sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Portugal consegue aumentar o número de universidades no mais prestigiado ranking mundial

 


Há semelhança do que acontece todos os anos, o dia 15 de Agosto é aquele em que o ranking Shanghai sobre as 1000 melhores universidades do mundo é tornado público. Este ano os resultados para as universidades Portuguesas são praticamente os mesmos do ano passado, vide post acessível no link supra, com uma honrosa excepção, pela primeira vez a UBI acaba de entrar neste ranking para a posição 901-1000, dessa forma ajudando Portugal a ter no referido ranking o mesmo número de universidades da Irlanda e mais uma do que a Dinamarca.

Exactamente como sucedeu no ano passado, Portugal só conta com 3 universidades nos primeiros 500 lugares, facto que como expliquei nessa altura se fica dever aos elevados cortes no financiamento da investigação. Sem surpresa o artigo no El Pais sobre o desempenho de Espanha (país que tem 36 universidades nesse ranking, sendo que 10 dessas aparecem no top 500), também refere a importância desse financiamento https://elpais.com/educacion/2025-08-15/sorpasso-en-el-ranking-de-shanghai-china-y-taiwan-ya-tienen-mas-universidades-que-ee-uu-en-los-500-primeros-puestos.html

É claro que o financiamento explica muito mas não explica tudo, porque em Portugal há universidades com financiamento muito superior a outras, como é por exemplo o caso da Universidade Nova de Lisboa, que durante vários anos esteve no top 500, mas que há poucos anos se começou a afundar no referido ranking, estando agora na posição 701-800. E quando a explicação não passa pelo montante de financiamento, terá forçosamente, goste-se ou não,  de passar pela falta de competência. 

Aliás sobre o desempenho da Universidade Nova, recordo que em 2020 quando aquela universidade deixou de estar no Top 500, sem que nenhum dos seus responsáveis explicassem a razão de ser desse resultado, comparei esse comportamento aquilo que sucede na Finlândia, onde um Vice-Reitor se mostrou muito preocupado, pelo facto da Universidade de Helsínquia, ter descido ligeiramente da posição 57 para 63 https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/08/o-que-e-que-distingue-as-universidades.html

Ainda no presente contexto, recordo que em 2018, o então Reitor da Universidade de Coimbra, questionado pelo jornal Público, pelo facto da sua universidade ter deixado de estar entre as 500 melhores do mundo, afirmou na altura publicamente, estar convencido que em 2019 voltaria a reentrar nesse grupo. Irónica e trágicamente, isso não aconteceu nem 2019, nem em 2020, nem em 2021, nem em 2022, nem em 2023, nem em 2024, e nem agora em 2025. 

E porque será que a universidade católica, que tem um orçamento superior ao da universidade de Aveiro e muito superior ao da UBI, a mesma cujas propinas do curso de medicina custam mais de 1600 euros por mês, não consegue entrar no Top 1000 do ranking Shanghai ? 

PS - Recordo que actualmente a Universidade de Lisboa ainda beneficia de ter tido um Nobel da Medicina há várias décadas atrás, embora cada vez menos, até ao dia, cada vez mais próximo, em que esse beneficio seja nulo, vide post "As quedas inevitáveis da universidade de Lisboa no prestigiado ranking Shanghai" https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/08/as-descidas-da-universidade-de-lisboa.html

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Nas asas da hipocrisia: O pouco magnífico Falcão no ninho quente da endogamia

 

https://www.publico.pt/2025/08/11/opiniao/opiniao/endogamia-universidades-2142727

Num artigo do jornal Público, o reitor da Universidade de Coimbra, o catedrático Amílcar Falcão, defende que os anormalmente elevados níveis de endogamia da sua universidade são culpa dos Governos deste país, que obrigaram as universidades a contratar os seus doutorados. Trata-se porém de uma argumentação deplorável, que faz jus ao provérbio, "não há pior cego do que aquele que não quer ver", e que só pode envergonhar qualquer pessoa que se tenha diplomado na universidade de Coimbra, como é o meu caso.

Se a peregrina tese do reitor Falcão fosse verdade, então as unidades orgânicas dentro de cada uma das universidades públicas teriam níveis de endogamia muito similares; não é, porém, isso que se verifica. Uma consulta ao primeiro relatório nacional sobre a endogamia académica, que pasme-se só viu a luz do dia no ano mágico de 2016, mostra que na universidade de Coimbra, a universidade pública que possui o recorde da maior percentagem média, há unidades com uma percentagem de endogamia que variam entre 62% e pasme-se 100%. E nas universidades do Porto e de Lisboa, que o Reitor Falcão garante que pela sua idade, são as únicas que se podem comparar à sua universidade, há unidades orgânicas com percentagens de endogamia que chegam a 45% e como é óbvio, a não ser na matemática alternativa do Reitor Falcão, há uma grande diferença entre 45% e 100%, que é suficiente para implodir a sua pouco iluminada e até hipócrita argumentação

Do mais alto representante de uma universidade pública, financiada pelos impostos dos contribuintes, espera-se, acima de tudo, responsabilidade e integridade. Que, perante uma situação de elevada gravidade, assuma de forma clara e inequívoca as suas responsabilidades, sem recorrer, como foi o caso, a tentativas pouco dignas de transferir para terceiros essas responsabilidades. O cargo que ocupa não é apenas uma função administrativa; é um compromisso com a ética, o rigor e a transparência. Teria, por isso, sido desejável que tivesse tido a grandeza, que não teve, de pedir desculpas por uma situação que, para além de comprometer a credibilidade da instituição que dirige, expõe o nosso país ao descrédito no cenário internacional, já que universidades com elevadas percentagens de endogamia académica são coisa típica de universidades de países do terceiro mundo.

Declaração de interesses - Declaro que no final de 2015 fui o primeiro subscritor de uma petição contra a endogamia académica. Declaro ainda que em Julho de 2018, critiquei o agora Reitor Falcão pela sua reprovável estratégia de compra de estrelas a uma empresa (QS) que produz um ranking da treta, num email que o catedrático Carlos Fiolhais na altura achou por bem reproduzir no blogue "De Rerun Natura", num post com data de 15 de Agosto de 2018 e por conta dessa critica recebi um email "pouco simpático" do agora Reitor Falcão.

PS - Tendo em conta que a endogamia académica é sinónimo de viciação concursal, leia-se, sistemático e descarado favorecimento dos candidatos "da casa", reproduzo abaixo, as duas questões que coloquei na parte final, de um altamente visualizado post anterior

1 - será que um Professor que participa activamente na viciação de um procedimento concursal, ou que seja o beneficiário directo dessa viciação, reúne suficientes condições de ética, isenção e imparcialidade, para poder avaliar os seus alunos de forma rigorosa, sem que se corra o risco de favorecer alguns ou algumas, com ou sem troca de contrapartidas ?

2 - será que um Professor que participa activamente na viciação de um procedimento concursal, ou que seja o beneficiário directo dessa viciação, reúne suficientes condições de ética, isenção e imparcialidade, que minimizem o risco de no futuro se dedicar à pratica de actos ilícitos, como plagiar o trabalho de colegas ou falsificar resultados de investigações ?

domingo, 10 de agosto de 2025

As confusões de um conhecido e eficiente catedrático da universidade de Lisboa


Num artigo publicado no caderno de economia do semanário Expresso, o antigo presidente do IST, o catedrático Arlindo Oliveira, escreve que há uma obrigação moral para usar a IA por conta da eficiência que ela promove e vai ao ponto de afirmar que essa obrigação não é só das empresas mas também do Estado Português. Aquilo que ele porém se esqueceu foi de esclarecer qual o artigo ou artigos da Constituição da República Portuguesa (CRP) que permitem perceber essa obrigação moral. Ou talvez o referido catedrático deseje uma revisão da CRP para que a eficiência possa no futuro passar a ter o mesmo valor das obrigações morais vertidas na mesma, que incluem por exemplo, a dignidade da pessoa humana,  o direito à vida, à integridade pessoal, à liberdade e segurança etc etc. 

A eficiência é importante, mas esperemos que neste país não se chegue ao ponto (de com o apoio do Chega) ela seja elevada a uma tal categoria. De mais a mais, a adopção cega de IA, motivada por uma obsessão pelo aumento da eficiência, pode sim contribuir para violar várias obrigações morais vertidas na referida CRP, como seja por exemplo a automatização de serviços públicos, que pode excluir cidadãos idosos, ou com baixa ou mesmo nula literacia digital, pois recorde-se que Portugal possui ainda no século XXI, algumas centenas de milhares de pessoas analfabetas, ou como seja por exemplo pela utilização da IA na determinação de benefícios sociais, que correu de forma tão dramática na Holanda, quando mais de 26 000 famílias foram injustamente acusadas de fraude e que levou à queda do Governo e ao pagamento de mais de mil milhões de euros em indemnizações a essas familias  https://observador.pt/opiniao/o-algoritmo-que-derrubou-um-governo/

Pessoalmente e no que diz respeito à IA acho que o ex-presidente do IST, devia estar menos ocupado a produzir sentenças avulsas sobre moralidade (uma área em que já se percebeu não é especialista) e muito mais preocupado com o dilema que enfrenta o actual presidente do IST, e que noutros países já se reflecte na fuga dos estudantes do ensino superior, por conta da elevada probabilidade da sua formação se tornar redundante, muito antes ainda daqueles a terem terminado, vide artigo publicado há poucos dias na Forbes https://www.forbes.com/sites/victoriafeng/2025/08/06/fear-of-super-intelligent-ai-is-driving-harvard-and-mit-students-to-drop-out/

PS - Ou talvez o catedrático Arlindo Oliveira não tenha ainda alcançado os dilemas morais, que agora se levantam aos recém-diplomados, relativamente aos quais um artigo publicado na conhecida revista The Economist, afirmou que estão "lixados" (screwedhttps://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/06/a-tragedia-dos-milhoes-de-recem.html