https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/10/a-cegueira-da-presidencia-da-fundacao.html
No post anterior critiquei a presidência da FCT por se dispensar de exercer o discernimento que justifica a sua própria existência e por actuar como agente da descapitalização científica nacional. As suas estranhas prioridades de financiamento obrigam-me agora a confrontá-la com outra manifestação dessa abdicação. Para a oitava edição do concurso CEEC, um concurso altamente selectivo, o único somente com jurados estrangeiros, a salvo da conhecida praga dos concursos combinados, como afirmou um certo Reitor, foram anunciados cerca de 63 milhões de euros. Entretanto, para as parcerias com universidades do país do inqualificável Trump, estão reservados, pasme-se, mais de 90 milhões de euros.
Um conhecido académico jubilado da Universidade da Califórnia, que já citei várias vezes no meu blogue, afirmou que a melhor maneira de os europeus ajudarem os americanos é recusarem financiar a América de Trump. É, por isso, vergonhoso que o Governo de Luís Montenegro tenha escolhido precisamente o caminho contrário, depois de ter cortado largas dezenas de milhões de euros no orçamento da ciência portuguesa, um corte superior ao efectuado pelo Governo de Passos Coelho durante a crise da troika, exiba agora uma generosidade obscena para com universidades americanas, ao mesmo tempo que deixa por contratar investigadores portugueses avaliados como excelentes no concurso CEEC.
É uma escolha política que merece ser denunciada pelo que revela, o Governo de Luís Montenegro dispõe de dinheiro para as universidades do país de Trump, mas reserva aos investigadores portugueses a privação e o estrangulamento. E que sentido de solidariedade nacional preside a uma política tão infame que reserva tamanha generosidade precisamente ao mesmo país cuja administração deporta furiosamente centenas de cidadãos portugueses, incluindo pessoas que ali construíram quase toda a sua vida, como por exemplo uma Portuguesa que lá viveu ao longo de quase 60 longos anos ? https://www.rtp.pt/noticias/mundo/vivia-nos-eua-ha-57-anos-a-historia-de-uma-portuguesa-deportada_v1695582
PS - Infelizmente os erros da presidência da FCT não se esgotam na referida e altamente danosa política. Para as bolsas de doutoramento de 2026, anunciou 145 milhões de euros, mais do dobro do compromisso financeiro do concurso CEEC. Num post de 25 de Abril de 2025, já questionara essa opção pelo financiamento generoso na formação de doutorados, quando ao mesmo tempo uma consulta no site do IEFP mostrava que já havia mais de dois mil doutorados desempregados. Se as empresas não querem e nem sequer precisam de os contratar, porque o Estado já lhes entrega de mão beijada, centenas de milhões de euros em subsídios, para alegadas actividades de investigação, como denunciou no mês de Agosto um Colega da Universidade de Aveiro, por que razão insiste a presidência da FCT numa alocação de verbas públicas que denuncia uma confrangedora ausência de discernimento?