domingo, 11 de janeiro de 2026

A ciência pelas ruas da amargura: Quando é que Portugal conseguirá alcançar a Grécia ?


Há poucos meses, várias universidades públicas portuguesas, como a Universidade do Porto, a Universidade de Coimbra e a Universidade NOVA de Lisboa, congratularam-se com o aumento do número de investigadores incluídos no conhecido ranking Elsevier-Stanford relativamente à edição do ano anterior. Contudo, aquilo que ficou por fazer, porque ninguém o fez, foi uma análise global que permitisse avaliar o desempenho de Portugal em comparação com outros países. E, nesse segmento específico, as notícias estão longe de ser animadoras; muito antes pelo contrário,  revelando fragilidades que suscitam sérias e legítimas preocupações.

Em 2022 já tinha feito esse exercício para uma amostra de 25 países, calculando não o desempenho para a amostra do Top 2%, mas somente o rácio muito mais selectivo associado ao subgrupo de investigadores do Top 0.5% por milhão de habitantes, que se traduziu numa lista cujo primeiro lugar aparecia ocupado pela notável potência científica que é a Suíça e onde Portugal aparecia em último lugar, abaixo da Grécia e do Chipre. Há um ano atrás voltei a fazê-lo, para constatar que infelizmente, o nosso país muito embora tenha crescido ligeiramente não conseguiu ultrapassar nenhum daqueles dois países que obviamente também cresceram  https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/09/nobel-para-ciencia-portuguesa-clarivate.html  

E quando agora, um ano depois, se repete o mesmo exercício verifica-se que Portugal, apesar de um novo e ligeiramente aumento do número de investigadores, ainda continua desgraçadamente abaixo dos referidos dois países, pois eles também aumentaram o seu número de investigadores altamente citados no Top 0.5%. Uma análise das taxas de crescimento médio entre 2022 e 2025, da Grécia (3%/ano) e de Portugal (1.7%/ano) mostra que a esse ritmo de tartaruga o nosso país nunca conseguirá ultrapassar a Grécia. 

E se, ano após ano, o impacto da ciência portuguesa continuar sistematicamente abaixo do da Grécia e do Chipre e muito longe do da Suíça, qual a probabilidade de uma ciência com tão fraco impacto produzir benefícios reais para o nosso país? Num século em que o crescimento económico depende cada vez mais de valor acrescentado, inovação e investigação, é minimamente credível que uma ciência com menos impacto do que a da Grécia e do Chipre nos permite convergir com o nível de riqueza da Suíça? E até quando vamos ignorar que uma ciência persistentemente pouco relevante internacionalmente está a alimentar a fuga permanente de talento e a condenar o país à estagnação económica?

Neste contexto, importa recordar um artigo publicado há um ano atrás na prestigiada revista The Economist, evidenciava que uma das formas mais eficazes de financiar a ciência, com vista à maximização do seu impacto, consiste muito menos no financiamento de projectos mas mais na atribuição de contratos de longa duração aos investigadores com a duração de pelo menos 7 (sete) anos. Não é, por isso surpreendente que o Conselho Europeu de Investigação (ERC) tenha agora decidido financiar contratos com essa duração. Ironicamente, em Portugal, alguém, cuja decisão dificilmente se pode atribuir a uma avaliação informada ou a uma reflexão estratégica sólida, ou sequer a um módico de inteligência, entendeu que reduzir para metade a duração dos contratos dos investigadores é aquilo que melhor serve os interesses da ciência Portuguesa e o futuro de Portugal !

PS - Em Portugal a U.Aveiro e a U.Minho lideram o grupo das universidades públicas em termos de densidade de investigadores no Top 0.5% do ranking Elsevier-Stanford por docente ETI, o que significa que são as duas universidades que mais tem contribuído para que Portugal não esteja ainda mais longe do desempenho da Grécia e do Chipre https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/09/uaveiro-uminho-e-uporto-no-podio-do-top.html

sábado, 10 de janeiro de 2026

O princípio do fim da arrogância médica

 


Há seis anos atrás a The Economist previu que a AI iria retirar os médicos do seu pedestal. Vide post acessível no link supra. À época essa previsão pode ter parecido excessiva, pois na altura ainda não havia nenhum ChatGPT, o modelo que passou a estar disponível ao público apenas dois anos depois. Contudo é precisamente esse modelo de IA generativa que hoje é utilizado diariamente por 40 milhões de pessoas unicamente para questões relacionadas com saúde, facto que levou a empresa proprietária do mesmo a lançar esta semana uma "ferramenta" dedicada somente a questões de saúde https://expresso.pt/newsletters/conversas-ao-ouvido/2026-01-08-40-milhoes-usam-o-chatgpt-todos-os-dias-por-motivos-de-saude.-esta-semana-fui-eu-6304a189

No contexto supra é pertinente recordar que no passado dia 18 de Setembro no post de titulo "O futuro bastante negro dos estudantes que agora ingressam num curso de medicina" divulguei um estudo que demonstrou que a IA consegue acertar em mais de 80% dos diagnósticos clínicos complexos, contra apenas 20% de médicos experientes, divulguei ainda um outro estudo da conhecida universidade Johns Hopkins, que desenvolveu um modelo de IA capaz de prever ataques cardíacos 
fatais com até 93% de precisão, e também o desempenho de um novo modelo de IA, desenvolvido por um consórcio europeu, que consegue prever o risco do aparecimento de mais de mil doenças com várias décadas de antecedência  https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/09/o-futuro-bastante-negro-dos-estudantes.html

Paradoxalmente, enquanto a IA aplicada à medicina evolui a um ritmo alucinante, as faculdades de medicina continuam a formar profissionais como o faziam há várias décadas décadas, preparando-os para competir com máquinas que já os superam de forma clara 
em diagnóstico, previsão e análise clínica. Se ao menos fosse possível dizer que, pelo menos, os médicos ainda conseguem superar as máquinas tratando os doentes de forma bastante empática. Mas nem aí esses profissionais conseguem um melhor desempenho do que a IA: pois como mostra a ciência, a IA é capaz de responder de forma significativamente mais empática do que os próprios médicos. Veja-se, por exemplo, o estudo publicado na revista científica Journal of General Internal Medicine, que envolveu mais de 1.400 participantes.  https://link.springer.com/article/10.1007/s11606-025-10068-w?

Acresce que a utilização da IA em Portugal é especialmente vantajosa por um motivo particular, a IA irá permitir poupar muitos milhões de euros, ao contrário de um elevado número de médicos Portugueses que possui uma estranha atracção pela fraude, que custa aos contribuintes deste país o valor astronómico de quase 800 milhões de euros por ano (um valor superior ao que Portugal gasta todos os anos a pagar o salário de milhares de investigadores), que é basicamente o mesmo que termos 2600 médicos todos os anos a cometerem fraudes de 300.000 euros cada um!  

PS - O presente post não constitui um ataque gratuito a toda a classe médica, mas uma critica contundente aos inúmeros maus profissionais que a integram, os quais escolheram o curso de Medicina apenas como um meio oportunista de enriquecer rapidamente. Como é óbvio, há muitos médicos que são profissionais extraordinários e também pessoas invulgares, e que eu próprio já louvei em posts anteriores, como por exemplo um de nome Domingos Machado, ou aquele médico que mencionei num post que se tornou um dos mais visualizados https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/01/muito-provavelmente-este-e-o-melhor.html

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Um catedrático feroz que não deixa pedra sobre pedra sobre uma "famosa" Escola

 

Na sequência do último texto publicado neste blogue, acessível no link supra, sobre o omnipresente — e tristemente magno — problema da endogamia académica, domínio em que o nosso país, consegue, de forma verdadeiramente miserável, figurar no topo do rankings europeu, aproveito para dar a conhecer um texto recente e bastante corrosivo de um jovem e muito feroz professor catedrático (CV resumido aqui). 

Nesse texto, o referido professor catedrático descreve uma endogamia doentia, entranhada numa escola da universidade de Lisboa, fica porém o aviso que esse texto, singular e bastante explosivo, tem um inicio muito pouco suave onde se pode ler: "É sempre perigoso criticar as instituições da academia portuguesa. Grande parte das pessoas que lá trabalham são mesquinhas e vingativas na proporção da sua incompetência....https://nunopgpalma.wordpress.com/2025/12/30/iseg-um-breve-testemunho-pessoal-vinte-anos-depois/

PS - Diga-se, em abono da verdade, que, consultada a informação mais recente sobre a endogamia das diferentes unidades orgânicas, aquela criticada pelo supracitado catedrático apresenta uma taxa de 47%. Trata-se, de facto, de um valor muito superior ao observado em universidades de países como a Alemanha e o Reino Unido, mas é todavia significativamente inferior ao de muitas unidades orgânicas de universidades nacionais, onde a percentagem de endogamia ultrapassa os 80% e, nalguns casos, mesmo os 90%. https://www.cnedu.pt/content/noticias/nacional/EndogamiaAcademica_2021_2022.pdf