Depois das várias e fracassadas tentativas do reitor da universidade mais endogâmica de Portugal para atacar, sem sucesso, a legislação que se prevê venha a integrar o RJIES com o objetivo de combater a endogamia académica, vide post acessível no link supra, sabe-se agora que parece ter "passado" essa incumbência ao professor catedrático de Medicina, Robalo Cordeiro, cuja faculdade recorde-se apresenta uma taxa de endogamia de 99%, e que surge hoje na página 19 do jornal Público a protagonizar um exercício de refinada hipocrisia.
O seu lamentável artigo é um exercício de corporativismo travestido de preocupação pública. A proposta do RJIES não proíbe a contratação de doutorados “da casa”; limita-se a exigir um requisito mínimo de 40% de docentes formados noutra instituição. Transformar esse limiar modesto numa ameaça à continuidade dos cuidados de saúde constitui uma dramatização oportunista. Trata-se de uma tentativa de ocultar o óbvio embaraçoso: instituições que, no passado, favoreceram sistematicamente candidatos internos, prejudicando outros apenas por não pertencerem “à casa”, pretendem agora continuar a fazê-lo ao abrigo de uma exceção oportunista.
Invocar “graves disfunções” hospitalares para defender a manutenção das contratações endogâmicas é uma manobra retórica que tem tanto de lamentável como de desesperada: desloca-se o debate sobre o mérito da proposta em discussão para o medo do colapso do sistema. Como se a qualidade da Medicina dependesse da absorção automática dos seus próprios doutorados e não da competição aberta e do mérito, precisamente os mecanismos que fortalecem instituições de qualidade.
A alegação de que as faculdades de Medicina são um “caso particular” não passa de um pobre argumento de exceção para preservar privilégios. Todas as áreas científicas poderiam invocar especificidades; mas fazê-lo aqui serve apenas para proteger interesses instalados. Quando quem beneficia de um modelo fechado exige isenção das regras destinadas a abrir esse modelo, não está a defender o interesse público está apenas a proteger privilégios. A hipocrisia é evidente: rebatiza-se a manutenção do fechamento como “estabilidade”, apresenta-se a defesa de interesses instalados como “continuidade” e invoca-se o bem comum para bloquear regras mínimas destinadas a travar a viciação concursal sistemática.
Porém, aquilo que está realmente em causa e sobre o qual eu escrevi numa carta que enviei ao Editor-Chefe de uma revista cientifica é que diversos catedráticos íntegros e corajosos, não se coibiram de denunciar o problema central, tendo associado a endogamia académica a riscos profundos para a integridade do ensino superior. O catedrático Michael Athans que esteve alguns anos na Universidade de Lisboa, afirmou que certos “ditadores académicos” forçam a contratação dos seus alunos medíocres, utilizando a endogamia como mecanismo para ocultar a sua própria incompetência e também que a contratação sistemática desses alunos pode perpetuar a mediocridade geral. Já o catedrático Gines-Mora foi mais longe, interpretando a endogamia como uma expressão de corrupção sistémica, em que as lealdades pessoais substituem o mérito, corroendo a transparência e a ética. No conjunto, estas análises descrevem a endogamia como um mecanismo de reprodução de poder e de proteção de interesses instalados que compromete seriamente o mérito e a integridade do ensino superior.
PS - O que teria sido verdadeiramente digno é que o supracitado catedrático Robalo Cordeiro, que agora assim escreve de forma tão descarada, antes não se tivesse refugiado num silêncio cobarde perante um processo nebuloso, noticiado pela revista Sábado. Um episódio pouco digno, que nunca foi cabalmente esclarecido, que lançou uma sombra sobre a Universidade de Coimbra e envergonhou este país, ao alimentar a percepção de que, naquela instituição, os interesses das “dinastias” familiares, expressão usada pela referida revista, podem sobrepor-se ao interesse público, aos princípios constitucionais da igualdade e do mérito e aos valores de transparência e de ética republicana que devem reger todas as instituições do ensino superior, sejam elas públicas ou privadas. https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/insinuacao-de-plagio-em-doutoramento-abre-caca-as-bruxas-em-coimbra?