domingo, 19 de julho de 2026

Afinal, quem é que se enganou nas contas? O Expresso ou o Presidente do Conselho Consultivo da ERSAR?


O semanário Expresso dedicou duas longas páginas da primeira secção ao problema da escassez de água em Almada e ao facto de as perdas de água nos sistemas municipais rondarem os 170 milhões de metros cúbicos por ano. O artigo inclui também declarações do licenciado Diogo Manuel Mena Faria de Oliveira, atual Presidente do Conselho Consultivo e Tarifário da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR). Segundo aquele semanário, este afirmou que os municípios renovam aproximadamente 0,3% da rede por ano, "um ritmo tão reduzido que implicaria mais de mil anos para substituir integralmente as infraestruturas".

Contudo, as contas não batem certo. Para que o tempo de substituição ultrapassasse os mil anos, a taxa anual de renovação teria de rondar apenas 0,09%, e não 0,3%. Com uma taxa de 0,3%, a renovação integral da rede ocorreria em cerca de 333 anos, um prazo já de si inaceitavelmente longo, mas três vezes inferior ao valor apresentado. Não se trata de uma mera imprecisão, é um erro aritmético grosseiro que amplifica artificialmente a gravidade do problema e compromete a credibilidade de quem o divulga.

Mais grave do que o erro aritmético é o seu impacto no debate público. Quando um jornal de referência ou o responsável de uma entidade reguladora divulga um número manifestamente incompatível com a realidade, distorce a perceção da dimensão do problema. A renovação das redes de abastecimento de água é, de facto, demasiado lenta e insuficiente, mas um diagnóstico credível exige rigor quantitativo. Sem esse rigor, a evidência cede lugar à retórica numa área onde estão em causa investimentos de centenas de milhões de euros.

Quanto às referidas perdas de água, recordo que, há sete anos, divulguei no meu primeiro blogue que Portugal desperdiçava anualmente cerca de 180 milhões de metros cúbicos. Se compararmos esse valor com os atuais 170 milhões, verifica-se uma redução de apenas 10 milhões de metros cúbicos em sete anos. A manter-se este ritmo, serão necessários mais de 30 anos para que as perdas anuais desçam abaixo dos 100 milhões de metros cúbicos.

A redução das perdas poderia ser muito mais rápida se Portugal deixasse de distribuir os investimentos de forma indiscriminada e passasse a recorrer a tecnologias de deteção inteligente de fugas, monitorização permanente, gestão otimizada da pressão e modelos digitais das redes de abastecimento. Em muitos casos, estas soluções permitem reduzir significativamente as perdas com investimentos muito inferiores aos necessários para a substituição generalizada das condutas. Renovar as redes é indispensável, mas tão importante como renovar é saber quais as condutas que devem ser substituídas primeiro, de modo a maximizar o retorno de cada euro investido. O problema é que as boas decisões raramente acontecem por acaso. Exigem competência técnica e conhecimento especializado. Mas como poderá Portugal adotar uma gestão inteligente das redes de água quando, como sucedeu em Almada, o Conselho de Administração dos SMAS reunia representantes de várias áreas profissionais, mas não incluía um único engenheiro civil?

PS - O supracitado licenciado Diogo Manuel Mena Faria de Oliveira foi nomeado para o cargo em 22 de agosto de 2024. O despacho da Ministra do Ambiente refere-se-lhe pelo título de Engenheiro. No entanto, uma pesquisa no site da Ordem dos Engenheiros não permitiu encontrar o seu nome entre os membros dessa associação pública profissional. https://portugal.gov.pt/gc24/comunicacao/comunicados/novo-presidente-do-conselho-consultivo-da-entidade-reguladora-dos-servicos-de-aguas-e-residuos-

sábado, 18 de julho de 2026

O inesperado trambolhão da U.Lisboa e a queda persistente da U.Aveiro na métrica da eficiência do impacto científico

Na sequência de um recente e interessante artigo de um catedrático jubilado da universidade Politécnica de Madrid e principalmente de um parâmetro de eficiência na investigação lá mencionado, relativamente à capacidade de um sistema de investigação produzir publicações altamente citadas, artigo esse que recordo citei no post scritum do texto publicado aqui  https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/07/the-battle-for-worlds-brightest-minds.html  apresentam-se na imagem supra os valores da eficiência da investigação das seis universidades portuguesas mais competitivas, calculados a partir dos resultados das seis ultimas edições do conhecido ranking da universidade Leiden. 

Os resultados mostram que a UMinho lidera com folga em 2025, acima inclusive do valor de referência dos EUA, que foi mencionado no artigo supracitado. A UNova tem a subida mais consistente da série. A UPorto recupera de uma fase com oscilações, a UCoimbra evidencia uma recuperação sustentada desde 2022, e a ULisboa depois de subir ao longo de quatro edições sofre um tombo na última. Já a UAveiro protagoniza um declínio bastante notório, era a universidade mais eficiente do país em 2020 e é a última em 2025, numa descida quase contínua de seis edições, que não pode deixar de merecer atenção institucional urgente.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

The World's Most Expensive 54 Seconds and What They Tell Us About Climate Change


According to a remarkable study published yesterday, based on more than 120 million real-world vehicle trajectories, the average driver would sacrifice just 54 seconds per day by obeying speed limits. Society, however, pays an astonishing price to avoid those 54 seconds: an estimated 6.7 million gallons of fuel, 57,000 tonnes of unnecessary CO₂ emissions, and US$22 million in additional fuel costs every single day.   https://www.nature.com/articles/s44458-026-00100-3

What makes this study particularly fascinating is that it is really about human behaviour, not transport engineering. It exposes one of the clearest real-world examples of the classic tragedy of the commons. Each driver makes what appears to be a perfectly reasonable decision: drive a little faster to save a little time. The individual gain is so small that it is almost impossible to perceive in a single journey, yet when this behaviour is repeated millions of times every day, the cumulative consequences become staggering. Millions of litres of fuel are burned, thousands of tonnes of unnecessary carbon dioxide are released, and enormous sums of money quietly disappear—all in exchange for less than a minute.

For decades, the debate on climate change has been dominated by technology. We have looked for salvation in cleaner fuels, larger batteries, more efficient engines, autonomous vehicles, artificial intelligence, smarter infrastructure, and a constant stream of innovation. These innovations are undoubtedly important, but studies like this powerfully remind us that technology alone cannot compensate for systematically inefficient human behaviour. Some of the largest and cheapest emissions reductions may not come from inventing new machines, but from using existing ones more intelligently.

The deeper lesson extends well beyond road transport. Climate change is often portrayed as the inevitable consequence of industrial systems or technological limitations. This paper suggests a different perspective. Many environmental problems emerge because individually rational decisions accumulate into collectively irrational outcomes. We are extraordinarily good at optimising for immediate personal convenience, yet remarkably poor at recognising the enormous costs that these tiny decisions impose when multiplied across entire societies.

The real surprise is therefore not that speeding wastes energy—we have known that for decades. The surprise is the staggering scale of the imbalance. Humanity is collectively paying millions of dollars, consuming millions of gallons of fuel, and emitting tens of thousands of tonnes of carbon dioxide every single day for a reward that, on average, amounts to just 54 seconds.Rarely has so much been sacrificed for so little.

PS - Still, a word of caution is needed. As striking as these figures are, road transport is not where the cheapest carbon reductions can be achieved. As I discussed in an earlier post, cutting emissions through vehicles remains a relatively expensive way to reduce CO₂. By contrast, improving the energy efficiency of buildings consistently delivers much larger emissions reductions at a fraction of the cost and in many cases even generates net economic savingsFor anyone interested in where climate investments achieve the greatest return, the 2025 Elsevier new edition of Cost-Effective Energy-Efficient Methods for Refurbishment and Retrofitting of Buildings brings together the latest evidence on the materials, technologies, and strategies that maximize carbon reductions while minimizing costs. https://shop.elsevier.com/books/cost-effective-energy-efficient-methods-for-refurbishment-and-retrofitting-of-buildings/pacheco-torgal/978-0-443-23974-8