terça-feira, 8 de setembro de 2026

Novas evidências desmascaram a pseudoexcelência científica portuguesa

 

Na sequência de uma bizarra avaliação das unidades de investigação, na qual a proibição do recurso a métricas, que critiquei repetidamente, e que culminou numa extraordinária anormalidade estatística de cerca de 75% das unidades de investigação terem sido classificadas como Muito Bom ou Excelente, Portugal foi oficialmente consagrado como uma "potência" científica mundial. Acredite quem quiser neste milagre científico nacional.

Sucede, porém, que continuam a acumular-se evidências da reduzida competitividade internacional da ciência portuguesa. Primeiro, Portugal ocupa apenas a 33.ª posição num exigente indicador internacional de excelência científica, perigosamente próximo da Bulgária, pela qual, a manter-se a atual trajetória, será ultrapassado nos próximos anos. Segundo, as universidades portuguesas mais bem classificadas ficaram abaixo de uma universidade argentina no Ranking de Shanghai de 2026 e agora, nos resultados das milionárias ERC Starting Grants, anunciados há poucos dias, Portugal surge abaixo da Roménia e da Grécia, como mostra a lista apresentada no final deste post.

Como se explica, então, que tamanha concentração de unidades oficialmente Muito Boas ou Excelentes não tenha conseguido afastar Portugal da proximidade embaraçosa da pobre Bulgária num indicador de excelência científica, não tenha permitido colocar uma única universidade portuguesa à frente de uma universidade da pobre argentina, e agora não tenha conseguido conquistar mais do que uma única bolsa milionária das ERC Starting Grants?

A solução para a falta de competitividade internacional da ciência portuguesa é conhecida e, no essencial, simples. Implementá-la, porém, é extraordinariamente difícil, porque obrigaria a arrancar pela raiz a teia de interesses instalados que sequestrou o sistema universitário, protege a mediocridade e transforma demasiados concursos públicos em instrumentos de distribuição de carreiras, poder e privilégios. Passa por combater a endogamia académica e tornar muito mais difícil a viciação dos concursos, seja exigindo uma qualificação científica mínima para o acesso às categorias de professor associado e catedrático, como há muitos anos sucede em Itália, seja permitindo que apenas cheguem à fase final dos concursos  somente os candidatos que tenham sido previamente seleccionados por especialistas internacionais de reconhecido nível mundial, como acontece nas universidades da Suécia. 

PS - A propósito da supracitada proibição do uso de métricas na avaliação das unidades, recordo a pertinência do artigo subscrito por três professores catedráticos, incluindo um antigo reitor, em defesa da sua utilização, que divulguei no passado dia 10 de Agosto sob o título: As métricas não substituem a avaliação científica, mas tornam a mediocridade muito mais difícil de esconder. 

País

Bolsas ERC por milhão de habitantes

Suíça

3,997

Dinamarca

3,154

Finlândia

2,135

Suécia

2,056

Áustria

1,976

Países Baixos

1,789

Bélgica

1,783

Luxemburgo

1,455

Chipre

1,447

Noruega

1,238

Israel

1,140

Alemanha

1,064

Irlanda

0,933

Reino Unido

0,672

Chéquia

0,570

França

0,569

Eslovénia

0,473

Espanha

0,397

Itália

0,373

Lituânia

0,357

Polónia

0,159

Roménia

0,106

Grécia

0,101

Portugal

0,096


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Os importantes limites científicos da nova ferramenta de inteligência artificial da Elsevier para a investigação - LeapSpace

  

A Elsevier lançou recentemente uma versão substancialmente melhorada do LeapSpace, uma ferramenta de inteligência artificial que, recorrendo a mais de 100 milhões de registos indexados no Scopus, transforma perguntas científicas complexas em relatórios extensos, estruturados e sustentados por referências, procurando identificar tendências, contradições e possíveis lacunas de investigação

A amplitude destes números pode, contudo, criar uma impressão enganadora de exaustividade. Mais de 100 milhões de registos bibliográficos não significam mais de 100 milhões de documentos integralmente analisáveis. Para a maioria das publicações, o LeapSpace dispõe apenas do título, do resumo e dos metadados, estando o acesso ao texto integral limitado às publicações da Elsevier e ao conteúdo seleccionado de um conjunto de parceiros. Uma análise publicada pela Science estimou que a Elsevier e os seus parceiros representavam apenas cerca de 22% dos artigos de investigação e revisão publicados. 

Existe ainda uma limitação metodológica fundamental, as pesquisas do LeapSpace são probabilísticas. A própria Elsevier reconhece que uma mesma pergunta pode, em momentos diferentes, produzir respostas e conjuntos de referências ligeiramente distintos. Por essa razão, recomenda que os termos identificados pela ferramenta sejam posteriormente convertidos numa pesquisa booleana no Scopus, de modo a gerar resultados determinísticos e reprodutíveis. Um relatório produzido pelo LeapSpace não constitui, portanto, uma estratégia de pesquisa que outro investigador possa repetir exactamente e obter necessariamente os mesmos resultados.

Esta limitação torna-se particularmente problemática quando se pretende demonstrar a novidade de uma investigação. O facto de o LeapSpace não encontrar determinado estudo não significa que esse estudo não exista; significa apenas que não foi recuperado no universo documental a que a plataforma teve acesso nem através da estratégia de pesquisa automaticamente seleccionada. O silêncio da ferramenta não constitui portanto uma prova cabal de inexistência. Por conseguinte, não é cientificamente legítimo afirmar que “não existem estudos publicados” apenas porque a ferramenta LeapSpace não os identificou.

As reservas supracitadas não anulam de todo a utilidade do LeapSpace; apenas delimitam o alcance científico das conclusões que dele podem ser retiradas. É sobretudo nas fases preliminares de uma investigação que esta ferramenta revela o seu maior valor, oferecendo uma primeira cartografia de áreas ainda pouco familiares, ajudando a reconhecer a terminologia especializada e os autores mais relevantes e permitindo formular questões mais rigorosas antes de se avançar para uma pesquisa bibliográfica formal e reprodutível.

domingo, 6 de setembro de 2026

Presidente do Técnico arquiva caso de assédio e impõe silêncio aos denunciantes

 

O título deste post é uma cópia integral de um título que hoje aparece na capa do jornal Público e diz respeito a um artigo chocante, acerca de oito docentes do Instituto Superior Técnico, todos com mais de vinte anos de carreira, que denunciaram um professor catedrático por alegadas práticas de assédio laboral moral prolongadas durante 25 anos. 

Entre os comportamentos descritos encontravam-se o bloqueio da progressão profissional, o condicionamento de concursos, as limitações no acesso a recursos científicos, a exclusão de projectos e a desautorização pública. O instrutor externo designado pela Inspecção-Geral da Educação e Ciência considerou demonstradas três infracções disciplinares e chegou a propor uma multa, que foi posteriormente reduzida à sanção mínima de uma (suave) repreensão escrita, porém, nem mesmo essa censura meramente simbólica sobreviveu à decisão final do Presidente do Técnico, que optou por não aplicar qualquer sanção.

A primeira infracção dizia respeito à preparação de dois concursos internacionais cujas especificações restringiam artificialmente a concorrência e favoreciam a convicção de que os lugares se destinavam a candidatos previamente identificados. A gravidade desta conclusão é reforçada pelo facto de os próprios órgãos do Instituto Superior Técnico terem posteriormente considerado que os editais limitavam indevidamente o acesso aos concursos, determinando a sua anulação e a abertura de novos procedimentos sem aquelas restrições.

A segunda envolveu uma confrontação pública com um dos professores queixosos, na presença de estudantes. Segundo o relatório, o professor catedrático adoptou uma insistência excessiva e desproporcionada, percepcionada como humilhação pública, mesmo depois de o docente em causa ter tentado terminar a conversa e chegado ao extremo de ter de explicar que necessitava de sair para uma consulta médica.

A terceira matéria relacionou-se com um programa informático utilizado em actividades de ensino e investigação. O instrutor concluiu que o acesso ao referido programa dependia da autorização pessoal do professor catedrático, que o podia disponibilizar ou recusar segundo critérios absolutamente discricionários. Esse controlo pessoal foi considerado incompatível com um acesso institucional aberto à comunidade académica.

Uma situação particularmente bizarra e grave deste caso ocorreu logo no seu inicio. Os oito docentes pediram um processo de averiguações que permitisse examinar, sem uma delimitação temporal prévia, o comportamento alegadamente mantido durante 25 anos pelo referido professor catedrático, porém o Presidente do Técnico decidiu abrir um processo disciplinar, circunscrevendo o escrutínio relevante aos doze meses anteriores. A gravidade desta opção torna-se ainda mais evidente quando foi o próprio instrutor a reconhecer que semelhante limitação impediu a ponderação da totalidade dos factos denunciados.

Ironicamente porém o presidente do Técnico recusa que a sua decisão tenha impedido a recolha de elementos anteriores. Ainda assim, existe uma contradição difícil de ignorar, escolheu um procedimento incapaz de abranger plenamente os 25 anos denunciados e invocou-se depois a ausência de prova de um comportamento prolongado, reiterado e sistemático para justificar o arquivamento. Criou-se, assim, uma espécie de círculo processual perfeito, o tempo investigado foi drasticamente reduzido e a impossibilidade de demonstrar dentro desse período um padrão com décadas de duração acabou por favorecer o encerramento do caso. Mais grave ainda é o facto do Presidente do Técnico ter arquivado o processo sem aplicar qualquer sanção ao professor catedrático, apesar de o instrutor externo ter considerado provadas três infracções disciplinares

Devo recordar que, há cerca de um ano atrás, quando este processo teve início, escrevi que, mesmo que viessem a ser provadas condutas disciplinarmente censuráveis, o máximo que provavelmente aconteceria ao referido catedrático seria a aplicação de uma pena mínima. Em face do resultado agora conhecido enganei-me apenas por excesso de optimismo, na verdade nem sequer essa pena mínima lhe foi aplicada. No referido post merece recordação a corajosa frase que soa a acusação feita então pelo conhecido catedrático Manuel Heitor: “O presidente do Técnico decidiu não tratar este caso internamente e tratá-lo no foro jurídico...Isso é mau, porque protege o [suposto] agressor”  https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/09/o-professor-catedratico-acusado-de.html

Porém o aspecto mais inquietante de todo o processo surgiu no final do despacho, já que depois de arquivar o processo disciplinar e de deixar sem qualquer sanção as três infracções disciplinares dadas como provadas, o Presidente do Técnico determinou aos oito denunciantes a “observância do dever de confidencialidade inerente ao procedimento disciplinar”. O resultado é por isso profundamente perturbador, já que o professor catedrático visado não recebeu qualquer sanção, enquanto os oito docentes que denunciaram os acontecimentos recebem uma ordem explícita para permanecerem caladinhos. Independentemente da intenção jurídica do despacho, o efeito intimidatório é evidente. A mensagem transmitida à comunidade académica é a de que denunciar comportamentos de catedráticos pode ser muito mais arriscado do que praticar condutas que um instrutor independente considerou disciplinarmente censuráveis.

PS - Faço votos de que ainda exista, na Universidade de Lisboa, alguém com a coragem moral de escrever publicamente aquilo que um professor da Universidade do Porto afirmou perante um caso semelhante que ocorreu na sua universidade: "Todo este processo envergonha a UP e a sua comunidade, e devia provocar um profundo repúdio de todos os professores, de toda a academia. Haja vergonha!" https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/05/a-extraordinaria-falta-de-vergonha-de.html Ou será que os professores da Universidade de Lisboa preferirão esconder-se atrás de um silêncio cobarde, fingindo que um processo desta gravidade não cobre de vergonha a universidade a que pertencem ?