domingo, 16 de agosto de 2026

O ranking Shanghai de 2026 revela o elevadíssimo preço de Portugal perder investigadores altamente citados

Agora que foram tornados públicos os resultados do ranking Shanghai de 2026, o ranking mundial mais prestigiado, porque é o único que contabiliza prémios Nobel e também o único que a Comissão Europeia associa à excelência na investigação, importa analisar o desempenho das universidades Portuguesas nos diversos indicadores comparando com o de 20025. 

A comparação das duas últimas edições do referido ranking oferece uma imagem pouco confortável da evolução recente das universidades portuguesas. Em 2025, Portugal tinha sete instituições no Top 1000, com as universidades de Lisboa e do Porto ainda no intervalo 201–300, UAveiro em 401–500, UCoimbra e UMinho em 501–600, UNova em 701–800 e a UBI em 901–1000. Um ano depois, a ULisboa e a UPorto desceram ambas para 301–400, a UAveiro caiu para 501–600, a UMinho sofreu uma queda para 801–900 e a UBI desapareceu do Top 1000. Apenas a UCoimbra melhorou, subindo para 401–500, enquanto a UNova permaneceu no intervalo 701–800. Em apenas uma edição, Portugal passou assim de sete para seis universidades no ranking, perdeu todas as instituições no Top 300 e reduziu de cinco para quatro o número de universidades no Top 600. 

Este facto assume contornos particularmente inquietantes porque, num post de agosto de 2024, recordei que Fernando Alexandre, hoje Ministro da tutela, coordenou um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos que propunha a celebração de contratos entre o Ministério e as universidades com um objetivo inequívoco, o de garantir que, até 2030, Portugal tivesse “pelo menos uma universidade entre as 100 melhores do mundo” no referido ranking Shanghai. Dois anos depois, a realidade não é apenas embaraçosa; é uma flagrante inversão da ambição então proclamada. Portugal está cada vez mais distante do Top 100 e agora até acaba de ficar sem qualquer universidade sequer no Top 300. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/08/o-pessimo-trabalho-da-imprensa-esconder.html

O dado mais revelador surge quando se olha para o indicador HiCi, associado aos investigadores classificados como Highly Cited Researchers. Em 2025, ULisboa, UPorto e UMinho tinham 9,3 pontos neste indicador, a UAveiro 13,2 e a UNova 6,6; apenas a UCoimbra não pontuava. Em 2026, o quadro altera-se radicalmente, a ULisboa, UMinho e UNova passam para zero, a UPorto desce para 7,4, a UAveiro mantém uma posição bastante forte com 12,7 e a UCoimbra passa de zero para 7,4. Somando apenas as seis universidades presentes nas duas edições, a pontuação HiCi cai de 47,7 para 27,5, uma redução superior a 42%. Nada de comparável acontece nos restantes indicadores, a soma do PUB diminui menos de 5%, o PCP cerca de 6% e o N&S permanece praticamente estável. A mensagem dificilmente poderia ser mais clara, para Portugal, a deterioração recente no ranking Shanghai não decorre sobretudo de uma súbita incapacidade para publicar artigos, mas da perda de investigadores cuja produção científica alcança níveis excecionais de influência internacional.

Os casos da UCoimbra e da UMinho tornam esta relação particularmente difícil de ignorar. Coimbra piora de 2025 para 2026 no N&S, no PUB e no PCP, respetivamente de 10,3 para 9,7, de 34,3 para 31,8 e de 18,5 para 17,6 mas passa de zero para 7,4 no HiCi e, apesar da deterioração dos outros indicadores, consegue subir do intervalo de 501–600 para o há muito desejado intervalo 401–500. A UMinho percorre praticamente o caminho inverso, perde os seus 9,3 pontos HiCi, passando para zero, ao mesmo tempo que PUB recua de 28,8 para 26,5 e PCP de 16,9 para 15,1, e acaba por descer três escalões, de 501–600 para 801–900. A UAveiro oferece uma confirmação adicional, continua a ter de longe a maior pontuação HiCi portuguesa, 12,7, e apesar de descer um escalão permanece muito acima da UMinho. Até a ULisboa e a UPorto reforçam o padrão, ambas caem do Top 300 e ambas apresentam deterioração no HiCi, particularmente Lisboa, que passa de 9,3 para zero. 

Existe, contudo, uma exceção especialmente interessante, a UNova que perde completamente a sua pontuação HiCi, de 6,6 para zero, mas consegue manter-se exatamente no intervalo 701–800. E consegue-o porque evolui na direção oposta em praticamente tudo o resto, o indicador N&S sobe de 5,7 para 7,1, PUB de 23,1 para 26,8 e PCP de 13,8 para 14,8. É uma exceção importante precisamente porque ajuda a compreender a regra. Uma universidade pode compensar a perda de investigadores altamente citados se conseguir simultaneamente melhorar de forma suficientemente robusta noutras dimensões de desempenho. Mas foi isso que não aconteceu na maior parte do sistema português. A comparação entre 2025 e 2026 sugere, por isso, uma conclusão desconfortável para quem continua a avaliar políticas científicas sobretudo através do número agregado de publicações, não basta produzir mais ciência; é decisivo possuir investigadores capazes de produzir ciência que o resto do mundo considere suficientemente importante para citar de forma excecional. 

PS - Se Portugal continuar a perder investigadores altamente citados pela comunidade científica mundial, sem criar condições minimamente competitivas para inverter esse fenómeno, a queda no ranking Shanghai deixará de poder ser tratada como um acidente conjuntural e passará a revelar aquilo que verdadeiramente é, um processo estrutural de erosão da excelência científica nacional. Mais difícil ainda de compreender é que, perante este cenário, os regulamentos de avaliação de desempenho dos investigadores (RAPI) das universidades portuguesas continuem, em regra, a atribuir valor zero ao facto de um investigador integrar o grupo dos Highly Cited Researchers ou de produzir artigos classificados entre os mais citados do mundo, vide post anterior contendo uma proposta de alteração dos RAPI https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/07/uma-proposta-de-alteracao-do.html