domingo, 2 de agosto de 2026

Uma farsa que se repete todos os anos: Portugal bate recordes de investigação sem investigadores nem laboratórios

O Público noticia hoje que Portugal atingiu um novo máximo de despesa em investigação. Segundo os dados do Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional (IPCTN), o nosso pobre país investiu alegadamente 5584 milhões de euros em ciência em 2025. A esmagadora maioria em despesa empresarial. Lê-se e não se acredita em tanta fartura. Sobretudo quando a maioria do tecido empresarial português não possui investigadores, nem doutorados, nem laboratórios, nem qualquer produção de conhecimento minimamente reconhecível. 

Contudo e em bom rigor, o IPCTN  não demonstra que as empresas portuguesas estejam a investigar mais; demonstra apenas que estão a declarar mais despesas sob a rubrica de investigação e desenvolvimento. Confundir estas duas realidades é transformar uma classificação contabilística numa narrativa de progresso científico. O delírio estatístico chega ao ponto de Portugal, dotado de um tecido empresarial incomparavelmente mais débil do que o espanhol ou o italiano, surgir agora como um país cujas empresas gastam mais em investigação do que as empresas de Espanha e de Itália. A conclusão desafia não apenas o bom senso, mas a própria estrutura económica dos três países. Portugal dispõe de menos de cinco grandes empresas no top 2000 das que mais investem em I&D; a Espanha possui cerca do seis vezes mais e Itália quase dez vezes mais. A famosa Ferrari sozinha investiu mais em despesas de investigação do que as referidas grandes empresas Portuguesas. 

A fragilidade começa logo na própria definição de investigador. Para efeitos estatísticos, não é necessário possuir doutoramento, integrar uma carreira científica, publicar, trabalhar num laboratório ou sequer ter sido contratado para investigar. Basta que um trabalhador declare ter dedicado uma parte do seu tempo a uma atividade que a própria empresa apresenta como nova e criativa. Também não é necessário que a empresa possua laboratórios ou equipamentos científicos relevantes. Podem ser contabilizados consultores, serviços externos e trabalho realizado em instalações de terceiros. Deste modo, uma empresa sem laboratório, sem investigadores de carreira, sem publicações, sem patentes e sem qualquer produção científica reconhecível pode surgir nas estatísticas como executora de I&D.

Sem auditorias científicas independentes e projeto a projeto, ninguém pode saber com segurança quanto desta despesa corresponde a investigação efetiva e quanto corresponde a contabilidade criativa legitimada por uma definição estatística extraordinariamente permissiva. Esta complacência estatística torna-se ainda mais censurável quando se reconhece que existe um poderoso incentivo financeiro para ampliar essa classificação. Benefícios fiscais e mecanismos como o SIFIDE transformam a rubrica de I&D num instrumento de engenharia fiscal potencialmente mais rentável do que a própria investigação. 

Um caso concreto, que me foi relatado por um colega da Universidade de Aveiro, ilustra de forma particularmente elucidativa até onde pode chegar esta perversão. Uma empresa dedicada à gestão de uma vasta rede de franchising, sem laboratórios, investigadores ou atividade científica própria reconhecível, conseguiu deduzir quase 7,7 milhões de euros em impostos sob a aparência de financiamento à investigação, bastando-lhe adquirir participações num fundo de capital de risco. Tornou-se, assim, um dos maiores beneficiários do SIFIDE sem ter de produzir conhecimento, contratar investigadores ou demonstrar qualquer resultado científico verificável. Faço notar que esses fundos que permitiam abater o montante de IRC a pagar pelas empresas já tinham sido criticados neste blogue em 2022 https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/11/o-esquema-ardiloso-que-permitiu-que.html

E ao mesmo tempo que projetos de investigação genuína submetidos à FCT são recusados por falta de financiamento, milhões de euros foram canalizados para empresas sem atividade científica própria. Isto significa que uma parte muito significativa dos milhares de milhões atribuídos através do SIFIDE teria servido incomparavelmente melhor o interesse público se tivesse sido aplicada diretamente no financiamento do sistema científico nacional. Portugal corre, assim, o risco de celebrar como alegado "triunfo científico" aquilo que poderá não passar de uma sofisticada "fraude" estatística, a transformação burocrática de despesas empresariais em investigação fictícia e, depois, em benefícios fiscais suportados por todos os contribuintes, sem laboratórios, sem investigadores e sem ciência.

Declaração de interesses - Recordo que muito antes antes da conhecida ex-eurodeputada Ana Gomes ter exigido o fim do SIFIDE por ser fonte de "borlas" fiscais, e dos "vistos Gold" já eu tinha criticado de forma bastante explicita e mais do que uma vez aquele infeliz programa https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/08/expresso-o-nada-surpreendente-recorde.html

PS - Num próximo post mostrarei que, num importante indicador de investigação científica, Portugal se encontra já próximo da Bulgária e pior do que isso em poucos anos irá ser ultrapassado por aquele país. Nesse post revelarei também qual a medida governativa que mais contribuiu para essa preocupante degradação do desempenho científico nacional. 

sábado, 1 de agosto de 2026

Artigos despublicados: A nova liderança da Univ. de Aveiro e a proposta para mudar um sistema de despublicação que penaliza mais injustamente os jovens investigadores


No post acessível através do link supra, divulguei em Março de 2025, uma imagem impressionante que ilustrava a renhida disputa entre a Universidade de Coimbra e a Universidade de Lisboa pelo pouco invejável título da universidade portuguesa com maior número de artigos despublicados. Curiosamente, uma análise efectuada hoje relativamente às publicações indexadas na Scopus, que foram despublicadas em 2025 e 2026 altera significativamente esse panorama, a Universidade de Aveiro surge agora na liderança, seguida pela Universidade de Coimbra, aparecendo a universidade de Lisboa em terceiro lugar.

A análise das causas de despublicação revela uma realidade bastante heterogénea. Cerca de 42% das despublicações estão relacionadas com inexatidões, duplicações ou insuficiente sustentação dos dados e das imagens apresentados. Outros 25% resultam da utilização de dados ou imagens anteriormente publicados, sem a devida identificação ou justificação. Os problemas de autoria representam aproximadamente 20% dos casos, incluindo situações em que foram acrescentados autores durante o processo editorial sem fundamentação adequada, bem como edições especiais nas quais os revisores mantinham ligações ao editor convidado, suscitando evidentes conflitos de interesse. As falhas metodológicas correspondem a 8% dos casos, enquanto os restantes 4% decorrem do incumprimento de requisitos relacionados com o consentimento dos participantes.

Independentemente da natureza das irregularidades e da enorme disparidade da sua gravidade, todos estes artigos e, por extensão, os respetivos autores passam agora a carregar o mesmo estigma indiferenciado da despublicaçãoRecordo, a este propósito, que já no post scriptum de um post publicado em 2021 defendi a necessidade de diferenciar as despublicações em função das causas que lhes deram origem. Retomei a questão em dezembro do ano passado, num post sobre um artigo publicado no Journal of Informetrics, propondo um sistema de classificação mais proporcional e mais transparente, pois o modelo atual produz consequências profundamente desiguais, penalizando de forma particularmente severa os investigadores em início de carreira, que dispõem de menor capital reputacional para absorver o dano de uma despublicação. Esta proposta foi posteriormente aprofundada num preprint disponibilizado no Zenodo, a plataforma europeia de acesso aberto desenvolvida no âmbito da iniciativa OpenAIRE. https://zenodo.org/records/18800449 

Alguns meses mais tarde, submeti uma versão melhorada desse preprint à revista Accountability in Research: Ethics, Integrity and Policy. Há dois dias, a editora dessa revista contactou-me, indicando as alterações necessárias para que o artigo possa vir a ser aceite. Veja-se a esse respeito o email reproduzido abaixo. 


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De: Accountability in Research: Ethics, Integrity and Policy
Enviado: 30 de julho de 2026 07:14
Para: F. Pacheco Torgal 
Assunto: Reminder: Your resubmission for Accountability in Research: Ethics, Integrity and Policy is due in six weeks on 02-Sep-2026
 
30-Jul-2026

Dear Dr F. Pacheco-Torgal:

Recently, you received a decision on Manuscript ID GACR-2026-0402, entitled "A Graduated Retraction Accountability System (GRAS): A Principled Framework for Differentiating Scientific Retractions."  This email is simply a reminder that your resubmission is due in six weeks on 02-Sep-2026.

Please note that your draft will appear in the “Resubmitted Manuscripts in Draft” queue in your Author Centre.

If it is not possible for you to resubmit your manuscript by 02-Sep-2026, we will consider your paper as a new submission.

Please contact the Editorial Office if you are unable to resubmit within this time.

Sincerely,
Dr. Lisa Rasmussen
Accountability in Research: Ethics, Integrity and Policy Editorial Office

sexta-feira, 31 de julho de 2026

The Unacknowledged Thermodynamic Price of the Modern Corporate University

A living cell preserves an extraordinarily organised interior in a universe governed by increasing entropy. It maintains membranes, genetic information and complex biochemical processes, yet it does not violate the second law of thermodynamics because it is not an isolated system. It imports concentrated energy and organised matter, transforming them into heat, waste and degraded materials. Its internal order is therefore purchased through a greater production of disorder outside its boundaries. Life survives not by defeating entropy, but by exploiting it. This idea, associated with Schrödinger’s “negative entropy” and Prigogine’s dissipative structures, contains an uncomfortable lesson, every organised system has a metabolic cost, every zone of visible order generates disorder elsewhere.

The same principle applies to individual existence. Human beings construct internal order through routines, careers, identities, relationships and carefully defended narratives about themselves. Yet that order requires constant exchanges with the outside world. A person who closes himself to criticism, affection, uncertainty and unfamiliar ideas may preserve stability, but it is the stability of a crystal rather than the dynamic order of a flame. More disturbingly, personal equilibrium is often achieved by exporting disorder into less visible places. The professional who appears controlled in public may transfer his frustration to his family; the admired leader may depend upon the exhaustion of subordinates; one person’s tranquillity may be financed by another’s anxiety. The moral question is therefore not whether our lives appear orderly, but where the fatigue, conflict and damage required to preserve that order are ultimately deposited.

Scientific research offers an especially revealing example. A published article appears as an orderly progression from question to method, evidence and conclusion. In reality, every polished result normally rests upon failed experiments, rejected manuscripts, abandoned hypotheses, unusable datasets and intellectual dead ends. These are not merely signs that research has malfunctioned; they are often the unavoidable cost of discovery. A scientific culture that publishes only successful outcomes and reconstructs every project as a clean sequence of rational decisions conceals its own metabolism. For researchers, this is a liberating insight: uncertainty and failure are frequently part of the process rather than deviations from it. Original research exists between excessive order and excessive disorder. Too much order produces repetition and safe incrementalism; too much disorder produces incoherence. Discovery requires enough structure to accumulate knowledge and enough instability for something unexpected to emerge.

Universities reproduce this logic institutionally. They import funding, student ambition, academic labour and talent, transforming them into graduates, publications, technologies and prestige. Yet the crucial question remains: where does their disorder go? Institutional stability may depend upon precarious researchers, exhausted support staff, invisible doctoral labour and the transfer of uncertainty towards those least able to resist it. The university remains orderly because insecurity has been displaced downwards. Excellence therefore cannot be judged solely through rankings, publications and strategic plans. It must also account for abandoned researchers, bureaucratic overload, suppressed dissent and talent trained at public expense and then allowed to leave. A university may appear highly efficient precisely because it has become exceptionally skilled at concealing its entropy. 

P.S. This argument also returns us to my 2021 post, The Success of Organisations in the Twenty-First Century Requires a Minimum of Rebellion and Chaos. A university that eliminates dissent, intellectual friction, failed experiments and uncomfortable voices does not become more orderly; it becomes scientifically dead. What passes for institutional stability is often merely stagnation protected by bureaucracy, conformity disguised as collegiality and intellectual cowardice systematically elevated into a dominant model of governance.  https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/academia-portuguesa-necessita-de.html