A revista da Ordem dos Engenheiros divulgada esta semana contém um artigo do reitor da Universidade do Minho, Pedro Arezes, sobre o valor das competências transversais numa era tecnológica. O texto sustenta, com razão, que o conhecimento técnico continua a ser indispensável, mas deixou de ser suficiente, enquanto a criatividade, o pensamento crítico, a adaptabilidade e a responsabilidade ética adquirem uma importância crescente. Perto do final, porém, Pedro Arezes deixa uma interrogação pertinente, mas formula-a pelo lado errado: pergunta se as universidades conseguirão avaliar estas competências "com o mesmo rigor e precisão com que avaliam conhecimentos técnicos". https://www.ordemdosengenheiros.pt/pt/revista-ingenium/formacao/
A questão urgente é precisamente a inversa, será que as universidades ainda avaliam verdadeiramente os conhecimentos técnicos dos estudantes? Até há pouco tempo, presumia-se que a qualidade de um trabalho reflectia, mesmo que imperfeitamente, a competência de quem o apresentava. A IA generativa rompeu essa ligação. Um estudante pode agora entregar um relatório tecnicamente irrepreensível sem compreender, saber explicar ou conseguir reproduzir o raciocínio nele contido. Mesmo aplicados com todo o rigor, os critérios de avaliação podem estar a medir a qualidade da resposta produzida pela máquina, e não o conhecimento do estudante. Um estudo recente da Wilfrid Laurier University, que mencionei esta semana no final deste post aqui, confirmou este risco. As universidades terão, por isso, de tornar novamente visível o processo intelectual, a formulação do problema, a justificação das escolhas, a identificação dos erros, a reformulação das hipóteses e a defesa oral das conclusões.
Na mesma revista, merece também destaque, desta vez pela negativa, a seguinte afirmação da catedrática Elvira Fortunato: "O século XXI será cada vez menos determinado pela disponibilidade de recursos naturais e cada vez mais pela capacidade de gerar conhecimento, protegê-lo, transformá-lo em tecnologia e colocá-lo ao serviço da sociedade. Portugal já demonstrou que consegue formar talento e produzir ciência de excelência.»
É uma afirmação confortável, mas duplamente falaciosa. A primeira asneira consiste em afirmar que o conhecimento está a substituir os recursos naturais. O século XXI não será menos determinado por esses recursos; será provavelmente palco de uma competição ainda mais feroz pelo seu controlo. A IA exige enormes quantidades de energia, água, semicondutores e infra-estruturas. A transição energética depende de lítio, cobre, níquel, cobalto e terras raras. E nenhuma sociedade, por mais tecnologicamente avançada que seja, sobreviverá sem água potável, alimentos, solo fértil e ecossistemas funcionais. O conhecimento não aboliu a materialidade da economia, tornou determinados recursos ainda mais estratégicos.
A segunda asneira está na invocação da alegada “ciência de excelência” portuguesa. Evidentemente, Portugal consegue formar talento e produzir casos de verdadeira excelência. A Sword Health é um deles, fundada por um jovem doutorado português, tornou-se uma empresa de enorme sucesso, que emprega mais de mil pessoas a quem paga salários médios de 3400 euros. Outro exemplo é o dos investigadores formados em Portugal que o país não conseguiu reter e que acabaram por criar, na Suécia, a Asgard Therapeutics, hoje avaliada em dezenas de milhões de euros. O êxito destes investigadores prova a qualidade do talento que Portugal forma, mas particularmente no segundo caso, é também uma acusação devastadora a um sistema que o expulsa, desperdiça e depois se apropria dos seus triunfos, uma hipocrisia que a catedrática Elvira Fortunato convenientemente silencia enquanto proclama a alegada "excelência" da ciência portuguesa. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/04/uma-brilhante-estrategia-portuguesa.html
Seja como for, a existência de algumas ilhas de excelência não transforma automaticamente o oceano que as rodeia num sistema científico excelente. A verdadeira pergunta não é se Portugal já produziu algum talento excepcional, mas se possui instituições capazes de o identificar, selecionar, reter, recompensar e transformar sistematicamente em conhecimento, inovação e prosperidade. E os indicadores internacionais estão muito longe de autorizar a autocomplacência, um país onde cerca de 75% das unidades de investigação são oficialmente classificadas como Muito Boas ou Excelentes continua na 33.ª posição num indicador internacional de excelência científica, muito próximo da Bulgária, viu as suas universidades mais bem classificadas ficarem atrás de uma universidade argentina no Ranking de Shanghai de 2026 e conquistou apenas uma ERC Starting Grant em 2026, ficando nesse indicador abaixo da Roménia e da Grécia. E como se tudo isto não bastasse, o ranking Shanghai por áreas científicas, divulgado ontem, acrescentou mais um resultado impossível de disfarçar: a U.Coimbra, a U.Nova e a U.Aveiro não conseguiram colocar uma única área científica entre as 50 melhores do mundo, nem sequer entre as 100 melhores. A distância colossal entre a excelência generosamente distribuída pelas avaliações nacionais e a mediocridade revelada pelos indicadores internacionais não é uma coincidência, é a prova de um sistema complacente, que não se consegue avaliar a si próprio com rigor, inventando uma excelência de fachada que o resto do mundo simplesmente não reconhece.