de cada ano mais de 1400 alunos ?  Alguém consegue compreender, que por exemplo o curso de engenharia civil da universidade de Coimbra, onde me diplomei há várias décadas atrás, quando então aquele curso recebia mais de uma centena de alunos logo na primeira fase, não consiga agora captar nem sequer metade disso e nem sequer consegue ultrapassar o número de alunos captados pelo Politécnico do Porto ou pelo Politécnico de Lisboa ?
E será que a formação em engenharia civil necessária para enfrentar o tal futuro de catástrofes permanentes, de que falou há poucos dias o catedrático Ottmar Edenhofer, presidente do conselho científico consultivo europeu sobre alterações climáticas, será aquela pouco inspirada, manifestamente insuficiente, de que falou na semana passada um antigo bastonário ao semanário Expresso, uma engenharia civil praticamente igual à do passado, mas com umas alterações mínimas, relacionadas como aumento da capacidade das coberturas resistirem a ventos de pelo menos 150 km/h, e que hoje novamente os jornalistas do Expresso repetem de forma indigente, certamente por acharem que não há neste país na área da engenharia civil quem possa dar melhores conselhos?

Ou será muito mais provável que os jornalistas do Expresso tenham dado provas de negligência ou até de incompetência, pois um Engenheiro Civil que se diplomou durante a longínqua década de 70 e que nunca foi sequer especialista em estruturas não é definitivamente o profissional mais indicado para dar conselhos do que deverá ser a engenharia civil capaz de acautelar um futuro de catástrofes climáticas, ignorando que nas universidades de Lisboa, Minho e Porto, se produz investigação na área da engenharia civil, que no último ano foi capaz de superar a produzida nas melhores universidades Alemãs e que talvez nessas universidades haja especialistas dessa área que possam dar conselhos cientificamente mais robustos?

Aproveito esta ocasião para recomendar a leitura de um interessante artigo, que não certamente por acaso faz parte das referências de um capítulo de um livro que estou a actualmente a concluir e onde se fica a saber alguma coisa sobre a resposta à pergunta supra e do qual reproduzo um breve trecho: "In a century shaped by climate disruption, resource scarcity, and cascading hazards, structural safety can no longer be confined to the binary question of collapse under a rare event....The profession must adopt a new design ethos: one that values performance over prescription, flexibility over excess, and resilience over redundancy... To meet this moment, engineering education, professional standards, and institutional missions must adapt. Future (civil) engineers must be trained not just in mechanics but in climate science, data analytics, stakeholder communication, and sustainable design thinking. Codes and contracts must reward recovery capacity and carbon efficiency, not just compliance...."