sábado, 7 de novembro de 2026

O que é que o Expresso percebe de rankings de cientistas ? Rigorosamente nada !

Alguém no semanário Expresso achou boa ideia escrever sobre um ranking de cientistas elaborado por uma tal Research.com. Em má hora o fez. Antes de lhe oferecer publicidade, teria sido conveniente cumprir uma obrigação elementar de quem escreve num jornal, a de tentar perceber se aquilo que está a divulgar merece alguma credibilidade. Como esse trabalho ficou por fazer, torna-se agora necessário explicar a quem escreveu a notícia que um ranking de cientistas, para ser minimamente credível, tem de cumprir três requisitos fundamentais:

Primeiro - Ser baseado na Scopus ou na Web of Science, para assim permitir a desambiguação de publicações, pois existem milhares de perfis "contaminados" no Google Académico com publicações de outros autores e também para evitar o lixo "científico" de citações em publicações não revistas por pares, cujo número explodiu nos últimos anos. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/06/the-economistin-just-20-years-predatory.html
Segundo ​- Ser capaz de remover o efeito da terrível praga das auto-citações, em que muitos cientistas infelizmente se tornaram verdadeiros especialistas​ ​https://www.nature.com/articles/d41586-019-02479-7
​Terceiro ​- Ser capaz de anular a vantagem artificial e perniciosa relativa às citações em publicações com centenas ou milhares de co-autores, utilizando para esse efeito a contagem fraccionada, sugerida pela primeira vez em 2008 pelo investigador Alemão Schreiber e mais recentemente por Koltun e outros. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/evaluating-researchers-in-fast-and.html

O tal pseudo ranking da Research.com consegue o espantoso milagre de não cumprir nenhuma destas condições. É o que se pode designar, sem insultar a inteligência dos leitores com eufemismos, por um ranking de tripla treta. Ninguém com um mínimo de discernimento deveria colocar no currículo uma boa classificação nesse ranking como se estivesse a apresentar uma distinção científica respeitável. Porém, o semanário Expresso achou boa ideia fazer-lhe publicidade e isso diz muito sobre o aquele semanário. Um jornal que cobra aos leitores para os informar deveria ter vergonha de lhes vender, sob a aparência de notícia, a promoção de uma classificação que nem sequer soube escrutinar.

É difícil decidir se há aqui mais ironia trágica ou mais incompetência, quando o mesmo Expresso que agora faz publicidade à tripla treta da Research.com, nunca tenha dedicado uma única notícia ao ranking Elsevier–Stanford, o único à escala mundial cuja metodologia cumpre os três requisitos acima enunciados. Entre os autores dessa metodologia estão um conhecido catedrático da Universidade de Stanford, o especialista em bibliometria Jeroen Baas, e Kevin W. Boyack e Richard Klavans, que em 2023 receberam, a Medalha Solla Price, a mais alta distinção na área dos estudos quantitativos da ciência. 

Declaração de interesses - Há alguns anos atrás, apresentei à ERC uma queixa sobre um artigo do Expresso relativo a unidades de investigação, que levou aquela entidade a concluir pela violação do dever de rigor informativo. É claro que agora o problema é outro: uma coisa é faltar ao rigor; outra é fazer publicidade à falta dele e ainda cobrar pelo serviço.

PS - A treta da lista da tal Research.com é uma iniciativa de Imed Bouchrika, professor de Informática na Argélia, cujo perfil na plataforma Scopus, apresenta um índice h de 14. Um impacto científico muito modesto para tamanha ambição classificativa. Pelos vistos, construir uma obra científica com impacto relevante exige bastante mais do que montar um ranking da treta e encontrar na imprensa Portuguesa mainstream quem lhe empreste, sem perguntas incómodas, a credibilidade que a sua metodologia não consegue conquistar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

German Researchers Expose National Bias Behind Europe’s Rhetoric of Excellence

European research funding speaks the language of excellence, but a new study by two German researchers (Fuchs-Schündeln & Holub) suggests that scientific merit receives a more sympathetic hearing when applicants share their evaluators’ national affiliations. Published in Nature Human Behaviour, “Homophily in grant evaluations” examines 37,073 European Research Council applications and finds that reviewers award higher scores to applicants who share their country of work or citizenship, particularly when both coincide. Crucially, it compares different reviewers’ assessments of the same proposal, exposing a discrepancy between claims to judge scientific content and scores that shift with national affinity. Apparently, in the rarefied world of European scientific excellence, a proposal’s virtues become more readily apparent when the evaluator recognises a familiar flag.

This warning has a history stretching back more than five years, to 24 May 2021, when my post “New study suggest that prestigious European grants might be biased” discussed a Nature report on research examining the advantage associated with having an ERC panel member affiliated with the applicant’s intended host institution. Although institutional proximity and shared nationality represent different mechanisms, both raise an uncomfortable question that the rhetoric of excellence cannot convincingly answer, despite its repeated and solemn institutional assurances: how much does success actually depend on the scientific strength of a proposal, and how much on the composition of the panel entrusted with judging it?

What makes these findings so corrosive is not that reviewers are human, but that the system speaks with such confidence about its ability to keep human partiality out of scientific judgement. Rejected applicants receive sober assessments of ambition, feasibility and originality, with no indication of whether the absence of a shared national affiliation may have influenced their scores. Yet when reviewers assess the same proposal more favourably if they share its author’s national affiliations, the vocabulary of excellence begins to conceal precisely what it claims to measure. The cruelty lies in the asymmetry, those who benefit from affinity can comfortably believe they won on merit alone, while those disadvantaged by its absence are left to search their own work for deficiencies that may never have determined the outcome. A funding system that fails to separate excellence from familiarity risks doing more than misallocating money: it teaches researchers to mistake institutional partiality for personal inadequacy, then has the audacity to call that lesson a commitment to excellence.

PS - My earlier post, “Europe’s Humiliating Exodus: How Rigged Excellence Betrays Its Peripheral Talent”, acquires an especially bitter resonance in light of these findings, because a continent that lectures researchers about excellence owes them an explanation when national affinity helps determine how that excellence is recognised. Before commissioning another solemn report on the brain drain, Europe might examine whether its own funding machinery helps push talent towards the exit, while presenting those it leaves behind with another impeccable sermon on merit,  delivered with all the usual institutional complacency.

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Entre 2021 e 2026 o Governo enviou mais de 1000 milhões euros literalmente para o lixo e em 2027 vai enviar mais 150 milhões

 

Há quase dez anos atrás, em conjunto com três professores estrangeiros (Reino Unido, Itália e Austrália), fui editor de um livro sobre a reciclagem de resíduos de plástico em betão, publicado pela prestigiada Elsevier. Em 2024, voltei a coordenar, uma nova edição, imagem supra, sobre esta temática. Recordo estes antecedentes porque o conhecimento científico disponível torna particularmente difícil aceitar a resignação com que Portugal continua a pagar pelo seu desperdício. Segundo um artigo publicado hoje no jornal Público, Portugal terá pago mais de mil milhões de euros à União Europeia, entre 2021 e 2026, pelos resíduos de plástico que não recicla. E para 2027, a proposta de Orçamento do Estado apresentada pelo Governo de Montenegro à Assembleia da República vai reservar mais 150,7 milhões de euros para pagar pela não reciclagem de cerca de 200 mil toneladas de resíduos de plástico.

Tendo porém em conta que a indústria da construção consome, em Portugal, aproximadamente 7 milhões de metros cúbicos de betão pronto e 3 milhões de toneladas de misturas betuminosas por ano, seria de esperar que o aproveitamento destes setores para reciclar plástico merecesse uma mobilização à altura da fatura. Num cenário ilustrativo em que aquele volume de betão fosse produzido em formulações estruturais, incorporando 1% de plástico em massa, seria possível reciclar aproximadamente 168 mil toneladas de plástico por ano. Já a incorporação de 1% de resíduos nas misturas betuminosas acrescentaria 30 mil toneladas, elevando a capacidade teórica conjunta para quase 200 mil toneladas anuais. 

Num país onde qualquer investimento público é sujeito a intermináveis sermões sobre rigor orçamental, seria esclarecedor perceber por que razão há tanta facilidade em reservar milhões para pagar pelo desperdício e tanta dificuldade em mobilizar conhecimento científico para o combater. O Governo de Montenegro deveria ser chamado a explicar por que razão prevê desperdiçar, no próximo ano, 150,7 milhões de euros para pagar pela não reciclagem de resíduos de plástico, uma verba que é muito superior à verba que a presidência da FCT decidiu reservar para contratar investigadores no concurso CEEC, como se financiar as consequências do desperdício merecesse maior prioridade do que contratar quem pode contribuir para o combater.  Infelizmente neste desgraçado país, a ciência tem de demonstrar permanentemente a sua utilidade, enquanto a incompetência política pode renovar todos os anos a sua dotação orçamental, sem vergonha nem consequências.