https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/11/os-inimigos-declarados-da-ciencia.html
No texto acessível no link supra, intitulado “O trio de inimigos declarados da Ciência: PSD, CDS e Chega”, expressei a minha opinião pessoal sobre o muito pouco ou quase nenhum respeito público que o atual Governo tem demonstrado pela ciência e pelos cientistas.
Posteriormente, quando se esperava que o Governo aumentasse a duração dos contratos dos investigadores, pois um artigo publicado há poucos anos, no final de 2023, na prestigiada revista The Economist, informou que uma das formas mais eficazes de financiar a ciência, com vista à maximização do seu impacto, consiste muito menos no financiamento de projectos mas muito mais na atribuição de contratos de longa duração aos investigadores, com a duração de pelo menos 7 (sete) anos, eis que o Governo, de forma incompreensível, decidiu fazer exactamente o contrário, reduzindo a duração dos contratos CEEC, o único concurso de investigadores verdadeiramente competitivo da Academia, onde a endogamia e o nepotismo mandam zero e onde 90% dos candidatos são rejeitados.
E como se isso já não fosse suficiente, ainda assim, bastava o facto do Governo ter criado, há poucos dias, um pequeno grupo de trabalho (onde se inclui o CEO da bilionária Feedzai) para “proceder à análise do ecossistema nacional de investigação e inovação”, com o objetivo de produzir um retrato “fiel e atualizado” da realidade nacional, contemplando capacidades instaladas, dinâmicas do sistema, distribuição territorial, colaboração com empresas e administração pública, participação internacional e impacto socioeconómico dos apoios, estruturado em quatro dimensões: (a) capacidade científica instalada (recursos humanos, unidades de I&D e infraestruturas); (b) capacidade tecnológica, de inovação e de interface (transferência de conhecimento e empresas com I&D); (c) resultados científicos e tecnológicos e mecanismos de valorização; (d) posicionamento internacional. E o facto de tudo isso ter de ficar pronto em apenas sete dias, para ser apresentado publicamente amanhã, constitui, para mim, uma claríssima evidência da referida falta de respeito. https://www.publico.pt/2026/02/23/opiniao/opiniao/ai-diagnosticos-solidos-velocidade-luz-2165615
Se o Governo assim se contenta com análises tão expeditas, quase feitas em cima do joelho, pois pelos vistos entende que o seu tempo mediático não é compatível com o tempo necessário a uma análise robusta do ecossistema nacional de investigação e inovação, então mais valia que se se limitasse a copiar o que já fazem na Suécia e na Suíça, países onde a política científica assenta numa estabilidade contratual, que liberta os investigadores da precariedade crónica e lhes permite assumir riscos, numa avaliação rigorosa que distingue o mérito da mediocridade e a excelência da complacência, (ao contrário de Portugal onde 75% das unidades foram classificadas com Excelente ou Muito Bom !!!) e num planeamento estratégico de longo prazo, sustentado por metas claras, financiamento previsível e compromissos institucionais duradouros, (e não numa reiterada desvalorização política do conhecimento científico), que são precisamente os pilares que, entre nós, continuam a ser sistematicamente corroídos pela lógica do improviso, pela volatilidade das decisões e pela submissão da política científica ao calendário político mediático. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/universidades-portuguesas-um-modelo-que.html
Aditamento em 24 de Fevereiro - Hoje, dia da apresentação pública do relatório supracitado, alguém no Governo terá finalmente percebido o quão insustentável era admitir publicamente que esse documento era fruto de apenas 7 dias de trabalho. Para evitar o descrédito, foi hoje transmitido ao jornal Público que os membros do grupo de trabalho terão começado a preparar o relatório muito antes da data do tal Despacho que formalmente criou o referido grupo de trabalho, alegadamente desde o início de janeiro. Assim, e para afastar a ideia de amadorismo, improvisação e ligeireza, o Governo veio "esclarecer" que afinal esse trabalho foi desenvolvido muito antes da existência formal do próprio grupo de trabalho. Ou seja, para corrigir um problema de credibilidade, assume outro, potencialmente mais grave ao admitir a violação do principio da legalidade, nada menos do que um dos pilares do Estado de Direito.