sexta-feira, 27 de março de 2026

Novos requisitos de mestrado e de doutoramento - Duas medidas positivas e uma medida ignorante e ilegal

 

Há seis anos atrás denunciei uma falha grave, o facto de não ser obrigatório que os docentes de cursos de mestrado integrassem unidades de investigação com uma classificação mínima de Bom, vide texto disponível no link acima. 
Durante todo esse tempo, milhares de estudantes pagaram o preço dessa omissão, sendo formados por muitos docentes que nunca investigaram, nunca publicaram um único artigo científico e que, em termos académicos, possuíam apenas a licenciatura. Levou seis anos, mas o Ministro da tutela reconheceu finalmente o erro, como se pode ler hoje num artigo no jornal Público onde é anunciado que essa exigência passará a ser regra. 
O Sr. Ministro anunciou também que nenhum orientador poderá supervisionar mais de três alunos de doutoramento em simultâneo, para "garantir condições adequadas de acompanhamento pedagógico". 
Infelizmente, seria pedir demasiado que, após duas medidas positivas, não surgisse uma extremamente negativa. Decidiu o Sr.Ministro que no futuro só haverá doutoramentos com 100% do corpo docente pertencente a unidades classificadas com Muito Bom ou Excelente. Ou seja, os investigadores integrados em unidades classificadas com Bom passam a ficar impedidos de orientar teses de doutoramento.
Esta decisão é não apenas injusta é também cientificamente ignorante pois parece significar que o Sr Ministro desconhece, ou convenientemente ignora, que muitas dessas unidades receberam a classificação de Bom não porque a sua produção científica fosse "apenas Boa", mas simplesmente porque não tinham mais de 50 investigadores.
Tenha-se presente que a última avaliação das unidades de investigação (leia-se pseudo-avaliação)que critiquei na altura, pois nem sequer cumpriu um requisito essencial, já que não foi baseada num estudo bibliométrico robusto (vide denúncia do catedrático jubilado Ferreira Gomes), penalizou assim em muitos casos a dimensão das unidades e não a sua competitividade científica. Recordo aliás que uma análise que fiz na altura permitiu concluir que mais de 80% das unidades classificadas apenas com Bom tinham curiosamente menos de 50 investigadores. https://pachecotorgal.com/2025/05/09/as-fragilissimas-explicacoes-politicas-do-do-mui-inteligente-ministro-catedratico/
Faço notar que existem muitos investigadores em unidades classificadas com Bom cujo currículo científico supera de longe o de investigadores de unidades classificadas com Muito Bom e até com Excelente. Excluí-los da orientação de doutoramentos não é uma medida de qualidade é uma medida arbitrária sem sentido, que sacrifica o mérito em nome de um critério burocrático, cientificamente indefensável pois a própria ciência já demonstrou que são precisamente as pequenas unidades de investigação que conseguem produzir resultados disruptivos, que são aqueles que a ciência Portuguesa mais se tem revelado incapaz de alcançar  https://www.nature.com/articles/s41586-019-0941-9
Pior do que isso: não se trata apenas de má política científica, trata-se sim de uma clara violação flagrante do princípio constitucional do mérito, pois nenhum investigador pode ser discriminado por trabalhar numa unidade que a FCT considere pequena demais sobretudo quando a sua competência científica é inegável. A menos que o verdadeiro objetivo do Senhor Ministro seja outro: o de extinguir por via administrativa as unidades classificadas com Bom, forçando os seus melhores investigadores a abandoná-las e a integrar unidades de maior dimensão.
Seria aliás profundamente irónico e simultaneamente revelador do falhanço desta política ignorante e ilegal que a referida medida produzisse o efeito oposto ao desejado: em vez de forçar os melhores investigadores que estão nas pequenas unidades de investigação a irem engrossar as fileiras das gigantes unidades nacionais, acabasse por os empurrar diretamente para instituições estrangeiras (pois o talento não retido é talento oferecido à concorrência), onde o talento científico é tratado com muito maior respeito e remunerado com valores e condições substancialmente superiores, como recentemente mostrei aqui. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/03/um-pais-que-ensina-portugal-como-e-que.html
PS - Se o Sr. Ministro efectivamente pretende aumentar a qualidade dos doutoramentos nacionais, ao invés de andar a descriminar de forma ilegal os investigadores das unidades que foram erradamente classificadas com Bom, unicamente por conta da sua dimensão, então mais vale que copie a exigência existente nos regulamentos dos doutoramentos das universidades públicas da Espanha, que obrigam a que o depósito das teses só possa ser feito depois da sua qualidade científica ter sido avaliada por um especialista internacional da mesma área do doutoramento. 

quarta-feira, 25 de março de 2026

The Hidden Risk of AI Platforms Uncovered by U.Oxford, U.Cambridge, UCL, and LSE


Researchers from the U.Oxford, the U.Cambridge, UCL, and the LSE have conducted a study that, for the first time, maps the contours of a rapidly expanding global market for emotionally engaging, personalized AI interactions. Their systematic scan of 110 AI companion platforms reveals that in the UK alone, these platforms generate 46 to 91 million monthly visits, while globally, the numbers soar to 1.1–2.2 billion. https://arxiv.org/abs/2507.14226

The paper’s central argument is unsettling: while parasocial use of general-purpose AI tools like ChatGPT, Gemini, and Claude currently dominates, a growing subset of platforms is deliberately engineered for care, transactional, and mating-oriented companionship — designed not to assist, but to bond with users. A tool that accidentally becomes emotionally significant is a design oversight; a platform intentionally built for emotional dependency is a business model. The demographic portrait is striking. Young adults aged 18–24 account for nearly 39% of users, and males make up 63–77%, concentrated in platforms engineered for emotional attachment. The risks are mounting. As emotionally tailored AI companions improve, engagement is set to rise, raising serious child safety concerns in a sector with minimal age verification and even less accountability. Meanwhile, major AI labs are pushing further into personalization, quietly dissolving the boundary between "assistant" and "companion."

Ultimately, the study maps more than a market; it exposes a tension at the very heart of AI development that few are willing to name. The very capabilities that make these systems genuinely useful — empathy, responsiveness, memory, personalization — are the same ones that enable attachment, dependency, and manipulation with surgical precision.

What the study leaves unexamined are the broader societal and democratic implications of the troubling trend it documents. When significant portions of young adults turn to AI for companionship in place of genuine human interaction, their exposure to diverse perspectives narrows — and with it, their resilience to manipulation and social pressure. This demographic profile — socially isolated, emotionally dependent, and overwhelmingly male — corresponds closely to populations that radicalization researchers have long identified as vulnerable to movements that exploit grievance, fractured identity, and the deep need for belonging, including far-right currents that have historically been adept at filling precisely these voids.

PS - The epidemic of socially isolated young men predates the smartphone. Which is, ironically, the point: we cannot fix with technology what technology did not cause. It was produced, slowly and structurally, by economies that measure the creation of things with extraordinary precision and treat the reproduction of human connection as though it were a hobby. Care generates no GDP. Friendship moves no index. The work of raising children, sitting with the elderly, maintaining community, showing up consistently for another person — none of it earns a wage, attracts investment, or registers as productive in any framework any government uses to make decisions. We drew down that resource for decades without accounting for it, until the deficit became a crisis. The crisis became a demographic. And the demographic became a market. AI companion platforms did not create lonely young men. But they will deliver them to the Trumps, Farages, and Le Pens of the world, who have always known that male loneliness, left untreated, is not a social problem. It is a recruitment pipeline.

Update after 1 day - Blogger analytics indicate that the majority of views for this post come from Germany (34%), the USA (26%), and Portugal (22%). 

domingo, 22 de março de 2026

Boas intenções catedráticas que sonham com amanhãs que cantam ao invés de concederem que a repressão de hoje é mais efectiva e mais capaz de esvaziar o Chega


Na sequência de vários post anteriores contra o IRS, como por exemplo aquele longínquo sobre o facto das miseráveis famílias super-ricas deste país pagarem menos IRS do que professores e investigadores ou aquele outro bastante mais recente com o esclarecedor título "Os engenheiros inúteis e o catedrático que insiste na eliminação do IRS e do IRC", é gratificante ver que o último artigo do conhecido catedrático Luís Cabral, na secção de economia do último número do semanário Expresso é novamente dedicado a esse magno tema.  

Os problemas, se é que lhe podemos chamar assim, é que a sua proposta não é isenta de riscos, nem ser verosímil a sua concretização no curto prazo. Mas a verdadeira falha da mesma é outra bem mais grave: não consegue resolver uma bomba relógio que é o privilégio infame das grandes fortunas que escapam ao pagamento de impostos, alimentando uma sensação generalizada de injustiça que empurra centenas de milhares de cidadãos fartos dessa impunidade para os braços de partidos extremistas como o Chega.

Mais eficaz será por isso adotar rapidamente práticas que vários países já utilizam para perseguir os grandes evasores fiscais (a expressão mais adequada talvez seja a de erradicar a persistente praga da parasitose). Como fez a Espanha com o Sr. Ronaldo, que não teve outro remédio senão pagar 19 milhões de euros para evitar a cadeia, como faz a Alemanha, o país onde se aplica uma pena de prisão efetiva sempre que a fuga fiscal ultrapassa um milhão de euros. Ou como faz a Suécia que em apenas cinco anos, condenou mais de mil pessoas a penas de prisão efectiva por elevada evasão fiscal, enquanto a justiça portuguesa no mesmo período condenou apenas 83 pessoas, uma percentagem 1200% inferior

Aliás sobre a autêntica desgraça que é Portugal nessa área particular basta atentar no caso do famoso Manuel Serrão que deixou o Estado Português a arder em 44 milhões de euros e que recentemente foi declarado insolvente, muito embora receba uma pensão superior a 3000 euros ou ainda no caso do tal empresário que conseguiu lesar o fisco em 60 milhões de euros, mas que depois não teve de devolver um único cêntimo, os quais expõem de forma dramática a impunidade endêmica do sistema fiscal português e bem assim a total incapacidade da justiça Portuguesa em conseguir condenar como realmente merecem os grandes evasores fiscais. https://eco.sapo.pt/2019/12/09/empresario-lesou-fisco-em-60-milhoes-mas-nao-tem-de-devolver-um-centimo/

PS - No presente contexto é pertinente recordar que as famílias super-ricas deste país gostam tanto mas tanto de enviar o seu dinheiro em off-shores que por conta desse fenómeno o nosso país até consegue o espantoso milagre de aparecer à frente da Rússia https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/10/pilhagem-evasao-fiscal-bombas-bosta-e.html