F. Pacheco-Torgal
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
Quais são de facto as responsabilidades da Academia no contexto de um provável e permanente futuro cenário de catástrofe ?
Tendo em conta que o investigador Alemão Ottmar Edenhofer, catedrático na universidade técnica de Berlin e presidente do conselho científico consultivo europeu sobre alterações climáticas, acaba de afirmar que a Europa tem de começar a preparar-se para um cenário de catástrofe (permanente) associado a um aquecimento de 4º C, acima dos níveis pré-industriais, sublinhando que o “princípio da precaução” exige que a UE se prepare para esse cenário e também que submeta os seus planos a testes de stress face a cenários ainda mais gravosos, que responsabilidades inadiáveis recaem sobre as universidades europeias e em particular sobre as universidades do nosso país, que acabou de sofrer, de forma particularmente trágica, os efeitos de fenómenos climáticos extremos, associados a um aquecimento global que ainda só ronda os 1.5º C?
Como é que é possível que a Academia esteja em alvoroço total com a inteligência artificial, mas permaneça totalmente indiferente à catástrofe climática anunciada há vários anos?
E será que a universidade do Porto não deveria pedir desculpas públicas aos Portugueses pelo facto de vários dos seus professores catedráticos, terem andado a difundir ideias negacionistas, que desinformam a sociedade e prejudicam o superior interesse público?
Há dezanove (19) anos atrás, o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) estabelecia, no n.º 1 do artigo 2.º, que a missão do ensino superior consistia na “qualificação de alto nível dos portugueses, na produção e difusão do conhecimento, bem como na formação cultural, artística, tecnológica e científica dos seus estudantes, num quadro de referência internacional”. Contudo, perante a necessidade de acautelar prováveis cenários de catastrofe climática, torna-se não apenas pertinente, mas urgente e inadiável, que a revisão do RJIES actualmente em curso, inequívoca e explicitamente reconheça essa nova condição civilizacional, permitindo que a sua redação possa evoluir para:
“O ensino superior tem como objetivo a qualificação de alto nível dos portugueses, a produção e difusão do conhecimento e a formação cultural, artística, tecnológica e científica dos seus estudantes, num quadro de referência internacional, assumindo igualmente a missão estratégica de preparar indivíduos intelectual e eticamente capacitados para compreender, prevenir e gerir crises globais, incluindo catástrofes climáticas e promover a resiliência da sociedade e a sustentabilidade civilizacional.”
PS - É impressionante que tenham sido necessários 7 anos, desde que um investigador diplomado por Harvard, doutorado pelo MIT e actualmente catedrático na universidade de Oxford, advertiu que no respeitante às alterações climáticas, tinha chegado a hora de entrar em pânico, para que essa urgência comece finalmente a ser interiorizada de forma institucional. Isto já para não falar, que também passaram 7 anos desde que o tal professor "apocalíptico", esteve a fazer uma apresentaçáo num evento promovido na Comissão Europeia e que eu mencionei naquele que foi o primeiro post do meu primeiro blogue https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/09/facing-disaster-great-challenges.html
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Livros indexados no quinquénio 2021-2025: A Universidade de Coimbra sobe ao segundo lugar do ranking nacional
No post do passado dia 7 de Dezembro, acessível no link supra, que foi dedicado a uma análise comparativa entre o número de livros indexados na Scopus, produzidos na universidade de Oxford com aqueles produzidos por todas as universidades e politécnicos nacionais, divulguei um ranking nacional para o período entre 2010 e 2024.
Nessa sequência é pertinente fazer hoje uma análise mais recente para o quinquénio 2021-2025, para tentar descobrir quais foram as instituições que reforçaram a sua competitividade e também aquelas que a viram reduzir-se. A nova lista abaixo, mostra que por exemplo a universidade de Coimbra conseguiu subir do 6º lugar para o 2º lugar nacional.
Destaque também para o Instituto Politécnico de Tomar que conseguiu a proeza de subir seis lugares, e para a Universidade da Madeira que subiu cinco lugares. Pela negativa, constata-se que a Universidade do Minho caiu três posições, do 3º lugar para o 6º lugar, enquanto que a UBI e a Universidade de Évora também caíram vários lugares, respectivamente quatro e cinco posições, ficando abaixo do IPCA. Já a UTAD, caiu do 14º lugar para o 27º, tornando-se a campeã absoluta das descidas, e a universidade pública com o pior desempenho, estando agora abaixo de um elevado número de Politécnicos.
É importante recordar que os livros adquiriram nas últimos anos uma importância acrescida, pois a Ciência tornou-se refém de um dilúvio de publicações avulsas (e irrelevantes), havendo por isso necessidade de "parar" para analisar o que é que a Ciência efectivamente já produziu, condição fundamental para evitar que haja quem ande a perder tempo (e dinheiro) a tentar inventar a roda: "…science has become stifled by a publication deluge destabilizing the balance between production and consumption....” vide artigo "The memory of science: Inflation, myopia, and the knowledge network" https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1751157717303139
Ranking de produção total de livros indexados na Scopus no quinquénio 2021-2025
1 - U.Lisboa..............184
2 - U.Coimbra...........131
3 - U.Aveiro...............125
4 - U.Nova................106
5 - U.Porto.................90
6 - U.Minho................86
7- ISCTE....................58
8 - I.P.Porto.................50
9 - U.Católica..............41
10 - IPCA....................26
11 - UALG..................21
12 - U.Lusófona..........15
13 - UBI......................14
14 - U.Madeira...........13
15 - U.Évora...............12
16 - I.P.Setúbal...........12
17 - I.P.Bragança........10
18 - I.Pol. Coimbra.......9
19 - I.Pol. Leiria............8
20 - I.Pol. Tomar...........7
21 - I.Pol. Viseu............6
22 - I.P. V. Castelo........6
23 - I.Pol. Portalegre....6
24 - U.Aberta................6
25 - U.Açores...............5
26 - I.P. Guarda............5
27 - I.P.Santarém..........4
28 - I.P.Lisboa...............4
29 - UTAD.....................4
30 - I.P. Beja.................2
31 - I.P. C. Branco........1
domingo, 15 de fevereiro de 2026
Dois académicos medrosos e a lamentável pobreza intelectual do Reitor Presidente
O jornal Público acaba de publicar, vide artigo acessível no link supra, a resposta do Provedor daquele jornal à minha pouco suave queixa anterior, acerca de uma lamentável notícia dedicada ao ranking da treta QS. Para a elaborar, o Provedor ouviu vários académicos, dois deles medrosos, só aceitaram pronunciar-se sob anonimato, e ouviu também o presidente do Conselho de Reitores - CRUP, o catedrático Paulo Jorge Ferreira. A intervenção deste último esteve longe de ser brilhante, bem pelo contrário, ao tentar, sem sucesso, defender o ranking QS para, de algum modo, tentar justificar a posição que já antes tinha assumido e que eu arrasei aqui https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/03/como-se-pode-classificar-um-magnifico.html
Mas o pior foi quanto tentou explicar os fracos resultados de algumas universidades portuguesas nos rankings internacionais com o baixo financiamento por aluno. Trata-se de um argumento intelectualmente pobre, pois além de ser um desvio evidente ao cerne da questão e nada acrescentar de substantivo ao debate, ignora de forma muito convenientemente problemas estruturais como este agressivo cancro académico ou os "concursos" de contornos profundamente bizarros, como aquele que teve lugar na sua universidade e, ironicamente, o facto de até existirem "ricas" universidades portuguesas classificadas abaixo inclusive de universidades de países do terceiro mundo, como divulguei aqui https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/08/a-rica-universidade-publica-que.html
O texto encerra com a autora do artigo, a jornalista e redactora principal Andreia Sanches, a tentar explicar a falha do jornal Público por não ter divulgado os resultados do Ranking Shanghai de 2025, alegando que este é publicado em agosto. Ora, a minha crítica referia-se claramente ao ranking de Shanghai por áreas científicas, divulgado em novembro, não a versão geral divulgada em agosto. Assim a justificação apresentada não só falha o alvo como ainda por cima revela um desconhecimento básico, deixando a impressão de que a jornalista conhece apenas uma única versão daquele ranking e ignora a edição mais detalhada que é publicada em Novembro e a qual na altura não deixei de divulgar aqui https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/11/quais-as-areas-cientificas-onde.html
Concluindo, se é lamentável que haja académicos pouco informados sobre rankings universitários ou se mais provavelmente recorrem a rankings da treta por não conseguirem bons resultados em rankings prestigiados, não é menos preocupante que a imprensa não consiga distinguir entre uns e outros, revelando evidentes fragilidades no escrutínio do desempenho das universidades portuguesas. Mais paradoxal ainda é o facto da mesma imprensa dedicar muito mais atenção e recursos aos rankings das escolas do ensino secundário, aberrações que nem deveriam existir, já que se limitam a cumprir duas funções tão previsíveis quanto perniciosas, por um lado servem de marketing gratuito para colégios privados, frequentados por alunos oriundos de famílias abastadas e por outro confirmam uma verdade de La Palisse, que as escolas frequentadas por alunos de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos tendem a surgir nos últimos lugares, sem que porém isso reflita necessariamente a qualidade do trabalho educativo que nelas se desenvolve.
PS - No presente contexto vale a pena revisitar o post de 17 de Agosto de 2022 de título "Um jornalismo incompetente que trata os maus resultados de algumas universidades como se fossem boas notícias" https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/08/rankings-de-universidades-e-o.html
Subscrever:
Comentários (Atom)