sábado, 17 de janeiro de 2026

Catedrático questiona: Por que razão vou contratar um jovem caro e inexperiente se posso utilizar a IA para fazer o trabalho?

 

Na sequência de um post anterior de Maio de 2025, acessível no link supra, intitulado “Péssimas notícias para recém-diplomados: relatório mostra que dezenas de milhões de empresas preferem apostar na inteligência artificial”, faz agora todo o sentido divulgar uma entrevista particularmente interessante que o catedrático Eric Mazur, da prestigiada Universidade de Harvard, concedeu ao jornal Público e que hoje integra a edição impressa daquele diário, entrevista essa de onde retirei a questão que dá título a este post. 

O catedrático Eric Mazur desenvolveu um método de ensino que substitui as aulas expositivas tradicionais por um modelo de aprendizagem activa centrado nos estudantes. Neste método, a transmissão de conteúdos ocorre antes da aula, sendo o tempo presencial dedicado a perguntas, reflexão individual, discussão entre pares e argumentação. 

Tenha-se presente que uma pesquisa no seu perfil de investigador, na plataforma Scopus, que permite saber que o catedrático Mazur é titular de um h-index=75, revela que a sua segunda publicação mais citada de sempre, é precisamente sobre o referido método de ensino inovador: "Peer Instruction: Ten years of experience and results" https://www.scopus.com/authid/detail.uri?authorId=7005375930

O artigo não o refere, mas importa ressalvar, porque isso é evidente, que o método referido assenta numa premissa fundamental: exige docentes com um domínio profundo da matéria que lecionam, e que sejam também capazes de compreender as dificuldades conceptuais típicas dos estudantes, antecipar os seus erros mais frequentes e ainda a capacidade de formular perguntas que estimulem o pensamento crítico e a reflexão. Exigindo por isso docentes bastante diferentes daqueles docentes que no ano passado se tornaram noticia por conta de "pérolas pedagógicas" inspiradoras como aquelas que abaixo se reproduzem:
“não vou explicar porque não vai perceber” 
“Quem não teve mais de 15...pode sair e trabalhar no Pingo Doce" 

Acresce que uma pesquisa no site da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, relativa ao Perfil do Docente do Ensino Superior – 2024/2025, revela que vários milhares de docentes do ensino superior possuem apenas o grau de licenciatura e que por uma feliz coincidência, o jornal Público noticia hoje que mais de 40% dos docentes do ensino superior, representando milhares de docentes, não possuem doutoramento. E, se levarmos ainda em linha de conta que mesmo entre muitos doutorados é frequente não se verificar um domínio profundo da matéria em que alegadamente se especializaram (basta olhar para aqueles com um h-index=0, incapazes de produzir um único artigo científico credível, como aquele professor que a Universidade do Porto despediu, tornam-se evidentes as dificuldades em tentar aplicar o método pedagógico do catedrático Eric Mazur ao ensino superior português. 

PS - Há duas formas de encarar o desmotivador contexto atual em que muitos empresários, especialmente lá fora, porque por cá o talento é escasso, optam por não contratar recém-diplomados, por considerarem que estes não oferecem um valor superior ao da inteligência artificial. Uma é a visão fatalista, resignada, ao estilo do fado lusitano. A outra muito mais inspiradora aconselha a aproveitar a oportunidade que isso representa. Muitos recém-diplomados possuem algo que a IA não tem: uma elevada propensão ao risco e essa virtude permite-lhes aspirar a mais do que simplesmente trabalhar por conta de outrem. Assim, a relutância dos empresários em contratar jovens recém-diplomados pode, paradoxalmente, transformar-se numa oportunidade para um aumento substancial do número de startups, como foi o caso do agora famoso doutorado da Univ. de Aveiro, que se tornou multimilionário, juntamente com vários outros colaboradores da empresa que fundou. E mesmo que que essa aventura empresarial acabe por ser um fracasso económico, é mais fácil para um jovem recém-diplomado, conseguir um emprego numa empresa estrangeira, tendo no currículo uma experiência empresarial mal-sucedida do que tendo apenas um diploma académico.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

When Generative AI Meets Inequality and Kleptocracy on a Path Toward Global Terror

In a previous post from September 2023 (linked above), I discussed new findings from an Economist article describing how artificial intelligence could transform scientific research through tools such as literature-based discovery and so-called “robot scientists.” I also warned that these AI-driven advances could have unintended consequences. In particular, they may disproportionately benefit wealthy countries, widening existing global economic inequalities and undermining the UN Sustainable Development Goal of reducing inequality. Such growing disparities could, in turn, intensify migration pressures from poorer regions to richer ones.

More recently, a paper entitled “Who on Earth Is Using Generative AI?”, published in the Elsevier journal World Development, provides the first comprehensive global analysis of individual-level adoption of generative AI. The study finds that country-level generative AI usage intensity is strongly correlated with both the coverage and quality of digital infrastructure. It further shows a pronounced concentration of usage across income groups: in early 2024, middle-income economies accounted for roughly half of global ChatGPT traffic, while low-income countries together contributed less than one percent. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0305750X25003468

Generative AI risks locking in global inequality rather than breaking it. Unlike earlier digital revolutions that lowered barriers and allowed poorer countries to leapfrog stages of development, AI rewards those who already possess advanced infrastructure, skilled labor, and strong institutions, effectively raising the threshold for participation and pushing many low-income economies to the margins. As AI-driven gains concentrate in wealthy and upper-middle-income countries, global income and opportunity gaps will widen, intensifying migration pressures and economic fragility in already vulnerable regions. The result is not merely economic divergence, but rising financial instability and geopolitical tension that inevitably spill across borders. This is precisely what the world does not need as Donald Trump’s return to power amplifies geopolitical turbulence, undermines international coordination, and ushers in an era of policy volatility and institutional strain—at a moment when global cooperation is already under severe stress.

Preventing AI from entrenching global inequality demands forceful and forward-looking policy choices. Rich countries and major technology firms must stop treating AI as a private advantage and instead recognize it as a shared global capability. This means investing seriously in digital infrastructure and education in poorer regions, enabling meaningful technology transfer, and keeping core AI tools open, affordable, and adaptable to local needs. If governed with ambition and solidarity, AI can become a catalyst for shared prosperity rather than a force that condemns billions to permanent exclusion from progress.

Declaration of competing interests — In January 2019, I proposed a deliberately abrasive idea: that rich countries should admit one African migrant for every €250,000 looted from Africa by its kleptocrats over the past fifty years. Even a conservative estimate lays bare the scale of the crime, well over ten million Africans displaced by the workings of kleptocracy. These are not charity cases, but people whose admission wealthy nations are morally indebted to. By this standard, Switzerland alone would owe asylum to more than one million.

PS — In this context, it is important to recall a previous post highlighting how income inequality and poor living conditions can fuel terrorism and radicalization. It draws on a 2019 study by Krieger and Meierrieks, based on data from 113 countries, which identifies a clear link between inequality and terrorism. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/09/2019-paper-by-german-researchersincome.html

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Teletrabalho, cronótipos e o caso Fundão: Um ensaio geral para o futuro de Portugal ?

 

Na sequência do estudo que divulguei no passado mês de dezembro, acessível no post supra, o qual concluiu que o teletrabalho contribui para a redução de problemas de saúde mental, com benefícios particularmente acentuados nas mulheres, aproveito para dar a conhecer um artigo interessante publicado no caderno de Economia da última edição do Expresso. O referido artigo aborda a crescente tendência de adequação dos horários de trabalho aos diferentes picos de produtividade dos trabalhadores.

Este modelo baseia-se na adaptação do horário laboral aos quatro cronótipos identificados pelo psicólogo clínico Michael Breus, sustentados por estudos desenvolvidos ao longo de várias décadas. De acordo com o artigo do Expresso, diversos especialistas em gestão de recursos humanos salientam que a adoção desta abordagem poderá traduzir-se em ganhos significativos de eficiência e produtividade, particularmente no contexto do teletrabalho. Curiosamente uma pesquisa expedita revela que há aproximadamente um ano atrás foi defendida uma dissertação numa universidade Portuguesa que sintetizou os estudos levados a cabo nesta área nos últimos 20 anos https://repositorio.upt.pt/entities/publication/5d6ff38b-913d-4a1c-9dc4-9d801f6a2c56

Não certamente por coincidência, também na última edição do caderno de economia do Expresso, havia um artigo sobre o aumento do número de profissionais (nacionais e estrangeiros) que aproveitando as vantagens do teletrabalho, estão a trocar as cidades Portuguesas pelos meios rurais, artigo esse no qual é mencionado o caso da pequena cidade do Fundão (que tem muito menos gente do que várias freguesias de Lisboa), na qual já há mais de 1000 (mil) programadores informáticos, por conta da estratégia de atracçáo daquela autarquia potenciada também pelo programa do Governo "Trabalhar no Interior". 

Aquilo que esse artigo não refere, porém, é que a corrida mundial à IA em curso, altamente competitiva, e que em Portugal passou recentemente a dispor de um enquadramento estratégico através da Agenda Nacional de Inteligência Artificial, aprovada na passada Quinta-feira, pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026, documento onde se pode ler que a rápida adoção da IA possa acrescentar entre 18 e 22 mil milhões de euros ao PIB nacional, pode fazer muito mais pela deslocação de pessoas para o Interior do que qualquer estratégia autárquica isolada ou o existente programa governamental de incentivo territorial. 

Ao libertar o talento das amarras geográficas dos grandes centros urbanos, a IA irá permitir abrir caminho a um novo paradigma de escolha: viver no Interior de Portugal poderá deixar de ser sinónimo de limitação, isolamento e irrelevância e poderá passar a afirmar-se como uma decisão ambiciosa e sustentável que junta qualidade de vida e inovação. A que se soma ainda a vantagem divulgada há um ano atrás por um conhecido catedrático de economia de uma famosa universidade, que afirmou que as evidências científicas indicam que o teletrabalho é uma das formas mais eficazes de inverter a quebra da natalidade, uma vez que esta aumenta significativamente entre os casais em regime de teletrabalho. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/01/alcancar-um-circulo-virtuoso-para.html

PS - Ainda sobre IA, é positivo saber que de acordo com o EUROSTAT, os Portugueses estão à frente da média europeia e inclusive à frente de países como a França e a Alemanha, em termos da percentagem de pessoas que mais usaram IA em 2025, sendo porém evidente que só nos conseguiremos aproximar das elevadas percentagens da Noruega e da Suíça, quando mais Portugueses conseguirem perceber as muitas vantagens da sua utilização. Ainda por cima num país, onde mais de um milhão e meio de Portugueses não tem (nem vai ter) médico de família, seria perfeitamente natural que esses recorressem ao ChatGPT, para esclarecimento de dúvidas de saúde. Aliás, eu próprio tenho médico de família e já recorri inúmeras vezes aquele modelo de IA generativa para esse efeito.