sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Engenharia Civil em Portugal - Azar dos Távoras, negligência ou incompetência ?


Se, ainda antes dos inúmeros estragos causados pelos sucessivos comboios de tempestades, Ingrid, Kristin (a mais violenta desde que há registo), Leonardo e Marta, que arrasaram um grande número de edifícios e de infraestruturas no nosso país, o actual bastonário da Ordem dos Engenheiros já tinha alertado que o número anual de aposentados na área da engenharia civil superava o número de diplomados, uma situação que já de si era bastante grave num país atolado numa dramática crise habitacional, então a situação torna-se agora muito mais preocupante, pois os elevados danos provocados por essas tempestades levarão vários anos a reparar, durante os quais ainda mais se agravará o aludido défice de engenheiros civis. Mas será que isto é apenas o tal azar dos Távoras?
Afinal o que é que os cursos de engenharia civil deste país não fizeram, ou não foram capazes de fazer, para que o crescimento deste curso não se ficasse apenas por um valor residual de 3% ao ano, correspondente a um total de colocados inferior a seis centenas, quando antes de 2011 este curso acolhia na primeira fase de cada ano mais de 1400 alunos ?  Alguém consegue compreender, que por exemplo o curso de engenharia civil da universidade de Coimbra, onde me diplomei há várias décadas atrás, quando então aquele curso recebia mais de uma centena de alunos logo na primeira fase, não consiga agora captar nem sequer metade desse número e nem sequer consegue ultrapassar o número de alunos captados pelo Politécnico do Porto ou pelo Politécnico de Lisboa ?
E será que a formação em engenharia civil necessária para enfrentar o tal futuro de catástrofes permanentes, de que falou há poucos dias o catedrático Ottmar Edenhofer, presidente do conselho científico consultivo europeu sobre alterações climáticas, será aquela muito pouco inspirada e manifestamente insuficiente, de que falou na semana passada um antigo bastonário ao semanário Expresso, uma engenharia civil praticamente igual à do passado, mas com umas alterações mínimas, relacionadas como aumento da capacidade das coberturas resistirem a ventos de pelo menos 150 km/h, e que hoje novamente os jornalistas do Expresso repetem de forma indigente, certamente por acharem que não há neste país, na área da engenharia civil, quem possa dar melhores conselhos?

Ou será muito mais provável que os jornalistas do Expresso tenham dado provas de negligência ou até de incompetência, pois um Engenheiro Civil que se diplomou durante a longínqua década de 70 e que nunca foi sequer especialista em estruturas, como é o caso do ex-Bastonário Fernando Santo, não é definitivamente o profissional mais indicado para dar conselhos do que deverá ser a engenharia civil capaz de acautelar um futuro de catástrofes climáticas, ignorando que nas universidades de Lisboa, do Minho e do Porto, se produz investigação na área da engenharia civil, que no último ano até foi capaz de superar a produzida nas melhores universidades Alemãs e que talvez nessas universidades haja especialistas dessa área que possam dar conselhos cientificamente muito mais robustos?

PS - Aproveito esta ocasião para fazer uma caridade aos jornalistas do Expresso, recomendando a leitura de um interessante artigo publicado na revista Fundamental Research, que não certamente por acaso, faz parte das referências de um capítulo de um livro que estou a actualmente a concluir, e onde se fica a saber alguma coisa sobre a resposta à pergunta supra e do qual abaixo reproduzo um breve mas elucidativo trecho: 
"In a century shaped by climate disruption, resource scarcity, and cascading hazards, structural safety can no longer be confined to the binary question of collapse under a rare event....The profession must adopt a new design ethos: one that values performance over prescription, flexibility over excess, and resilience over redundancy...To meet this moment, engineering education, professional standards, and institutional missions must adapt. Future (civil) engineers must be trained not just in mechanics but in climate science...and sustainable design thinking. Codes and contracts must reward recovery capacity and carbon efficiency, not just compliance...."