quarta-feira, 29 de julho de 2026

Uma proposta de alteração do regulamento de avaliação dos investigadores - RAPI

Nos diversos regulamentos de avaliação do pessoal investigador - RAPI uma publicação entra na avaliação de desempenho apenas uma vez, no biénio em que é publicada. Nesse momento, é avaliada exclusivamente com base num único critério, o quartil da revista em que foi publicada. Trata-se de um juízo ex ante e por procuração, que erradamente confunde o impacto médio da revista antes sequer de o artigo ter tido qualquer vida científica própria.

Assim, dois artigos publicados na mesma revista Q1 recebem exatamente a mesma pontuação, independentemente do seu impacto posterior. Tanto vale um artigo que tenha recebido mais de 500 citações, como um outro artigo que nunca seja lido nem citado. Findo o biénio avaliado, o artigo desaparece definitivamente do sistema de avaliação. O seu destino científico real a partir daí torna-se completamente invisível para o RAPI.
Em síntese, o RAPI atual responde com grande precisão à pergunta: Quanto produziu este investigador? Mas é completamente incapaz de responder à pergunta que verdadeiramente interessa: A investigação deste investigador teve impacto?
A introdução de um parâmetro de impacto diferido permite por isso responder a essa questão. Não se trata, portanto, de um refinamento cosmético do RAPI, mas de corrigir uma grave e incompreensível omissão estrutural do próprio modelo de avaliação.
Existe, porém, uma razão ainda mais ambiciosa para integrar no RAPI-UM um parâmetro de impacto diferido. A Universidade do Minho tem a oportunidade de liderar, em Portugal, uma mudança que nenhuma outra instituição teve até agora a visão de conceber ou a coragem de concretizar. As universidades de referência não se limitam a reproduzir os modelos existentes, elas são capazes de antecipar os seus limites e de criarem padrões mais exigentes. Ao reconhecer que o valor de uma publicação não se esgota no impacto médio da revista que a acolheu, mas se revela na influência científica que efetivamente exerce, a Universidade do Minho poderá transformar uma lacuna do sistema nacional numa afirmação inequívoca de liderança, inovação e rigor científico
É certo que um biénio constitui uma janela temporal demasiado curta para avaliar, através das citações, o impacto das publicações nele produzidas. Nada impede, porém, que sejam contabilizadas as citações recebidas durante esse período por trabalhos publicados anteriormente. O referido indicador consideraria exclusivamente as citações recebidas durante o biénio por publicações anteriores ao seu início. Em termos práticos, responderia à importante questão: quantos dos artigos do investigador estiveram cientificamente ativos, em termos de citações, durante o biénio e com que intensidade? 
O RAPI deixaria, assim, de premiar quase exclusivamente a quantidade para passar a reconhecer aquilo que verdadeiramente distingue a investigação relevante, a sua capacidade de influenciar e transformar a ciência à escala mundial. Acresce que a introdução deste mecanismo no RAPI é tecnicamente simples, bastando criar um parâmetro que valorize essas citações de forma análoga ao cálculo do índice h, com a seguinte redação:
A pontuação relativa ao parâmetro do impacto diferido é obtida a partir do índice h bienal (h-bi) do avaliado, definido como o maior número inteiro h tal que h publicações do avaliado, anteriores ao início do período em avaliação, receberam, cada uma, pelo menos h citações durante esse período (auto-citações excluídas). A classificação parcial resulta da comparação do h-bi com os valores de referência fixados para cada categoria e centro de investigação.
Faço notar que o cálculo do supracitado indicador de impacto diferido (h-bi) pode ser obtido de forma bastante rápida e simples recorrendo a uma ferramenta de IA e utilizando o procedimento que foi descrito aqui https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/06/uma-ferramenta-de-autoavaliacao.html
PS - Sobre o tema supra recordo aquilo que escrevi há vários meses atrás: "como os investigadores nacionais adaptam o seu desempenho aos incentivos institucionais, enquanto não houver mudanças na avaliação de desempenho, que reduzam o anormalmente elevado valor das publicações, e passem a valorizar...o impacto científico (o verdadeiro calcanhar de Aquiles da ciência nacional), irão continuar a bater tristes recordes de publicações, mesmo que isso prejudique a competitividade internacional das universidades Portuguesas e a própria ciência mundial." https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/11/o-sistema-cientifico-nacional-esta.html