https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/06/uminho-5-duvidas-e-uma-omissao-reitoral.html
Na sequência do post anterior, acessível no link supra, onde critiquei um artigo do Reitor da Universidade do Minho sobre o problema das universidades europeias terem cada vez menos estudantes, e sobre o facto de não ser solução pôr os mesmos jovens a circular entre universidades, pois tal não resolve o problema, apenas o redistribui, importa agora sublinhar uma segunda omissão, provavelmente mais séria, a possibilidade de a IA destruir parte relevante do mercado formativo tradicional.
O problema já não é apenas saber quantos jovens existem. É saber que formação ainda estarão dispostos a comprar, que diploma continuará a ter valor e que competências justificarão anos de propinas, deslocações e alojamento. Durante décadas, a universidade vendeu uma promessa estável, estudar vários anos, obter um diploma e entrar num mercado que reconhecia esse diploma como sinal de competência profissional. Essa cadeia começou agora a ser corroída a um ritmo bastante acelerado.
Muitas tarefas cognitivas que sustentavam a promessa económica de tantos cursos estão a ser automatizadas. As empresas percebem que nem sempre precisam de diplomados com formações longas quando conseguem formar utilizadores operacionais em ciclos mais curtos. E o próprio estudante pergunta se vale a pena pagar caro por uma formação lenta, quando parte do conhecimento instrumental se obtém de forma rápida, personalizada e barata. Isto não significa que as universidades deixem de ser necessárias. Significa algo pior para quem vive da inércia, deixarão de ser automaticamente necessárias, vide a declaração do catedrático jubilado Robert Reich, "A four-year college degree isn’t necessary for many of tomorrow’s good jobs" https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/05/pessimas-noticias-para-recem-diplomados.html
E é aqui que a tal linguagem das alianças, da mobilidade e dos consórcios se revela bastante pequena. Uma universidade pode assinar dezenas de memorandos mas se continuar a vender a mesma formação abstrata, burocrática e desligada das mutações reais do trabalho, estará apenas a decorar uma estrutura em perda de relevância.
E é também aqui que regressa o importante dilema do Presidente do Técnico sobre Como conseguir transformar docentes naquilo que eles não querem ou não conseguem ser" Se os professores deixaram de ser os únicos mediadores entre o saber e os estudantes, então o professor deixa de poder limitar-se a expor informação. Passa a ter de orientar pensamento crítico, treinar julgamento autónomo rigoroso e a inspirar exigência intelectual.
Porém durante décadas as universidades contrataram e promoveram docentes sobretudo com base na antiguidade e também como confessou um conhecido catedrático, hoje Reitor de uma universidade no Norte do país, no facto dos candidatos terem feito favores aos colegas mais velhos. Não os escolheram certamente por serem mentores inspiracionais ou apóstolos da pedagogia. E agora descobrem, demasiado tarde, que não se fabricam professores transformadores e inspiradores com os critérios endogâmicos, clientelares, corporativos e conformistas que durante décadas premiaram "...a obediência, quando não a mediocridade", catedrático Jorge Calado dixit.
PS - Inesperada e até algo ironicamente é precisamente o curso de engenharia civil cuja procura académica sofreu uma hecatombe há uma década atrás que se assume como uma das áreas menos vulneráveis à substituição pela IA porque está diretamente ligada à proteção da vida (vide a recente tragédia Venezuelana), à segurança coletiva e ao funcionamento diário da sociedade. Edifícios, pontes, estradas, barragens, redes de água, saneamento e energia não são abstrações digitais, são sistemas físicos onde os erros podem matar. Projetar, construir e reabilitar infraestruturas exige presença em obra, conhecimento de solos, de materiais, de clima, de normas nacionais e em muitos casos de regulamentos locais. Acresce que as obras de engenharia civil são concebidas para durar décadas, o que implica garantias legais, exigências de desempenho ao longo do tempo e responsabilidade técnica continuada por parte dos engenheiros civis. A inteligência artificial pode apoiar cálculos e modelos, mas não substitui os engenheiros civis que interpretam incertezas e tomam decisões perante riscos estruturais, sísmicos, hidráulicos ou ambientais e que assumem responsabilidades legais permanentes. E num planeta cada vez mais quente, a importância da engenharia civil irá tornar-se incontornável. Um parque habitacional envelhecido e projectado para outro clima terá de resistir ao calor extremo, muito pior do que aquele que agora atinge a Europa, a secas, a cheias, a incêndios e à degradação acelerada. A habitação deixará assim de significar apenas construção ou eficiência energética para se tornar o lugar onde a engenharia civil actua como o garante da dignidade humana perante a emergência climática.