sexta-feira, 19 de junho de 2026

ENAAC 2030, as superficialidades do costume e a engenharia civil no seu labirinto


Em face do conteúdo dos emails infra, é evidente que interessa-me particularmente o conceito de climate proofing, inserido na Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas 2030 (ENAAC 2030) que foi ontem aprovada pelo Governo. Infelizmente, o que ali se encontra é de uma pobreza intelectual confrangedora: fala-se em incorporar critérios, mas não se nomeia um único, conseguindo-se pelo contrário a proeza de maximizar o nível de superficialidade do texto.
Que o Governo, e os seus muitos assessores, percebam pouco de engenharia civil não é propriamente surpreendente. Recordo, aliás, que o Governo de António Costa teve a brilhante ideia de mandar constituir um Conselho Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação onde até havia, por exemplo, um especialista em ciências políticas, mas onde não havia um único engenheiro civil. E, de forma improvável, vários anos depois, o Governo de Luís Montenegro conseguiu através do Despacho n.º 12699/2024, de 24 de outubro, repetir exatamente o mesmo ignorante erro, quase como se essa área científica não fosse minimamente relevante. 
O que é, porém, mais grave é que os engenheiros civis atualmente existentes no mercado também não tiveram uma formação que os capacite verdadeiramente para projectarem o tal climate proofing. Isso ficou aliás bem demonstrado numa entrevista pouco inspirada ao Expresso, no passado mês de fevereiro, em que um antigo Bastonário da Ordem dos Engenheiros, diplomado na longínqua década de 70, deu a entender que bastaria aumentar a velocidade de projeto da acção vento para acautelar a segurança das construções face ao agravamento da ocorrência dessa acção por conta das alterações climáticas. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/engenharia-civil-em-portugal-azar-dos.html
Para piorar a situação, uma análise aos planos curriculares dos cursos de Engenharia Civil do IST, da Universidade do Porto e da U.NOVA mostra que os engenheiros civis que estão atualmente a ser formados também ainda não dispõem de uma preparação robusta nesta área. Aliás, como recordei há vários meses, se em pleno ano de 2026 ainda há investigadores que necessitam de lembrar o óbvio ululante: "In a century shaped by climate disruption, resource scarcity, and cascading hazards, structural safety can no longer be confined to the binary question of collapse under a rare event....The profession must adopt a new design ethos: one that values performance over prescription, flexibility over excess, and resilience over redundancy...To meet this moment, engineering education, professional standards, and institutional missions must adapt. Future (civil) engineers must be trained not just in mechanics but in climate science...and sustainable design thinking. Codes and contracts must reward recovery capacity and carbon efficiency, not just compliance...."  Isso significa que falta ainda muito para que essa mensagem passe efectivamente à prática e falta ainda mais para que comecem a ser formados diplomados em Engenharia Civil segundo esta nova filosofia.
Em suma, o problema não está apenas na ligeireza conceptual da ENAAC 2030; está no vazio técnico, académico e institucional que ela expõe. Invoca-se o climate proofing como se a importação de uma expressão em inglês bastasse para produzir competência. Mas adaptar infraestruturas às alterações climáticas não se faz com vacuidades ministeriais: exige formação especializada, critérios quantificados, normas atualizadas, e modelos capazes de incorporar a incerteza climática futura.

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De: F. Pacheco Torgal 
Enviado: 10 de junho de 2026 13:21
Assunto: A febre da adaptação do ambiente construído às alterações climáticas
 
O facto de o livro mencionado no email infra, para o qual comecei agora a convidar os responsáveis pelos capítulos, ter sido, entre os muitos que editei, o único cuja segunda edição a Elsevier me solicitou apenas 3 (três) anos após a publicação da primeira quando, por regra, tal só acontece ao fim de 5 (cinco anos) deverá certamente querer dizer alguma coisa. Talvez seja febre

Cumprimentos
Pacheco Torgal


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De: Deschamps, Bernard
Enviado: 9 de junho de 2026 14:34
Para: F. Pacheco Torgal 
Assunto: Re: Invitation to contribute chapter nº19 to second the edition of Elsevier book- Adapting the Built Environment for Climate Change
 

Dear Pacheco-Torgal,

 

Thank you for your interest in my work. Yes, I would be interested in contributing by delivering the Chapter 19. Let me know what the next step would be.

 

Bernard Deschamps

Sciences de l’environnement

UQAM



De : "F. Pacheco Torgal" 
Date : mardi 9 juin 2026 à 06:22
À : Bernard Deschamps 
Objet : Invitation to contribute chapter nº19 to second the edition of Elsevier book- Adapting the Built Environment for Climate Change

 

Dear Colleague,

 

I am currently co-editing a second edition of the Scopus indexed book "Adapting the Built Environment for Climate Change." https://shop.elsevier.com/books/adapting-the-built-environment-for-climate-change/pacheco-torgal/978-0-323-95336-8 

 

The table of contents, consisting of 22 chapters, is provided below. In this context, I would like to inquire whether you would be interested in delivering Chapter Nº 19. The deadline for submitting the first draft is 31 of December of 2026.


Each chapter must contain a minimum of 5,000 words, excluding references. 


Best regards

Pacheco Torgal

https://orcid.org/0000-0001-7767-6787

quinta-feira, 18 de junho de 2026

The $1.5 Billion Fairy Tale: Why Swapping the Grant for "X-Labs" Will Feed Serfdom

 

A well-known researcher whom I cited in a paper I submitted last month to Accountability in Research has now published an interesting article in Science. He accepts that research grants are bureaucratic, conservative and wasteful of scientists’ time, but warns against seductively romanticising the “X-Labs” now being promoted as their replacement. His central point is that block-funded institutes do not abolish bureaucracy; they risk creating new hierarchies, entrenched rigidities and unaccountable concentrations of institutional power and patronage. Grants, for all their defects, still preserve something essential: scientific mobility, intellectual independence, multiple routes to funding and the graduate education system on which future science depends. https://www.science.org/doi/10.1126/science.aej2947?

The occasion is not a minor one. The US National Science Foundation has just committed a strategic $1.5 billion over a decade to these independent, milestone-driven institutes — organisations designed to bypass not only the traditional grant system, but also, more unsettlingly, the universities that remain the institutional engine of almost all the country’s basic science.

For my part, I would like to recall my own posts from 2023, because I have already walked the other side of this argument, and I am not about to pretend otherwise.In The Economist’s “The World Ahead 2024” — what constitutes the most efficient method for financing scientific endeavours? I argued that any honest discussion had to begin with the cost of the existing system. That cost is not merely financial. That post opened with the great unspoken scandal of the grant system: the sheer amount of human life it consumes. Australian researchers, in a single year, collectively spent an astonishing 614 years writing grant applications.

The post then examined the alternatives. The Howard Hughes Medical Institute, founded in 1953, stands apart precisely because it funds researchers, not projects — generously, for seven years or more — and then largely leaves them alone. The result? Nearly twice as many highly cited articles as the standard funding model, and a record that includes more than thirty Nobel prizes. The success was so difficult to ignore that it helped inspire, in 2021, the creation of a new research institute at Stanford — the Arc Institute — built on a similar principle.

So should I now applaud the National Science Foundation for finally seeing the light and writing a $1.5 billion cheque to the "fund people, not projects" ? I should not — and here is the distinction the reformers are careful never to draw. What made Howard Hughes work was never that it was an institute. It was that it was a private foundation that selected ruthlessly for excellence, held its people to account, and retained the courage to let them go. A state-run X-Lab, handed to the very incumbents who built the present bureaucracy, will do the precise opposite. Block funding does not abolish bureaucracy it shelters it. It is the institutional cousin of that obscene rubber stamp in my own country: a country whose last scientific Nobel Prize dates back more than 70 years, but where the machinery of self-congratulation has somehow discovered that  75% of research units were classified as "Excellent or Very Good" !!! 

This is why the author I cited is right, though for a reason he barely dares to state plainly: the grant’s one redeeming virtue is that it follows the scientist. A researcher trapped under a feudal director can still walk out and take the money with them. That portability — not block funding, not institutional palaces, not another taxpayer-financed grotesque sanctuary for incumbents — is the only serious antidote to academic serfdom academia has ever devised.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O recorde mundial de mais de 10 anos da Universidade de Harvard acaba de ser batido por uma universidade Chinesa



No post acessível no link supra, comentei para os meus leitores estrangeiros — em especial os dos EUA e da Alemanha, que nos últimos tempos têm sido os que mais visitam o meu blogue — que a famosa universidade de Harvard, por muitos anos ídolo científico do Ocidente e símbolo máximo da sua autoconfiança académica, acaba de perder o primeiro lugar do Nature Index 2026 para a Zhejiang University. O prestígio acumulado não publica artigos, não cria massa crítica nem garante liderança nenhuma; apenas anestesia quem prefere viver da reputação passada em vez de olhar para os números do presente.

Recordo que não foi certamente por acaso que, desde 2021, venho defendendo a necessidade de uma colaboração estratégica muito mais intensa entre as universidades portuguesas e as universidades chinesas. No texto abaixo, identifiquei frontalmente as instituições nacionais que mais cedo perceberam a importância dessas parcerias — e, por contraste, aquelas que, por crassa ignorância ou grossa incompetência, continuaram presas a colaborações com países irremediavelmente pouco ou mesmo nada competitivos. https://pachecotorgal.com/2023/07/29/colaboracoes-internacionais-das-instituicoes-de-ensino-superior__negligencia-ou-incompetencia/

Há dois anos, a minha percentagem de publicações, na conhecida base de literatura científica indexada Scopus, em coautoria com investigadores chineses era de 17%. Entretanto, subiu para 19%. Não se trata de um mero detalhe estatístico: é um indicador de alinhamento com uma transformação profunda da ciência mundial. E é uma percentagem muito superior à de vários investigadores portugueses altamente citados, que continuam, por conta de uma inexplicável miopia estratégica, a aproveitar de forma manifestamente insuficiente a extraordinária ascensão científica da China. https://pachecotorgal.com/2024/12/08/estarao-os-investigadores-mais-citados-de-portugal-a-aproveitar-devidamente-a-notavel-ascensao-da-ciencia-chinesa/