domingo, 25 de outubro de 2026

The Days of a Certain Academic Hypocrisy Seems to Be Entering Its Death Throes

 

Still following my previous post, “The European Commission Highlights an Uncomfortable Truth: Science Depends on Essential Labour Academia Fails to Reward”, an article published in Nature on 20 October exposes a further institutional failure, universities depend on peer review to certify scientific credibility, yet frequently neglect to teach researchers how to perform it. The article advocates making peer review a core research skill through supervised discussions of preprints, confronting an academic culture that systematically trains researchers to pursue publication while neglecting to prepare them for the scrutiny that gives publication its credibility. Universities cannot credibly claim to cultivate independent scientific minds while leaving the disciplined exercise of scientific judgement to chance and informal apprenticeship.

My experience reviewing manuscripts and making editorial decisions has repeatedly exposed the complacent assumption that an extensive publication record qualifies someone to judge the work of others. Publishing prolifically offers no immunity against superficial reading, methodological ignorance or the temptation to turn peer review into an instrument of academic gatekeeping. Rigorous assessment requires distinguishing a fatal methodological flaw from a correctable limitation, a necessary revision from an unreasonable demand, and an original contribution from familiar ideas repackaged in fashionable terminology. It demands the courage to scrutinise prestigious authors as critically as unknown researchers and the intellectual honesty to acknowledge evidence that challenges one’s own publications. Doctoral programmes should explicitly cultivate these abilities, because scientific independence means little if researchers learn to question evidence only when doing so carries no professional risk. 

Yet training more reviewers while continuing to disregard their contribution in career assessments would merely replenish the unpaid workforce of a system that treats scientific judgement as an inexhaustible resource and professional recognition as somebody else’s responsibility. The scale of this imbalance was documented by Hanson et al. (2024): annual indexed article output rose from approximately 1.92 million in 2016 to 2.82 million in 2022, a 47% increase in six years, outpacing growth in the research workforce and intensifying the demands of writing, reviewing and editing. The human consequences were illustrated in my earlier post, “The serious case of papers that remained unassigned to editors for more than a year”, which discussed a manuscript that spent 380 days awaiting an editor before peer review had even begun. 

Such cases expose the human cost of editorial paralysis and sharpen the question of why institutions encourage ever more submissions while offering so little professional recognition to those responsible for assessing them. Universities and funding agencies cannot absolve themselves by blaming reviewer shortages while maintaining assessment criteria that help manufacture those shortages. They must explain why producing a paper counts towards career advancement, whereas undertaking the intellectual work required to determine whether it deserves publication so often merits little beyond a thank-you email, a remarkably cheap substitute for recognition from institutions whose claims to scientific quality depend on the very labour they decline to reward while congratulating themselves on excellence.

sábado, 24 de outubro de 2026

O voto de louvor da Câmara Municipal de Braga e a rebelião organizada contra a ignorância, a doença, o sofrimento e o medo

 

A propósito do recente voto de louvor referido nos emails abaixo, importa recordar que foi precisamente sobre o significado público do reconhecimento que escrevi, no passado dia 18 de agosto, num post que se tornou o segundo mais visualizado dos últimos três meses. Aí escrevi que aquilo que uma sociedade escolhe admirar educa as novas gerações e define a dimensão das suas ambições. Uma sociedade que proclama apostar no conhecimento tem de dar reconhecimento público efectivo a quem o faz avançar e mostrar aos mais jovens que a ciência é muito mais do que uma profissão, é, como defendi num post anterior, acerca de cinco verdades incómodas, dirigido aos jovens que iniciam uma carreira científica, uma  rebelião organizada da humanidade contra a ignorância, a doença, o sofrimento e o medo, e a recusa de aceitar como destino aquilo que podemos compreender, combater e superar.




De: F. Pacheco Torgal 
Enviado: 24 de outubro de 2026 07:12
Para: presidentecm-braga
Assunto: FW: Voto de Louvor à Universidade do Minho | CM/2026/19
 
Exmo Sr. Presidente da Câmara Municipal de Braga,
Relativamente ao voto de louvor aprovado por unanimidade pela Câmara Municipal de Braga aos 72 investigadores da Universidade do Minho que integram o ranking mundial de cientistas Elsevier–Stanford, baseado nas citações registadas na maior plataforma de literatura científica mundial, Scopus, e do qual tive ontem conhecimento oficial, agradeço, enquanto um dos investigadores distinguidos, este reconhecimento.
Merece igualmente louvor o facto de a Universidade do Minho ocupar a primeira posição nacional, entre as seis universidades mais competitivas, no indicador de densidade de excelência científica, aferido pelo rácio entre os investigadores incluídos no Top 0,5% e no Top 2% do mesmo ranking, à frente da Universidade de Lisboa e da Universidade do Porto. Infelizmente, a UMinho não divulgou publicamente este resultado, pelo que o mesmo não chegou ao conhecimento da Câmara Municipal de Braga.
É também merecedora de reconhecimento a recente classificação da Engenharia Civil, área científica a que pertenço, que obteve o melhor resultado entre todas as áreas científicas da Universidade do Minho no prestigiado ranking de Shanghai de 2026. Ao posicionar-se entre as 75 melhores do mundo, a Engenharia Civil da UMinho superou a universidade francesa mais bem classificada nesta área e ficou no mesmo escalão da universidade alemã mais bem posicionada. Recordo que se trata do único ranking de universidades a nível mundial que a Comissão Europeia associa à excelência científica.
A este propósito, importa recordar que, nesse ranking, a Engenharia Civil da Universidade do Porto nunca conseguiu ultrapassar a da Universidade do Minho. Este resultado torna-se ainda mais expressivo à luz da vantagem histórica da Universidade do Porto, cujo curso de Engenharia Civil remonta a 1915, quase sete décadas antes da criação da licenciatura na Universidade do Minho. Apesar desse avanço de partida, a instituição centenária tem sido sistematicamente ultrapassada pela sua congénere mais jovem, em todas as edições daquele ranking, como documentei aqui  https://pachecotorgal.com/2026/09/17/engenharia-civil-da-univ-do-porto-10-anos-de-comprovada-incapacidade-competitiva/
Com os melhores cumprimentos
Fernando Pacheco Torgal


De: Gabinete do Reitor 
Enviado: 23 de outubro de 2026 14:52
Cc: Ana Catarina Ramos Lopes Silva 
Assunto: FW: Voto de Louvor à Universidade do Minho | CM/2026/19
 

Caros Investigadores,

Boa tarde,

 

A pedido do Senhor Reitor, partilho o voto de louvor aprovado por unanimidade pela Câmara Municipal de Braga, na sua reunião de 20 de outubro de 2026, dirigido à Universidade do Minho e aos seus investigadores incluídos na lista World’s Top 2% Scientists 2026.

 

Em nome do Senhor Reitor, apresentamos as mais sinceras felicitações a todos por este reconhecimento.

Com os melhores cumprimentos,

 

 

 

 

 

Helena Julieta Silva

Gabinete do Reitor | Rector’s Office

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A indisfarçável irritação da catedrática Elvira Fortunato com o comité do prémio Nobel


Um infeliz artigo da catedrática Elvira Fortunato no jornal Público, que questiona a credibilidade dos prémios Nobel, pelo facto de haver mais homens do que mulheres que receberam aquele prémio, inicia-se com uma estranha omissão que enfraquece a autoridade do escrutínio que pretende exercer. Em 2020, o semanário Expresso, em má hora, associou o nome da referida catedrática a uma nomeação para Nobel da Física, episódio que então critiquei no meu blogue, desde logo porque as listas de nomeações permanecem secretas durante 50 anos; depois, porque a consulta das listas que já foram tornadas públicas revela casos de cientistas que acumularam dezenas de nomeações sem nunca terem recebido aquele prémio. Essa circunstância exigia por isso uma declaração de interesses por parte da referida catedrática, pois quem questiona a credibilidade alheia deve começar pela mais elementar transparência sobre a sua própria posição. Essa omissão torna-se particularmente incómoda num artigo que termina a questionar a confiança nos prémios Nobel, como se essa insinuação pudesse suprir a manifesta indigência intelectual da argumentação.

O desequilíbrio histórico entre homens e mulheres que ganharam aquele prémio deve em primeiro lugar ser analisado à luz das barreiras profundamente injustas que, durante séculos, impediram ou limitaram fortemente o acesso das mulheres à formação superior e à investigação científica, cujos efeitos não desaparecem simplesmente porque entretanto se alteraram as condições de participação. A verdade inatacável é que, no início do século XX, a presença feminina na ciência era muito reduzida, pelo que não faz qualquer sentido analisar a percentagem de mulheres que nessa altura receberam o prémio Nobel. Mesmo no final da década de 60, um relatório do National Research Council dos EUA, deu conta que as mulheres recebiam apenas 8% dos doutoramentos em ciência e engenharia nos Estados Unidos. Acresce que como entre a realização de uma descoberta e a atribuição do prémio Nobel costumam decorrer várias décadas, então qualquer comparação rigorosa deveria ser feita apenas relativamente às últimas duas décadas. E a esse respeito, é pois, uma estranha coincidência que, entre 2001 e 2026, a percentagem de distinções atribuídas a mulheres nos Nobel da Física, Química e Medicina tenha atingido precisamente os referidos 8%. 

Acresce que uma análise do Hall of Citation Laureates da Clarivate Analytics, que desde 2002 identifica investigadores com base em artigos altamente citados e cujas distinções anteciparam, em várias dezenas de casos, a atribuição de um Nobel, revela que, entre os 487 investigadores distinguidos, figuram 36 mulheres, correspondentes a 7,4% do total. Esta proporção aproxima-se, curiosamente, da percentagem de doutoramentos em ciência e engenharia atribuídos a mulheres nos Estados Unidos no final da década de 1960, precisamente o país que conquistou a maioria dos prémios Nobel científicos nas últimas duas décadas. Ou será também responsabilidade do Comité Nobel que as mulheres representem apenas cerca de 7,4% desta ilustre seleção, baseada somente em citações feitas por milhares de investigadores de cada área científica a nível mundial?

E será que também é culpa do Comité Nobel que a comunidade científica não tenha citado os artigos da catedrática Elvira Fortunato em número suficiente para os aproximar dos trabalhos que distinguem as centenas de investigadores incluídos no Hall of Citation Laureates? Tenha-se presente que nenhum dos artigos, absolutamente nenhum, relativos à invenção que a tornou "famosa", conseguiu ultrapassar as mil citações. A catedrática Fortunato sabe perfeitamente, que o Comité Nobel não determina as dezenas de milhões de referências bibliográficas que constam dos milhões de artigos publicados anualmente em todo o mundo, pelo que não pode imputar ao Comité Nobel a responsabilidade por um reconhecimento dos seus pares aquém daquele que aparentemente considera merecer.

PS - Depois de ter sido Ministra da Ciência e do Ensino Superior no Governo de Costa, a catedrática Fortunato revebeu apenas um único voto na eleição para reitor da Universidade Nova, realizada no final de 2025. Um Nobel daria certamente outro brilho ao currículo e remeteria tão magro resultado eleitoral para um discreto rodapé. Como o prémio teima em não chegar, a culpa será, evidentemente, do Comité que o atribui, eis a cómoda conclusão a que se presta um artigo tão pródigo na insinuação quanto avaro na demonstração.