quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Como a ganância do Estado Português fabricou vulnerabilidades que o mundo do crime converteu em avultados lucros

 

Há poucos anos, publiquei no meu primeiro blogue três textos sobre uma das mais vergonhosas formas de parasitismo do Estado português, financiar-se à custa da pobreza, do desespero e da ilusão daqueles que menos têm. No primeiro texto, comentei um artigo contundente do catedrático Aguiar-Conraria sobre a criação de um novo imposto sobre os portugueses mais pobres. Duas semanas depois, escrevi sobre o facto de se ter ficado a saber que havia luxos políticos que eram pagos pelos portugueses mais desesperados. E num outro post, posterior, comentei o facto do vício das raspadinhas andar a ser utilizado para pagar generosos salários a familiares de políticos. Na altura, o conteúdo desses posts poderá ter parecido excessivo aos defensores do Governo de então; hoje, porém, revela-se quase benevolente. Cinco anos depois, os números expõem a verdade, o Estado não se limitou a falhar no combate a esta exploração, escolheu alimentá-la, legitimá-la e transformá-la numa fonte permanente de receita, à custa da ruína de milhares de portugueses.

Os quase 100 milhões de euros movimentados diariamente no jogo não correspondem integralmente a dinheiro perdido, porque incluem prémios que voltam a ser apostados. Mas esta distinção não pode servir para anestesiar o verdadeiro escândalo, a cada ano os jogadores portugueses perdem cerca de 2,6 mil milhões de euros, um valor equivalente a aproximadamente 1% do PIB nacional. A comparação europeia destrói, sem margem para dúvidas, qualquer tentativa de normalização. Estas perdas representam cerca de 0,49% do PIB em França e apenas 0,34% na Alemanha. Proporcionalmente à riqueza produzida, Portugal sacrifica o dobro de França e quase três vezes mais do que a Alemanha.

Perante estes números, o Estado já não pode continuar a representar o papel hipócrita de regulador imparcial. Não está do lado de fora deste sistema pois é um dos seus beneficiários. Financia despesas públicas com o dinheiro retirado aos jogadores e procura conferir respeitabilidade moral ao processo invocando as chamadas “boas causas”. Mas nenhuma causa se torna boa por ser financiada através da dependência, do endividamento e da destruição de famílias. A expressão funciona apenas como lavagem moral de um sistema que transforma a fragilidade humana em receita pública e lucro privado. Também o discurso do “jogo responsável” constitui uma extraordinária operação de desresponsabilização política. A culpa é cuidadosamente colocada sobre o indivíduo, acusado de não saber controlar-se, enquanto o Estado autoriza a publicidade, tolera os estímulos permanentes, arrecada os impostos e assiste ao crescimento das perdas. 

Um país que permite que quase 1% de toda a riqueza produzida num ano seja absorvida desta forma não enfrenta apenas um problema económico, social e de saúde pública, enfrenta uma falência moral do próprio poder político. Portugal precisa de limites obrigatórios às perdas e aos depósitos, restrições severas à publicidade, autoexclusão centralizada e divulgação das perdas por idade, rendimento e jogador. Cada dia de adiamento deixa de ser negligência e passa a constituir uma decisão consciente de proteger as receitas em vez dos cidadãos mais vulneráveis e indefesos. Continuar a esconder esta devastação atrás de jackpots, patrocínios e “boas causas” é uma escolha política deliberada e moralmente indefensável.  Um Estado que arrecada milhões de euros com a ruína que tinha o dever de prevenir já não é regulador nem simples cúmplice, tornou-se sócio do negócio da desgraça.

PS - A publicidade ao tabaco foi proibida porque o poder político acabou por reconhecer que um produto viciante e destrutivo não pode ser promovido publicamente. Com o jogo, o Estado escolheu fazer exatamente o contrário: permite que a dependência seja vendida como diversão, sucesso e enriquecimento fácil, deixa a publicidade invadir televisões, transmissões desportivas, redes sociais e telemóveis e, no final, arrecada a sua parte das perdas. Um recente programa da CMTV denunciou mesmo um esquema de influenciadores com encenação de ganhos, destinado a atrair seguidores através da imagem fraudulenta de dinheiro fácil. É verdade que o Estado não arrecada impostos sobre estas plataformas ilegais, mas a normalização do jogo legal ofereceu-lhes a camuflagem perfeita: quando apostar se torna banal, o ilegal só precisa de imitar o autorizado. O Estado não lhes deu licença, mas criou-lhes o mercado e entregou-lhes, de bandeja, as vítimas mais vulneráveis.

domingo, 20 de setembro de 2026

Existir ou não existir? Eis o veredicto da IA !

Como já não sabia se, durante o passado mês de agosto, tinha verdadeiramente existido, isto é, se tinha feito algo útil, pois "só existimos nos dias em que fazemos", pedi a um modelo de IA que vasculhasse a minha caixa de correio eletrónico em busca de provas de vida científica. O veredicto dessa pequena "investigação forense" apresenta-se abaixo.

PS - Se tivesse, porém, adotado a conceção de existência proposta pelo físico Carlo Rovelli, a dita investigação forense teria que ser muito mais exigente. Não bastaria apurar o que fiz em agosto; seria necessário descobrir se esse trabalho gerou, de facto, novas interações, influenciou alguém ou alterou, ainda que minimamente, alguma coisa no mundo.

03/08/2026  Submissão do relatório de avaliação de tese de doutoramento (Sujitha A).
03/08/2026  Projeto — MSCA-PF 2026 (A. Gaddafi): preparação de submissão.
04/08/2026  Journal of Informetrics: decisão de rejeição da Letter submetida.
04/08/2026  Revisão submetida — Sustainability — sustainability-4495768
05/08/2026  eProofs dos capítulos 15, 16 e 17, ISBN 9780443509926.
05/08/2026  Convite de cap, “Advances in Materials for Mitigating Building Cooling Needs”.
05/08/2026  Editorial — CivilEng — civileng-4506242: pedido de Pre Peer-Review Approval.
06/08/2026  Revisão submetida — Scientific Reports — “Raw Pyrite Tailings as....”
06/08/2026  Introdução de “Advances in Alkali-Activated Concrete” (ISBN 9780443542077).
06/08/2026  Tese — Aceitação de avaliação de tese de doutoramento.
06/08/2026  Revisão submetida — TECE-2026-1031.
08/08/2026  Tese — convite para Foreign Examiner da tese de S. Omran.
09/08/2026  Decisão editorial — Eng — eng-4441176 (2.ª).
10/08/2026  Comentários ao cap15, “Advances in Materials for Mitigating Building Cooling Needs”.
11/08/2026  Decisão editorial — Materials — materials-4500126.
11/08/2026  1.º lote de provas e queries CH015/MC, ISBN 9780443509926.
11/08/2026  Tese — aceitação da avaliação da tese de Mr. Joni M (Civil Engineering).
12/08/2026  Convite aceite — Journal of the American Ceramic Society — 1651216.
12/08/2026  Convite aceite — Sustainability — sustainability-4520513.
12/08/2026  Revisão submetida — Journal of the American Ceramic Society — 1651216 
12/08/2026  2.º lote de provas, ISBN 9780443509926.
12/08/2026  Revisão submetida — Sustainability — sustainability-4495768 (versão revista).
13/08/2026  Pedido para examinador externo de tese de doutoramento.
13/08/2026  Projeto — GEOSHIELD: acesso à proposta como participante e registo
14/08/2026  Contagem e validação de figuras a cor, ISBN 9780443509926.
16/08/2026  Revisão submetida — Sustainability — sustainability-4520513 (1.ª ronda).
17/08/2026  Seguimento dos ficheiros de autorização, ISBN 9780443509926.
18/08/2026  Conferência — CIVIL2027 (Florença): convite para participação.
19/08/2026  Artigo próprio — Resubmissão R2 a Accountability in Research (269682025).
19/08/2026  Convite aceite — Technologies — technologies-4514423.
19/08/2026  Editorial — JBDE (Journal of Building Design and Environment)
20/08/2026  Convite aceite — Construction Materials (Proceedings of the ICE) —2026-107.
20/08/2026  Decisão editorial — Materials — materials-4500126 (2.ª).
23/08/2026  Decisão editorial — Materials — materials-4524017.
23/08/2026  Revisão submetida — Technologies — technologies-4514423 (1.ª ronda).
24/08/2026  constrmater-4429318 aceite para publicação.
24/08/2026  Convite aceite — Sustainability — sustainability-4544698.
24/08/2026  Projeto — MSCA-PF 2026: revisão da parte B1 da proposta.
25/08/2026  Leitura final de provas, constrmater-4429318.
26/08/2026  Pedido de autorização de reprodução (Luisa F. Cabeza)
26/08/2026  Segunda leitura de provas, constrmater-4429318.
26/08/2026  Livro — envio do capítulo 10 para apreciação.
27/08/2026  Inserção na ELSA de “Advances in Materials for Mitigating Building Cooling Needs”.
27/08/2026  constrmater-4429318 publicado (doi 10.3390/constrmater6050056).
27/08/2026  Revisão submetida — Sustainability — sustainability-4544698.
28/08/2026  Orientação — plano de trabalho do Bahador
29/08/2026  Submissão da proposta GEOSHIELD ao portal Funding & Tenders.
29/08/2026  submissão de JCLEPRO-D-26-30070
31/08/2026  Decisão editorial — Materials — materials-4484132.
31/08/2026  JCLEPRO-D-26-30070: editor atribuído.
31/08/2026  Editorial — JBDE: convite para submissão.

sábado, 19 de setembro de 2026

Daniel Susskind - AI Will Not Make Expertise Obsolete It Will Make It Indispensable

 

Still following on from the previous post, The Cognitive Surrender and The Wilfrid Laurier Test That Universities Should Fear, it is worth considering a warning recently issued by Daniel Susskind, a professor at King’s College London. In an interview published in the latest edition of the Portuguese weekly Expresso, Susskind argues that using artificial intelligence imposes an important responsibility: we must constantly question, criticise and test its answers rather than become passive recipients of what it tells us. These systems make mistakes, hallucinate and reproduce biases often while sounding entirely convincing.

This may be the defining intellectual danger of the AI age. The threat is not merely that machines can fabricate facts, but that their speed, fluency and confidence can make verification appear unnecessary. By rewarding intellectual passivity, they risk progressively eroding the habits of doubt, investigation and independent reasoning on which genuine knowledge depends. Once societies begin accepting plausibility as truth, error no longer needs to deceive us; we voluntarily stop searching for it. At that point, AI ceases to be a tool for extending human thought and becomes an infrastructure for its abandonment.

This is also why Susskind believes that possessing deep knowledge in a specific field will become increasingly important. The distinction was already visible in The Failure of Autonomous AI Scientists and the Nobel Laureate Who Wants a Different AI: AI agents could operate the machinery of research, but lacked the scientific judgement required to determine which questions were worth pursuing, which evidence mattered and which conclusions were justified. A university graduate, however, is not yet an expert, a degree merely begins the long apprenticeship through which expert judgement is formed. This creates a devastating paradox: AI allows novices to simulate expertise before they possess it, while its effortless production of convincing answers enables them to evade the intellectual struggle through which expertise is formed. The danger is not merely that they will fail to detect AI’s omissions, contradictions and false assumptions, but that they may never develop the capacity to do so. AI may democratise the production of plausible answers; it does not democratise expert judgement. Worse, by allowing ignorance to masquerade as genuine intellectual competence, it may destroy the very process that transforms novices into experts.

But the most dangerous paradox begins after graduation. If employers continue to replace young graduates with AI, they will not merely eliminate jobs; they destroy the apprenticeship through which knowledge becomes judgement and novices become experts. What appears rational to each company, cutting costs by dispensing with junior employees—becomes collective intellectual self-destruction. Once today’s experts retire, who will possess the experience to supervise machines, expose their failures or challenge their conclusions? AI may therefore make expertise indispensable while eradicating the human pathway that produces it: by replacing today’s beginners, we may also be abolishing tomorrow’s experts.

PS - There is, however, a far more disturbing challenge to the argument for expertise. In recent experiments involving societies of autonomous AI agents, the agents did not merely exchange information, they spontaneously created their own vocabulary, shared meanings and communication conventions, while their exchanges became progressively more opaque to the humans supposed to monitor them. To observe a conversation one cannot understand is not oversight; it is spectatorship. If human experts cannot decipher the language in which AI systems coordinate, how can they evaluate, correct or control what those systems are doing? And if AI begins inventing not only answers but entirely new concepts, methods and tasks whose logic lies beyond human comprehension, the question is no longer whether human expertise can keep pace. It is whether humanity can retain intellectual sovereignty over forms of intelligence that have escaped the boundaries of human understanding.