quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O Governo de Portugal prepara-se para uma guerra imaginária e ignora a única guerra que é 100% certa e que já começou a matar


Com mortes já confirmadas, quase um milhão de portugueses sem eletricidade, milhares de habitações destruídas e uma rede rodoviária em colapso, o país atravessa horas de pânico e o Governo viu-se inclusive forçado a apelar à permanência da população em casa, num cenário de emergência que, como descreveu o Expresso, faz lembrar um país sob ataque, quase como se estivesse a ser atingido por mísseis de um exército invasor. Mas nesta “guerra” os milhares de milhões de euros já gastos pelo actual Governo em equipamento militar, um desperdício doze vezes superior ao valor do investimento público em Ciência,  não servem para salvar vidas ou proteger pessoas, revelando-se absolutamente inúteis.

E é precisamente neste quadro de devastação que se torna impossível ignorar as consequências de um importante estudo de investigadores alemães, segundo o qual estes fenómenos não são raros nem exceções meteorológicas, são, muito pelo contrário, um ensaio geral daquilo que ameaça tornar-se nas próximas décadas uma rotina trágica. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/09/artigo-de-investigadores-alemaes-ajuda.html

O que aí vem nos próximos anos provocará uma enorme destruição à escala de uma guerra, mas esta não será provocada pela Rússia. Virá de fenómenos atmosféricos extremos, associados a um colapso climático. E perante isto o Governo Português optou, erradamente, por se preparar para uma invasão russa que não chegará nunca, até porque aquele país está economicamente à beira do colapso, enquanto ignora a única guerra que Portugal terá de enfrentar, cuja probabilidade de ocorrência é de 100%, contra a crise climática. Uma guerra que não se combate com misseis, com drones ou tanques blindados, mas com Ciência, investimento público e políticas de adaptação e resiliência climática de longo prazo.

Se este Governo fosse mais competente do que é, não poderia em caso algum ter deixado de extrair lições absolutamente cruciais a partir do famoso apagão ocorrido no final do mês de Abril do ano passado, o qual deveria ter servido para corrigir falhas grosseiras na preparação do nosso país para cortes prolongados de eletricidade, como o actual. Em vez disso, perdeu-se um tempo precioso. O mínimo exigível teria sido a criação de um programa de apoio à aquisição de geradores, com financiamento a 100% para as pessoas em situação de maior vulnerabilidade social ou dependentes de equipamentos elétricos vitais, protegendo desde logo quem mais precisa. 

O Governo também deveria ter incentivado os municípios a criarem reservas locais de geradores de maior potência, para que, em momentos de crise, como o actual, possam desde logo servir para garantir o abastecimento de água e também para serem disponibilizados a lares de idosos e outras instituições de apoio social que não dispõem de meios financeiros suficientes para a sua aquisição. E mesmo que existam autarquias sem capacidade financeira para adquirir os tais geradores de maior potência, é preferível que seja o Governo a assegurar essa aquisição, em vez de desperdiçar dinheiro dos contribuintes em material militar para uma guerra, que é mais do que evidente, nunca acontecerá.

Isto já para nem referir o óbvio, que há muito que este país deveria ter criminalizado qualquer licenciamento autárquico de novas edificações em zonas de risco, nomeadamente em zonas propicias a deslizamentos de terras, em zonas inundáveis, em zonas costeiras ou áreas diretamente expostas à subida do nível do mar, relativamente às quais faz sentido revisitar a frase: "os contribuintes deste país serão obrigados a pagar milhões para evitar que o mar engula "apartamentos a preços milionários, construídos quase em cima do mar." https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/04/the-economist-gorda-factura-das.html

PS - A gravidade dos supracitados fenómenos climáticos extremos tem, paradoxalmente, uma enorme virtude: expõe de forma inequívoca a vacuidade e a indigência do programa político do partido liderado por André Ventura, um programa negligente e incompetente, em que a emergência climática é totalmente ignorada e no qual não se encontra uma única linha, proposta ou visão, por mínima que seja, num vazio programático absoluto, sobre o que o nosso país deve fazer de imediato para prevenir ou mitigar consequências que agora já são bastante devastadoras, mas que ameaçam tornar-se muito mais destrutivas no futuro. Tenha-se presente que as estatísticas da Agência Europeia do Ambiente revelam que, na década de 1980, Portugal sofria prejuízos anuais na ordem dos 70 milhões de euros devido a tempestades e incêndios. Desde então, a fatura climática explodiu: os prejuízos por conta da emergência climática ultrapassam hoje os 600 milhões de euros por ano e, num futuro próximo, irão quebrar a barreira dos 1000 milhões de euros anuaishttps://www.eea.europa.eu/en/analysis/indicators/economic-losses-from-climate-related

sábado, 24 de janeiro de 2026

A minha discordância sobre a opinião de três catedráticos, que negligenciam a probabilidade da IA poder prejudicar uma elevada percentagem de estudantes

   

Depois do catedrático Luís Aguiar-Conraria, da Universidade do Minho, ter aproveitado a sua coluna no primeiro caderno da última edição do Expresso para criticar duramente o grupo de professores universitários que assinou o polémico manifesto apelando à proibição da Inteligência Artificial no ensino superior, surgiram hoje, nas páginas do jornal Público, posições que reforçam essa leitura. Esse apoio veio da catedrática Elvira Fortunato, da Universidade Nova e ex-ministra da Ciência e do Ensino Superior, e também do catedrático Paulo Ferreira, da Universidade de Aveiro, na sua qualidade de presidente do CRUP.

Contudo, nos artigos destes três valentes “mosqueteiros” catedráticos ficou por reconhecer algo absolutamente essencial, que limita fortemente a utilização da IA no ensino superior em Portugal. Trata-se precisamente do tal constrangimento que, como já tinha comentado anteriormente, também inviabiliza a tal solução pedagógica "milagrosa" defendida pelo catedrático da Universidade de Harvard, Eric Mazur, e que é o facto inegável de nenhuma das referidas abordagens conseguir funcionar sem professores extraordinários. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/01/catedratico-questiona-por-que-razao-vou.html 

Quando essa base não existe, como acontece em Portugal, onde as estatísticas mostram que a maioria dos docentes possui apenas licenciatura ou mestrado, tanto as pedagogias que se revelaram eficazes com docentes de excelência como a própria IA tendem a produzir o efeito contrário. Em vez de ajudarem o alunos, irão na maioria dos casos promover a superficialidade, institucionalizar o erro e banalizar a mediocridade. Longe de elevar a qualidade do ensino, a IA acabará por revelar, com raras e honrosas exceções, de forma ainda mais implacável, as debilidades profundas do corpo docente da Academia Portuguesa.

Se alguém como o supracitado Aguiar-Conraria, que conseguiu atingir o topo da carreira académica e cuja obra científica até já foi citada por vencedores de prémios Nobel, reconhece que "não é fácil" e que ele próprio ainda não domina a inteligência artificial e admite também que essa competência é absolutamente essencial para "ajudar os estudantes", torna-se legítimo questionar como se pode esperar que milhares de docentes, com qualificações inferiores, que nem sequer conseguiram obter um diploma de mestrado ou de doutoramento, venham a adquirir essa competência de forma rápida e generalizada ?

PS - Tendo em conta a sólida reputação da Finlândia na área educativa, onde a carreira de professor tem um elevado prestigio social e o modelo educativo não muda sempre que muda o Governo, como infelizmente acontece em Portugal, pesquisei na plataforma Scopus a publicação científica mais citada, dos últimos 12 meses, com autoria de investigadores daquele país, na área da inteligência artificial e educação, tendo descoberto um estudo, que também envolve investigadores de outros países, onde se alerta para o perigo da adoção prematura de ferramentas de IA generativa em contextos educativos, quando esta ocorre sem uma ponderação aprofundada da eficácia, das implicações sistémicas, das dimensões éticas e da robustez pedagógica dessas práticas. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/0144929X.2024.2394886#abstract

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Afinal quem é que fala a verdade ? O CEO da bilionária Feedzai ou o Governo Português ?



No post anterior, acessível através do link supra, onde mencionei o fenómeno sui generis e inspirador da capacidade de atração da pequena cidade do Fundão, foi referida a importância da Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026, de 8 de janeiro, que aprovou a Agenda Nacional de Inteligência Artificial. Esse documento identifica uma lista de várias vantagens competitivas de Portugal, onde se pode ler, no ponto 1.7, que existe no nosso país: "...ecossistema de startups, contando com um total de 5091 empresas...O segmento de IA destaca-se pelas 552 empresas cuja atividade nuclear envolve o uso desta tecnologia... representando um valor empresarial de 25 mil milhões de euros. Destaca-se, ainda, que seis dos sete unicórnios portugueses têm IA no centro dos seus serviços e operações."

Mas como é que é possível compatibilizar esses valores com as recentes e perentórias declarações do diplomado em engenharia informática Nuno Sebastião, CEO da Feedzai (empresa avaliada em quase 2000 milhões de dólares), ao semanário Expresso, segundo as quais “em Portugal só existem duas empresas portuguesas cujo negócio assenta em IA — a Feedzai e a Sword Health”?  Mas mesmo que se admita que a afirmação do CEO da Feedzai se restringisse somente ao universo dos unicórnios, isto é, às empresas com uma valorização superior a mil milhões de dólares, ainda assim tal não confirma os números apresentados pelo Governo.

Acresce que na supracitada Resolução é também afirmado que Portugal é o terceiro país da União Europeia com maior cobertura de fibra ótica, e também o terceiro país na UE em percentagem de estudantes em áreas de engenharia, valores para os quais não encontrei estatísticas oficiais.  E No ponto 1.6 da mesma pode ainda ler-se que existe uma: "Predisposição elevada para adotar IA, com quase 90 % dos portugueses a acreditar que a IA torna a sua vida mais fácil", afirmação que é sustentada num estudo da Netsonda de Maio de 2025. Estes resultados, porém, não coincidem com os de um outro estudo, mais recente, desenvolvido no âmbito de um projeto apoiado pela Fundação “la Caixa” (FP24-2B), relativamente ao qual o investigador Pedro Magalhães afirmou existir um número muito maior de portugueses relutantes do que entusiasmados em relação à IA.

PS - O post anterior, referido no início deste texto, mencionava uma notícia sobre os cronótipos, que permitem identificar o período do dia em que um indivíduo apresenta melhor desempenho profissional. Pois bem, por uma feliz coincidência, uma startup fundada por uma investigadora portuguesa que trabalha numa universidade alemã voltou ontem a merecer atenção pública ao ser novamente premiada. O reconhecimento decorre do desenvolvimento de uma tecnologia avançada que possibilita a quantificação do relógio biológico humano ao nível molecular, através da análise dos genes associados aos ritmos circadianos. Esta inovação abre perspetivas quase revolucionárias de aplicação em domínios como a medicina personalizada, a psicologia, a ciência do desporto e a organização temporal do trabalho. A abordagem integra um teste de saliva com modelos matemáticos e algoritmos de inteligência artificial, permitindo deslocar o conceito de cronótipo de uma categorização comportamental para um marcador biológico personalizado. https://www.publico.pt/2026/01/18/ciencia/noticia/startup-investigadora-portuguesa-vence-premio-alemanha-2161531