sábado, 24 de janeiro de 2026

A minha discordância sobre a opinião de três catedráticos, que negligenciam a probabilidade da IA poder prejudicar uma elevada percentagem de estudantes

   

Depois do catedrático Luís Aguiar-Conraria, da Universidade do Minho, ter aproveitado a sua coluna no primeiro caderno da última edição do Expresso para criticar duramente o grupo de professores universitários que assinou o polémico manifesto apelando à proibição da Inteligência Artificial no ensino superior, surgiram hoje, nas páginas do jornal Público, posições que reforçam essa leitura. Esse apoio veio da catedrática Elvira Fortunato, da Universidade Nova e ex-ministra da Ciência e do Ensino Superior, e também do catedrático Paulo Ferreira, da Universidade de Aveiro, na sua qualidade de presidente do CRUP.

Contudo, nos artigos destes três valentes “mosqueteiros” catedráticos ficou por reconhecer algo absolutamente essencial, que limita fortemente a utilização da IA no ensino superior em Portugal. Trata-se precisamente do tal constrangimento que, como já tinha comentado anteriormente, também inviabiliza a tal solução pedagógica "milagrosa" defendida pelo catedrático da Universidade de Harvard, Eric Mazur, e que é o facto inegável de nenhuma das referidas abordagens conseguir funcionar sem professores extraordinários. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/01/catedratico-questiona-por-que-razao-vou.html 

Quando essa base não existe, como acontece em Portugal, onde as estatísticas mostram que a maioria dos docentes possui apenas licenciatura ou mestrado, tanto as pedagogias que se revelaram eficazes com docentes de excelência como a própria IA tendem a produzir o efeito contrário. Em vez de ajudarem o alunos, irão na maioria dos casos promover a superficialidade, institucionalizar o erro e banalizar a mediocridade. Longe de elevar a qualidade do ensino, a IA acabará por revelar, com raras e honrosas exceções, de forma ainda mais implacável, as debilidades profundas do corpo docente da Academia Portuguesa.

Se alguém como o supracitado Aguiar-Conraria, que conseguiu atingir o topo da carreira académica e cuja obra científica até já foi citada por vencedores de prémios Nobel, reconhece que "não é fácil" e que ele próprio ainda não domina a inteligência artificial e admite também que essa competência é absolutamente essencial para "ajudar os estudantes", torna-se legítimo questionar como se pode esperar que milhares de docentes, com qualificações inferiores, que nem sequer conseguiram obter um diploma de mestrado ou de doutoramento, venham a adquirir essa competência de forma rápida e generalizada ?

PS - Tendo em conta a sólida reputação da Finlândia na área educativa, onde a carreira de professor tem um elevado prestigio social e o modelo educativo não muda sempre que muda o Governo, como infelizmente acontece em Portugal, pesquisei na plataforma Scopus a publicação científica mais citada, dos últimos 12 meses, com autoria de investigadores daquele país, na área da inteligência artificial e educação, tendo descoberto um estudo, que também envolve investigadores de outros países, onde se alerta para o perigo da adoção prematura de ferramentas de IA generativa em contextos educativos, quando esta ocorre sem uma ponderação aprofundada da eficácia, das implicações sistémicas, das dimensões éticas e da robustez pedagógica dessas práticas. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/0144929X.2024.2394886#abstract