domingo, 9 de agosto de 2026

O catedrático "incapaz" e o catedrático que viu o invisível, num concurso que o tribunal não teve outro remédio senão mandar anular


Há nove anos atrás, concorri a um lugar de professor catedrático na Universidade Sueca de Uppsala, dos 14 candidatos iniciais, tres foram selecionados para passarem à fase final, vide relatório de um perito externo, catedrático numa conhecida universidade Finlandesa  https://www.docdroid.net/ONpHyGk/review-by-aalto-university-expert-pdf 

Porém depois de ter preparado a apresentação que iria fazer nessa final e de ter inclusive comprado a passagem de avião, por motivos de ordem pessoal que não interessa divulgar, decidi não estar presente na mesma. Seja como for acho agora que é um exercício interessante comparar a evolução do h-index (auto-citações excluídas) na base Scopus do candidato que venceu esse concurso, (P. Isaksson), com a evolução do meu próprio h-index. Essa comparação foi levada a cabo utilizando o procedimento que já tinha sido descrito aqui https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/06/uma-ferramenta-de-autoavaliacao.html

A imagem supra evidencia um resultado particularmente relevante: a obtenção daquela cátedra não foi acompanhada por uma aproximação do impacto científico de P. Isaksson ao meu. Pelo contrário, a diferença entre ambos acentuou-se ao longo do período considerado. Este resultado assume particular significado na medida em que, à partida, seria plausível admitir uma evolução em sentido inverso. O catedrático P.Isaksson passou a desenvolver a sua atividade numa universidade situada entre as 100 melhores do mundo no prestigiado Shanghai Ranking, enquanto a universidade onde exerço funções há quase 18 anos, permanece no intervalo 500–600, beneficiando, além disso, a primeira de uma capacidade financeira quase 400% superior. Seria, portanto, plausível supor que um ecossistema académico dotado de muito maior prestígio internacional, recursos mais abundantes e condições de investigação mais favoráveis produzisse, ao longo do tempo, uma progressiva convergência entre os respetivos níveis de impacto científico. A evolução observada aponta, contudo, na direção oposta, em vez de diminuir, a distância tem-se acentuado. Se as tendências atualmente observáveis se mantiverem, em 2031 o meu h-index deverá ultrapassar 60, enquanto o h-index do catedrático P. Isaksson permanecerá abaixo de 30.

Na imagem aparece uma terceira linha, correspondente ao subdesempenho de um lamentável catedrático "visionário" do IST, que enquanto jurado de um concurso, que como não podia deixar de ser, foi posteriormente anulado por vicio de violação da lei, viu aquilo que mais ninguém conseguiu ver https://pachecotorgal.com/2022/01/29/o-genial-catedratico-candidato-a-bastonario-da-ordem-dos-engenheiros/ Como se pode ver pela imagem supra os recursos inerentes à cátedra também não se traduziram num elevado impacto científico. E pior desempenho apresenta o referido catedrático do IST, se olharmos para aquele rácio, que é o da percentagem de publicações Scopus que receberam pelo menos 150 citações (onde aquele possui espantosamente um valor que é 5 (cinco) vezes menor do que o meu), rácio esse que recordo serviu de base a uma tabela impressionante, que divulguei num certo mês de Agosto https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/08/o-desprezo-da-comunidade-cientifica.html

PS - Se, no estrangeiro, há inúmeros casos de professores catedráticos despedidos por manipulação de dados científicos, como por exemplo esta na universidade de Harvard, ou este caso no Imperial College, ou este aqui por assédio sexual na universidade de Utrecht, ou este da universidade Sevilha, condenado a uma pena de cadeia efectiva, ou até por relações consentidas com alunas, como sucedeu a um catedrático da Universidade de Princeton, por que razão em Portugal não se conhecem casos semelhantes? Porque é que em Portugal nem mesmo os catedráticos que foram condenados pela prática de crimes, como este aqui ou este outro, nem muito menos os catedráticos que participaram em concursos posteriormente anulados por violação da lei sofreram quais consequências profissionais? Quando nem a condenação criminal nem a participação em procedimentos que os tribunais consideraram ilegais parecem beliscar uma carreira académica, torna-se legítimo perguntar se estamos perante uma invulgar indulgência institucional quase sem limites ou perante uma cultura corporativa profundamente instalada em que o estatuto de catedrático funciona, na prática, como uma espécie de imunidade académica absoluta ?