A frase que inicia este post encerra hoje um artigo de opinião publicado no jornal Público, no qual um professor da própria Universidade do Porto critica duramente a reitoria da sua instituição. Em causa está o facto daquela Universidade ter voltado a recorrer de uma decisão judicial que condenou o catedrático director da Faculdade de Medicina e a própria reitoria ao pagamento de uma indemnização de 30.000 euros a uma antiga docente, vítima de assédio, na sequência de "comportamentos humilhantes e discriminatórios" https://www.publico.pt/2026/05/29/opiniao/opiniao/reitoria-up-conivente-assedio-moral-mensagem-transmite-vitimas-2176000
Há instituições que se medem pelos seus discursos. Outras, pelos seus actos. A Universidade do Porto, infelizmente, parece ter-se especializado em ostentar os primeiros quando afirma que se compromete com “os mais altos padrões de transparência, integridade e responsabilidade” enquanto foge aos segundos. E a pergunta impõe-se: ao insistir em recorrer, depois de duas decisões judiciais no mesmo sentido, não se torna a Universidade do Porto, uma instituição que, ironicamente, deveria acima de tudo zelar pelo interesse público, conivente com o próprio crime de assédio que foi condenada por não ter travado?
Mas muito pior é a postura interna. Como se lê no artigo, perante uma sentença que dá como ilegais as práticas dos assediadores, a reitoria não abriu um único processo de averiguações nem instaurou qualquer inquérito disciplinar. Nada. Os condenados em primeira instância continuam a exercer funções como se nada fosse, enquanto a vítima ficou pelo caminho, sem doutoramento, sem carreira e desempregada, como se fosse lixo.
É precisamente aqui que o contraste se torna chocante. Compare-se esta omissão com a forma expedita com que, numa conhecida universidade holandesa, as queixas de vários alunos de doutoramento bastaram para que se constituísse uma comissão independente encarregada de investigar inadmissíveis desmandos de catedráticos, caso esse que divulguei no post "Um par de catedráticos canalhas". Lá, as denúncias internas foram suficientes para mobilizar a instituição. Aqui, uma condenação confirmada por duas instâncias não é sequer suficiente para iniciar um simples processo de averiguações. A diferença não é de meios: é de vontade. E enquanto a Universidade do Porto preferir gastar tempo e dinheiro a combater judicialmente quem foi reconhecidamente vítima, em vez de reparar o dano sofrido e responsabilizar quem o causou, a mensagem enviada a toda a academia é só uma: denunciar não compensa e quem assedia, principalmente se for catedrático, pode continuar a dormir descansado, sem receio de consequência alguma.
PS - Uma última palavra para louvar o Professor Associado com Agregação Pedro Oliveira, autor do artigo supracitado. Ao denunciar publicamente a actuação vergonhosa da sua própria universidade, demonstrou a coragem que falta a demasiados membros da academia: a coragem de não se refugiar no silêncio conveniente, de não sacrificar a decência às suas ambições pessoais e de não abandonar uma vítima para proteger o prestígio da instituição e o poder dos seus catedráticos. Numa universidade digna desse nome, a lealdade não se demonstra encobrindo a vergonha; demonstra-se combatendo-a. Na academia só merece verdadeiro respeito quem esteja disposto a arriscar a comodidade, a posição e o isolamento para defender aquilo que é verdadeiramente justo. Como escrevi há seis anos, aqueles que beneficiam do chamado “estatuto reforçado de estabilidade no emprego” (tenure) deveriam ser obrigados a demonstrar que, em algum momento da sua vida académica, tiveram a coragem de dizer ou investigar algo verdadeiramente incómodo que justificasse esse estatuto. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/07/prostituicao-universitaria.html