quarta-feira, 11 de março de 2026

Governo de Montenegro empenha-se em garantir que a ciência deste país permaneça mais 76 anos sem ganhar um prémio Nobel

 

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/mais-uma-prova-do-evidente-desprezo-do.html

Tendo em conta as críticas vertidas num post anterior, acessível no link supra, sobre a péssima decisão do Governo português de reduzir a duração dos contratos de investigadores CEEC, decisão que vai em sentido radicalmente oposto ao que tem sido recomendado por diversas análises internacionais, segundo as quais a forma mais eficaz de financiar a ciência, com vista à maximização do seu impacto, consiste muito menos no financiamento fragmentado de projetos e muito mais na atribuição de contratos de longa duração aos investigadores, idealmente com uma duração mínima de sete anos.

Aproveito assim, por isso, para divulgar uma carta que enviei ao Editor-Chefe de uma conhecida revista científica, sobre a importância da serendipidade na ciência. As evidências mostram que muitos dos avanços científicos mais importantes não resultam de planos rígidos ou de objetivos previamente definidos, mas de descobertas inesperadas que emergem de investigação exploratória conduzida por investigadores que dispõem de tempo, autonomia intelectual e estabilidade institucional. Quando os sistemas científicos impõem horizontes temporais curtos e promovem a precariedade estrutural, acabam precisamente por reduzir as condições que tornam possível a ocorrência de descobertas disruptivas. As consequências essas ultrapassam o domínio da ciência: não é apenas a produção de conhecimento que sai fragilizada, mas também a capacidade do nosso país construir o seu futuro. É, em última análise, uma receita segura para estrangular a criação de riqueza e para agravar de forma dramática a perda de talento que, todos os dias, continua a abandonar Portugal. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/universidades-portuguesas-um-modelo-que.html

Assim, ao reduzir a duração dos contratos dos investigadores, precisamente no único concurso verdadeiramente competitivo do sistema científico nacional, onde os investigadores Portugueses concorrem de igual para igual contra investigadores estrangeiros, que na última edição ganharam 30% dos contratos, este pobre Governo não está apenas a agravar a precariedade da carreira científica, está também a enfraquecer as condições estruturais que permitem a emergência de descobertas inesperadas e potencialmente transformadoras. Em vez de criar um ambiente propício à criatividade científica e ao progresso do conhecimento, essa decisão empurra o sistema para uma lógica perversa de curto prazo, burocrática e avessa ao risco, que a própria literatura internacional identifica como altamente prejudicial à inovação científica. É assim garantido que desta forma a ciência Portuguesa irá passar mais 76 anos sem conseguir ganhar um prémio Nobel. 

sábado, 7 de março de 2026

A Scenario-Based Foresight Analysis of the Future Research University in 2030

https://immersiveweek.web.app/viewer.html?file=session_2030_verified_university/04_slides/Verified_University_2030_120min_jyL4MAXw.pdf

The presentation available in the link above was recently shared with me by a colleague at the University of Aveiro and is divided into four parts:

1 – The Shock: When Intelligence Becomes Infrastructure;
2 – The Constraint: A Country That Cannot Afford to Wait;
3 – The System: Four Functions Under Simultaneous Stress;
4 – Three Futures: Denial, Adaptation, Redesign.
The proposed concept of a “Verified University” reminds me of a post I wrote in January 2024 titled:“AI has radically changed the core university business, shifting focus from teaching and publications to ‘assessment, curation, and mentoring.’” https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/01/the-economistai-generated-content-is.html 
However, the Verified University concept can be strengthened by moving beyond a narrow focus on verification toward a broader model of knowledge governance in the AI era. Universities should continue to combine knowledge production, critical interpretation, and socialization within academic communities, while using verification as a supporting infrastructure rather than the central function. Trust in science depends not only on technical verification but also on reputation, disciplinary communities, and institutional legitimacy. In this improved model, scholars would not become mere auditors of processes but would evolve into curators, interpreters, and integrators of human–AI knowledge, helping ensure both the credibility and meaningful use of increasingly abundant AI-generated knowledge.

quarta-feira, 4 de março de 2026

A refinada hipocrisia de um professor catedrático da Universidade de Coimbra


Depois das várias e fracassadas tentativas do reitor da universidade mais endogâmica de Portugal para atacar, sem sucesso, a legislação que se prevê venha a integrar o RJIES com o objetivo de combater a endogamia académica, vide post acessível no link supra, sabe-se agora que parece ter "passado" essa incumbência ao professor catedrático de Medicina, Robalo Cordeiro, cuja faculdade recorde-se apresenta uma taxa de endogamia de 99%, e que surge hoje na página 19 do jornal Público a protagonizar um exercício de refinada hipocrisia.

O seu lamentável artigo é um exercício de corporativismo travestido de preocupação pública. A proposta do RJIES não proíbe a contratação de doutorados “da casa”; limita-se a exigir um requisito mínimo de 40% de docentes formados noutra instituição. Transformar esse limiar modesto numa ameaça à continuidade dos cuidados de saúde constitui uma dramatização oportunista. Trata-se de uma tentativa de ocultar o óbvio embaraçoso: instituições que, no passado, favoreceram sistematicamente candidatos internos, prejudicando outros apenas por não pertencerem “à casa”, pretendem agora continuar a fazê-lo ao abrigo de uma exceção oportunista

Invocar “graves disfunções” hospitalares para defender a manutenção das contratações endogâmicas é uma manobra retórica que tem tanto de lamentável como de desesperada: desloca-se o debate sobre o mérito da proposta em discussão para o medo do colapso do sistema. Como se a qualidade da Medicina dependesse da absorção automática dos seus próprios doutorados e não da competição aberta e do mérito, precisamente os mecanismos que fortalecem instituições de qualidade.

A alegação de que as faculdades de Medicina são um “caso particular” não passa de um pobre argumento de exceção para preservar privilégios. Todas as áreas científicas poderiam invocar especificidades; mas fazê-lo aqui serve apenas para proteger interesses instalados. Quando quem beneficia de um modelo fechado exige isenção das regras destinadas a abrir esse modelo, não está a defender o interesse público está apenas a proteger privilégios. A hipocrisia é evidente: rebatiza-se a manutenção do fechamento como “estabilidade”, apresenta-se a defesa de interesses instalados como “continuidade” e invoca-se o bem comum para bloquear regras mínimas destinadas a travar a viciação concursal sistemática.

Porém, aquilo que está realmente em causa e sobre o qual eu escrevi numa carta que enviei ao Editor-Chefe de uma revista cientifica é que diversos catedráticos íntegros e corajosos, não se coibiram de denunciar o problema central, tendo associado a endogamia académica a riscos profundos para a integridade do ensino superior. O catedrático Michael Athans que esteve alguns anos na Universidade de Lisboa, afirmou que certos “ditadores académicos” forçam a contratação dos seus alunos medíocres, utilizando a endogamia como mecanismo para ocultar a sua própria incompetência e também que a contratação sistemática desses alunos pode perpetuar a mediocridade geral. Já o catedrático Gines-Mora foi mais longe, interpretando a endogamia como uma expressão de corrupção sistémica, em que as lealdades pessoais substituem o mérito, corroendo a transparência e a ética. No conjunto, estas análises descrevem a endogamia como um mecanismo de reprodução de poder e de proteção de interesses instalados que compromete seriamente o mérito e a integridade do ensino superior.

PS - O que teria sido verdadeiramente digno é que o supracitado catedrático Robalo Cordeiro, que agora assim escreve de forma tão descarada, antes não se tivesse refugiado num silêncio cobarde perante um processo nebuloso, noticiado pela revista Sábado. Um episódio pouco digno, que nunca foi cabalmente esclarecido, que lançou uma sombra sobre a Universidade de Coimbra e envergonhou este país, ao alimentar a percepção de que, naquela instituição, os interesses das “dinastias” familiares, expressão usada pela referida revista, podem sobrepor-se ao interesse público, aos princípios constitucionais da igualdade e do mérito e aos valores de transparência e de ética republicana que devem reger todas as instituições do ensino superior, sejam elas públicas ou privadas.  https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/insinuacao-de-plagio-em-doutoramento-abre-caca-as-bruxas-em-coimbra?