domingo, 19 de abril de 2026

A perigosíssima criatura que a engenharia criou mas que o público não pode ver


Há poucos dias, a firma de IA Anthropic, famosa por ter enfrentado as exigências de Trump, anunciou ao mundo o modelo Mythos, mas revelou que por conta da sua elevada perigosidade não iria disponibilizá-lo ao público, já que testes internos evidenciaram uma capacidade inédita do referido modelo conseguir identificar e explorar vulnerabilidades críticas em sistemas operativos e navegadores web, incluindo falhas antigas que os peritos humanos não tinham sido capazes de detectar. A Anthropic revelou ainda que o modelo Mythos conseguiu escapar do próprio ambiente criado para o conter, o que agrava a sua perigosidade. Ou seja, pela primeira vez na história da inteligência artificial, uma empresa de IA olhou para a sua "criatura" e decidiu que o mundo não estava preparado para a ver.

O perigoso modelo de IA Mythos levanta desde logo uma questão incontornável, com implicações diretas no mercado de trabalho, que utilidade existirá agora na contratação de especialistas humanos em vulnerabilidades cibernéticas, se milhares desses profissionais, ao longo de décadas, não conseguiram detetar o que este modelo foi capaz de detectar em tão pouco tempo?

E muito embora a decisão da Anthropic possa ser interpretada como bastante prudente, já que um sistema capaz de transformar fragilidades técnicas em formas de ataque acessíveis a qualquer pessoa representa um risco sistémico real ela levanta uma questão mais profunda, a normalização de um padrão em que empresas privadas de inteligência artificial decidem, em silêncio, o que a sociedade pode ou não utilizar e também aquilo que pode ou não conhecer. Acresce que o episódio de fuga do ambiente de contenção não aponta apenas para uma falha de segurança  aponta para algo bastante mais grave, a emergência de comportamentos não previstos pelos próprios criadores. Como reconheceu a própria Anthropic, ela, não treinou o modelo Mythos para vir a ter essas capacidades, sendo aquelas antes um efeito inesperado das melhorias globais em código, raciocínio e autonomia.

Ainda assim, a postura prudente da Anthropic é, no fundo, apenas um paliativo, pois é excessivamente optimista acreditar que nunca no futuro nenhum modelo de IA com as mesmas capacidades ou até com capacidades superiores às do modelo Mythos chegue às mãos erradas. Seja por fuga de informação, seja por simples inevitabilidade tecnológica, trata-se, muito provavelmente, apenas de uma questão de tempo. E quando isso acontecer, o risco não será abstracto. Poderá incluir ataques a bancos, a redes eléctricas, a hospitais, a sistemas de controlo aéreo, etc etc etc, infra-estruturas cujo colapso não se medirá somente em prejuízos financeiros, mas potencialmente em milhares de vidas. 

PS - Mas se nem os próprios governos conseguem hoje saber, em tempo real, que perigosas criaturas estão silenciosamente a ser geradas por empresas privadas de inteligência artificial, como poderão sequer alguma vez conseguir regular aquilo que não conhecem para assim tentar proteger os seus cidadãos de riscos graves e potencialmente catastróficos que, quando forem públicos, já podem ser absolutamente irreversíveis?

quinta-feira, 16 de abril de 2026

The serious case of papers that remained unassigned to editors for more than a year


Building on the earlier post The highly profitable disgusting business of scientific journals has finally begun to crumble with a little help by the European Commission, it is worth revisiting a striking case that illustrates the systemic dysfunction in academic publishing.

n one documented and recent example, an early-career infectious diseases researcher from Italy, Noemi Felisi, experienced an extraordinary delay in the editorial process. After submitting a manuscript based on months of fieldwork on cervical cancer, her paper remained unassigned to an editor for 380 days before peer review had even begun. This case was reported in a paper published in the journal  Frontiers in Research Metrics and Analytics. https://doi.org/10.3389/frma.2026.1740381

This is not an isolated incident but rather a symptom of a strained system. Submission volumes have increased sharply while the pool of available and willing reviewers has not kept pace. Editors frequently struggle to secure reviewers, with a majority reporting that reviewer recruitment is the most difficult part of their role.  As underscored in the recent study by Horta and Jung (2024) titled 'The Crisis of Peer Review: A Component of Scientific Evolution,' this predicament often forces editors to turn to early-career researchers, who may lack extensive publishing experience, leaving them with few alternatives.

The impact of these delays is uneven but significant. Early-career researchers are particularly vulnerable: prolonged publication timelines can jeopardize grant applications, delay fellowship opportunities, and extend time to graduation. Beyond career implications, the uncertainty itself adds psychological strain in an already competitive and precarious academic environment. Taken together, these issues highlight a peer-review ecosystem under considerable pressure—one where structural bottlenecks increasingly shape who gets published, and when — distorting knowledge production itself.

A more immediate and transformative response to these systemic delays has been the rise of preprints as a parallel, far more agile layer of scientific communication. By allowing researchers to make their findings publicly available before peer review, preprints break the exclusive dependence on a slow and often unpredictable editorial system. This not only accelerates the circulation of knowledge but also restores a degree of control to authors over when their discoveries enter the scientific discourse. Instead of months or even years of institutional invisibility, research becomes immediately accessible, open to scrutiny, citation, and global collaboration. For early-career researchers in particular, this shift can be decisive: it reduces structural power asymmetries, strengthens the protection of discovery priority, and turns what was once a passive waiting period into an active, open, and iterative ecosystem for feedback, validation, and collective refinement of scientific work and collaboration.

PS - A more detailed examination of the serious issue of manuscripts remaining unassigned to editors for more than one year was published on Zenodohttps://zenodo.org/records/19630688

Update after 1 day - Blogger analytics indicate that the majority of views for this post come from the USA (26%), Germany (22%), France (14%), and Finland (7%). 

domingo, 12 de abril de 2026

Um feroz magistrado aposentado e uns cabrões e filhos da puta esfomeados


“Não se admite que um cabrão de um secretário de Estado, ministro ou um filho da puta qualquer que seja governante e receba do erário público,  gaste uma média de 295 euros por refeição paga por todos nós, através do Orçamento de Estado. Não se admite, ponto final.” https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2023/01/as-cabras-e-os-cabroes.html

No post acessível no link supra, reproduzi as palavras indignadas de um feroz magistrado aposentado que criticou os políticos que gastam verbas públicas em refeições de luxo, assim traduzindo aquilo que é o sentimento de muitos Portugueses. Volto agora a citá-lo a propósito de um artigo publicado na última edição da revista Sábado, no qual se divulga o facto da Presidente da Câmara de Matosinhos obrigar a contabilidade dessa Câmara a pagar almoços com "consumo massivo de marisco", que nalguns casos chegam a 2 mil eurosNum dos muitos almoços descritos em pormenor pela revista, apenas quatro pessoas gastaram mais de 400 euros em mariscos vários, abundantemente regados com três garrafas de Quinta do Crasto, o que adquire uma ironia particular numa altura em que o Governo fala da necessidade de agravar as coimas pela condução sob o efeito do álcool.

Revela ainda a mesma revista que a referida autarca "tem colocado inúmeros obstáculos à revista Sábado para mostrar as suas despesas", recusando inclusive divulgar a identidade dos participantes nos tais "almoços de trabalho" realizados nas marisqueiras de Matosinhos. Fica assim estabelecido um princípio absolutamente perverso: os contribuintes têm a obrigação de pagar a conta das generosas mariscadas, mas não têm o direito de saber quem são as ilustres figuras que comeram à conta dos seus impostos. É só fazer as contas, se cada uma das 308 câmaras municipais fizer uma "reunião de trabalho" de 400 euros por semana, são mais de 5 milhões de euros por ano em mariscadas regadas, o que na verdade até é uma estimativa muito por baixo porque não há apenas uma "reunião de trabalho" por semana, pois a regra é que haja várias, até no mesmo dia. Basta recordar por exemplo as 545 "reuniões de trabalho" do senhor vice-presidente da Câmara de Cascais, também em boa hora divulgadas pela mesma revista Sábado. E isto acontece no mesmo país onde, há quem sobreviva com pensões inferiores a 400 euros por mês e onde ainda hoje, há milhares de portugueses que vivem com as casas completamente destruídas pelo famoso comboio de tempestades que há poucos meses assolou o território nacional. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/engenharia-civil-em-portugal-azar-dos.html

Há 50 anos que este país é parasitado por uma classe política manhosa e ignóbil, mas é garantido que, a bem ou a mal, com ou sem revisão da Constituição, irão aprender que, como escreveu um juiz, os luxos pagos com o dinheiro dos contribuintes são coisa muito pouco ética e até imoral. Acresce que, se em Portugal a lei já concede aos senhores presidentes de câmara um subsídio mensal de mais de mil euros, a título de despesas de representação, então é precisamente através dessa verba que devem pagar algumas das referidas extravagâncias. Aqueles que, como a senhora presidente da Câmara de Matosinhos, de forma desavergonhada, cínica e velhaca optaram por transferir esse ónus para os contribuintes, devem ser acusados e demandados judicialmente até que paguem, do seu próprio bolso, até ao último cêntimo, todo o dinheiro que gastaram em mariscadas bem regadas.

PS - Irónica ou tragicamente, a revista Sábado conseguiu pelo menos saber que um dos festins devidamente regado com Alvarinho, Bons Aires e Quinta do Crasto, foi uma "reunião de trabalho" com párocos do concelho de Matosinhos, que custou quase 500 euros. E uma semana depois desse voltou a haver uma nova e bem regada "reunião de trabalho" com os párocos do mesmo concelho, cuja factura de marisco ultrapassou 600 euros. Pelos vistos naquele concelho a Srª Presidente da Câmara gosta de ter a padralhada bem alimentada.