domingo, 20 de setembro de 2026

Existir ou não existir? Eis o veredicto da IA !

Como já não sabia se, durante o passado mês de agosto, tinha verdadeiramente existido, isto é, se tinha feito algo útil, pois "só existimos nos dias em que fazemos", pedi a um modelo de IA que vasculhasse a minha caixa de correio eletrónico em busca de provas de vida científica. O veredicto dessa pequena investigação forense apresenta-se abaixo.

03/08/2026  Submissão do relatório de avaliação de tese de doutoramento (Sujitha A).
03/08/2026  Projeto — MSCA-PF 2026 (A. Gaddafi): preparação de submissão.
04/08/2026  Journal of Informetrics: decisão de rejeição da Letter submetida.
04/08/2026  Revisão submetida — Sustainability — sustainability-4495768
05/08/2026  eProofs dos capítulos 15, 16 e 17, ISBN 9780443509926.
05/08/2026  Convite de cap, “Advances in Materials for Mitigating Building Cooling Needs”.
05/08/2026  Editorial — CivilEng — civileng-4506242: pedido de Pre Peer-Review Approval.
06/08/2026  Revisão submetidaScientific Reports — “Raw Pyrite Tailings as....”
06/08/2026  Introdução de “Advances in Alkali-Activated Concrete” (ISBN 9780443542077).
06/08/2026  Tese — Aceitação de avaliação de tese de doutoramento.
06/08/2026  Revisão submetida — TECE-2026-1031.
08/08/2026  Tese — convite para Foreign Examiner da tese de S. Omran.
09/08/2026  Decisão editorial — Eng — eng-4441176 (2.ª).
10/08/2026  Comentários ao cap15, “Advances in Materials for Mitigating Building Cooling Needs”.
11/08/2026  Decisão editorial — Materials — materials-4500126.
11/08/2026  1.º lote de provas e queries CH015/MC, ISBN 9780443509926.
11/08/2026  Tese — aceitação da avaliação da tese de Mr. Joni M (Civil Engineering).
12/08/2026  Convite aceite — Journal of the American Ceramic Society — 1651216.
12/08/2026  Convite aceite — Sustainability — sustainability-4520513.
12/08/2026  Revisão submetida — Journal of the American Ceramic Society — 1651216 
12/08/2026  2.º lote de provas, ISBN 9780443509926.
12/08/2026  Revisão submetida — Sustainability — sustainability-4495768 (versão revista).
13/08/2026  Pedido para examinador externo de tese de doutoramento.
13/08/2026  Projeto — GEOSHIELD: acesso à proposta como participante e registo
14/08/2026  Contagem e validação de figuras a cor, ISBN 9780443509926.
16/08/2026  Revisão submetida — Sustainability — sustainability-4520513 (1.ª ronda).
17/08/2026  Seguimento dos ficheiros de autorização, ISBN 9780443509926.
18/08/2026  Conferência — CIVIL2027 (Florença): convite para participação.
19/08/2026  Artigo próprio — Resubmissão R2 a Accountability in Research (269682025).
19/08/2026  Convite aceite — Technologies — technologies-4514423.
19/08/2026  Editorial — JBDE (Journal of Building Design and Environment)
20/08/2026  Convite aceite — Construction Materials (Proceedings of the ICE) —2026-107.
20/08/2026  Decisão editorial — Materials — materials-4500126 (2.ª).
23/08/2026  Decisão editorial — Materials — materials-4524017.
23/08/2026  Revisão submetida — Technologies — technologies-4514423 (1.ª ronda).
24/08/2026  constrmater-4429318 aceite para publicação.
24/08/2026  Convite aceite — Sustainability — sustainability-4544698.
24/08/2026  Projeto — MSCA-PF 2026: revisão da parte B1 da proposta.
25/08/2026  Leitura final de provas, constrmater-4429318.
26/08/2026  Pedido de autorização de reprodução (Luisa F. Cabeza)
26/08/2026  Segunda leitura de provas, constrmater-4429318.
26/08/2026  Livro — envio do capítulo 10 para apreciação.
27/08/2026  Inserção na ELSA de “Advances in Materials for Mitigating Building Cooling Needs”.
27/08/2026  constrmater-4429318 publicado (doi 10.3390/constrmater6050056).
27/08/2026  Revisão submetida — Sustainability — sustainability-4544698.
28/08/2026  Orientação — plano de trabalho do Bahador
29/08/2026  Submissão da proposta GEOSHIELD ao portal Funding & Tenders.
29/08/2026  submissão de JCLEPRO-D-26-30070
31/08/2026  Decisão editorialMaterials — materials-4484132.
31/08/2026  JCLEPRO-D-26-30070: editor atribuído.
31/08/2026  Editorial — JBDE: convite para submissão.

sábado, 19 de setembro de 2026

Daniel Susskind - AI Will Not Make Expertise Obsolete It Will Make It Indispensable

 

Still following on from the previous post, The Cognitive Surrender and The Wilfrid Laurier Test That Universities Should Fear, it is worth considering a warning recently issued by Daniel Susskind, a professor at King’s College London. In an interview published in the latest edition of the Portuguese weekly Expresso, Susskind argues that using artificial intelligence imposes an important responsibility: we must constantly question, criticise and test its answers rather than become passive recipients of what it tells us. These systems make mistakes, hallucinate and reproduce biases often while sounding entirely convincing.

This may be the defining intellectual danger of the AI age. The threat is not merely that machines can fabricate facts, but that their speed, fluency and confidence can make verification appear unnecessary. By rewarding intellectual passivity, they risk progressively eroding the habits of doubt, investigation and independent reasoning on which genuine knowledge depends. Once societies begin accepting plausibility as truth, error no longer needs to deceive us we voluntarily stop searching for it. At that point, AI ceases to be a tool for extending human thought and becomes an infrastructure for its abandonment.

This is also why Susskind believes that possessing deep knowledge in a specific field will become increasingly important. The distinction was already visible in The Failure of Autonomous AI Scientists and the Nobel Laureate Who Wants a Different AI: AI agents could operate the machinery of research, but lacked the scientific judgement required to determine which questions were worth pursuing, which evidence mattered and which conclusions were justified. A novice may use AI to produce an impressive answer, but only someone with genuine expertise can reliably identify its omissions, contradictions and false assumptions. AI may democratise the production of plausible answers; it does not democratise the judgement required to distinguish knowledge from sophisticated nonsense.

Universities that ignore this warning will not be modernising education but institutionalising a new form of intellectual dependence in which the ability to obtain immediate answers is mistaken for the ability to understand them. If they replace disciplinary knowledge with the mere capacity to prompt machines, they will produce graduates who can generate polished and authoritative responses on almost any subject yet lack the conceptual foundations required to determine whether those responses are accurate, misleading or entirely false. Far from controlling AI, such graduates will become cognitively governed by systems whose outputs they are no longer intellectually equipped to challenge. In the age of intelligent machines, expertise is therefore not becoming obsolete but emerging as a civilisational safeguard: the last barrier between a humanity that uses AI to enlarge its intelligence and one that surrenders to it by outsourcing its judgement, relinquishing its intellectual autonomy and ultimately forgetting how to think for itself.

PS — There is, however, a far more disturbing challenge to the argument for expertise. In recent experiments involving societies of autonomous AI agents, the agents did not merely exchange information, they spontaneously created their own vocabulary, shared meanings and communication conventions, while their exchanges became progressively more opaque to the humans supposed to monitor them. To observe a conversation one cannot understand is not oversight; it is spectatorship. If human experts cannot decipher the language in which AI systems coordinate, how can they evaluate, correct or control what those systems are doing? And if AI begins inventing not only answers but entirely new concepts, methods and tasks whose logic lies beyond human comprehension, the question is no longer whether human expertise can keep pace. It is whether humanity can retain intellectual sovereignty over forms of intelligence that have escaped the boundaries of human understanding.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O erro conceptual do Reitor da U.Minho e a dupla falácia da catedrática Elvira Fortunato



A revista da Ordem dos Engenheiros divulgada esta semana contém um artigo do reitor da Universidade do Minho, Pedro Arezes, sobre o valor das competências transversais numa era tecnológica. O texto sustenta, com razão, que o conhecimento técnico continua a ser indispensável, mas deixou de ser suficiente, enquanto a criatividade, o pensamento crítico, a adaptabilidade e a responsabilidade ética adquirem uma importância crescente. Perto do final, porém, Pedro Arezes deixa uma interrogação pertinente, mas formula-a pelo lado errado: pergunta se as universidades conseguirão avaliar estas competências "com o mesmo rigor e precisão com que avaliam conhecimentos técnicos". https://www.ordemdosengenheiros.pt/pt/revista-ingenium/formacao/

A questão urgente é precisamente a inversa, será que as universidades ainda avaliam verdadeiramente os conhecimentos técnicos dos estudantes? Até há pouco tempo, presumia-se que a qualidade de um trabalho reflectia, mesmo que imperfeitamente, a competência de quem o apresentava. A IA generativa rompeu essa ligação. Um estudante pode agora entregar um relatório tecnicamente irrepreensível sem compreender, saber explicar ou conseguir reproduzir o raciocínio nele contido. Mesmo aplicados com todo o rigor, os critérios de avaliação podem estar a medir a qualidade da resposta produzida pela máquina, e não o conhecimento do estudante. Um estudo recente da Wilfrid Laurier University, que mencionei esta semana no final deste post aqui, confirmou este risco. As universidades terão, por isso, de tornar novamente visível o processo intelectual, a formulação do problema, a justificação das escolhas, a identificação dos erros, a reformulação das hipóteses e a defesa oral das conclusões. 

Na mesma revista, merece também destaque, desta vez pela negativa, a seguinte afirmação da catedrática Elvira Fortunato: "O século XXI será cada vez menos determinado pela disponibilidade de recursos naturais e cada vez mais pela capacidade de gerar conhecimento, protegê-lo, transformá-lo em tecnologia e colocá-lo ao serviço da sociedade. Portugal já demonstrou que consegue formar talento e produzir ciência de excelência.»

É uma afirmação confortável, mas duplamente falaciosa. A primeira asneira consiste em afirmar que o conhecimento está a substituir os recursos naturais. O século XXI não será menos determinado por esses recursos; será provavelmente palco de uma competição ainda mais feroz pelo seu controlo. A IA exige enormes quantidades de energia, água, semicondutores e infra-estruturas. A transição energética depende de lítio, cobre, níquel, cobalto e terras raras. E nenhuma sociedade, por mais tecnologicamente avançada que seja, sobreviverá sem água potável, alimentos, solo fértil e ecossistemas funcionais. Ao contrário do que escreveu a referida catedrática, o conhecimento não aboliu, de modo algum, a materialidade da economia, na verdade, tornou determinados recursos ainda mais estratégicos. 

A segunda asneira está na invocação da alegada “ciência de excelência” portuguesa. Evidentemente, Portugal consegue formar talento e produzir casos de verdadeira excelência. A Sword Health é um deles, fundada por um jovem doutorado português, tornou-se uma empresa de enorme sucesso, que emprega mais de mil pessoas a quem paga salários médios de 3400 euros. Outro exemplo é o dos investigadores formados em Portugal que o país não conseguiu reter e que acabaram por criar, na Suécia, a Asgard Therapeutics, hoje avaliada em dezenas de milhões de euros. O êxito destes investigadores prova a qualidade do talento que Portugal forma, mas particularmente no segundo caso, é também uma acusação devastadora a um sistema que o expulsa, desperdiça e depois se apropria dos seus triunfos, uma hipocrisia que a catedrática Elvira Fortunato convenientemente silencia enquanto proclama a alegada "excelência" da ciência portuguesa. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/04/uma-brilhante-estrategia-portuguesa.html

Seja como for, a existência de algumas ilhas de excelência não transforma automaticamente o oceano que as rodeia num sistema científico excelente. A verdadeira pergunta não é se Portugal já produziu algum talento excepcional, mas se possui instituições capazes de o identificar, selecionar, reter, recompensar e transformar sistematicamente em conhecimento, inovação e prosperidade. E os indicadores internacionais estão muito longe de autorizar a autocomplacência, um país onde cerca de 75% das unidades de investigação são oficialmente classificadas como Muito Boas ou Excelentes continua na 33.ª posição num indicador internacional de excelência científica, muito próximo da Bulgária, viu as suas universidades mais bem classificadas ficarem atrás de uma universidade argentina no Ranking de Shanghai de 2026 e conquistou apenas uma ERC Starting Grant em 2026, ficando nesse indicador abaixo da Roménia e da Grécia. E como se tudo isto não bastasse, o ranking Shanghai por áreas científicas, divulgado ontem, acrescentou mais um resultado impossível de disfarçar: a U.Coimbra, a U.Nova e a U.Aveiro não conseguiram colocar uma única área científica entre as 50 melhores do mundo, nem sequer entre as 100 melhores. A distância colossal entre a excelência generosamente distribuída pelas avaliações nacionais e a mediocridade revelada pelos indicadores internacionais não é uma coincidência, é a prova de um sistema complacente, que não se consegue avaliar a si próprio com rigor, inventando uma excelência de fachada que o resto do mundo simplesmente não reconhece.