O autor escreve sobre uma academia asfixiante, onde a crítica deixou de ser entendida como dever intelectual e passou a ser tratada como delito disciplinar informal. Um espaço onde quem ousa discordar arrisca isolamento, o silêncio administrativo, a exclusão de redes, o bloqueio de oportunidades e outras formas higiénicas de punição institucional, discreta, eficaz, cobarde, rotineira, silenciosa e exemplar que raramente deixam impressões digitais.
Mas o ponto mais inquietante suscitado pelo artigo é outro: este medo não fica fechado dentro das universidades. Transborda para a sociedade. Quando os académicos se calam por receio de represálias, os cidadãos percebem que até aqueles que deveriam pensar livremente aprenderam a falar em voz baixa. E quando a inteligência pública se ajoelha diante do medo disciplinador, a confiança nas instituições não pode senão apodrecer.
Não admira por isso que numa lista dos países cujos cidadãos mais confiam nas instituições públicas, Portugal nem sequer consegue aparecer entre os 20 primeiros colocados. Afinal, que confiança merecem as instituições públicas se até a academia que devia vigiá-las e expor os seus abusos se domesticou ao ponto de transformar a autocensura em método, o silêncio em carreira e a cobardia em prudência institucional, respeitável e conveniente?
PS - É curioso, ou talvez apenas deprimente, ver como o tema não envelhece. Há cinco anos questionei: "Como pode a Universidade interpelar a sociedade se os próprios professores têm medo de falar?". Cinco anos depois, a pergunta morreu de excesso de evidência. O medo deixou de ser sintoma para ser regime. A liberdade académica continua lá, claro — embalsamada com todas as honras, nos regulamentos, nos discursos solenes, e nas cerimónias oficiais. Existe onde não incomoda. Onde seria necessária, faz-se cadáver.