domingo, 15 de fevereiro de 2026

Dois académicos medrosos e a lamentável pobreza intelectual do Reitor Presidente

 


O jornal Público acaba de publicar, vide artigo acessível no link supra, a resposta do Provedor daquele jornal à minha pouco suave queixa anterior, acerca de uma lamentável notícia dedicada ao ranking da treta QS. Para a elaborar, o Provedor ouviu vários académicos, dois deles medrosos, só aceitaram pronunciar-se sob anonimato, e ouviu também o presidente do Conselho de Reitores - CRUP, o catedrático Paulo Jorge Ferreira. A intervenção deste último esteve longe de ser brilhante, bem pelo contrário, ao tentar, sem sucesso, defender o ranking QS para, de algum modo, tentar justificar a posição que já antes tinha assumido e que eu arrasei aqui https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/03/como-se-pode-classificar-um-magnifico.html

Mas o pior foi quanto tentou explicar os fracos resultados de algumas universidades portuguesas nos rankings internacionais com o baixo financiamento por aluno. Trata-se de um argumento intelectualmente pobre, pois além de ser um desvio evidente ao cerne da questão e nada acrescentar de substantivo ao debate, ignora de forma muito convenientemente problemas estruturais como este agressivo cancro académico ou os "concursos" de contornos profundamente bizarros, como aquele que teve lugar na sua universidade e, ironicamente, o facto de até existirem "ricas" universidades portuguesas classificadas abaixo inclusive de universidades de países do terceiro mundo, como divulguei aqui https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/08/a-rica-universidade-publica-que.html

O texto encerra com a autora do artigo, a jornalista ​e redactora principal Andreia Sanches, a tentar ​explicar a falha do jornal ​Público por não ter divulgado os resultados do Ranking Shanghai de 2025, alegando que este é publicado em agosto. Ora, a minha crítica referia-se claramente ao ranking de Shanghai por áreas científicas, divulgado em novembro, não a versão geral divulgada em agosto. Assim a justificação apresentada não só falha o alvo como ​ainda por cima revela um desconhecimento básico, deixando a impressão de que a jornalista ​conhece apenas ​uma única versão daquele ranking e ignora a edição mais detalhada ​que é publicada em Novembro e a qual na altura não deixei de divulgar aqui  https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/11/quais-as-areas-cientificas-onde.html

Concluindo, se é lamentável que haja académicos pouco informados sobre rankings universitários ou se mais provavelmente recorrem a rankings da treta por não conseguirem bons resultados em rankings prestigiados, não é menos preocupante que a imprensa não consiga distinguir entre uns e outros, revelando evidentes fragilidades no escrutínio do desempenho das universidades portuguesas. Mais paradoxal ainda é o facto da mesma imprensa dedicar muito mais atenção e recursos aos rankings das escolas do ensino secundário, aberrações que nem deveriam existir, já que se limitam a cumprir duas funções tão previsíveis quanto perniciosas, por um lado servem de marketing gratuito para colégios privados, frequentados por alunos oriundos de famílias abastadas e por outro confirmam uma verdade de La Palisse, que as escolas frequentadas por alunos de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos tendem a surgir nos últimos lugares, sem que porém isso reflita necessariamente a qualidade do trabalho educativo que nelas se desenvolve.

PS - No presente contexto vale a pena revisitar o post de 17 de Agosto de 2022 de título "Um jornalismo incompetente que trata os maus resultados de algumas universidades como se fossem boas notícias"   https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/08/rankings-de-universidades-e-o.html

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

As muitas culpas da imprensa no desprezo sistemático da ciência e da engenharia, que agravou as consequências da tragédia climática que se abateu sobre Portugal


É curioso, embora nada surpreendente, ler na imprensa internacional, como aqui ou aqui, que Portugal precisa de se adaptar à emergência climática, quase como se fossemos um país de indigentes. Não por acaso, há poucos anos editei, em conjunto com um idoso catedrático de uma reputada universidade da Suécia, um livro dedicado precisamente a esse tema, que, também sem qualquer surpresa passou despercebido no espaço mediático. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/07/o-contributo-da-investigacao-na-area-da.html 

Tal invisibilidade não resultou certamente de falta de relevância científica ou social do tema, como agora desgraçadamente se percebe, mas antes de prioridades editoriais que continuam a privilegiar irrelevâncias. Afinal, é muito mais mediático saber qual foi o mais recente automóvel adquirido pelo Ronaldo (o tal que Montenegro em má hora disse que os Portugueses deviam copiar) ou qual a nova joia ostentada pela sua companheira Georgina, do que noticiar livros sobre estratégias de adaptação climática. A espuma mediática vende, o conhecimento exige atenção, e atenção é um recurso escasso quando a superficialidade domina a agenda. Porém aqueles que andaram a vender as tais banalidades deveriam agora ir perguntar ao Ronaldo, o que se lhe oferece dizer sobre a tragédia associada ás tempestades sucessivas que desgraçaram a vida a muitos milhares dos seus compatriotas. 

Recordo que em 2019 critiquei uma lista infame na revista Visão sobre 29 ilustres Portugueses, onde abundavam vários nomes ligados ao pedestre e rasteiro mundo futebolístico, mas apenas um único cientista e absolutamente ninguém da área da engenharia. E em 2023 critiquei também uma lista não menos infame do Expresso, sobre 100 Portugueses extraordinários, onde, uma vez mais, a presença de nomes da ciência e da engenharia era meramente simbólica, um sinal claro do desprezo sistemático da imprensa do nosso desgraçado país por profissionais que são, de facto, pilares essenciais da prosperidade e da segurança nacional, especialmente no contexto da tragédia climática que nas últimas semanas se abateu sobre o nosso país e que a ciência já mostrou se irá agravar nas próximas décadas, como aliás facilmente se percebe pelas palavras cristalinas de um reputado cientista, diplomado por Harvard e doutorado pelo MIT, que agora trabalha na universidade Oxford, que afirmou de forma nada ambígua que "no que diz respeito à crise climática, sim, é tempo de entrar em pânico"Pierrehumbert,R. (2019) There is no Plan B for dealing with the climate crisis, Bulletin of the Atomic Scientists, 75:5, 215-221. 

Declaração de interesses - Declaro que tenho pouca consideração pelos profissionais do pontapé e da cabeçada, sobre os quais já escrevi, que acredito num futuro não muito distante, irão passar a ser pagos, pelo que realmente valem, em amendoins https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/07/o-futuro-chegou-mais-cedo-do-que-eu.html

PS - Há alguns dias, mencionei o supracitado catedrático Sueco, Claes-Goran Granqvist, num post pouco suave, de titulo "Universidades Portuguesas: Premiar a inércia e a estagnação, castigar o mérito e condenar o país ao empobrecimento" https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/universidades-portuguesas-um-modelo-que.html

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

The Paradox of Progress: Science Advances by Failure but Rewards Only Certainty

 "if you´re not failing all the time, you´re aiming too low"

These words come from an exceptionally concise, just 9:35 minutesyet stirring lecture titled On Failure, by Portuguese-born MIT professor Nuno Loureiro, who was assassinated in December 2025 by another Portuguese scientist. Loureiro himself suggested a better title might have been In Praise of Failure, because at its core was a daring proposition: failure is not a mark of shame, but the very engine of creation.

Yet if failure truly is the lifeblood of discovery, why does the scientific establishment still punish it like a crime, rewarding caution, conformity, and incrementalism while quietly suffocating intellectual risk-taking? And how many transformative breakthroughs might have been delayed, subtly distorted, or effectively buried altogether because scientists, fearing ridicule, professional rejection, or even intellectual exile, deliberately chose safe and defensible hypotheses over high-stakes explanatory possibilities?

These thoughts echo reflections I shared two years ago in a post titled The Recipe of a Capitalist (Revered by Russian Academics) and the Lack of Courses on the Skill of Overcoming Failure,” where I highlighted a remarkable German book that dares to honor stories of failure as much as, if not more than, stories of triumph: Gegen die Diktatur der Gewinner (Against the Dictatorship of the Winners).

PS - Against this backdrop of reflection on failure and intellectual risk-taking, the empirical record speaks with unusual clarity. Back in 2020 I commented on an article in The Economist reporting that migrants in Germany were more likely than native Germans to start businesses. Two years later, an MIT-led study found that immigrants in the United States are about 80% more likely to found firms than native-born citizens. The latest edition of The Economist demonstrates that the current surge in U.S. startup creation is being driven disproportionately by ethnic minorities and immigrant entrepreneurs. Seen through this lens, the societies that flourish most fully are those courageous enough to embrace people shaped by risk and sharpened by adversity, and thus capable of turning uncertainty into possibilities.

Update after 2 days — Statistics show that the top five foreign countries engaging with this post are the USA, Singapore, Germany, Finland, and Canada.