sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Universidades que tem uma atracção por rankings da treta: O caso do ranking de investigadores AD, ou Asnice Delirante

 


Em Maio deste ano critiquei os responsáveis da Universidade da Beira Interior, por terem optado por uma bizarra estratégia de marketing, que, ao invés de criar valor — que é a verdadeira essência do marketing — decidiram aproveitar a boleia de um ranking da treta, para tentar "promover" aquela universidade. Uma abordagem que irónica e tragicamente acabou afinal por desvalorizar essa universidade. Vide post acessível no link supra. 

Infelizmente parece que os mesmos responsáveis continuam a seguir a mesma táctica acéfala, não se conseguindo libertar da atracção irresistível por rankings da treta, como se percebe por uma "noticia" sobre um ranking (AD) de investigadores, baseado no Google Académico, que deve significar ranking  Asnice Delirante https://www.ubi.pt/Noticia/7847

Parece assim que ainda ninguém explicou aos referidos responsáveis, que um ranking de investigadores minimamente rigoroso tem de atender a três aspectos fundamentais:

​Primeiro - Ser baseado na Scopus ou na Web of Science, para assim permitir a desambiguação de publicações (existem milhares de perfis "contaminados" no Scholar Google com publicações de outros autores) e evitar também o lixo "científico" de citações em publicações não revistas por pares, cujo número explodiu nos últimos anos, e que existem em abundância/excesso nessa plataforma, que é conhecida por aceitar tudo.

​Segundo ​- Ser capaz de remover o efeito da terrível praga das auto-citações, em que muitos cientistas se tornaram verdadeiros especialistas​ ​https://www.nature.com/articles/d41586-019-02479-7

Terceiro ​- Ser capaz de anular a vantagem perniciosa das citações em publicações com centenas ou milhares de co-autores, utilizando para esse efeito a contagem fraccionada, sugerida pela primeira vez em 2008 pelo Alemão Schreiber e mais recentemente por Koltun e outros. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/evaluating-researchers-in-fast-and.html

Contudo o tal famigerado ranking AD (Asnice Delirante), consegue o espantoso milagre de não conseguir cumprir absolutamente nenhuma das referidas condições. É o que se pode designar por um ranking de tripla treta. E espantoso é que haja em Portugal quem (talvez por desespero) ache uma óptima estratégia associar-se a essa treta tripla. 

Tenha-se presente que até mesmo o conhecido ranking da Clarivate Analytics, que é baseado na Web of Science, não cumpre a terceira condição (e nem sequer consegue passar no teste de um número minimo de número de prémios Nobel) e o único ranking de investigadores a nível mundial, que consegue cumprir as três condições e além disso ainda inclui quase uma centena de prémios Nobel, é aquele ranking que foi desenvolvido por investigadores da universidade de Stanford, com base na plataforma Scopus https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/09/portugal-os-100-investigadores-mais.html

PS - Há alguns meses atrás, investigadores da Universidade de Nova York, mostraram que é extremamente fácil inflacionar as citações do Google Académico https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/05/paper-how-to-exploit-chatgpt-for-large.html

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

As "lacunas cognitivas" de um catedrático


"Fabricar um carro convencional consome cerca de 30 quilogramas (kg) de minérios: cerca de 20kg de cobre e 10 de peróxido de manganês. Já produzir um carro elétrico consome mais de 200 kg de minérios, com cerca de 70kg de grafite e 55 kg de cobre à cabeça."

A estranha contabilidade "mineral" acima reproduzida diz respeito a um artigo do conhecido catedrático de economia Ricardo Reis,  que foi publicado no Expresso. Porém como lá faltam muitos metais nomeadamente e desde logo o aço e o alumínio, pode admitir-se que ele pretendia contabilizar somente aqueles de maior custo, mas mesmo nessa hipótese, ainda ficam a faltar na referida contabilidade vários minerais, seja no fabrico dos carros convencionais, seja também para os carros elétricos. 

O objectivo do artigo desse artigo era mostrar que a China domina a nível mundial o mercado de minerais necessários à descarbonização, por conta de ter passado as ultimas décadas a abrir minas, naquele país e na África e nele lamenta-se o catedrático, que na Europa é quase impossível abrir uma mina e demora pelo menos dez a quinze anos a fazê-lo. 

Mas também aqui o catedrático Ricardo Reis falha, pois parece que ignora a razão porque a Europa dificulta a abertura de minas. Talvez ele desconheça que a industria mineira deixa atrás de si um rasto de destruição e contaminação e em Portugal há provas bem evidentes disso mesmo, vide estudo sobre uma localidade Portuguesa localizada próxima de uma mina com níveis de contaminação 2000% superiores aos admissíveis https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/11/contaminacao-de-mina-excede-em-2000.html Acresce ainda que um estudo recente provou que a perigosidade dos resíduos de minas pode afectar não só localidades próximas mas também aquelas localizadas a dezenas de quilómetros de distância https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/07/cencia-confirma-elevada-perigosidade-de.html

Lamentável é também que sendo ele catedrático de economia não tenha escrito, certamente porque se esqueceu (ou talvez porque ignora) que a descarbonização por via da reabilitação energética de edificios é muitíssimo mais barata do que a descarbonização, por via da electrificação, do sector rodoviário. Vide artigo publicado na revista The Economist https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/03/the-economistwhats-cheapest-way-to-cut_8.html

Declaração de interesses - Declaro que sou o primeiro editor de um livro, conjuntamente com vários catedráticos estrangeiros, sobre materiais para a reabilitação energética de edificios, cuja segunda edição será publicada no inicio de 2025 https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/06/cambridge-university-how-to-achieve-net.html

terça-feira, 1 de outubro de 2024

A inversão de um ciclo: A engenharia civil como uma profissão essencial e a medicina como profissão em risco de redundância


Não foi certamente por divertimento que em Junho de 2023 perguntei ao ChaGPT pela receita para fazer um betão que fosse capaz de durar mil anos, vide post acessível no link supra. Na verdade, o betão pode até, pelo menos nas mentes de muitos leigos, não ter uma imagem de grande sofisticação tecnológica, mas o facto é que faz muito mais falta à "comodidade" civilizacional do que por exemplo a altamente sofisticada Inteligência Artificial. https://www.nature.com/articles/d41586-021-02612-5

Apresentando uma excelente relação desempenho-custo (e com uma pegada carbónica cada vez menor) o material betão ainda continua a ser em pleno século XXI um material primordial, em inúmeros projectos de engenharia civil, como por exemplo no edifício, construído na India, cuja imagem inicia o presente post, ou na impressionante ponte Chinesa em Shuiluohe, que utilizou 1 milhão de metros cúbicos daquele material https://www.tiktok.com/@oks2qsa5/video/7376589762351648043?q=Shuiluohe%20Bridge&t=1727787687271 ou no túnel subaquático com quase 20 quilómetros de extensão, que ligará a Alemanha à Dinamarcano qual serão utilizados 3 milhões de metros cúbicos de betão que este fim de semana foi objecto de um artigo no semanário Expresso. O que na verdade e bem vistas as coisas constitui apenas uma "gota de água" entre os 14.000 milhões de metros cúbicos consumidos anualmente, valor que continuará a crescer nas próximas décadas. Recorde-se que o volume de betão produzido somente no século XXI, é tão impressionante, que daria por exemplo para cobrir toda a Alemanha ou para construir um pilar com 10 metros de diâmetro que ligasse a Terra à Lua. 

Também a essa importância não será alheio, por exemplo o facto bastante significativo, de um livro que editei em 2014, ser o mais citado, entre quase 1500 (mil e quinhentos) que foram produzidos em Portugal ao longo da última década e indexados na plataforma Scopus,  tenha afinal que ver com os betões e materiais de construção ligantes https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/05/top-10-dos-livros-mais-citados.html 

PS - No passado dia 25 de Agosto, ao comentar os resultados, muito positivos, da primeira fase de acesso ao ensino superior, para o curso de engenharia civil, terminei esse post avançando duas simples explicações para esse resultado "inesperado" https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/08/engenharia-civil-em-evidente.html É claro que há uma terceira explicação, que pode até não ter estado na mente da maioria daqueles que escolheram aquele curso, mas que no futuro estará cada vez mais, que a engenharia civil não é uma profissão em risco de ser tornada redundante pela Inteligência Artificial, ao contrário do que irá suceder por exemplo ao curso de medicina, ou numa primeira fase, pelo menos a várias especialidades dessa profissão, onde não será somente a radiologia a ser afectada, como já em 2020 noticiava a conhecida revista The Economist, num interessante artigo para o qual foi escolhido um título nada simpático para a classe médica https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/02/the-economistartificial-intelligence.html