quarta-feira, 9 de agosto de 2023

A deplorável lista do Expresso que elegeu os fabulosos 100 Portugueses que "marcaram e vão marcar o país e o mundo"


Para comemorar os 50 anos do seu aniversário, o semanário Expresso achou boa ideia selecionar 100 Portugueses, que a fazer fé naquele órgão da imprensa, "marcaram e vão marcar o país e o mundo". Na lista dos tais 100 (gloriosos) nomes, que se reproduz no final  do presente post, aparecem 14 Académicos, cujo nome realcei a cor amarela, número que é quase o mesmo dos nomes dos Portugueses (gloriosos) ligados à área do desporto. Quase como se o contributo de uns e de outros para o progresso de Portugal fosse idêntico !

Admito, que me move um sentimento critico e até de repulsa pela valorizaçáo social de qualquer "campeão desportivo" (leia-se gente que consome milhares de calorias diariamente (o Michel Phelps consumia 12.000 por dia) para produzir rigorosamente nada que possa beneficiar ainda que minimamente a Humanidade), repulsa essa bem patente aliás em posts vários, como por exemplo naquele de 24 de Agosto de 2020, de título "Presidente Marcelo felicita Português campeão de cuspir a maior distância" https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/08/presidente-marcelo-felicita-portugues.html

Ou naquele outro post de 2019, no qual critiquei a revista Visão, que nesse ano teve a péssima ideia de fazer um artigo deplorável sobre  "100 figuras da década" onde apareciam 29 (vinte e nove) Portugueses alegadamente "notáveis", vários deles ligados ao mundo futebolístico, mas apenas um único cientista ! https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/12/a-maquina-de-estupidificar-os.html 

Atente-se, para efeitos comparativos, que numa lista de 100 notáveis Franceses, havia 6 desportistas, que note-se constituem metade da percentagem da lista Portuguesa e na lista sobre os 100 Britânicos mais notáveis, aparecem apenas quatro pessoas ligadas ao desporto (dois futebolistas, um remador olímpico, 5 vezes campeão do mundo e um individuo que bateu 8 recordes mundiais de velocidade) lista essa, onde é bom frisar, nem sequer apareceram vários conhecidos cidadãos Britânicos que sozinhos ganharam várias medalhas de ouro olimpicas  https://en.wikipedia.org/wiki/100_Greatest_Britons 

Não será por isso absurdo admitir que esta valorização excessiva, perniciosa e contranatura de desportistas Portugueses, numa percentagem anormalmente superior à dos Britânicos, sendo que muitos deles nunca fizeram nada de especialmente relevante a nível mundial, é uma prova inequívoca de um país ainda muito atrasado, que se mostra incapaz de se libertar desse atraso, que até é afinal promovido pela própria imprensa dita "mainstream".  

Esta desprezível forma de colocar cientistas ao mesmo nível de gente ligada ao desporto, não pode desligar-se da forma igualmente desprezível como este Governo tem andado a subfinanciar o ensino superior, tenha-se presente que o orçamento universitário de 2023, foi inferior ao de 2010, e se os valores forem analisados em percentagem do PIB, então o resultado é ainda mais vergonhoso, pois constata-se que o valor do orçamento das universidades públicas em 2023 é metade do valor de 2010, vide fig 4.2 na página 63 na publicação de Aguiar-Conraria et al. https://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/81109/1/2022_12_05%20Financiamento%20do%20ES%20em%20Portugal.pdf

Ainda relativamente à tal famigerada lista do Expresso, na parte dos Portugueses ligados de uma forma ou de outra à Academia, já tinha sido mau que o mesmo Expresso, tivesse optado por valorizar um pequeno número, mas pior do que isso, a sua capacidade para escolher cientistas que alegadamente "vão marcar o país e o mundo" é no mínimo motivo de forte riso, pois até foi ao extremo de escolher uma investigadora, de nome Clara Sousa-Silva (que ao fim de 10 anos de investigação, possui apenas 1 (um) artigo com mais de 150 citações), investigadora essa que esteve associada a uma alegada "descoberta" (da vida no Planeta Vénus!!!) hipótese que depois nem sequer se confirmou  https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/09/a-maior-descoberta-do-seculoo-expresso.html

Aliás, não é de agora a incapacidade do Expresso em conseguir descobrir, investigadoras de elevado potencial, pois há alguns anos atrás, também já tinha repetido esse falhado exercício, quando publicou um artigo excessivamente elogioso, sobre uma investigadora de nome Zita Martins, quase como se ela fosse a próxima "Alberta Einstein", (que ao fim de quase 20 anos de investigação, possui apenas 1 (um) artigo com mais de 150 citações) quando afinal a mesma nem sequer consegue aparecer num conhecido ranking, da universidade de Stanford, onde há 100.000 (cem mil) investigadores https://elsevier.digitalcommonsdata.com/datasets/btchxktzyw/5

Ou quem sabe, talvez essa obsessão com a valorização forçada de alegadas "promissoras" jovens mulheres cientistas, sirva afinal para confirmar a hipótese de que aos cientistas Portugueses do género masculino, mais não resta do que tentaram mudar de sexo, para conseguirem que a tendenciosa imprensa Portuguesa reconheça a importância do seu trabalho https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/03/cientistas-do-genero-masculino-forcados.html

Declaração de interesses - Declaro que já por diversas vezes critiquei o Expresso e em 2018 consegui até que a ERC tivesse produzido uma deliberação, na qual se confirma que o Expresso violou (repetidamente) o dever de rigor informativo https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/08/estara-o-expresso-viciado-em-fake-news.html


Os 100 Portugueses que (alegadamente)  marcaram e vão marcar o país e o mundo  
- Mário Soares
- Leonor Caldeira
- Sá Carneiro
- Carlos Moedas
- Mariano Gago
- Nuno Maulide
- António Damásio
- João Costa Ribeiro
- Mário Moniz Pereira
- Francisca Veselko
- Luís Miguel Cintra
- Albano Jerónimo
- José Afonso
- MARO
- Luiz Villas-Boas
 - Salvador Sobral
- Álvaro Cunhal
- Alice Gato
- Marcello Caetano
- João Maria Jonet
- Cavaco Silva
- Fernando Medina
- Pinto Balsemão
- Pedro Oliveira
- Tolentino Mendonça
- Américo Aguiar
- A. Lobo Antunes
- Gonçalo M. Tavares
- Cristiano Ronaldo
- Kika Nazareth
- José Mourinho
- João Almeida
- António Variações
- Tamara Alves 
- Lopes-Graça
- Ricardo Vieira
- Orlando Ribeiro 
- António Brito Guterres
- G. Ribeiro-Telles
- Catarina Barreiros 
- Jorge Sampaio
- Graça Canto Moniz
- Maria de Lourdes Pintasilgo
- Luisa Salgueiro
- Herman José
- Joana Marques
- Maria João Pires
- Hugo Canoilas
- Julião Sarmento
- Fernão Cruz
- Siza Vieira
- Inês Vieira da Silva e Miguel Vieira
- Manoel de Oliveira
- Catarina Vasconcelos
- José Saramago
- Andreia C.Faria
- Pinto da Costa
- Diogo Ribeiro
- Belmiro de Azevedo
- Ricardo Reis
- António Guterres
- Clara Sousa-Silva 
- Américo Amorim
- Miguel Faria-e-Castro
- Alexandre Soares dos Santos
- Daniela Braga 
- José Mattoso
- Paulo Pires do Vale
- Paula Rego
- Sandro Resende
- Agustina Bessa-Luis
- Daniela Melchior
- Freitas do Amaral
- Alba Baptista
- Otelo Saraiva de Carvalho
- Tiago Rodrigues 
- Ramalho Eanes
- Ana Luisa Correia 
- Salgueiro Maia
- João Gonzalez
- Passos Coelho
- Inês Lains
- José Sócrates
- Edson Santos Oliveira
- Rui Veloso
- Anabela Carvalho
- Carlos do Carmo
- Dino D´Santiago
- Luís Figo
- Francisco Costa
- Fernando Santos
- Tiago Guedes
- César Torres
- Gustavo Ribeiro
- Durão Barroso
- Mariana Mortágua
-António Costa
- Pedro Nuno Santos
- Marcelo Rebelo de Sousa
- Joana Goançalves de Sá

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

To GPT or not GPT?


Still following the previous post about a chatGPT presentation by a Full professor of MIT (link above) check below a paper published today in the journal Computers and Education: Artificial Intelligence
I found the part that compares ChatGPT and Wikipedia to be especially interesting: "And here Wikipedia has a key advantage over ChatGPT: the power of citations. Wikipedia articles must cite all claims and hyperlink to sources for each claim. Articles that do not follow these rules display an advisory note to readers that the claims are under-cited. The citations are vital because they provide primary-source documentation to which readers can link if they wish to learn more. This feature is lacking in ChatGPT, which can provide a skeletal bibliography if asked (formatted in the style of users' choosing), but which generally does not cite sources within its responses" https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2666920X23000395#sec2

In this context, it is worth remembering the paper "ChatGPT and the potential growing of ghost bibliographic references" recently published in Scientometrics which warns against references to non-existent papers https://link.springer.com/article/10.1007/s11192-023-04804-4

PS - I asked ChatGPT to criticize the article published in the journal Computers and Education and got the following reply: 

"The text is quite dense and could be difficult for some readers to follow due to its extensive use of complex language and intricate sentence structures. The author should consider simplifying certain passages to enhance readability and comprehension.
Lack of Counterarguments: While the author acknowledges potential concerns and challenges posed by ChatGPT, the text largely focuses on the positive aspects and ways to utilize the technology effectively. It would be more balanced to include more detailed discussions of potential drawbacks, such as overreliance on AI, potential bias in AI-generated content, and the potential for devaluing human skills.
Analogies and Comparisons: The extensive use of analogies, particularly the calculator analogy, can sometimes oversimplify complex issues related to AI integration. The text could benefit from more nuanced explanations that consider the unique nature of AI technology and its implications for education.
Limited Discussion on Ethical Considerations: While the author briefly touches on concerns about AI-generated misinformation and bias, a more thorough exploration of ethical considerations is warranted. This could include discussions on responsible AI usage, transparency in AI algorithms, and potential consequences of delegating critical thinking to AI tools.
Practical Implementation: The text outlines potential ways to incorporate ChatGPT into educational settings, but lacks practical examples and real-world case studies. Including concrete scenarios and success stories would enhance the text's applicability and relevance.
Overemphasis on ChatGPT Limitations: While the author discusses some limitations of ChatGPT, such as its inability to fully comprehend texts or accurately generate certain content, the text might appear overly critical of AI's current capabilities. It's important to recognize that AI technology is rapidly evolving and improving over time.
Addressing Technological Changes: The text acknowledges that AI's impact on job markets will be gradual, but does not delve deeply into the strategies educators and institutions can employ to adapt to these changes and prepare students for an AI-driven future"

sábado, 5 de agosto de 2023

Mais um concurso para um lugar de professor catedrático que exige um h-index mínimo igual ou superior a 15

 

A universidade do Minho acaba de anunciar um concurso para um lugar de Catedrático da área científica de engenharia civil (Edital nº 1434/2023 de 2 de Agosto) onde se exige: 
"Evidência da relevância do trabalho na comunidade científica, expressa por um h -index (sem -auto citações) igual ou superior a 15 (nas bases de dados Scopus ou Web of Science)"

Curiosa e coincidentemente, em 19 de Dezembro de 2022, já tinha divulgado um concurso para um lugar de catedrático de engenharia civil, na universidade de Lisboa, onde também era exigido um h-índex mínimo de 15 na base Scopus. Fi-lo num post onde lembrei, que uma análise bibliométrica, que levei a cabo, sobre uma amostra de largas dezenas de professores, associados e catedráticos (124-cento e vinte e quatro), da mesma área científica, apurou um h-index=15, para o subgrupo com o melhor desempenho (Top 5%). 

Errado é porém admitir que de repente, no Ano da Graça de 2023, a Academia, ou pelo menos esta área científica em particular (que apesar de receber muito menos dinheiro do OE do que outras áreas ainda assim consegue ser uma mais competitivas de Portugal) se tornou tão exigente, ao ponto de definir como um requisito mínimo o mesmo valor de h-index dos professores associados e catedráticos, com o melhor desempenho. 

A verdade é que a tal supracitada análise bibliométrica, foi efectuada há quase uma década atrás, https://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/30767 pelo que tendo em conta o valor do rácio h-index/ano, que foi uma das métricas apuradas na altura (tanto para associados como para catedráticos), multiplicado pelos anos que decorreram entretanto, significa que o valor actualizado desagregado, resulta num h-index=21 para os melhores associados e num h-index=27 para os melhores catedráticos desta área científica.  O que significa assim que o h-index mínimo=15, exigível neste concurso (e também no outro anterior da universidade de Lisboa) é afinal inferior ao h-index do grupo dos melhores professores associados. 

Questão diferente mas não menos pertinente é a aquela que se relaciona, com a iniquidade (e consequente violação do principio do mérito consagrado na Constituição da República Portuguesa)  de se exigirem mínimos de h-index aos novos catedráticos, ao mesmo tempo que se faz vista grossa ao facto de haver catedráticos que não possuem esses mínimos. Talvez a dita iniquidade permita perceber melhor porque é que no final do tal post sugeri o "despedimento dos Associados e Catedráticos com um h-índex inferior a 10https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/12/h-index-minimo-como-condicao-de-acesso.html

PS - Em Outubro de 2021, comentei o facto da universidade do Porto, ter despedido um professor porque aquele mostrou-se incapaz de produzir artigos com credibilidade. Por certo deve ter sido o primeiro a ser despedido de uma universidade pública Portuguesa por essa razão. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/10/publico-professor-universitario.html Seja como for fica-se com a noção que se ele tivesse produzido 1 artigo com credibilidade não teria sido despedido. Mas será que produzir 1 artigo com credibilidade é suficiente como patamar mínimo da Academia de um país europeu ? Mesmo a condição de despedimento, por mim sugerida, para aqueles professores associados ou catedráticos, que foram incapazes de produzir 10 artigos com credibilidade, não estava sujeita a qualquer limite temporal, significando isso que mesmo que tivessem levado 30 anos para os produzir já estariam a salvo desse despedimento. Pergunto por isso, será exigir muito que um professor universitário de uma universidade de um país europeu consiga produzir 1 artigo credível a cada 3 anos, quando ainda por cima nesse mesmo país há doutorados que apesar de terem produzido muitíssimo mais do que isso, como esta aqui, mesmo assim foram "despedidos"?