sábado, 30 de maio de 2026

A Full Professor Reveals the Simple Recipe for Earning €20 Billion in European Profits

A Portuguese full professor has handed his latest Expresso column—in Portugal's leading weekly—to Sir Chris Hohn, the British billionaire one of the world’s most successful investors and a revealing symbol of today’s monopoly-driven capitalism. The title alone draws blood: "One of the world's biggest investors only invests in companies that abuse their market power." The question underneath it is just as pointed: how has Hohn, backed by a team you could fit around a dinner table—barely half a dozen analysts—wrung extraordinary returns out of roughly USD 77 billion parked in just 15 ferociously concentrated bets? https://expresso.pt/opiniao/2026-05-28-o-poder-de-mercado-exposto-no-aeroporto-de-lisboa-a2723d55

The answer is as simple as it is damning. Hohn's genius isn't spotting well-run companies. Anyone can do that. His genius is spotting companies that never have to be especially well-run, because they're insulated from real competition by infrastructure they control, regulation that shields them, market concentration that strangles rivals, and barriers to entry so high that the textbook version of capitalism—the one with competitors, price discipline, and consumer choice—simply doesn't apply. He doesn't beat the market. He buys the parts of the economy where the market has been switched off.

For Portuguese readers, the irony is brutal. One of the crown jewels of Hohn's universe is the French multinational VINCI. For Portuguese readers, the irony is not merely brutal; it is obscene. At the height of the Troika intervention, when a financially strangled Portugal was compelled, under financial coercion, to privatise strategic public assets to satisfy the conditions of its bailout, VINCI acquired ANA — Aeroportos de Portugal, a 50-year concession over the country’s ten airports for just €3.08 billion. By 2024 that single concession had already thrown off some €2.3 billion in profit. By estimates aired in the Portuguese debate, it could ultimately yield more than €20 billion across the life of the contract. Put plainly: the buyer may recover the entire purchase price several times over.

This is where the fairy tale of free-market capitalism dies. Hohn’s success is not the heroic victory of a brilliant investor defeating competitors in open markets. It is the much darker art of spotting where governments have removed competition, locked the public into dependence, and converted essential infrastructure into private tribute machines. He is not beating the market. He is cashing in on markets that were already strangled before the game began.

So Portugal's airports are not merely a lucrative line on VINCI's balance sheet. They are a near-perfect monument to capitalism gone feral: strategic national infrastructure sold off too cheaply, converted into a private cash machine, and left to enrich distant shareholders for half a century while the citizens who funded it pay the monopoly premium for the privilege of using what was once theirs. Which leaves one uncomfortable question, and it deserves a blunt answer: how many public assets do we have to surrender before we stop dignifying this as capitalism and start calling it what it is—organised plunder, conducted in daylight? 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

A extraordinária falta de vergonha de uma conhecida universidade pública

 

"Todo este processo envergonha a UP e a sua comunidade, e devia provocar um profundo repúdio de todos os professores, de toda a academia. Haja vergonha!"

A frase que inicia este post encerra hoje um artigo de opinião publicado no jornal Público, no qual um professor da própria Universidade do Porto critica duramente a reitoria da sua instituição. Em causa está o facto daquela Universidade ter voltado a recorrer de uma decisão judicial que condenou o catedrático director da Faculdade de Medicina e a própria reitoria ao pagamento de uma indemnização de 30.000 euros a uma antiga docente, vítima de assédio, na sequência de "comportamentos humilhantes e discriminatórios" https://www.publico.pt/2026/05/29/opiniao/opiniao/reitoria-up-conivente-assedio-moral-mensagem-transmite-vitimas-2176000

Há instituições que se medem pelos seus discursos. Outras, pelos seus actos. A Universidade do Porto, infelizmente, parece ter-se especializado em ostentar os primeiros quando afirma que se compromete com “os mais altos padrões de transparência, integridade e responsabilidade” enquanto foge aos segundos. E a pergunta impõe-se: ao insistir em recorrer, depois de duas decisões judiciais no mesmo sentido, não se torna a Universidade do Porto, uma instituição que, ironicamente, deveria acima de tudo zelar pelo interesse público, conivente com o próprio crime de assédio que foi condenada por não ter travado?

Mas muito pior é a postura interna. Como se lê no artigo, perante uma sentença que dá como ilegais as práticas dos assediadores, a reitoria não abriu um único processo de averiguações nem instaurou qualquer inquérito disciplinar. Nada. Os condenados em primeira instância continuam a exercer funções como se nada fosse, enquanto a vítima ficou pelo caminho, sem doutoramento, sem carreira e desempregada, como se fosse lixo.

É precisamente aqui que o contraste se torna chocante. Compare-se esta omissão com a forma expedita com que, numa conhecida universidade holandesa, as queixas de vários alunos de doutoramento bastaram para que se constituísse uma comissão independente encarregada de investigar inadmissíveis desmandos de catedráticos, caso esse que divulguei no post "Um par de catedráticos canalhas". Lá, as denúncias internas foram suficientes para mobilizar a instituição. Aqui, uma condenação confirmada por duas instâncias não é sequer suficiente para iniciar um simples processo de averiguações. A diferença não é de meios: é de vontade. E enquanto a Universidade do Porto preferir gastar tempo e dinheiro a combater judicialmente quem foi reconhecidamente vítima, em vez de reparar o dano sofrido e responsabilizar quem o causou, a mensagem enviada a toda a academia é só uma: denunciar não compensa e quem assedia, principalmente se for catedrático, pode continuar a dormir descansado, sem receio de consequência alguma. 

PS - Uma última palavra para louvar o Professor Associado com Agregação Pedro Oliveira, autor do artigo supracitado. Ao denunciar publicamente a actuação vergonhosa da sua própria universidade, demonstrou a coragem que falta a demasiados membros da academia: a coragem de não se refugiar no silêncio conveniente, de não sacrificar a decência às suas ambições pessoais e de não abandonar uma vítima para proteger o prestígio da instituição e o poder dos seus catedráticos. Numa universidade digna desse nome, a lealdade não se demonstra encobrindo a vergonha; demonstra-se combatendo-a. Na academia só merece verdadeiro respeito quem esteja disposto a arriscar a comodidade, a posição e o isolamento para defender aquilo que é verdadeiramente justo. Como escrevi há seis anos, aqueles que beneficiam do chamado “estatuto reforçado de estabilidade no emprego” (tenure) deveriam ser obrigados a demonstrar que, em algum momento da sua vida académica, tiveram a coragem de dizer ou investigar algo verdadeiramente incómodo que justificasse esse estatuto. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/07/prostituicao-universitaria.html


quinta-feira, 28 de maio de 2026

Depois das humilhações públicas chegam agora as ameaças de Israel contra Portugal


Primeiro, tivemos o ministro israelita Ben-Gvir, que publicou um vídeo a humilhar ativistas, incluindo dois médicos portugueses. Ver notícia no link supra. E ontem, tivemos o embaixador de Israel que, furioso, veio ameaçar politicamente o nosso país, insinuando que Portugal passará a ser considerado “extremista” se defender a suspensão do Acordo entre a União Europeia e Israel. https://www.rtp.pt/noticias/mundo/embaixador-israelita-diz-que-portugal-passara-a-ser-considerado-extremista-se-defender-suspensao-de-acordo-ue-com-israel_n1743765

A inversão moral é evidente e obscena. Extremista não é quem exige o cumprimento do direito internacional. Extremista não é quem defende que a União Europeia deixe de conceder privilégios políticos e económicos a um Estado acusado de crimes gravíssimos contra civis. Extremista é tentar pressionar Portugal um país soberano para que se mantenha quietinho e caladinho, como se fosse obrigado a aceitar o papel de país capacho.

Mas, se a suspensão do Acordo UE-Israel irrita tanto o Governo israelita, é porque esse acordo importa muito. Importa politicamente, importa economicamente e importa simbolicamente. E é precisamente por isso que deve ser suspenso de imediato. Importa, por isso, divulgar e apoiar a petição europeia que já reuniu mais de 1 milhão de subscritores por toda a Europa, entre os quais me incluo porque não sou nem nunca fui capacho de ninguém, e que defende a suspensão imediata do acordo de comércio entre a União Europeia e Israel.   https://citizens-initiative.europa.eu/initiatives/details/2025/000005_en

A petição europeia está acesssível aqui https://eci.ec.europa.eu/055/public/#/screen/home

PS - O Acordo UE–Israel movimenta dezenas de milhares de milhões de euros, injetando ano após ano recursos financeiros que sustentam, direta ou indiretamente, a máquina de guerra israelita. A suspensão deste acordo é uma importante alavanca económica e política, destinada a cortar o financiamento que permite a Israel continuar a matar civis com a cobertura de uma impunidade que dura há demasiado tempo e que a União Europeia, enquanto parceira comercial privilegiada, tem a responsabilidade de não ajudar a perpetuar.