quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Anatomia de um Negligente Declínio Científico Anunciado — Durante Quanto Mais Tempo Conseguirá a Universidade do Minho Manter Portugal Acima da Bulgária?

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/07/uminho-lidera-destacada-no-indicador-da.html

Relativamente ao indicador de excelência científica, mencionado no post acessível através do link supra e no qual a Universidade do Minho ocupa destacada e inequívoca posição cimeira a nível nacional, apresento abaixo uma lista com comparação do desempenho de várias dezenas de países relativamente a esse indicador. Portugal surge desgraçadamente apenas na 33.ª posição, embaraçosamente muito próximo do pobre país que é a Bulgária.

Há, porém, um dado particularmente revelador. Se a Universidade do Minho apresentasse um desempenho meramente coincidente com a média nacional isto é, se apenas 14,5% dos seus investigadores incluídos no ranking Stanford–Elsevier conseguissem integrar o Top 0,5% nessa altura o rácio português desceria para cerca de 13,9%, colocando Portugal abaixo da Bulgária. É, portanto, em boa medida graças ao desempenho excecional da Universidade do Minho que Portugal ainda conserva a posição que ocupa neste indicador.

O problema é que esta situação dificilmente será sustentável e nos próximos anos, Portugal acabará  inevitavelmente por ser ultrapassado pela Bulgária, pela simples razão de que uma parte muito substancial dos investigadores portugueses atualmente integrados no Top 0,5%, tanto na Universidade do Minho como noutras universidade, já ultrapassou os 60 anos ou já está muito próxima dessa idade. E, como demonstrei na tabela apresentada no final de um post anterior, o número de investigadores com possibilidade minimamente plausível de ingressar nesse restritíssimo grupo até 2029 é alarmantemente muito reduzido. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/07/o-improvavel-investigador-que-vai.html

Não se trata, porém, de uma fatalidade demográfica mas do resultado previsível de uma política científica, míope, cobarde e gravemente lesiva do interesse nacional, que praticamente destruiu a capacidade de Portugal competir internacionalmente pela atração de investigadores de topo. Por um lado, e como é da praxe, os concursos para professor catedrático continuam como sempre, blindados à concorrência internacional (por conta das "provas" da Vassalagregação) que até excluem prémios Nobel e por outro, o Governo suprimiu dos concursos anuais de investigação, precisamente as categorias superiores, que poderiam tornar Portugal minimamente competitivo na captação de cientistas séniores. 

A razão é simples de perceber, a academia portuguesa continua assente numa cultura de obediência, vassalagem e proteção das hierarquias instaladas (há muitos catedráticos que garantem isso mesmo), mas os investigadores séniores, com currículos internacionalmente muito competitivos e de verdadeira autonomia científica, não se prestam aos tradicionais exercícios de subserviência, deferência e lambe-botismo de que essas hierarquias deploráveis se alimentam. Incompreensível e politicamente vergonhoso é que o Governo se tenha prestado a fazer um frete a essas hierarquias, sacrificando deliberadamente o interesse nacional para proteger privilégios corporativos, feudos académicos e conveniências mesquinhas e paroquiais à custa dos superiores interesses do nosso país.

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País

Rácio

1

EUA

31.8%

2

Suíça

29.4%

3

Reino Unido

28.7%

4

Canadá

27.3%

5

Países Baixos

26.7%

6

Alemanha

25.8%

7

Austrália

25.0%

8

Dinamarca

24.6%

9

Singapura

24.1%

10

Suécia

23.2%

11

Israel

23.1%

12

Finlândia

22.8%

13

Áustria

21.9%

14

França

21.1%

15

Bélgica

21.0%

16

Nova Zelândia

20.5%

17

Lituânia

20.0%

18

Irlanda

19.5%

19

Vietname

19.1%

20

Hungria

18.6%

21

Espanha

18.6%

22

Noruega

18.6%

23

Islândia

17.9%

24

Líbano

17.4%

25

África do Sul

17.2%

26

Itália

17.0%

27

Japão

16.5%

28

Emirados Árabes Unidos

15.7%

29

Quénia

15.7%

30

Estónia

15.3%

31

Catar

15.3%

32

Chéquia

15.0%

33

Portugal

14.5%

34

Bulgária

14.3%

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Bibliometrics Makes Mediocrity Harder to Dress Up as Scientific Excellence

 Utrecht University | Land Portal     Tilburg University | INOMICS    RWTH Aachen University | DWIH Sao Paulo

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1751157725001269#sec0001

Still following my previous letter published in the Journal of Informetrics (linked above), in which I challenged J. Gorraiz’s critical framing of bibliometrics and argued for a more empirically grounded assessment of their value, it is worth drawing attention to a paper published in Research Evaluation by researchers from Utrecht University, Tilburg University, and RWTH Aachen University, entitled Towards a more informed and balanced use of scientific performance metrics.” Its message is refreshingly at odds with the increasingly fashionable campaign to portray bibliometric indicators as intellectually suspect or ethically undesirable. The authors argue that, when properly used and correctly interpreted, metrics can provide a rational, transparent and evidence-based starting point for evaluating researchers, provided they are complemented by qualitative assessment. The real question is therefore not whether metrics are imperfect of course they are but whether replacing imperfect evidence with substantially more subjective judgement constitutes progress at all.

This is precisely where the enthusiasm for narrative CVs becomes much harder to defend. Narratives may provide context, but they also create an extraordinarily fertile environment for selective self-presentation, rhetorical embellishment, strategic omission and academic self-marketing. Once measurable evidence is pushed into the background, the evaluation process risks rewarding not those who have produced the strongest scientific record, but those who are most skilled at writing themselves into excellence. In that sense, the supposed escape from bibliometric bias may simply replace visible and contestable imperfections with biases that are less measurable, less transparent and far more dependent on the preferences of individual evaluators. A system that claims to reduce arbitrariness by removing objective evidence may, paradoxically, be constructing ideal conditions for arbitrariness to flourish.

The intellectually serious position is therefore neither blind worship of metrics nor their fashionable demonization, but their intelligent combination with rigorous qualitative judgement. Metrics can be normalized, scrutinized, challenged and independently verified; narratives and panel impressions are far more difficult to audit. Removing metrics does not remove bias from research assessment it removes one of the few elements capable of constraining it. If universities and funding agencies then fill that evidential vacuum with persuasive narratives and largely discretionary panel judgements, they should at least have the courage to acknowledge what they are doing: not necessarily creating a fairer system, but potentially replacing imperfect measurement with a more elegant, less visible and institutionally legitimized form of subjectivity disguised as principled academic fairness.

PS - One important advantage of bibliometrics that is not explicitly addressed by the authors deserves particular attention: its capacity to act as an external check on local academic power. The paper rightly recognizes the danger of committee subjectivity and argues that evaluators should explain discrepancies between their judgements and quantitative indicators. But it does not fully develop the broader institutional implication. Recruitment and promotion decisions may rest in the hands of a small group of academics embedded in particular hierarchies, networks and institutional cultures, whereas bibliometric evidence is generated largely outside that room, through the recognition of research by scientists across institutions and countries.This matters especially in deeply academically inbred systems dominated by internal reproduction and institutionally entrenched local patronage, where recruitment and promotion remain heavily shaped by entrenched institutional networks. Such systems have, even within Europe, produced full professors with negligible research output or citation records astonishingly difficult to reconcile with any serious notion of internationally recognized scientific impact. In such cases, metrics do something profoundly politically inconvenient, they expose the disjunction between locally manufactured academic status and externally visible scientific influence. They may not stop a committee from rewarding mediocrity, but they make it much harder to disguise that mediocrity as excellence.

domingo, 9 de agosto de 2026

O catedrático "incapaz" e o catedrático que viu o invisível, num concurso que o tribunal não teve outro remédio senão mandar anular


Há nove anos atrás, concorri a um lugar de professor catedrático na Universidade Sueca de Uppsala, dos 14 candidatos iniciais, tres foram selecionados para passarem à fase final, vide relatório de um perito externo, catedrático numa conhecida universidade Finlandesa  https://www.docdroid.net/ONpHyGk/review-by-aalto-university-expert-pdf 

Porém depois de ter preparado a apresentação que iria fazer nessa final e de ter inclusive comprado a passagem de avião, por motivos de ordem pessoal que não interessa divulgar, decidi não estar presente na mesma. Seja como for acho agora que é um exercício interessante comparar a evolução do h-index (auto-citações excluídas) na base Scopus do candidato que venceu esse concurso, (P. Isaksson), com a evolução do meu próprio h-index. Essa comparação foi levada a cabo utilizando o procedimento que já tinha sido descrito aqui https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/06/uma-ferramenta-de-autoavaliacao.html

A imagem supra evidencia um resultado particularmente relevante: a obtenção daquela cátedra não foi acompanhada por uma aproximação do impacto científico de P. Isaksson ao meu. Pelo contrário, a diferença entre ambos acentuou-se ao longo do período considerado. Este resultado assume particular significado na medida em que, à partida, seria plausível admitir uma evolução em sentido inverso. O catedrático P.Isaksson passou a desenvolver a sua atividade numa universidade situada entre as 100 melhores do mundo no prestigiado Shanghai Ranking, enquanto a universidade onde exerço funções há quase 18 anos, permanece no intervalo 500–600, beneficiando, além disso, a primeira de uma capacidade financeira quase 400% superior. Seria, portanto, plausível supor que um ecossistema académico dotado de muito maior prestígio internacional, recursos mais abundantes e condições de investigação mais favoráveis produzisse, ao longo do tempo, uma progressiva convergência entre os respetivos níveis de impacto científico. A evolução observada aponta, contudo, na direção oposta, em vez de diminuir, a distância tem-se acentuado. Se as tendências atualmente observáveis se mantiverem, em 2031 o meu h-index deverá ultrapassar 60, enquanto o h-index do catedrático P. Isaksson permanecerá abaixo de 30.

Na imagem aparece uma terceira linha, correspondente ao subdesempenho de um lamentável catedrático "visionário" do IST, que enquanto jurado de um concurso, que como não podia deixar de ser, foi posteriormente anulado por vicio de violação da lei, viu aquilo que mais ninguém conseguiu ver https://pachecotorgal.com/2022/01/29/o-genial-catedratico-candidato-a-bastonario-da-ordem-dos-engenheiros/ Como se pode ver pela imagem supra os recursos inerentes à cátedra também não se traduziram num elevado impacto científico. E pior desempenho apresenta o referido catedrático do IST, se olharmos para aquele rácio, que é o da percentagem de publicações Scopus que receberam pelo menos 150 citações (onde aquele possui espantosamente um valor que é 5 (cinco) vezes menor do que o meu), rácio esse que recordo serviu de base a uma tabela impressionante, que divulguei num certo mês de Agosto https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/08/o-desprezo-da-comunidade-cientifica.html

PS - Se, no estrangeiro, há inúmeros casos de professores catedráticos despedidos por manipulação de dados científicos, como por exemplo esta na universidade de Harvard, ou este caso no Imperial College, ou este aqui por assédio sexual na universidade de Utrecht, ou este da universidade Sevilha, condenado a uma pena de cadeia efectiva, ou até por relações consentidas com alunas, como sucedeu a um catedrático da Universidade de Princeton, por que razão em Portugal não se conhecem casos semelhantes? Porque é que em Portugal nem mesmo os catedráticos que foram condenados pela prática de crimes, como este aqui ou este outro, nem muito menos os catedráticos que participaram em concursos posteriormente anulados por violação da lei sofreram quais consequências profissionais? Quando nem a condenação criminal nem a participação em procedimentos que os tribunais consideraram ilegais parecem beliscar uma carreira académica, torna-se legítimo perguntar se estamos perante uma invulgar indulgência institucional quase sem limites ou perante uma cultura corporativa profundamente instalada em que o estatuto de catedrático funciona, na prática, como uma espécie de imunidade académica absoluta ?