quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O erro conceptual do Reitor da U.Minho e a dupla falácia da catedrática Elvira Fortunato



A revista da Ordem dos Engenheiros divulgada esta semana contém um artigo do reitor da Universidade do Minho, Pedro Arezes, sobre o valor das competências transversais numa era tecnológica. O texto sustenta, com razão, que o conhecimento técnico continua a ser indispensável, mas deixou de ser suficiente, enquanto a criatividade, o pensamento crítico, a adaptabilidade e a responsabilidade ética adquirem uma importância crescente. Perto do final, porém, Pedro Arezes deixa uma interrogação pertinente, mas formula-a pelo lado errado: pergunta se as universidades conseguirão avaliar estas competências "com o mesmo rigor e precisão com que avaliam conhecimentos técnicos". https://www.ordemdosengenheiros.pt/pt/revista-ingenium/formacao/

A questão urgente é precisamente a inversa, será que as universidades ainda avaliam verdadeiramente os conhecimentos técnicos dos estudantes? Até há pouco tempo, presumia-se que a qualidade de um trabalho reflectia, mesmo que imperfeitamente, a competência de quem o apresentava. A IA generativa rompeu essa ligação. Um estudante pode agora entregar um relatório tecnicamente irrepreensível sem compreender, saber explicar ou conseguir reproduzir o raciocínio nele contido. Mesmo aplicados com todo o rigor, os critérios de avaliação podem estar a medir a qualidade da resposta produzida pela máquina, e não o conhecimento do estudante. Um estudo recente da Wilfrid Laurier University, que mencionei esta semana no final deste post aqui, confirmou este risco. As universidades terão, por isso, de tornar novamente visível o processo intelectual, a formulação do problema, a justificação das escolhas, a identificação dos erros, a reformulação das hipóteses e a defesa oral das conclusões. 

Na mesma revista, merece também destaque, desta vez pela negativa, a seguinte afirmação da catedrática Elvira Fortunato: "O século XXI será cada vez menos determinado pela disponibilidade de recursos naturais e cada vez mais pela capacidade de gerar conhecimento, protegê-lo, transformá-lo em tecnologia e colocá-lo ao serviço da sociedade. Portugal já demonstrou que consegue formar talento e produzir ciência de excelência.»

É uma afirmação confortável, mas duplamente falaciosa. A primeira asneira consiste em afirmar que o conhecimento está a substituir os recursos naturais. O século XXI não será menos determinado por esses recursos; será provavelmente palco de uma competição ainda mais feroz pelo seu controlo. A IA exige enormes quantidades de energia, água, semicondutores e infra-estruturas. A transição energética depende de lítio, cobre, níquel, cobalto e terras raras. E nenhuma sociedade, por mais tecnologicamente avançada que seja, sobreviverá sem água potável, alimentos, solo fértil e ecossistemas funcionais. O conhecimento não aboliu a materialidade da economia, tornou determinados recursos ainda mais estratégicos. 

A segunda asneira está na invocação da alegada “ciência de excelência” portuguesa. Evidentemente, Portugal consegue formar talento e produzir casos de verdadeira excelência. A Sword Health é um deles, fundada por um jovem doutorado português, tornou-se uma empresa de enorme sucesso, que emprega mais de mil pessoas a quem paga salários médios de 3400 euros. Outro exemplo é o dos investigadores formados em Portugal que o país não conseguiu reter e que acabaram por criar, na Suécia, a Asgard Therapeutics, hoje avaliada em dezenas de milhões de euros. O êxito destes investigadores prova a qualidade do talento que Portugal forma, mas particularmente no segundo caso, é também uma acusação devastadora a um sistema que o expulsa, desperdiça e depois se apropria dos seus triunfos, uma hipocrisia que a catedrática Elvira Fortunato convenientemente silencia enquanto proclama a alegada "excelência" da ciência portuguesa. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/04/uma-brilhante-estrategia-portuguesa.html

Seja como for, a existência de algumas ilhas de excelência não transforma automaticamente o oceano que as rodeia num sistema científico excelente. A verdadeira pergunta não é se Portugal já produziu algum talento excepcional, mas se possui instituições capazes de o identificar, selecionar, reter, recompensar e transformar sistematicamente em conhecimento, inovação e prosperidade. E os indicadores internacionais estão muito longe de autorizar a autocomplacência, um país onde cerca de 75% das unidades de investigação são oficialmente classificadas como Muito Boas ou Excelentes continua na 33.ª posição num indicador internacional de excelência científica, muito próximo da Bulgária, viu as suas universidades mais bem classificadas ficarem atrás de uma universidade argentina no Ranking de Shanghai de 2026 e conquistou apenas uma ERC Starting Grant em 2026, ficando nesse indicador abaixo da Roménia e da Grécia. E como se tudo isto não bastasse, o ranking Shanghai por áreas científicas, divulgado ontem, acrescentou mais um resultado impossível de disfarçar: a U.Coimbra, a U.Nova e a U.Aveiro não conseguiram colocar uma única área científica entre as 50 melhores do mundo, nem sequer entre as 100 melhores. A distância colossal entre a excelência generosamente distribuída pelas avaliações nacionais e a mediocridade revelada pelos indicadores internacionais não é uma coincidência, é a prova de um sistema complacente, que não se consegue avaliar a si próprio com rigor, inventando uma excelência de fachada que o resto do mundo simplesmente não reconhece.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

The Cognitive Surrender and The Wilfrid Laurier Test That Universities Should Fear

In a deeply unsettling interview published today by the Portuguese newspaper Público, Arnold Pears, Professor at the KTH Royal Institute of Technology, identifies one of the defining paradoxes of our time: a machine that knows almost everything may help create a generation that understands almost nothing. Generative AI gives children what Pears calls “a false sense of competence”, the illusion that obtaining an answer is equivalent to understanding the problem. A calculator assists with an operation that the student must still identify; a large language model can erase the entire intellectual journey between question and answer. 

The deeper indictment, however, is directed at an educational system that has spent decades rewarding the final product while pretending that it faithfully represents the process that created it. Generative AI has now shattered that convenient fiction: the answer can be flawless even when the intellectual journey has disappeared entirely. Prohibiting AI would be futile, but normalising intellectual surrender would be catastrophic. As I have argued on 18 August here, AI should serve as intellectual scaffolding, elevating human thought while cultivating stronger and more independent minds. Pears’s warning reveals how easily that promise can be inverted, the technology intended to liberate intelligence may instead liberate us from the effort of becoming intelligent. As i have argued, every cognitive technology should therefore face one unforgiving test: after years of using it, are people more capable without it—or less? If the answer is less, we have not democratised intelligence. We have automated intellectual dependence.

Universities are already approaching the same precipice. Pears describes journal submissions doubling or tripling while peer-review and grant-evaluation systems struggle towards collapse. Academia risks becoming a vast factory in which machines write papers that their nominal authors barely understand, for reviewers who have no time to read them, merely to satisfy indicators in which almost nobody still believes. The great cognitive surrender will not arrive through machines violently seizing control of human thought; it will arrive quietly, welcomed as convenience, productivity and progress. If we use AI to think further, it may become one of history’s greatest instruments of intellectual liberation. If we use it so that we no longer need to think, it will become the machinery of our intellectual abdication. We may ultimately succeed in creating machines of astonishing competence while calmly accepting the progressive dismantling of our own.

PS - The warning is no longer theoretical. In a preprint published on 20 August 2026, Kaltchenko and Tiwana, from the Department of Computer Science and Physics at Wilfrid Laurier University in Canada, tested three personalised Qiskit homework assignments across 150 separate ChatGPT sessions. All final submissions executed successfully and passed their graders. Personalised tasks, hidden references, compulsory reflections and executable notebooks, all intended to demand genuine student engagement failed to protect the intellectual core of the exercise. ChatGPT reproduced every outward sign of competence without establishing that the student possessed it. If universities continue to assess polished products rather than observable reasoning, cognitive surrender will not announce itself through failure. It will arrive as impeccable submissions, excellent grades and hollow degrees.


sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Trump e o mistério da desaparecida coluna vertebral do submisso semanário Expresso

 

No passado dia 4 de setembro, a Assembleia-Geral das Nações Unidas aprovou, por 164 votos contra um voto velhaco, uma resolução que recomenda a adoção da projeção Equal Earth, muito mais fiel à verdadeira dimensão dos continentes. Essa medida pretende corrigir a distorção associada à projecção Mercator que não só diminuiu como humilhou África e outras regiões do Sul no imaginário de biliões de pessoas durante centenas de anos. O único voto contra veio dos EUA pois para Trump e para a sua matilha, até o simples acto de devolver a África à sua verdadeira dimensão constitui uma perigosa "agenda ideológica".

Os números retiram qualquer disfarce à velhaca objecção dos EUA, na projecção Equal Earth, a África é, cerca de 3,1 vezes maior do que os EUA, enquanto na velha e deformadora projecção Mercator parecia apenas 1,5 vezes maior. Mas a fúria de Trump tem uma segunda e ainda mais sórdida explicação, a sua demente obsessão em apoderar-se da Gronelândia. A projecção Mercator oferecia-lhe a mentira reconfortante de uma ilha quase tão grande como África, transformando uma cobiça colonial no sonho de uma conquista continental. A agora aprovada projecção Equal Earth destrói-lhe a farsa, o grandioso troféu imperial cobiçado por Trump possui, afinal, apenas um catorze avos da área de África.

Porém, o semanário Expresso, que nunca perde uma oportunidade para proclamar solenemente a sua independência, parece ter concluído que os votos de 164 países continuam a não ser suficientes para alterar um mapa sem a indispensável autorização do referido criminoso. Assim, logo no primeiro caderno de hoje, serviu obedientemente aos seus leitores a velha representação deformada do mundo que a Administração Trump prefere, não vá sua excelência o senhor embaixador norte-americano em Lisboa interpretar a mudança cartográfica como um perigosíssimo ato de insubordinação, apresentar uma queixa e fazer com que os jornalistas do Expresso acabem proibidos de viajar para os States

PS - Na verdade o mapa mais revelador do primeiro caderno do semanário Expresso não é o do planeta Terra, mas o da coluna vertebral do referido semanário, tão mirrada por reverência ao nojento Trump que nem a deformadora projecção Mercator conseguiria inchá-la.