quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A crise habitacional entre a estreiteza da análise de Martim Avillez Figueiredo e o escrutínio implacável de Jorge Van Krieken

 

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/10/universidade-do-minho-os-20-livros-mais.html

Na sequência do post acessível no link supra, onde no post scriptum citei o próprio Governador do Banco de Portugal, que afirmou que “temos falta de 300.000 casas”, importa examinar a fragilidade da análise desse défice habitacional apresentada por Martim Avillez Figueiredo, gestor e professor convidado da Universidade Católica, num artigo publicado hoje no jornal Público. https://www.publico.pt/2026/10/21/opiniao/opiniao/crise-habitacao-nao-espetaculo-2191964

Avillez Figueiredo afirma que, ao ritmo atual, a indústria da construção levaria mais de dez anos para compensar aquele défice. A conta pode estar certa; a pobreza da análise começa quando a aritmética toma o lugar do pensamento. Dividir o número de casas em falta pela produção anual está ao alcance de qualquer pessoa com uma calculadora; explicar como essa produção poderia aumentar através da industrialização da construção exigiria conhecer tecnologias, processos e modelos de organização que o artigo nem sequer se dá ao trabalho de discutir. Ao projetar sobre a próxima década as limitações do presente, sem examinar as condições necessárias para as superar, o autor transforma a incapacidade atual do setor numa aparente fatalidade. Perante uma crise desta gravidade, seria de esperar que um gestor e professor universitário interrogasse as possibilidades de transformação da indústria. Infelizmente Avillez Figueiredo ficou-se, porém, pela preguiça intelectual da calculadora, conferindo à perpetuação do atraso a aparência respeitável de um diagnóstico. 

Neste contexto importa recordar que, num post anterior de Julho de 2025, de título "Uma das grandes culpadas pela crise da habitação de que curiosamente ninguém fala", critiquei o arcaísmo da indústria da construção nacional, citando exemplos da China, onde foram montados um edifício de dez andares em menos de dois dias, outro de 57 andares em escassos 19 dias de trabalho e um terceiro, de 26 andares e 208 apartamentos, em apenas cinco dias. Estes exemplos ilustram uma transformação profunda na organização da produção, com a transferência de uma parte substancial dos trabalhos do estaleiro para a fábrica que permite produzir componentes industriais em simultâneo com a preparação do local de construção, reduzindo substancialmente os longos prazos de execução nacionais.

Um exercício meramente ilustrativo permite perceber a escala em causa, tomando como referência os 208 apartamentos montados em cinco dias, cada empresa poderia assegurar a montagem de 8320 fogos em 200 dias de trabalho; dez empresas corresponderiam a 83.200 novos fogos anuais e vinte empresas atingiriam 166.400 novos fogos anuais. Estes números não demonstram que Portugal possa reproduzir imediatamente os resultados chineses, mas mostram que o ritmo atual não constitui um limite técnico imutável. Ao apresentar um horizonte superior a uma década sem sequer discutir o potencial da construção industrializada, o referido autor deixou por analisar uma das possibilidades mais relevantes para encurtar esse prazo. A gravidade da crise exigia uma análise das possibilidades de transformação do setor, em vez de uma simples extrapolação da sua insuficiência presente.

Declaração de interesses - Declaro que, certamente não por acaso, sou editor, em conjunto com dois catedráticos chineses, de um livro sobre construção industrializada intitulado "Sustainable Prefabricated Construction: Materials, Digital Technologies and Case Studies", cuja preparação ficará concluída dentro de poucos meses e que será publicado pela conhecida e prestigiada Elsevier.

PS - Há apenas dois dias, o mesmo jornal Público realizou um importante trabalho de escrutínio das quase secretas declarações patrimoniais dos políticos que andaram a aprovar mudanças na lei do arrendamento, analisou 220 declarações de membros do Governo, deputados do PSD, Chega, IL e CDS-PP, tendo apurado 1039 imóveis, 55,6 milhões de euros, 807 mil euros em rendas e 43 sociedades imobiliárias.  Jorge Van Krieken, a quem a idade avançada felizmente não esmoreceu o apurado espírito crítico, foi, porém, mais longe, tomando esse levantamento como ponto de partida para interrogar o que os números expõem e a notícia deixou por discutir, numa implacável reflexão que reproduzo abaixo:

"Os 55,6 milhões são valor patrimonial tributário. O VPT (Valor Patrimonial Tributário) não é o valor da casa, é o valor que o Estado inventa para cobrar IMI. Nasce de um valor base de 665 euros por metro quadrado que o Parlamento fixa e não actualiza, e de coeficientes de localização que ninguém revê. Nas transacções reais, o VPT vale entre um terço e metade do preço, e nos prédios rústicos, nem isso. Ainda se calcula a partir do rendimento agrícola de 1989, dezenas de euros por prédio. Álvaro Castelo Branco, secretário de Estado Adjunto e da Defesa Nacional, declarou quotas em 33 imóveis a um cêntimo cada, 33 cêntimos de património, sem explicar porquê. Não é fraude, é a lei.
Feitas as contas por zona, o património real destes 220 políticos anda entre 150 e 220 milhões de euros. Três a quatro vezes o que o Público publicou. E as declarações são de 2024, antes de mais 20% de subida de preços. Quem fixa o VPT? Eles. Quem decide se os rústicos são reavaliados? Eles. Actualizar o VPT é aumentar o IMI a si próprios e isso não vai acontecer.
Segunda coisa que a notícia não diz. 807 mil euros de rendas sobre 55 milhões de património dá 1,5%. Sobre o valor real, menos de meio por cento. Dirão que vivem nas casas. Vivem numa, talvez em duas. Isso explica 440 dos 623 imóveis urbanos, não explica os outros 183, nem os 412 rústicos, que são terrenos. Mas o ponto não é esse. O ponto é que a declaração não distingue a casa onde se dorme do apartamento que se arrenda, nem o T3 da garagem, nem a renda cobrada da renda englobada no salário ou paga em dividendos por uma das 43 sociedades. Com estes documentos não se sabe quantos senhorios há na Assembleia. Foram desenhados para não se saber. Por quem? Pela Assembleia.
Terceira coisa. Os 412 rústicos. Olivais, pinhais, courelas de herança, o minifúndio do Norte e do Centro. Património pobre, dirão, e é verdade, enquanto for rústico. Esta mesma maioria aprovou a nova Lei dos Solos, que permite reclassificar rústico em urbano por deliberação da Câmara e da Assembleia Municipal, desde que 70% da construção vá para habitação pública ou a "valor moderado". Parece um travão, mas não é. O valor moderado é 125% da mediana do concelho, com tecto em 225% da mediana nacional, calculado à data da escritura. Quando a lei saiu, esse tecto era 3.737 euros por metro quadrado. Hoje é 5.258. Subiu 41% em dezoito meses, porque sobe com o mercado. Um T2 de 90 metros em Lisboa, a valor moderado, custa 473 mil euros. Quem possui terra e vota a lei que decide o que a terra pode vir a ser não precisa de ser corrupto. Basta que a definição de acessível suba com os preços, e ela sobe.
Quarta coisa. A redução do IRS sobre rendas de 25% para 10% tem um tecto de 2.300 euros. Não é um tecto, é uma amnistia. Cobre praticamente todas as rendas do país e todos os senhorios da bancada. A Iniciativa Liberal diz que ser proprietário não configura conflito de interesses porque a lei se aplica a milhões. Tem razão na técnica e nisso está o problema inteiro. Quando a classe que legisla coincide com a classe beneficiada, não há conflito de interesses. Há identidade de interesses.
Quinta coisa. O ranking por número de imóveis engana. No topo estão os herdeiros de minifúndios, o primeiro-ministro com 49 rústicos em Espinho, um secretário de Estado com 45 em Vouzela. O dinheiro está mais abaixo na lista. O presidente da Assembleia com 16 imóveis e perto de três milhões de VPT, seis a oito milhões reais. A ministra do Trabalho com 14 imóveis e dois milhões de VPT. Estes são os senhorios urbanos. Os que a lei do arrendamento vai servir.
Sexta coisa, e a que me importa. Tenho 68 anos. Pertenço à geração que comprou casa quando uma casa custava três anos de salário. Esta Assembleia é a minha geração. 88% são proprietários, mais de metade tem dois ou mais imóveis. No país, nem um quarto das famílias tem mais do que uma casa. Legisla-se a partir de quem já tem, para quem já tem, e a factura vai para os filhos. Não é corrupção. É pior, é só uma classe de políticos a legislar para si própria, convencida de que legisla para todos.

domingo, 18 de outubro de 2026

Os livros mais citados de sempre, a área da Engª Civil e a gravíssima crise habitacional

 

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/12/universidades-e-politecnicos-conseguem.html

Na sequência do post anterior, acessível no link supra, em que comparei a produção de livros indexados na Scopus do conjunto das instituições de ensino superior portuguesas com a da pequena Universidade de Oxford e mostrei que, entre 2010 e 2024, a Universidade do Minho ocupou o terceiro lugar nacional em número de livros publicados, à frente da Universidade do Porto, reproduzo abaixo a lista dos 20 livros mais citados de sempre da Universidade do Minho

A distribuição temática deste top 20 é elucidativa do peso das engenharias, que representam mais de metade dos livros e entre as quais sobressai a área científica da engenharia civil, cuja liderança se afirma tanto em número de títulos como em impacto científico, ao conquistar o primeiro lugar absoluto com o Handbook of Alkali-Activated Cements, Mortars and Concretes, e também a maior média anual de citações nos últimos três anos, demonstrando que o seu impacto científico internacional continua a renovar-se, muito para além do impacto acumulado no passado.

PS - O destaque da engenharia civil na produção científica da Universidade do Minho merece também ser lido à luz da recuperação da procura deste curso e das necessidades crescentes de um país confrontado com uma gravíssima crise habitacional, tendo sido o próprio Governador do Banco de Portugal que afirmou que "temos falta de 300.000 casas", a somar ao envelhecimento das infraestruturas e a urgência da adaptação climática, questões que analisei num post no final do mês de Agosto de título, Ensino superior: projeções de procura até 2029 num curso fundamental e uma área emergente entre os imperativos do futuro https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/08/ensino-superior-projecoes-de-procura.html

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Na universidade que paga mais de 300 mil euros aos catedráticos, integrar o ranking Elsevier–Stanford é quase uma exigência

 

A propósito da deplorável política da presidência da FCT, que critiquei por perpetuar a servidão académica e assegurar a felicidade dos "lordes feudais", privilegiando o financiamento de bolsas de doutoramento selecionadas por júris caseiros em detrimento da abertura de mais vagas para investigadores cujo mérito foi considerado excelente por júris de peritos estrangeiros, reproduzo na imagem supra uma comparação demolidora entre duas instituições de referência mundial e seis das universidades portuguesas mais competitivas, no rácio investigador altamente citado (Top 0.5%) por centena de docentes. 

O rácio do ETH Zurich é 22 vezes superior ao da universidade portuguesa mais competitiva neste indicador, a Universidade do Porto. Quando porém a simulação abrange todos os investigadores do referido ranking correspondente ao top 2%, o contraste torna-se ainda mais devastador e intelectualmente embaraçoso, mesmo a instituição portuguesa mais bem posicionada apresenta um rácio 86 vezes inferior ao do ETH Zurich, que atinge 99,8 investigadores por cada 100 docentes, o que significa que naquela universidade é praticamente impossível ter um lugar docente sem ser um investigador altamente citado.

Tendo em conta que, em 2020, divulguei um estudo da Nature Communications que associava a colaboração precoce de jovens investigadores com cientistas de topo a uma vantagem persistente ao longo da carreira, e que, em 2024, retomei esta questão, a propósito de uma investigação do Journal of the Royal Society Interface, envolvendo mais de 300 mil académicos de 22 áreas científicas, que identificou uma associação crescente entre o impacto científico dos orientadores e o dos investigadores que formaram, a supracitada política da presidência da FCT revela-se assim triplamente prejudicial: Começa por estrangular o financiamento dos jovens investigadores, expande a formação doutoral para níveis irrazoáveis em absoluto contraciclo com países mais ricos do que o nosso e, mais grave ainda, não consegue assegurar aos doutorandos orientadores com currículos internacionalmente competitivos, transformando as limitações científicas de quem os orienta numa pesada herança que que os próprios terão de carregar ao longo de toda a carreira.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

The Deeply Uncomfortable Question Behind ETH Zurich’s 99.8 Scientific Benchmark

In 2020, I drew attention on my first blog to a study in Nature Communications showing that early coauthorship with leading scientists predicts a competitive advantage extending throughout a researcher’s subsequent career, with the uncomfortable implication that the scientific standing of those with whom young researchers work can shape their prospects long after their initial training. In 2024, I returned to this issue, discussing research published in the Journal of the Royal Society Interface across 22 scientific disciplines, which identified an increasing association between the scientific impact of mentors and that of their protégés.

My current analysis of several leading universities places ETH Zurich at 99.8 researchers listed in the Elsevier–Stanford scientists ranking per 100 faculty members, a benchmark that confronts universities with a conspicuously low representation of highly cited researchers with a question their promotional rhetoric cannot honestly answer: Should they be required to disclose prospective supervisors’ scientific records and explicitly warn doctoral applicants that a supervisor’s weak scientific standing may seriusly compromise their career prospects, restrict their international visibility and curtail their access to influential scientific networks?

Universities that demand years of intellectual labour while publicly proclaiming their excellence should substantiate that promise with their supervisors’ scientific records, enabling applicants to distinguish genuine research achievement from academic titles that too often shelter entrenched scientific mediocrity. Doctoral candidates inherit more than a dissertation topic: they inherit their supervisors’ networks, reputations and sense of what is intellectually possible. They deserve to know whether they are receiving an inheritance worth building on or a crippling debt they may spend their entire careers trying to escape.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Top 10 dos investigadores Portugueses melhor classificados no ranking Elsevier-Stanford na área da Engenharia Civil

Reproduzo abaixo os nomes dos dez investigadores melhor classificados na área científica da Engenharia Civil, de acordo com a lista de impacto científico ao longo da carreira recentemente divulgada pela Elsevier. 

A UMinho destaca-se por reunir três investigadores entre os dez melhor classificados, seguindo-se a UPorto, com dois. As universidades de Lisboa, Coimbra e Aveiro, a Univ. Politécnica de Lisboa e o LNEC estão representados apenas por um investigador cada. 

 

Investigador

Instituição

Ranking europeu (Engenharia Civil)

Ranking mundial (todas as áreas)

1

Lourenço, P. B.

UMinho

10

13 310

2

Brito, J. de

ULisboa

15

19 624

3

Pacheco-Torgal, F.

UMinho

18

21 612

4

Barros, J. A. O.

UMinho

179

109 339

5

Silva, L. S. da

UCoimbra

236

131 994

6

Veiga, M. R.

LNEC

302

153 909

7

Cachim, P. B.

UAveiro

353

166 184

8

Cunha, A.

UPorto

355

166 308

9

Caetano, E. 

UPorto

486

197 600

10

Evangelista, L.

UPLisboa

545

205 834


domingo, 11 de outubro de 2026

A presidência da FCT ao serviço da servidão académica e da felicidade dos lordes feudais

 

Num post anterior, critiquei uma política muito pouco inteligente que privilegia a formação de milhares de novos doutorados enquanto comprime e chega mesmo a estrangular as oportunidades de investigadores cujos currículos foram considerados excelentes por painéis internacionais. Mas esta inversão de prioridades admite uma leitura ainda mais incómoda, a sua extraordinária conveniência para muitos catedráticos (leia-se lordes feudais) que tratam a pobre academia nacional como uma coutada onde a subserviência é a lei. Quem precisa de braços para executar trabalho e de artigos para engrossar o próprio currículo tem muito a ganhar com a abertura massiva de bolsas de doutoramento. Financiar a autonomia de quem já demonstrou mérito científico pode, pelo contrário, ameaçar esses feudos académicos. Para quem há muito se habituou a viver dos frutos do trabalho alheio, o financiamento de investigadores que não fazem "favores à casta" é uma ameaça ao seu domínio feudal.

Como tive ocasião de denunciar há vários anos atrás, no meu primeiro blogue, um conhecido catedrático da Universidade de Stanford expôs este problema com uma frontalidade que contrasta com a linguagem cobarde das instituições. Num contundente artigo publicado em 2016 no Journal of Clinical Epidemiology, questionou se certos currículos volumosos de muitos catedráticos traduzem realmente trabalho árduo e orientações brilhantes por parte daqueles ou antes, apenas o resultado da escravatura de jovens investigadores. A expressão que então utilizou não deixa margem para eufemismos foi slave trade of younger researchers.  A denúncia expõe uma perversão fundamental da hierarquia académica, quem ocupa o topo da pirâmide alimentar pode comportar-se como um tubarão, apropriando-se do valor produzido por quem trabalha abaixo. O jovem doutorando executa todo o trabalho e o lorde feudal arrecada o prestígio. Uma lógica que encontra eco num corajoso artigo de um catedrático da Universidade de Coimbra, sobre catedráticos-tubarões e investigadores-rémoras, que se alimentam de restos. 

Convém não esquecer que foi o próprio catedrático jubilado José Ferreira Gomes, agora reitor da Universidade da Maia, quem reconheceu publicamente, em junho de 2018, que a progressão académica favorece quem faz favores "aos mais velhos" (leia-se aos catedráticos). Essa grave declaração tem o valor de um testemunho vindo do interior da hierarquia, quando o favor integra a receita da ascensão, a meritocracia degrada-se em retórica de legitimação e a carreira académica passa a premiar a "arte" da subserviência perante os poderes instalados. Quanto à metáfora dos lordes feudais, vale a pena revisitar este outro post, no qual divulguei um artigo de um catedrático português que também conhece por dentro os costumes feudais da casa e que os descreveu num artigo publicado numa revista internacional 

É verdade que também há investigadores nada jovens contratados pela "quota da endogamia" que continuam e continuarão a prestar favores aos "mais velhos", na expectativa de um dia ascenderem à posição de quem os recebe. A ambição limita-se, nesse caso, a trocar a condição de vassalo pela de senhor feudal, perpetuando o sistema que recompensa a subserviência. Mas, como escrevi no dia 7 de agosto, construir uma carreira científica, sobretudo na era da inteligência artificial, exige coragem intelectual. Quem renuncia a essa coragem para granjear o favor dos seus "superiores" pode até conseguir ascender na hierarquia; mas, de pensamento escravizado e dignidade hipotecada, por mais alto que suba, nunca será merecedor de respeito apenas de pena. A ciência não precisa dessa cobardia moral promovida a prudência e transformada em abjecta estratégia de carreira. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/08/five-uncomfortable-truths-about.html  

PS - A presidência da FCT prepara-se para abrir, daqui a poucos meses, uma segunda edição do malfadado concurso FCT Tenure. Critiquei a primeira edição deste inqualificável concurso por uma concentração de vagas que dificilmente poderia passar despercebida, a UNova, instituição a que pertencia a sua mentora, a genial cabecinha pensadora da catedrática Elvira Fortunato, recebeu mais vagas do que as universidades de Coimbra, Minho e Aveiro juntas. Este concurso concentra o pior dos vícios académicos: põe recursos públicos ao serviço de lugares atribuídos por júris caseiros, favorece a reprodução das hierarquias instaladas e alimenta a endogamia com uma complacência política escandalosa. A mesma presidência que estrangulou o financiamento do concurso CEEC, avaliado por painéis internacionais, prepara-se agora para, hipocritamente, abrir os cordões à bolsa num concurso entregue a júris caseiros. A explicação é evidente, a prioridade da FCT é perpetuar os feudos académicos a qualquer custo e assegurar a felicidade dos lordes feudais.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

The European Commission Highlights an Uncomfortable Truth: Science Depends on Essential Labour Academia Fails to Reward

 

The European Commission has just highlighted a report whose recommendations include “Recognising and rewarding the labour involved in peer review, editorial work and research curation”, while acknowledging that much of the reviewing process depends on unpaid and frequently invisible labour. This recommendation deserves the close attention of every funding agency and evaluation panel entrusted with judging scientific merit, because an assessment system that celebrates published articles while overlooking the intellectual effort required to scrutinise them adopts a conveniently selective understanding of scientific contribution, in which the visible product attracts recognition while those who help safeguard its credibility are expected to remain satisfied with occasional expressions of gratitude.

The consequences of this contradiction were illustrated in my earlier post, “The serious case of papers that remained unassigned to editors for more than a year”, which discussed the reported experience of Noemi Felisi, whose manuscript remained unassigned to an editor for 380 days before peer review had even begun, exposing how an editorial bottleneck can obstruct the dissemination of research and jeopardise opportunities for researchers whose careers depend on timely publications. I also examined this broader problem in a previous post published in 2025, questioning the wisdom of German researchers’ recommendation to increase the number of reviewers per manuscript without first tackling reviewer fatigue and the persistent failure to recognise and reward this essential scientific service. Asking an already strained community to undertake additional reviewing while leaving its professional incentives unchanged amounts to demanding greater generosity from those whose generosity the system already takes for granted, while allowing the benefits of publication and the burden of evaluation to remain unequally distributed.

The Commission’s recommendation should therefore prompt funding agencies and universities to explain how reviewing, editorial responsibility and research curation actually influence their assessments. Scientists who publish hundreds of papers while contributing only a handful of peer reviews should likewise be expected to explain that discrepancy, because systematically relying on the scrutiny of others while scarcely reciprocating raises serious questions about their ethical standards and commitment to scientific citizenship. Recognition must also protect the intellectual independence required to challenge weak research, particularly when its authors occupy positions of academic influence, because rewarding servile deference while expecting rigorous criticism merely reproduces entrenched academic hierarchies under the seductive language of scientific excellence. A system that rewards publication, demands ever more reviewing and then marginalises those who perform it is actively manufacturing the very crisis it subsequently claims to deplore.

PS - As I argued in my January 2024 post, “AI has radically changed the core university business, shifting focus from teaching and publications to ‘assessment, curation, and mentoring’”, generative AI makes this contradiction increasingly indefensible, because the easier academic content becomes to produce, the greater the value of the intellectual judgement required to assess its reliability, distinguish meaningful contributions from plausible prose and guide researchers towards questions worth pursuing. That post also recalled Stanford Professor John Ioannidis’s call to reward scientific citizenship, including peer review, replication and data sharing, rather than allowing publication and grant records to monopolise the definition of scientific merit, an argument that becomes increasingly urgent as the ease of generating superficially plausible academic prose threatens to outstrip the rigorous scrutiny required to establish whether its claims deserve scientific credibility.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Acaba de ser revelada a edição de 2026 do ranking de cientistas Elsevier-Stanford: Lisboa, Porto e Minho lideram no Top 0.5%

 

Reproduzo abaixo somente os nomes dos investigadores que trabalham em instituiçóes Portuguesas e que integram a parte superior da lista de impacto científico ao longo da carreira, correspondente ao Top 0.5%. https://elsevier.digitalcommonsdata.com/datasets/btchxktzyw/9

O pódio das universidades com maior número de investigadores no Top 0,5% é ocupado, pela Universidade de Lisboa, pela Universidade do Porto e pela Universidade do Minho.

É importante reafirmar que se trata do único ranking mundial de investigadores que consegue cumprir três requisitos fundamentais, ao contrário do outro ranking de cientistas da Clarivate,  que não consegue cumprir o terceiro requisito e que pior do que isso só inclui aproximadamente 10% dos prémios Nobel como divulguei aqui https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/01/whats-value-of-scientist-ranking-that.html

Primeiro - Ser baseado na Scopus ou na Web of Science, para assim permitir a desambiguação de publicações, pois existem milhares de perfis "contaminados" no Google Académico com publicações de outros autores e também para evitar o lixo "científico" de citações em publicações não revistas por pares, cujo número explodiu nos últimos anos.
Segundo ​- Ser capaz de remover o efeito da terrível praga das auto-citações, em que muitos cientistas infelizmente se tornaram verdadeiros especialistas​ ​
​Terceiro ​- Ser capaz de anular a vantagem artificial e perniciosa relativa às citações em publicações com centenas ou milhares de co-autores, utilizando para esse efeito a contagem fraccionada, sugerida pela primeira vez em 2008 pelo investigador Alemão Schreiber e mais recentemente por Koltun e outros. 

Top 0.5% do ranking Elsevier-Stanford – edição de 2026

Pereira, José Carlos Fernandes

Davim, J. P.

Guedes Soares, C.

Mano, João F.

Búchler, Markus Wolfgang

Barbas, Carlos F.

Liddle, Andrew R.

Neoptolemos, John P.

Ferro, José Manuel

Machado Tenreiro, J. A.

Jose M., Bioucas-Dias Manuel

Pereira Coutinho, João Araújo

Montemor, M. F.

Figueiredo, Mário A.T.

Barros, Carlos Pestana

Studart, André R.

Figueiredo, José Luís

Cunha, Rodrigo A.

Chaves, M. Manuela

Lourenço, Paulo B.

Peres, Nuno Miguel R.

Lobo, Francisco S.N.

Swash, M.

Reis, R. L.

Egídio Rodrigues, Alírio Egídio

Gama, João M.P.

Cardoso, Vitor

Brett, Christopher Michael Ashton

Catalão, João P.S.

Ferreira, António J.M.

Brito, Jorge De

Loureiro, Sandra María Correia

Pereira, Helena M.

Pacheco-Torgal, Fernando

Malcata, F. Xavier

Cardoso, Fatima

Rocha-Santos, Teresa A.P.

Moreira, Paula I.

Silveirinha, Mario G.

de Falcão, António F.O.

Pereira, Luis S.

Seabra, Miguel C.

Dorogóvtsev, Sergey N.

Prata, Joana Correia

Bertolami, Orfeu

Pombeiro, Armando J.l.

Rocha, João

Sarmento, Bruno Filipe Carmelino Cardoso

Oliveira, Rui Filipe

Derouane, Eric G.

Rodrigues, Ligia R.

Veldhoen, Marc

Ferreira, Mario G. S.

Miguel, Maria Graça Costa

Carvalho, Fernando Piedade

Simões, Manuel Vieira

Oliva-Teles, A.

Santos, Nuno C.

Martins, Rodrigo Ferrão Paiva

Cavaco-Paulo, Artur Manuel

Carmo-Fonseca, Maria

Pȩcas Lopes, Joao A.

Vasconcelos, Vítor Manuel Oliveira

Flores, Paulo

Dinis-Oliveira, R. J.

Barros, Lillian B.

Ferreira, Isabel C.F.R.

Lemos, José P.S.

Marques, Rui Cunha

Manaia, Celia

Phillips, Alan J.L.

Gash, John H.C.

Carlos, Luís D.

Schmitt, F. C.

Graça, Manuel Augusto Simões

Paterson, Russell Monteith

Kundu, Subhas C.

Patel, Ashok R.

De Carvalho, Mamede Alves

João Saraiva, Maria João Mascarenhas

Leitão, Paulo

McGregor, Peter Kenneth

Konotop, Vladimir V.

Semin, Gun Refik

Fernandes, Paulo M.

Costa, Paulo Cardoso

Zilha̧o, João

Sardinha, Luís B. Sardinha Bettencourt

da Silva, Lucas F.M.

Camarinha-Matos, Luis M.

Outeiro, Tiago F.

Fernández-Rossier, Joaquín

Vilar, Rui M.C.S.

Almeida, Ricardo

Flores, Maria Assunção

Carabineiro, Sónia A.C.

Fortunato, Elvira M.C.

de Carvalho, C. C. C. R.

De Melo Órfão, José J.

Bebianno, Maria João

Moreira, Francisco M.

Sobrinho-Simòes, Manuel A.

Haneke, Eckart G.

Trigo, Ricardo Machado

Cruz-Martins, Natália

Cardoso, Pedro

Silvestre, Nuno

Brinchmann, Jarle

Gouveia, Luísa

Branco, Gustavo C.

Cunha, Miguel Pina E.

Carneiro, Fátima M.H.

Pereira, Leonel

Carvalho, Felix Dias

Leite-Moreira, Adelino F.

Teixeira, José A.

Ferreira, J. M. F.

Lavoura, L.

Cohen, Scott A.

da Silva, J. A.P.

Neto, Félix