segunda-feira, 3 de agosto de 2026

The link Between a Stanford Study and a Murder Committed by a Young Engineer

 

A new Stanford-led study published two days ago estimates that between 13 and 17 million American adults may already be using artificial intelligence for mental-health support. They are doing so because professional help is too expensive, insurance coverage is inadequate, waiting lists are intolerable and the healthcare system has made human support inaccessible to those without sufficient money. AI is not simply attracting patients away from therapists; it is filling the void created by a system that has placed a price on psychological suffering and decided that those who cannot pay must endure it alone. https://www.nature.com/articles/s41746-026-02842-9

The depth of this social fury became impossible to ignore after the young engineer Luigi Mangione killed a health-insurance CEO. A national poll found that 17% of American voters regarded the killing as acceptable. Among those aged 18 to 29, however, that figure surged to 41%. This is not merely evidence of declining moral restraint. It is an indictment of a healthcare system that has spent decades denying treatment, bankrupting families, humiliating the sick and converting human suffering into corporate profit. When millions of young Americans can no longer condemn without hesitation the killing of one of that system’s most powerful representatives, the responsibility does not lie only with individual rage. It also lies with an industry that has accumulated so much cruelty, resentment and despair that violence itself has begun to appear, to a disturbing share of a generation, as an intelligible response.

PS - This abandonment is not confined to mental healthcare. As I noted in a previous post, titled "Nobel Laureate Stiglitz: Why U.S. Healthcare is Failing Its Citizens" an analysis of nine million cancer cases found that 38% of patients had gone bankrupt within four years. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/01/nobel-stiglitz-sick-and-desperate.html

domingo, 2 de agosto de 2026

Um comportamento irracional e a face oculta da excelência que as universidades escolhem deliberadamente não conhecer

 

A imagem supra ilustra a evolução do número diário de visitas a este blogue ao longo dos últimos 30 dias. Contrariando o que seria expectável com a aproximação do período de férias de verão, a média diária, inicialmente situada em cerca de mil visitas, não diminuiu; pelo contrário, de forma aparentemente irracional registou uma trajetória ascendente, tendo o número de acessos mais do que triplicado.

Este comportamento torna-se, contudo, mais inteligível quando se observa a distribuição geográfica dos leitores. Com efeito, a análise dos países de origem das visitas coloca os EUA em primeiro lugar, de forma destacada, destronando Portugal que durante muito tempo ocupou aquela posição, revelando dessa forma, que a audiência do blogue extravasa já, de forma muito significativa, o espaço nacional.

Os dois posts em língua estrangeira mais visualizados nesse período dizem respeito a um interessante estudo sobre quase 45.000 teses de doutoramento Alemãs, cujas conclusões desmentem algumas narrativas tão simplistas quanto intelectualmente frágeis, e um outro sobre o pesado tributo humano exigido pela excelência universitária, uma importante dimensão persistentemente silenciada pelas narrativas académicas institucionais.

Com efeito, seria no mínimo incómodo, e talvez até perigoso para muitas narrativas institucionais, que alguém se lembrasse de estudar sistematicamente os investigadores de maior sucesso para apurar o preço oculto desse êxito, quem suportou a exaustão, a ansiedade, os conflitos e os danos que tornaram possível uma carreira aparentemente exemplar. Como se afirmou nesse texto: "The professional who appears controlled in public may transfer his frustration to his family; the admired leader may depend upon the exhaustion of subordinates; one person’s tranquillity may be financed by another’s anxiety. The moral question is therefore not whether our lives appear orderly, but where the fatigue, conflict and damage required to preserve that order are ultimately deposited" https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/07/the-unacknowledged-thermodynamic-price.html

Uma farsa que se repete todos os anos: Portugal bate recordes de investigação sem investigadores nem laboratórios

O Público noticia hoje que Portugal atingiu um novo máximo de despesa em investigação. Segundo os dados do Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional (IPCTN), o nosso pobre país investiu alegadamente 5584 milhões de euros em ciência em 2025. A esmagadora maioria em despesa empresarial. Lê-se e não se acredita em tanta fartura. Sobretudo quando a maioria do tecido empresarial português não possui investigadores, nem doutorados, nem laboratórios, nem qualquer produção de conhecimento minimamente reconhecível. 

Contudo e em bom rigor, o IPCTN  não demonstra que as empresas portuguesas estejam a investigar mais; demonstra apenas que estão a declarar mais despesas sob a rubrica de investigação e desenvolvimento. Confundir estas duas realidades é transformar uma classificação contabilística numa narrativa de progresso científico. O delírio estatístico chega ao ponto de Portugal, dotado de um tecido empresarial incomparavelmente mais débil do que o espanhol ou o italiano, surgir agora como um país cujas empresas gastam mais em investigação do que as empresas de Espanha e de Itália. A conclusão desafia não apenas o bom senso, mas a própria estrutura económica dos três países. Portugal dispõe de menos de cinco grandes empresas no top 2000 das que mais investem em I&D; a Espanha possui cerca do seis vezes mais e Itália quase dez vezes mais. A famosa Ferrari sozinha investiu mais em despesas de investigação do que as referidas grandes empresas Portuguesas. 

A fragilidade começa logo na própria definição de investigador. Para efeitos estatísticos, não é necessário possuir doutoramento, integrar uma carreira científica, publicar, trabalhar num laboratório ou sequer ter sido contratado para investigar. Basta que um trabalhador declare ter dedicado uma parte do seu tempo a uma atividade que a própria empresa apresenta como nova e criativa. Também não é necessário que a empresa possua laboratórios ou equipamentos científicos relevantes. Podem ser contabilizados consultores, serviços externos e trabalho realizado em instalações de terceiros. Deste modo, uma empresa sem laboratório, sem investigadores de carreira, sem publicações, sem patentes e sem qualquer produção científica reconhecível pode surgir nas estatísticas como executora de I&D.

Sem auditorias científicas independentes e projeto a projeto, ninguém pode saber com segurança quanto desta despesa corresponde a investigação efetiva e quanto corresponde a contabilidade criativa legitimada por uma definição estatística extraordinariamente permissiva. Esta complacência estatística torna-se ainda mais censurável quando se reconhece que existe um poderoso incentivo financeiro para ampliar essa classificação. Benefícios fiscais e mecanismos como o SIFIDE transformam a rubrica de I&D num instrumento de engenharia fiscal potencialmente mais rentável do que a própria investigação. 

Um caso concreto, que me foi relatado por um colega da Universidade de Aveiro, ilustra de forma particularmente elucidativa até onde pode chegar esta perversão. Uma empresa dedicada à gestão de uma vasta rede de franchising, sem laboratórios, investigadores ou atividade científica própria reconhecível, conseguiu deduzir quase 7,7 milhões de euros em impostos sob a aparência de financiamento à investigação, bastando-lhe adquirir participações num fundo de capital de risco. Tornou-se, assim, um dos maiores beneficiários do SIFIDE sem ter de produzir conhecimento, contratar investigadores ou demonstrar qualquer resultado científico verificável. Faço notar que esses fundos que permitiam abater o montante de IRC a pagar pelas empresas já tinham sido criticados neste blogue em 2022 https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/11/o-esquema-ardiloso-que-permitiu-que.html

E ao mesmo tempo que projetos de investigação genuína submetidos à FCT são recusados por falta de financiamento, milhões de euros foram canalizados para empresas sem atividade científica própria. Isto significa que uma parte muito significativa dos milhares de milhões atribuídos através do SIFIDE teria servido incomparavelmente melhor o interesse público se tivesse sido aplicada diretamente no financiamento do sistema científico nacional. Portugal corre, assim, o risco de celebrar como alegado "triunfo científico" aquilo que poderá não passar de uma sofisticada "fraude" estatística, a transformação burocrática de despesas empresariais em investigação fictícia e, depois, em benefícios fiscais suportados por todos os contribuintes, sem laboratórios, sem investigadores e sem ciência.

Declaração de interesses - Recordo que muito antes antes da conhecida ex-eurodeputada Ana Gomes ter exigido o fim do SIFIDE por ser fonte de "borlas" fiscais, e dos "vistos Gold" já eu tinha criticado de forma bastante explicita e mais do que uma vez aquele infeliz programa https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/08/expresso-o-nada-surpreendente-recorde.html

PS - Num próximo post mostrarei que, num importante indicador de investigação científica, Portugal se encontra já próximo da Bulgária e pior do que isso em poucos anos irá ser ultrapassado por aquele país. Nesse post revelarei também qual a medida governativa que mais contribuiu para essa preocupante degradação do desempenho científico nacional.