domingo, 29 de março de 2026

O que os japoneses sabem há muito tempo, mas que Portugal insiste em ignorar, assim perdendo milhares de milhões de euros

Este blogue tem vindo a construir, ao longo dos últimos anos, um argumento consistente sobre a relação extremamente positiva entre natureza, saúde e políticas públicas, argumento esse que na verdade já tinha sido iniciado num outro blogue em 2020, quando divulguei um artigo de investigadores ingleses sobre um conceito que tem quase 2400 anos. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/11/relationship-between-nature.html

Em Fevereiro de 2022, divulguei um estudo que apontava para a existência de uma componente genética na ligação à natureza e em Abril desse mesmo ano recordei o conceito de transtorno do défice de ligação à natureza. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/04/uma-vida-com-significado-e-uma-nova.html

Em Dezembro de 2023, divulguei um estudo com quase 8.000 participantes que demonstrou que viver perto da natureza está associado a telómeros mais longos, ou seja, a um envelhecimento biológico mais lento, esse post tornou-se um dos 10 mais vistos de sempre deste blogue https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2023/12/telomeros-estudo-recente-mostra-como.html

No inicio de 2025, escrevi sobre as limitações do ChatGPT na pesquisa de literatura científica indexada sobre a prática Japonesa Shinrin-Yoku, os chamados banhos de floresta, cuja evidência científica documenta a redução do cortisol e o reforço do sistema imunitário e que faz parte das politicas públicas de saúde do Japão há mais de 40 anos  https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/02/shinrin-yoku-limitacoes-cientificas-do.html

E também no inicio de 2025, num post onde critiquei um conhecido catedrático, propus a receita tripla TNN, defendendo que o teletrabalho possui vantagens várias para o nosso país, já que contribui para aumentar a natalidade, ajuda a inverter a desertificação do Interior e aproxima as pessoas da natureza, aliviando simultaneamente a pressão sobre o sistema de saúde. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/01/alcancar-um-circulo-virtuoso-para.html

Por uma feliz coincidência, o jornal Público de hoje traz nas páginas 14 e 15, uma notícia e uma entrevista que vêm confirmar, com o peso da academia, aquilo que este blogue tem vindo a defender. O Laboratório Associado Terra, estruturado em cinco unidades de investigação, que reúne mais de 400 investigadores das Universidades de Lisboa e de Coimbra, apresentou esta semana o Programa Nacional de Prescrição de Natureza até 2030. O objetivo é claro: integrar atividades em ambientes naturais no quotidiano clínico.

Como explica nesse artigo Ana Abreu, cardiologista e investigadora ligada ao referido projecto, não se trata simplesmente de recomendar ao doente que vá passear. Trata-se, sim, de uma prescrição estruturada, com dose, frequência, intensidade e tipo de ambiente ajustados à condição clínica de cada pessoa, tão rigorosa quanto a prescrição de um medicamento. Os banhos de floresta que referi há um ano atrás, a propósito da prática Japonesa Shinrin-Yoku, surgem aqui como uma das modalidades prioritárias de intervenção.

O que fica porém a faltar e que o artigo do Público não aborda, mas que os meus posts têm sublinhado de forma consistente é reconhecer que nenhum programa de prescrição de natureza terá um impacto verdadeiramente transformador enquanto a esmagadora maioria da população deste país continuar concentrada no Litoral. E é aqui que o teletrabalho assume um papel decisivo, pois continua a ser o instrumento mais poderoso e simultaneamente mais subaproveitado que poderá permitir a milhões de portugueses uma vida mais próxima da natureza. E se é um facto que a potenciação da inteligência artificial, no âmbito da recentemente aprovada Agenda Nacional de Inteligência Artificial, pode efectivamente contribuir muito mais para inverter a desertificação do Interior de Portugal do que muitas estratégias autárquicas isoladas ou programas governamentais existentes, não é menos factual que a atual e grave crise energética originada pelo bloqueio no Estreito de Ormuz vem reforçar ainda mais a centralidade do teletrabalho, como sublinha aliás o professor catedrático da Universidade do Minho, Luís Aguiar-Conraria, no seu artigo publicado no último numero do caderno principal do semanário Expresso. https://expresso.pt/opiniao/2026-03-26-a-maior-crise-energetica-de-sempre-5d880f0f

sexta-feira, 27 de março de 2026

Novos requisitos de mestrado e de doutoramento - Duas medidas positivas e uma medida ignorante e ilegal

 

Há seis anos atrás denunciei uma falha grave, o facto de não ser obrigatório que os docentes de cursos de mestrado integrassem unidades de investigação com uma classificação mínima de Bom, vide texto disponível no link acima. 
Durante todo esse tempo, milhares de estudantes pagaram o preço dessa omissão, sendo formados por muitos docentes que nunca investigaram, nunca publicaram um único artigo científico e que, em termos académicos, possuíam apenas a licenciatura. Levou seis anos, mas o Ministro da tutela reconheceu finalmente o erro, como se pode ler hoje num artigo no jornal Público onde é anunciado que essa exigência passará a ser regra. 
O Sr. Ministro anunciou também que nenhum orientador poderá supervisionar mais de três alunos de doutoramento em simultâneo, para "garantir condições adequadas de acompanhamento pedagógico". 
Infelizmente, seria pedir demasiado que, após duas medidas positivas, não surgisse uma extremamente negativa. Decidiu o Sr.Ministro que no futuro só haverá doutoramentos com 100% do corpo docente pertencente a unidades classificadas com Muito Bom ou Excelente. Ou seja, os investigadores integrados em unidades classificadas com Bom passam a ficar impedidos de orientar teses de doutoramento.
Esta decisão é não apenas injusta é também cientificamente ignorante pois parece significar que o Sr Ministro desconhece, ou convenientemente ignora, que muitas dessas unidades receberam a classificação de Bom não porque a sua produção científica fosse "apenas Boa", mas simplesmente porque não tinham mais de 50 investigadores.
Tenha-se presente que a última avaliação das unidades de investigação, leia-se pseudo-avaliaçãoque critiquei na altura, pois nem sequer cumpriu um requisito essencial, (já que não foi baseada num estudo bibliométrico robusto, vide denúncia do catedrático jubilado Ferreira Gomes, que permitisse detectar as muitas ineficiências existentes nas unidades de investigação gigantes, como por exemplo aquela ineficiência que eu revelei aqui ou aquelas outras muitas ineficiências de uma conhecida unidade criada por um importante investigador entretanto caído em desgraça e que eu revelei na parte final de um post aqui), penalizou assim em muitos casos a dimensão das unidades e não a sua competitividade científica. Recordo aliás que uma análise que fiz na altura permitiu concluir que mais de 80% das unidades classificadas apenas com Bom tinham curiosamente menos de 50 investigadores. https://pachecotorgal.com/2025/05/09/as-fragilissimas-explicacoes-politicas-do-do-mui-inteligente-ministro-catedratico/
Faço notar que existem muitos investigadores em unidades classificadas com Bom cujo currículo científico supera de longe o de investigadores de unidades classificadas com Muito Bom e até com Excelente. Excluí-los da orientação de doutoramentos não é uma medida de qualidade é uma medida arbitrária sem sentido, que sacrifica o mérito em nome de um critério burocrático, cientificamente indefensável pois a própria ciência já demonstrou que são precisamente as pequenas unidades de investigação que conseguem produzir resultados disruptivos, que são aqueles que a ciência Portuguesa mais se tem revelado incapaz de alcançar  https://www.nature.com/articles/s41586-019-0941-9
Pior do que isso: não se trata apenas de má política científica, trata-se sim de uma clara violação flagrante do princípio constitucional do mérito, pois nenhum investigador pode ser discriminado por trabalhar numa unidade que a FCT considere pequena demais sobretudo quando a sua competência científica é inegável. A menos que o verdadeiro objetivo do Senhor Ministro seja outro: o de extinguir por via administrativa as unidades classificadas com Bom, forçando os seus melhores investigadores a abandoná-las e a integrar unidades de maior dimensão.
Seria aliás profundamente irónico e simultaneamente revelador do falhanço desta política ignorante e ilegal que a referida medida produzisse o efeito oposto ao desejado: em vez de forçar os melhores investigadores que estão nas pequenas unidades de investigação a irem engrossar as fileiras das gigantes unidades nacionais, acabasse por os empurrar diretamente para instituições estrangeiras (pois o talento não retido é talento oferecido à concorrência), onde o talento científico é tratado com muito maior respeito e remunerado com valores e condições substancialmente superiores, como recentemente mostrei aqui. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/03/um-pais-que-ensina-portugal-como-e-que.html
PS - Se o Sr. Ministro efectivamente pretende aumentar a qualidade dos doutoramentos nacionais, ao invés de andar a descriminar de forma ilegal os investigadores das unidades que foram erradamente classificadas com Bom, unicamente por conta da sua dimensão, então mais vale que copie a exigência existente nos regulamentos dos doutoramentos das universidades públicas da Espanha, que obrigam a que o depósito das teses só possa ser feito depois da sua qualidade científica ter sido avaliada por um especialista internacional da mesma área do doutoramento. 

quarta-feira, 25 de março de 2026

The Hidden Risk of AI Platforms Uncovered by U.Oxford, U.Cambridge, UCL, and LSE


Researchers from the U.Oxford, the U.Cambridge, UCL, and the LSE have conducted a study that, for the first time, maps the contours of a rapidly expanding global market for emotionally engaging, personalized AI interactions. Their systematic scan of 110 AI companion platforms reveals that in the UK alone, these platforms generate 46 to 91 million monthly visits, while globally, the numbers soar to 1.1–2.2 billion. https://arxiv.org/abs/2507.14226

The paper’s central argument is unsettling: while parasocial use of general-purpose AI tools like ChatGPT, Gemini, and Claude currently dominates, a growing subset of platforms is deliberately engineered for care, transactional, and mating-oriented companionship — designed not to assist, but to bond with users. A tool that accidentally becomes emotionally significant is a design oversight; a platform intentionally built for emotional dependency is a business model. The demographic portrait is striking. Young adults aged 18–24 account for nearly 39% of users, and males make up 63–77%, concentrated in platforms engineered for emotional attachment. The risks are mounting. As emotionally tailored AI companions improve, engagement is set to rise, raising serious child safety concerns in a sector with minimal age verification and even less accountability. Meanwhile, major AI labs are pushing further into personalization, quietly dissolving the boundary between "assistant" and "companion."

Ultimately, the study maps more than a market; it exposes a tension at the very heart of AI development that few are willing to name. The very capabilities that make these systems genuinely useful — empathy, responsiveness, memory, personalization — are the same ones that enable attachment, dependency, and manipulation with surgical precision.

What the study leaves unexamined are the broader societal and democratic implications of the troubling trend it documents. When significant portions of young adults turn to AI for companionship in place of genuine human interaction, their exposure to diverse perspectives narrows — and with it, their resilience to manipulation and social pressure. This demographic profile — socially isolated, emotionally dependent, and overwhelmingly male — corresponds closely to populations that radicalization researchers have long identified as vulnerable to movements that exploit grievance, fractured identity, and the deep need for belonging, including far-right currents that have historically been adept at filling precisely these voids.

PS - The epidemic of socially isolated young men predates the smartphone. Which is, ironically, the point: we cannot fix with technology what technology did not cause. It was produced, slowly and structurally, by economies that measure the creation of things with extraordinary precision and treat the reproduction of human connection as though it were a hobby. Care generates no GDP. Friendship moves no index. The work of raising children, sitting with the elderly, maintaining community, showing up consistently for another person — none of it earns a wage, attracts investment, or registers as productive in any framework any government uses to make decisions. We drew down that resource for decades without accounting for it, until the deficit became a crisis. The crisis became a demographic. And the demographic became a market. AI companion platforms did not create lonely young men. But they will deliver them to the Trumps, Farages, and Le Pens of the world, who have always known that male loneliness, left untreated, is not a social problem. It is a recruitment pipeline.

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