sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Trump e o mistério da desaparecida coluna vertebral do submisso semanário Expresso

 

No passado dia 4 de setembro, a Assembleia-Geral das Nações Unidas aprovou, por 164 votos contra um voto velhaco, uma resolução que recomenda a adoção da projeção Equal Earth, muito mais fiel à verdadeira dimensão dos continentes. Essa medida pretende corrigir a distorção associada à projecção Mercator que não só diminuiu como humilhou África e outras regiões do Sul no imaginário de biliões de pessoas durante centenas de anos. O único voto contra veio dos EUA pois para Trump e para a sua matilha, até o simples acto de devolver a África à sua verdadeira dimensão constitui uma perigosa "agenda ideológica".

Os números retiram qualquer disfarce à velhaca objecção dos EUA, na projecção Equal Earth, a África é, cerca de 3,1 vezes maior do que os EUA, enquanto na velha e deformadora projecção Mercator parecia apenas 1,5 vezes maior. Mas a fúria de Trump tem uma segunda e ainda mais sórdida explicação, a sua demente obsessão em apoderar-se da Gronelândia. A projecção Mercator oferecia-lhe a mentira reconfortante de uma ilha quase tão grande como África, transformando uma cobiça colonial no sonho de uma conquista continental. A agora aprovada projecção Equal Earth destrói-lhe a farsa, o grandioso troféu imperial cobiçado por Trump possui, afinal, apenas um catorze avos da área de África.

Porém, o semanário Expresso, que nunca perde uma oportunidade para proclamar solenemente a sua independência, parece ter concluído que os votos de 164 países continuam a não ser suficientes para alterar um mapa sem a indispensável autorização do referido criminoso. Assim, logo no primeiro caderno de hoje, serviu obedientemente aos seus leitores a velha representação deformada do mundo que a Administração Trump prefere, não vá sua excelência o senhor embaixador norte-americano em Lisboa interpretar a mudança cartográfica como um perigosíssimo ato de insubordinação, apresentar uma queixa e fazer com que os jornalistas do Expresso acabem proibidos de viajar para os States. 

PS - Na verdade o mapa mais revelador do primeiro caderno do semanário Expresso não é o do planeta Terra, mas o da coluna vertebral do referido semanário, tão mirrada por reverência ao nojento Trump que nem a deformadora projecção Mercator conseguiria inchá-la.