terça-feira, 6 de outubro de 2026

A brilhante estratégia da presidência da FCT: O suicídio assistido da investigação pública


Terminei o meu último post a questionar o discernimento de uma presidência da FCT que anuncia 145 milhões de euros para bolsas de doutoramento, mais do dobro dos cerca de 63 milhões destinados à oitava edição do concurso CEEC. Importa agora tornar explícita a dimensão desta escolha, estamos a falar de nada menos do que 1.600 novas bolsas de doutoramento, enquanto o CEEC disponibiliza apenas 400 contratos para investigadores já doutorados. Quatro novas bolsas por cada contrato neste concurso. Uma desproporção que denuncia uma "estratégia" intelectualmente indefensável, que resulta de uma alienação perante as necessidades da investigação nacional, ou subordina essas necessidades a interesses obscuros. 

A comparação europeia torna ainda mais flagrante esta inversão de prioridades. As bolsas de doutoramento do concurso FCT correspondem a um rácio de cerca de 149 bolsas por milhão de habitantes. Nos programas analisados, o Reino Unido apresenta 73 por milhão, a Bélgica 69 e Espanha apenas 41. O rácio português aproxima-se, portanto, do dobro dos valores britânico e belga e ultrapassa o triplo do espanhol. Talvez o problema seja dos outros. Talvez britânicos e belgas, com os seus centros de investigação de referência mundial, ainda não tenham alcançado a admirável "clarividência" da presidência da FCT, produzir doutorados em escala industrial enquanto se estrangulam as oportunidades de quem já demonstrou competência científica. Há aqui uma concepção de estratégia que merece o nome de idiotia institucional; parece, contudo, pouco plausível que sejam os britânicos e os belgas a precisar de lições de discernimento científico da presidência da FCT.

Depois da infâmia de reduzir de seis para três anos o financiamento dos contratos CEEC e de cortar para metade o orçamento destinado à contratação de investigadores, a mesma presidência dá prioridade às bolsas de doutoramento, poupadas a semelhante corte e reforçadas em número e orçamento. Financia a formação de novos doutorados enquanto estrangula as oportunidades de investigação daqueles que já formou, comprometendo a continuidade do trabalho, a consolidação das equipas e a preservação das competências científicas que tinha a obrigação de proteger. É uma política de descapitalização científica conduzida por quem tem o dever institucional de a impedir. A "estratégia" da presidência da FCT constitui, assim, uma forma de suicídio assistido da investigação nacional ou, pior ainda, a normalização da sua destruição sob a aparência virtuosa de investimento no futuro.