Na sequência de um post anterior de Maio de 2025, acessível no link supra, intitulado “Péssimas notícias para recém-diplomados: relatório mostra que dezenas de milhões de empresas preferem apostar na inteligência artificial”, faz agora todo o sentido divulgar uma entrevista particularmente interessante que o catedrático Eric Mazur, da prestigiada Universidade de Harvard, concedeu ao jornal Público e que hoje integra a edição impressa daquele diário, entrevista essa de onde retirei a questão que dá título a este post.
O catedrático Eric Mazur desenvolveu um método de ensino que substitui as aulas expositivas tradicionais por um modelo de aprendizagem activa centrado nos estudantes. Neste método, a transmissão de conteúdos ocorre antes da aula, sendo o tempo presencial dedicado a perguntas, reflexão individual, discussão entre pares e argumentação.
Tenha-se presente que uma pesquisa no seu perfil de investigador, na plataforma Scopus, que permite saber que o catedrático Mazur é titular de um h-index=75, revela que a sua segunda publicação mais citada de sempre, é precisamente sobre o referido método de ensino inovador: "Peer Instruction: Ten years of experience and results" https://www.scopus.com/authid/detail.uri?authorId=7005375930
Pessoalmente, entendo que a primeira crítica substantiva ao método do catedrático Eric Mazur incide sobre a sua viabilidade prática. Em contextos de ensino com centenas de estudantes, o método revela-se inaplicável, porque as suas próprias premissas pedagógicas assentam numa interação e proximidade entre professor e aluno que são incompatíveis com o ensino massificado. A este propósito, atente-se na descrição seguinte feita por uma professora, que ilustra de forma clara o referido constrangimento: "Depois da minha primeira aula para uma plateia de mais de 700 pessoas, uma estudante esperou pacientemente para se apresentar. Ela confessou que me queria me conhecer porque, do lugar dela no fundo da sala, eu ‘parecia uma formiga’.” https://teaching.resources.osu.edu/teaching-topics/teaching-large-enrollment-courses
O artigo não o refere, mas importa ressalvar, porque isso é evidente, que o método referido assenta numa premissa fundamental: exige docentes com um domínio profundo da matéria que lecionam, e que sejam também capazes de compreender as dificuldades conceptuais típicas dos estudantes, antecipar os seus erros mais frequentes e ainda a capacidade de formular perguntas que estimulem o pensamento crítico e a reflexão. Exigindo por isso docentes bastante diferentes daqueles docentes que no ano passado se tornaram noticia por conta de "pérolas pedagógicas" inspiradoras como aquelas que abaixo se reproduzem:
“não vou explicar porque não vai perceber”
“Quem não teve mais de 15...pode sair e trabalhar no Pingo Doce"
Acresce que uma pesquisa no site da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, relativa ao Perfil do Docente do Ensino Superior – 2024/2025, revela que vários milhares de docentes do ensino superior possuem apenas o grau de licenciatura e que por uma feliz coincidência, o jornal Público noticia hoje que mais de 40% dos docentes do ensino superior, representando milhares de docentes, não possuem doutoramento. E, se levarmos ainda em linha de conta que mesmo entre muitos doutorados é frequente não se verificar um domínio profundo da matéria em que alegadamente se especializaram (basta olhar para aqueles com um h-index=0, incapazes de produzir um único artigo científico credível, como aquele professor que a Universidade do Porto despediu, tornam-se evidentes as dificuldades em tentar aplicar o método pedagógico do catedrático Eric Mazur ao ensino superior português.
PS - Há duas formas de encarar o desmotivador contexto atual em que muitos empresários, especialmente lá fora, porque por cá o talento é escasso, optam por não contratar recém-diplomados, por considerarem que estes não oferecem um valor superior ao da inteligência artificial. Uma é a visão fatalista, resignada, ao estilo do fado lusitano. A outra muito mais inspiradora aconselha a aproveitar a oportunidade que isso representa. Muitos recém-diplomados possuem algo que a IA não tem: uma elevada propensão ao risco e essa virtude permite-lhes aspirar a mais do que simplesmente trabalhar por conta de outrem. Assim, a relutância dos empresários em contratar jovens recém-diplomados pode, paradoxalmente, transformar-se numa oportunidade para um aumento substancial do número de startups, como foi o caso do agora famoso doutorado da Univ. de Aveiro, que se tornou multimilionário, juntamente com vários outros colaboradores da empresa que fundou. E mesmo que que essa aventura empresarial acabe por ser um fracasso económico, é mais fácil para um jovem recém-diplomado, conseguir um emprego numa empresa estrangeira, tendo no currículo uma experiência empresarial mal-sucedida do que tendo apenas um diploma académico.