domingo, 30 de agosto de 2026

As críticas de um catedrático e o roubo do futuro dos filhos das famílias mais pobres

Num excelente e contundente artigo hoje no jornal Público, o catedrático Luís M. Rocha parte de um dado que deveria envergonhar qualquer Governo, os estudantes provenientes das famílias mais pobres representam apenas 3% dos novos colocados no ensino superior, uma obscenidade social politicamente imperdoável, moralmente repugnante e civilizacionalmente indefensável (palavras minhas), para arrasar um sistema educativo que funciona, na prática, como "um mecanismo de autosselecção e preservação das classes dominantes, que têm melhores recursos para preparar os seus filhos". 

A formulação é rigorosa, mas poderia ser ainda mais acusatória. O sistema actual constitui um roubo descarado do futuro dos jovens das famílias mais pobres, praticado com a cumplicidade política de sucessivos governos. E foi precisamente esta vergonhosa fraude social que denunciei no texto “Aquecimento global provoca explosão de notas de 19 e 20 valores nos colégios privados em Portugal”. Um país que permite que a origem económica determine o acesso às melhores oportunidades não possui verdadeiramente um sistema meritocrático; possui apenas uma aristocracia hereditária disfarçada por médias viciadas.

Felizmente, porém que o ilustre catedrático Luís M. Rocha não se ficou "apenas" por esta denúncia. Atacou também o fracasso das universidades de Lisboa e do Porto, relegadas para uma posição humilhante nos escalões internacionais do prestigiado ranking de Shanghai de 2026. Este resultado representa um verdadeiro chumbo nas exigências de excelência com que os responsáveis daquelas duas universidades tanto gostam de encher a boca. Recordo que também escrevi sobre este fracasso, no dia 21 de Agosto, no post de título “Ranking Shanghai de 2026 — As universidades de Lisboa e Porto são as responsáveis por Portugal estar agora abaixo da Argentina”

As duas denúncias expõem as duas faces da mesma fraude. À entrada, o sistema esmaga os jovens pobres para reservar os melhores lugares aos herdeiros das classes dominantes; no topo, transforma a autonomia universitária num escudo destinado a proteger burocracias acomodadas, redes de interesses e estruturas incapazes de competir com a verdadeira excelência internacional. Aos pobres exige-se uma meritocracia implacável e adulterada; às elites académicas perdoam-se décadas de endogamia, mediocridade e fracasso. O resultado não é apenas um sistema injusto, é na verdade uma máquina de reprodução social que confisca o futuro dos mais desfavorecidos, distribui oportunidades segundo o berço e depois protege ferozmente os responsáveis pela irrelevância científica do país. Portugal não tem um elevador social nem um sistema universitário orientado para a excelência, tem uma fortaleza de privilégios, construída para manter os pobres do lado de fora e os medíocres confortavelmente instalados na Academia e protegidos pela impunidade institucional.