sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A indisfarçável irritação da catedrática Elvira Fortunato com o comité do prémio Nobel


Um infeliz artigo da catedrática Elvira Fortunato no jornal Público, que questiona a credibilidade dos prémios Nobel, pelo facto de haver mais homens do que mulheres que receberam aquele prémio, inicia-se com uma estranha omissão que enfraquece a autoridade do escrutínio que pretende exercer. Em 2020, o semanário Expresso, em má hora, associou o nome da referida catedrática a uma nomeação para Nobel da Física, episódio que então critiquei no meu blogue, desde logo porque as listas de nomeações permanecem secretas durante 50 anos; depois, porque a consulta das listas que já foram tornadas públicas revela casos de cientistas que acumularam dezenas de nomeações sem nunca terem recebido aquele prémio. Essa circunstância exigia por isso uma declaração de interesses por parte da referida catedrática, pois quem questiona a credibilidade alheia deve começar pela mais elementar transparência sobre a sua própria posição. Essa omissão torna-se particularmente incómoda num artigo que termina a questionar a confiança nos prémios Nobel, como se essa insinuação pudesse suprir a manifesta indigência intelectual da argumentação.

O desequilíbrio histórico entre homens e mulheres que ganharam aquele prémio deve em primeiro lugar ser analisado à luz das barreiras profundamente injustas que, durante séculos, impediram ou limitaram fortemente o acesso das mulheres à formação superior e à investigação científica, cujos efeitos não desaparecem simplesmente porque entretanto se alteraram as condições de participação. A verdade inatacável é que, no início do século XX, a presença feminina na ciência era muito reduzida, pelo que não faz qualquer sentido analisar a percentagem de mulheres que nessa altura receberam o prémio Nobel. Mesmo no final da década de 60, um relatório do National Research Council dos EUA, deu conta que as mulheres recebiam apenas 8% dos doutoramentos em ciência e engenharia nos Estados Unidos. Acresce que como entre a realização de uma descoberta e a atribuição do prémio Nobel costumam decorrer várias décadas, então qualquer comparação rigorosa deveria ser feita apenas relativamente às últimas duas décadas. E a esse respeito, é pois, uma estranha coincidência que, entre 2001 e 2026, a percentagem de distinções atribuídas a mulheres nos Nobel da Física, Química e Medicina tenha atingido precisamente os referidos 8%. 

Acresce que uma análise do Hall of Citation Laureates da Clarivate Analytics, que desde 2002 identifica investigadores com base em artigos altamente citados e cujas distinções anteciparam, em várias dezenas de casos, a atribuição de um Nobel, revela que, entre os 487 investigadores distinguidos, figuram 36 mulheres, correspondentes a 7,4% do total. Esta proporção aproxima-se, curiosamente, da percentagem de doutoramentos em ciência e engenharia atribuídos a mulheres nos Estados Unidos no final da década de 1960, precisamente o país que conquistou a maioria dos prémios Nobel científicos nas últimas duas décadas. Ou será também responsabilidade do Comité Nobel que as mulheres representem apenas cerca de 7,4% desta ilustre seleção, baseada somente em citações feitas por milhares de investigadores de cada área científica a nível mundial?

E será que também é culpa do Comité Nobel que a comunidade científica não tenha citado os artigos da catedrática Elvira Fortunato em número suficiente para os aproximar dos trabalhos que distinguem as centenas de investigadores incluídos no Hall of Citation Laureates? Tenha-se presente que nenhum dos artigos, absolutamente nenhum, relativos à invenção que a tornou "famosa", conseguiu ultrapassar as mil citações. A catedrática Fortunato sabe perfeitamente, que o Comité Nobel não determina as dezenas de milhões de referências bibliográficas que constam dos milhões de artigos publicados anualmente em todo o mundo, pelo que não pode imputar ao Comité Nobel a responsabilidade por um reconhecimento dos seus pares aquém daquele que aparentemente considera merecer.

PS - Depois de ter sido Ministra da Ciência e do Ensino Superior no Governo de Costa, a catedrática Fortunato revebeu apenas um único voto na eleição para reitor da Universidade Nova, realizada no final de 2025. Um Nobel daria certamente outro brilho ao currículo e remeteria tão magro resultado eleitoral para um discreto rodapé. Como o prémio teima em não chegar, a culpa será, evidentemente, do Comité que o atribui, eis a cómoda conclusão a que se presta um artigo tão pródigo na insinuação quanto avaro na demonstração.