O jornal Público divulga hoje um caso que, não sendo surpreendente para quem acompanha há anos a degradação sistémica da ciência no nosso país, não deixa ainda assim de ser escandaloso. O mesmo diz respeito a três investigadores Portugueses, Cristiana Pires, Fábio Rosa e Filipe Pereira (foto supra), que trocaram Coimbra pela Universidade de Lund na Suécia, onde fundaram uma empresa, Asgard Therapeutics, que desenvolve uma imunoterapia inovadora no combate ao cancro, avaliada em dezenas de milhões de euros. https://www.publico.pt/2024/04/27/ciencia/noticia/cavalo-troia-cancro-vale-30-milhoes-euros-equipa-portuguesa-2088206
Recordo a propósito, que por uma estranha coincidência, há cinco anos, no meu primeiro blogue, divulguei o caso também escandaloso de uma jovem investigadora doutorada de Coimbra que, apesar de pretender continuar a trabalhar em Portugal e de o merecer, tendo em conta o seu elevado desempenho científico (ao contrário de muitos académicos efectivos, inclusive catedráticos, que possuem métricas vergonhosas), não teve outro remédio senão emigrar para ir contribuir para o enriquecimento da mesma Suécia https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/03/quando-estar-desempregado-e-uma-medalha.html
Resumindo e concluindo, porque a conclusão é tão óbvia que só a sua repetição cíclica impede que se torne banal, Portugal financiou a formação destes cientistas, e depois entregou-os de mão beijada a um país já de si extraordinariamente rico, que fica assim com a inovação, os empregos de alto valor acrescentado, e toda a riqueza daí resultante. Mas afinal que estratégia miserável é esta, que se repete ciclicamente há décadas, que exporta talento científico Português para países ricos para que aqueles fiquem ainda mais ricos ?
Era essa a pergunta que o jornalista Tiago Ramalho autor da peça jornalística em questão deveria ter feito ao ministro da tutela, mas que estranha e infelizmente não fez. Talvez porque se tenha esquecido que a principal missão do jornalismo não é divulgar peças como esta, que quase parece um elogio ao Governo que está, mas pelo contrário confrontá-lo com perguntas incómodas, cuja resposta muito interessa a milhões de portugueses, cujo destino parece ser cada vez mais o de uma escolha forçada entre emigrar ou empobrecer.
Este estado de coisas obriga-me a reconhecer, o que faço sem qualquer satisfação, que quem teve inteira razão muito antes do tempo foi um conhecido de reputado investigador que aparece no topo desta lista de investigadores, que teve a frontalidade de acusar a existência na academia Portuguesa de uma "burocracia cuidadosamente arquitetada para defender os interesses da mediocridade instalada". Essa acusação, que poderá ter parecido excessiva a alguns espíritos mais sensíveis (leia-se, aos interessados na manutenção do status quo), revela-se, afinal, até bastante comedida. Como estes casos demonstram, a realidade é ainda mais grave do que a descrição que deles foi feita.
Sobre a Suécia, devo recordar mais uma vez, porque o contraste é demasiado gritante para ser ignorado, e porque ele expõe com uma clareza impiedosa a raiz do problema, a enorme importância que a Suécia país atribui à criação de empresas por académicos, o país onde os direitos económicos das patentes pertencem por direito próprio aos académicos, ao contrário daquilo que se passa na Academia Portuguesa, onde os direitos das patentes pertencem ao Estado e onde essas iniciativas são penalizadas com um corte de 33% no salário https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/universidades-portuguesas-um-modelo-que.html
PS - Ontem o jornal Público noticiou que a FCT voltou a atrasar a contratação de cientistas através do programa FCT tenure. Contudo e ao contrário do que possa parecer, se há más noticias no financiamento da ciência em Portugal esta não é uma delas. Este famigerado programa que já tive oportunidade de criticar no passado, foi criado por uma Ministra que era simultaneamente catedrática da UNova e que, por uma daquelas coincidências que desafiam qualquer teoria probabilística minimamente séria, logo na sua primeira edição entregou à UNova mais vagas do que a soma das vagas atribuídas às universidades de Coimbra, Minho e Aveiro em conjunto. Mas muito pior do que isso, porque depois a atribuição dessas vagas é feita através de concursos com jurados caseiros, que como é tradição favorecem os candidatos da casa, reforçando a endogamia existente, que é exactamente a última coisa de que necessita a Academia Portuguesa. Este programa deveria por isso ser "abatido" o mais depressa possível, sendo as suas verbas redirecionadas para os concursos CEEC, aumentando o número de vagas e também a duração dos contratos para um mínimo de 7 anos, em linha com as melhores práticas mundiais https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2023/11/the-economist-world-ahead-2024what-is.html