quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

U.Lisboa e U.Minho são as universidades com o maior crescimento em termos de colaborações com uma potência emergente da ciência mundial



Já não bastavam as péssimas noticias implícitas no facto da Europa já não ser capaz de "cativar" os seus melhores cientistas, vide post acessível no link supra e agora fica-se a saber, através de um recente relatório da Clarivate Analytics  "2024: Research Front-Active Fields, Leading Countries", que a Europa faz triste figura frente à China. Na tabela 3 da página 9, pode ler-se que a China aparece em 1º lugar em 39 áreas, enquanto que a Europa faz figura de parente pobre, pois a soma dos primeiros lugares da Alemanha, do Reino Unido e França, fica-se apenas por 6 (seis) áreas!!!

Neste contexto importa recordar que há alguns anos atrás mostrei que muito embora Portugal tenha sido capaz de aumentar o número das suas publicações científicas não tem tido a mesma capacidade para aumentar o impacto dessas publicações. Infelizmente de ano para ano, o impacto "cresce" em sentido contrário https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/08/picec-processo-de-irrelevancia.html 

Como também então escrevi, uma das formas mais evidentes (e mais baratas) de conseguir aumentar o impacto dessas publicações passa por diminuir de intensidade as colaborações com investigadores de países cientificamente pouco competitivos, para privilegiar as publicações com co-autoria de investigadores de países muito mais competitivos. E nesta área Portugal tem tido um comportamento bastante criticável porque uma análise das colaborações ao longo dos últimos 60 anosmostra que as colaborações científicas tem descurado os países mais cientificamente competitivos https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/evolucao-das-colaboracoes-cientificas.html

Relativamente a esta questão, em Julho de 2023 analisei o desempenho das universidades e Politécnicos Portugueses que no biénio 2021 e 2022 tiveram mais (e menos) capacidade de produzir publicações conjuntas com investigadores dessa potência científica em ascensão que é a China https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2023/07/colaboracoes-internacionais-das.html e agora faz todo o sentido analisar como evoluíram essas colaborações no biénio 2023 e 2024. 

A nova lista que abaixo se reproduz permite constatar que há dez instituições que melhoraram a sua prestação no novo biénio, sendo que no grupo de instituições universitárias, as universidades de Lisboa e do Minho foram aquelas que tiveram o maior crescimento, representando mais de 40% de todas as publicações indexadas com afiliação Chinesa. 

É importante frisar que a média nacional das publicações com afiliação Chinesa subiu para 4.8%, uma subida ligeira de apenas 1% face aos 3.8% do biénio anterior, e essa subida teria sido ainda menor se a U.Minho e a U.Lisboa tivessem tido o mesmo desempenho de outras universidades. Trata-se de um valor insatisfatório porque Portugal deve tentar alcançar a mesma percentagem da Alemanha e da Suiça que é de 7%.

Paradoxalmente a percentagem das colaborações com o Brasil manteve-se igual nos dois biénios, e logo num valor de 10% (o dobro da percentagem das afiliações Chinesas) o que significa que muitos investigadores Portugueses ainda continuam a apostar em colaborações que dificilmente irão contribuir para aumentar o impacto da ciência Portuguesa a nível mundial. 

Percentagem de publicações indexadas, com afiliação Chinesa, no biénio 2023 e 2024
1 - UMadeira............8%
2 - UMinho...............7% 
3 - ULisboa...............7% 
4 - UCoimbra............6% 
5 - IPol.Viana C........5% 
6 - IPol.Guarda.........5%
7 - IPol.Lisboa..........4%
8 - ISCTE.................4% 
9 - UAçores..............4% 
10 - UAveiro..............3% 
11 - UPorto...............3% 
12 - UNova................3% 
13 - UBI.....................3% 
14 - UALG.................3% 
 15 - IPol.Porto..........2% 
16 - IPol.Coimbra......2% 
17 - UÉvora...............2% 
18 - IPolPortalegre.....2% 
19 - IPol.C.Branco.....2% 
20 - IPol.Santarém.....2% 
21 - UTAD..................1% 
22 - IPol.Bragança.....1% 
23 - IPol.Leiria.............1%
24 - IPol.Tomar...........1% 
25 - IPol.Setubal.........1% 
26 - IPol.Viseu............1%
27 - UAberta..............0.7% 
28 - IPol.Beja..............0.4% 
29 - IPCA...................0.2% 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

A forma intrigante e muito pouco rigorosa como o jornal Público tentou desvalorizar o grave problema do turismo de saúde



Hoje a imprensa noticia que redes criminosas, cujo "negócio" passa por trazerem para Portugal mulheres grávidas, para poderem ser atendidas em hospitais públicos a custo zero, representando cada parto um custo entre 5000 a 6000 euros para o Estado Português. Vide link supra. 

Faço notar que o objectivo do presente post não é comentar essa noticia, antes utilizá-la como introdução para comentar o facto de recentemente o jornal Público, ter noticiado, de forma pouco rigorosa, o grave problema do referido "turismo de saúde". Nessa noticia, sobre o número de estrangeiros, não residentes, que foram atendidos no SNS, o jornal público, desvalorizou esse grave problema, ao centrar a noticia no número total, porque na verdade o total de 2024 é similar ao de 2022 e inferior ao de 2023, significando isso que os números totais não estão a aumentar, assim tentando passar a ideia (falsa) que o problema não se está a agravar. https://www.publico.pt/2024/12/01/sociedade/noticia/sns-atendeu-100-mil-cidadaos-estrangeiros-nao-residentes-ano-2113957

Porém aquilo que realmente interessa não é o numero total dos estrangeiros não residentes que foram atendidos nos hospitais públicos, porque aqueles estrangeiros não residentes que tem seguro (e são mais de 40.000 por ano) são custeados por esse seguro e não através dos impostos dos contribuintes, ao contrário do que acontece com os estrangeiros, não residentes, que não tem qualquer seguro de saúde e o facto realmente grave é que o número destes cresceu mais de 300% entre 2021 e 2024, pelo que a manter-se a referida taxa de crescimento, teremos para os próximos 5 anos consultas que poderão chegar a mais de 200.000 ano:

  • 2025: 65.409 consultas de estrangeiros não residentes sem seguro de saúde
  • 2026: 93.007
  • 2027: 132.250
  • 2028: 188.051
  • 2029: 267.396

  • Porém isso nem é o pior, porque um simples atendimento não tem um custo elevado, o pior é que estamos a falar de um turismo de saúde, especificamente para tratamentos muito caros, como bem se percebe pela frase que aparece no referido artigo "há doentes estrangeiros que vêm a Portugal apenas para fazerem tratamentos bastantes dispendiosos no SNS", pelo que tendo em conta que há medicamentos e tratamentos que custam milhões de euros, como no caso do tratamento das gémeas que envolveram o Dr. Nuno, filho do Presidente Marcelo, e muitos outros que custam centenas de milhares de euros, mesmo que admitamos apenas um valor médio de 5.000 euros para os tais tratamentos dispendiosos, teremos para os próximos anos as seguintes estimativas de custos de saúde com os tais estrangeiros não residentes sem seguro de saúde:

  • 2025: 325 milhões
  • 2026: 465 milhões
  • 2027: 661 milhões
  • 2028: 940 milhões
  • 2029: 1337 milhões

  • PS - Uma coisa bastante diferente em termos de turismo de saúde, é o facto dos hospitais privados CUF, Hospital da Luz e Lusíadas saúde estarem muito interessados e andarem a promover lá fora este tipo de turismo, mas somente para doentes estrangeiros que tem seguro, que lhes permita pagar as elevadas contas praticadas nos mesmos (por 45 dias de internamento a CUF exige a Betty Grafstein 54.000 euros), mas esse é um mercado muito competitivo, onde os hospitais privados Portugueses só tem conseguido facturar algumas poucas dezenas de milhões de euros, pela simples razão que há por esse mundo fora, muitos hospitais que também querem ganhar dinheiro  https://medicaltourisminportugal.com/

    Aditamento em 5 de Dezembro - O jornal Público volta hoje ao tema, insistindo novamente na desvalorização deste grave problema, e indo ao extremo de colocar no título do artigo uma afirmação de um inspector da saúde, que não só é bastante ingénua, como consegue até raiar a ignorância. https://www.publico.pt/2024/12/05/sociedade/noticia/inspectorgeral-igas-nao-dizer-ha-abuso-fraude-urgencias-estrangeiros-2114446  Com inspectores destes que trazem à memória a ingenuidade dos inspectores do Banco de Portugal, que na altura não foram minimamente capazes de detectar as muitas irregularidades que foram praticadas no BPN, no BPP, e no BES há todos os motivos para ficarmos ainda mais preocupados.

    sábado, 30 de novembro de 2024

    INVENTHEI - Capacitar os alunos de doutoramento para os desafios do século 21



    Não foi certamente por acaso, que num artigo publicado na revista da Ordem dos Engenheiros, no inicio do corrente ano, o extraordinário catedrático Adélio Mendes, da Universidade do Porto, afirmou que no grupo dele já nasceram 10 (dez) start-ups e que esse número cresce à razão de duas novas a cada ano, o que constitui uma dinâmica criativa invulgar, vide post no link supra, que compara de forma favorável com a produção da maior unidade de investigação na área da ciência e engenharia dos materiais-CICECO, onde há centenas de investigadores, mas que até hoje produziu apenas 8 (oito) start-ups. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/10/uma-metrica-pouco-excelente-por-parte.html

    No final do passado mês de Março, a revista The Economist, previu um futuro péssimo para a economia Europeia, https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/03/the-economist-impending-economic.html a juntar à invasão da Ucrânia, que levou à subida de preços de energia e à subida da inflação, e à invasão dos veículos elétricos Chineses, que ameaçam milhões de empregos, de que é reflexo o recente anúncio da Volkswagen de encerrar fábricas na Alemanha, juntar-se-ia também a possibilidade futura, de Donald Trump se tornar o próximo presidente dos EUA, que entretanto deixou de ser apenas uma possibilidade, para levar a uma inevitável uma guerra de tarifas, que contribuirá para tornar ainda mais negras as perspectivas futuras da economia europeia, o que por sua vez torna ainda mais importante e urgente programas, que facilitem a criação de empresas tecnológicas.

    No presente contexto aproveito para divulgar uma recente publicação, onde se descreve um programa educativo, financiado pelo Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia no âmbito da Iniciativa: Capacitação em Inovação para o Ensino Superior, https://ieeexplore.ieee.org/stamp/stamp.jsp?tp=&arnumber=10767758 e que foi especialmente projetado para ajudar os alunos de doutoramento na exploração e valorização dos resultados económicos das suas investigações e bem assim na sua capacitação para os desafios de uma economia europeia sujeita a uma competição brutal por parte dos  EUA e também da China (país cujo crescimento fulgurante até já lhe permite a audácia de roubar prémios Nobel à Europa), vide o relato dramático feito no relatório Draghi, onde não por acaso, na página 214, é explicitada a critica que na Europa (ainda) não existem incentivos suficientes para que os investigadores se tornem empresáriosembora neste aspecto particular seja importante frisar que ao contrário de incentivos, paradoxalmente, o que tem havido são desincentivos, que a ciência mostrou que são autênticos tiros nos pés https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/03/new-evidence-shows-that-abolishment-of.html

    Pessoalmente, acho que o referido programa apresenta uma séria limitação. A palavra "failure" não aparece referida uma única vez no mesmo e porém como recordei anteriormente a capacidade de ultrapassar insucessos é determinante nesta área e não se consegue sequer perceber porque é que as universidades lhe dedicam tão pouca atenção: "A critical concern deserving increased emphasis within universities — the nuanced skill of overcoming failures and the profound lessons that inevitably unfold from these experiences underscore the importance for educational institutions to acknowledge the inherent value of such lessons in shaping individuals. It is crucial to note that the ability to overcome failure and continue taking risks is particularly vital in the knowledge economy and the realm of startup creation" https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/01/a-venture-capitalist-revered-by.html

    PS - Em 2017 critiquei pela sua ligeireza e notória ausência de sustentação científica, um descarado exercício de propaganda, que contou com a participação da FCT, que dava conta que numa única década teriam alegadamente sido criadas no nosso país 300.000 start-ups, o que a ser verdade, faria de Portugal o campeão do universo, embora na verdade nesse campeonato, nem sequer conseguimos ter metade do rácio da Estónia https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/06/o-inacreditavel-milagre-socialista-ou.html