Na sequência do post anterior, dedicado à agressividade feminina, talvez seja agora de elementar justiça celebrar uma jovem mulher cuja força não se mede pela capacidade de agredir, como acontece com muitas outras, mas por uma invulgar capacidade de reconstruir.
Lin Guoer é uma jovem chinesa que pega num gerador diesel coberto de ferrugem e óleo, muitas vezes mais velho do que ela própria, desmonta-o até ao último parafuso, limpa-lhe as entranhas, rebobina-lhe o motor, remove-lhe a corrosão e devolve-o ao mundo a trabalhar como se a sucata tivesse acabado de receber uma segunda vida. https://www.youtube.com/@linguoermechanic
Depois de diplomada em Engenharia Hidráulica e Hidroeléctrica, Lin Guoer regressou à sua terra natal, onde se dedica a transformar máquinas abandonadas na matéria-prima de uma carreira improvável: a de influenciadora da mecânica. Motores diesel, bombas de água, geradores, motosserras, etc etc etc tudo aquilo que lhe chega às mãos enferrujado ou dado como morto reaparece nos seus vídeos desmontado, recuperado e novamente operacional.
A imprensa chinesa chama-lhe “Mulan da mecânica”, e a designação não é despropositada: perante redes sociais cada vez mais transformadas num monumento à vacuidade e à superficialidade, onde a maquilhagem, o consumo exibicionista e a exposição narcísica valem como substitutos de qualquer competência, Lin Guoer oferece algo radicalmente mais raro — competência técnica indiscutível. Cada vídeo revela paciência, destreza manual e a capacidade de devolver uma nova "vida" ao que outros rapidamente condenariam à sucata.
PS - A história de Lin Guoer tem ainda uma outra leitura. Num post de 27 de Maio de 2025 escrevi: "hoje mesmo o catedrático jubilado Robert Reich, ter defendido no seu blogue, que muitos dos empregos do futuro não necessitarão de uma formação de ensino superior". A isso soma-se ainda o facto do último número da revista The Economist revelar que a geração Z demonstra um interesse crescente por profissões técnicas e muito menos por formações académicas. https://www.economist.com/international/2025/12/18/ditch-textbooks-and-learn-how-to-use-a-wrench-to-ai-proof-your-job Durante décadas, o Ocidente desprezou quem sabia construir, soldar, reparar e dar uma nova vida a coisas velhas. A ironia cruel é que, num mundo cada vez mais saturado de diplomas, muitos deles que nem sequer valem um caracol, e crescentemente ameaçado pela inteligência artificial, recuperar um motor "morto" pode afinal valer muito mais do que muitas profissões consideradas superiores.