
A imagem supra mostra a evolução das colocações na primeira fase no curso de engenharia civil ao longo dos últimos 21 anos, onde é evidente que 2026 representa um ano de viragem traduzido por uma forte recuperação da procura deste curso. O número de colocados nesta 1.ª fase aumenta de 571 para 670, correspondendo a mais 99 alunos num único ano (+17,3%), com crescimento simultâneo no ensino universitário, de 428 para 496 (+15,9%), e ainda mais expressivo no politécnico, de 143 para 174 (+21,7%).Particularmente positivo é o facto desta expansão não resultar apenas do aumento global do número das vagas, mas ser acompanhada por taxas de ocupação bastante elevadas nas principais escolas e, em vários casos, por uma subida das notas de entrada, sinal evidente de um reforço efetivo da atratividade do curso de engenharia civil. A UPorto apresenta a nota do último colocado mais elevada do país (15,9 valores), seguida pelo UPol do Porto (15,2 valores) e pela Universidade do Minho (15,1 valores), que assim relegam o Instituto Superior Técnico para o 3º lugar nacional.
A imagem referida apresenta ainda dois cenários de evolução para os próximos três anos. Num cenário moderado, baseado na continuação linear da recuperação recente, o número total de alunos colocados na 1.ª fase poderá ultrapassar a barreira dos 800 em 2029. Num segundo cenário, mais dinâmico, baseado na taxa média de crescimento observada nos últimos anos, poderá aproximar-se dos 900 colocados. Não se trata, naturalmente, apenas de previsões, mas de exercícios prospetivos que ajudam a perceber a dimensão que a recuperação da procura poderá assumir caso a tendência recente se consolide.
E não é certamente por acaso que isso esteja a acontecer precisamente agora, pois a necessidade de engenheiros civis tende a aumentar numa altura em que Portugal enfrenta simultaneamente uma grave crise habitacional, o envelhecimento da profissão, enormes necessidades de reabilitação de edifícios e infraestruturas e uma adaptação cada vez mais urgente às consequências cada vez mais severas, frequentes e dispendiosas das alterações climáticas. Sobre esta procura futura, reproduzo abaixo o conteúdo de um email que enviei em fevereiro do corrente ano acerca do futuro da Engenharia Civil em Portugal.
Nele se percebe que a questão decisiva já não é se Portugal vai precisar de mais engenheiros civis. Vai certamente. A questão é saber se as escolas de Engenharia Civil serão capazes de aproveitar esta mudança de ciclo para formar os profissionais de que o país realmente necessitará, engenheiros civis preparados para um mundo muito diferente daquele para o qual a profissão foi desenhada no século passado, uma realidade marcada por escassez de recursos, alterações climáticas, eventos extremos, e exigências crescentes de resiliência.
PS - A urgente necessidade de antecipar o futuro da Engenharia Civil constitui, aliás, um pequeno exemplo de uma questão civilizacional muito mais ampla que discuti noutro contexto. Entre os cinco imperativos que aí propus para orientar o progresso tecnológico, está precisamente a capacidade de conhecer não apenas o mundo que existe, mas também aquele que está a emergir. Aproveito, por isso, para divulgar que, há poucos dias, a conhecida editora Elsevier aprovou uma proposta minha para a segunda edição de um livro dedicado precisamente a um dos temas emergentes da área da Engenharia Civil. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/07/o-contributo-da-investigacao-na-area-da.html
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De: F. Pacheco Torgal
Enviado: 21 de fevereiro de 2026 09:32
Assunto: O futuro da Engenharia Civil em Portugal ?
Se, ainda antes dos inúmeros estragos causados pelos sucessivos comboios de tempestades que arrasaram um grande número de edifícios e infraestruturas em Portugal, o actual bastonário da Ordem dos Engenheiros já denunciava que o número anual de aposentados na área da engenharia civil superava o número de diplomados, uma situação já de si grave num país atolado numa crise habitacional, então a situação torna-se agora muito mais preocupante, pois os elevados danos provocados pelas referidas tempestades levarão vários anos a reparar, durante os quais ainda mais se agravará o referido défice de engenheiros civis. Será isto apenas azar dos Távoras?
E o que é que os cursos de engenharia civil não fizeram, ou não foram capazes de fazer, para que o crescimento deste curso não se ficasse apenas por um valor residual de 3% ao ano, correspondente a um total de colocados inferior a seis centenas, quando antes de 2011 este curso acolhia na primeira fase de cada ano mais de 1400 alunos ? Alguém consegue compreender, que por exemplo o curso de engenharia civil da universidade de Coimbra, onde me diplomei há várias décadas atrás, quando então aquele curso recebia mais de uma centena de alunos logo na primeira fase, não consiga agora captar nem sequer metade disso e nem sequer consegue ultrapassar o número de alunos captados pelo Politécnico do Porto ou pelo Politécnico de Lisboa ? E será que a formação em engenharia civil necessária para enfrentar o tal futuro de catástrofes permanentes, de que falou há poucos dias o catedrático Ottmar Edenhofer, presidente do conselho científico consultivo europeu sobre alterações climáticas, será aquela pouco inspirada, manifestamente insuficiente, de que falou na semana passada um antigo bastonário ao semanário Expresso, uma engenharia civil praticamente igual à do passado, mas com umas alterações mínimas, relacionadas como aumento da capacidade das coberturas resistirem a ventos de pelo menos 150 km/h, e que hoje novamente os jornalistas do Expresso repetem de forma indigente, certamente por acharem que não há neste país na área da engenharia civil quem possa dar melhores conselhos?
Ou será muito mais provável que os jornalistas do Expresso tenham dado provas de negligência ou até de incompetência, pois um Engenheiro Civil que se diplomou durante a longínqua década de 70 e que nunca foi sequer especialista em estruturas não é definitivamente o profissional mais indicado para dar conselhos do que deverá ser a engenharia civil capaz de acautelar um futuro de catástrofes climáticas, ignorando que nas universidades de Lisboa, Minho e Porto, se produz investigação na área da engenharia civil, que no último ano foi capaz de superar a produzida nas melhores universidades Alemãs e que talvez nessas universidades haja especialistas dessa área que possam dar conselhos cientificamente mais robustos?
Aproveito esta ocasião para recomendar a leitura de um interessante artigo, que não certamente por acaso faz parte das referências de um capítulo de um livro que estou a actualmente a concluir e onde se fica a saber alguma coisa sobre a resposta à pergunta supra e do qual reproduzo um breve trecho: "In a century shaped by climate disruption, resource scarcity, and cascading hazards, structural safety can no longer be confined to the binary question of collapse under a rare event....The profession must adopt a new design ethos: one that values performance over prescription, flexibility over excess, and resilience over redundancy... To meet this moment, engineering education, professional standards, and institutional missions must adapt. Future (civil) engineers must be trained not just in mechanics but in climate science, data analytics, stakeholder communication, and sustainable design thinking. Codes and contracts must reward recovery capacity and carbon efficiency, not just compliance...."