domingo, 22 de fevereiro de 2026

Cientista feroz exige que se sentem no banco dos réus todos os responsáveis pelo facto de Alcácer do Sal ter ficado submersa

 

O conhecido cientista Miguel Bastos Araújo que recebeu o Prémio Pessoa em 2018, que integra o tal júri do prémio de 1 milhão de euros da Fundação Gulbenkian e, que no ano passado aparecia no segundo lugar de uma lista de 100 cientistas, dá hoje uma entrevista pouco doce ao jornal Público, acessível no link supra, na qual defende a criminalização de todos os políticos que andaram a aprovar construções onde não o podiam nunca ter feito. O que por coincidência eu já tinha defendido no passado dia 28 de Janeiro, quando escrevi: "há muito que este país deveria ter criminalizado qualquer licenciamento autárquico de novas edificações em zonas de risco, nomeadamente em zonas propicias a deslizamentos de terras, em zonas inundáveis, em zonas costeiras ou áreas diretamente expostas à subida do nível do mar, relativamente às quais faz sentido revisitar a frase: "os contribuintes deste país serão obrigados a pagar milhões para evitar que o mar engula "apartamentos a preços milionários, construídos quase em cima do mar." https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/01/o-governo-de-portugal-prepara-se-para.html

Seja como for devo dizer que me causou alguma perplexidade que, nessa entrevista o  referido cientista tenha dito que os engenheiros vão ficar contentes, pois há muitas obras para fazer. Tal observação, para além de manifestamente infeliz, pois não acredito que os engenheiros fiquem felizes com um aumento substancial do número de obras por conta de uma tragédia inesperada, mostra, também que ele parece desconhecer a realidade do sector em causa, pois não só não há empresas de construção em número suficiente, como também há um défice de engenheiros civis neste país que, por negligência ou incompetência, não foi acautelado em devido tempo, e que se irá agravar nos próximos anos,  https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/engenharia-civil-em-portugal-azar-dos.html

PS - Recordo, a propósito, que não é de hoje a tendência do cientista Miguel Bastos Araújo para utilizar palavras pouco doces, pois há alguns anos atrás ele já tinha criticado de forma particularmente contundente a Academia Portuguesa, por conta de uma "burocracia cuidadosamente arquitetada para defender os interesses da mediocridade instalada"  https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/11/premio-nobel-excluido-de-concurso-para.html

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Engenharia Civil em Portugal - Azar dos Távoras, negligência ou incompetência ?


Se, ainda antes dos inúmeros estragos causados pelos sucessivos comboios de tempestades, Ingrid, Kristin (a mais violenta desde que há registo), Leonardo e Marta, que arrasaram um grande número de edifícios e de infraestruturas no nosso país, o actual bastonário da Ordem dos Engenheiros já tinha alertado que o número anual de aposentados na área da engenharia civil superava o número de diplomados, uma situação que já de si era bastante grave num país atolado numa dramática crise habitacional, então a situação torna-se agora muito mais preocupante, pois os elevados danos provocados por essas tempestades levarão vários anos a reparar, durante os quais ainda mais se agravará o aludido défice de engenheiros civis. Mas será que isto é apenas o tal azar dos Távoras?
Afinal o que é que os cursos de engenharia civil deste país não fizeram, ou não foram capazes de fazer, para que o crescimento deste curso não se ficasse apenas por um valor residual de 3% ao ano, correspondente a um total de colocados inferior a seis centenas, quando antes de 2011 este curso acolhia na primeira fase de cada ano mais de 1400 alunos ?  Alguém consegue compreender, que por exemplo o curso de engenharia civil da universidade de Coimbra, onde me diplomei há várias décadas atrás, quando então aquele curso recebia mais de uma centena de alunos logo na primeira fase, não consiga agora captar nem sequer metade desse número e nem sequer consegue ultrapassar o número de alunos captados pelo Politécnico do Porto ou pelo Politécnico de Lisboa ?
E será que a formação em engenharia civil necessária para enfrentar o tal futuro de catástrofes permanentes, de que falou há poucos dias o catedrático Ottmar Edenhofer, presidente do conselho científico consultivo europeu sobre alterações climáticas, será aquela muito pouco inspirada e manifestamente insuficiente, de que falou na semana passada um antigo bastonário ao semanário Expresso, uma engenharia civil praticamente igual à do passado, mas com umas alterações mínimas, relacionadas como aumento da capacidade das coberturas resistirem a ventos de pelo menos 150 km/h, e que hoje novamente os jornalistas do Expresso repetem de forma indigente, certamente por acharem que não há neste país, na área da engenharia civil, quem possa dar melhores conselhos?

Ou será muito mais provável que os jornalistas do Expresso tenham dado provas de negligência ou até de incompetência, pois um Engenheiro Civil que se diplomou durante a longínqua década de 70 e que nunca foi sequer especialista em estruturas, como é o caso do ex-Bastonário Fernando Santo, não é definitivamente o profissional mais indicado para dar conselhos do que deverá ser a engenharia civil capaz de acautelar um futuro de catástrofes climáticas, ignorando que nas universidades de Lisboa, do Minho e do Porto, se produz investigação na área da engenharia civil, que no último ano até foi capaz de superar a produzida nas melhores universidades Alemãs e que talvez nessas universidades haja especialistas dessa área que possam dar conselhos cientificamente muito mais robustos?

PS - Aproveito esta ocasião para fazer uma caridade aos jornalistas do Expresso, recomendando a leitura de um interessante artigo publicado na revista Fundamental Research, que não certamente por acaso, faz parte das referências de um capítulo de um livro que estou a actualmente a concluir, e onde se fica a saber alguma coisa sobre a resposta à pergunta supra e do qual abaixo reproduzo um breve mas elucidativo trecho: 
"In a century shaped by climate disruption, resource scarcity, and cascading hazards, structural safety can no longer be confined to the binary question of collapse under a rare event....The profession must adopt a new design ethos: one that values performance over prescription, flexibility over excess, and resilience over redundancy...To meet this moment, engineering education, professional standards, and institutional missions must adapt. Future (civil) engineers must be trained not just in mechanics but in climate science...and sustainable design thinking. Codes and contracts must reward recovery capacity and carbon efficiency, not just compliance...."

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Quais são de facto as responsabilidades da Academia no contexto de um provável e permanente futuro cenário de catástrofe ?

 

Tendo em conta que o investigador Alemão Ottmar Edenhofer, catedrático na universidade técnica de Berlin e presidente do conselho científico consultivo europeu sobre alterações climáticas, acaba de afirmar que a Europa tem de começar a preparar-se para um cenário de catástrofe (permanente) associado a um aquecimento de 4º C, acima dos níveis pré-industriais, sublinhando que o “princípio da precaução” exige que a UE se prepare para esse cenário e também que submeta os seus planos a testes de stress face a cenários ainda mais gravosos, que responsabilidades inadiáveis recaem sobre as universidades europeias e em particular sobre as universidades do nosso país, que acabou de sofrer, de forma particularmente trágica, os efeitos de fenómenos climáticos extremos, associados a um aquecimento global que ainda só ronda os 1.5º C?

Como é que é possível que a Academia esteja em alvoroço total com a inteligência artificial, mas permaneça totalmente indiferente à catástrofe climática anunciada há vários anos?

E será que a universidade do Porto não deveria pedir desculpas públicas aos Portugueses pelo facto de vários dos seus professores catedráticos, terem andado a difundir ideias negacionistas, que desinformam a sociedade e prejudicam o superior interesse público?

Há dezanove (19) anos atrás, o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) estabelecia, no n.º 1 do artigo 2.º, que a missão do ensino superior consistia na “qualificação de alto nível dos portugueses, na produção e difusão do conhecimento, bem como na formação cultural, artística, tecnológica e científica dos seus estudantes, num quadro de referência internacional”. Contudo, perante a necessidade de acautelar prováveis cenários de catastrofe climática, torna-se não apenas pertinente, mas urgente e inadiável, que a revisão do RJIES actualmente em curso, inequívoca e explicitamente reconheça essa nova condição civilizacional, permitindo que a sua redação possa evoluir para: 
“O ensino superior tem como objetivo a qualificação de alto nível dos portugueses, a produção e difusão do conhecimento e a formação cultural, artística, tecnológica e científica dos seus estudantes, num quadro de referência internacional, assumindo igualmente a missão estratégica de preparar indivíduos intelectual e eticamente capacitados para compreender, prevenir e gerir crises globais, incluindo catástrofes climáticas e promover a resiliência da sociedade e a sustentabilidade civilizacional.

PS - É impressionante que tenham sido necessários 7 anos, desde que um investigador diplomado por Harvard, doutorado pelo MIT e actualmente catedrático na universidade de Oxford, advertiu que no respeitante às alterações climáticas, tinha chegado a hora de entrar em pânico, para que essa urgência comece finalmente a ser interiorizada de forma institucional. Isto já para não falar, que também passaram 7 anos desde que o tal professor "apocalíptico", esteve a fazer uma apresentaçáo num evento promovido na Comissão Europeia e que eu mencionei naquele que foi o primeiro post do meu primeiro blogue. E passaram 5 anos desde que a prestigiada e bastante conservadora revista The Economist tentou explicar aos seus leitores de que tipo de catástrofes estamos a falar quando falamos de um aquecimento global de 3º C, artigo esse que eu na altura divulguei aqui https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/ter-razao-antes-do-tempo.html