segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Afinal quem é que fala a verdade ? O CEO da bilionária Feedzai ou o Governo Português ?



No post anterior, acessível através do link supra, onde mencionei o fenómeno sui generis e inspirador da capacidade de atração da pequena cidade do Fundão, foi referida a importância da Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026, de 8 de janeiro, que aprovou a Agenda Nacional de Inteligência Artificial. Esse documento identifica uma lista de várias vantagens competitivas de Portugal, onde se pode ler, no ponto 1.7, que existe no nosso país: "...ecossistema de startups, contando com um total de 5091 empresas...O segmento de IA destaca-se pelas 552 empresas cuja atividade nuclear envolve o uso desta tecnologia... representando um valor empresarial de 25 mil milhões de euros. Destaca-se, ainda, que seis dos sete unicórnios portugueses têm IA no centro dos seus serviços e operações."

Mas como é que é possível compatibilizar esses valores com as recentes e perentórias declarações do diplomado em engenharia informática Nuno Sebastião, CEO da Feedzai (empresa avaliada em quase 2000 milhões de dólares), ao semanário Expresso, segundo as quais “em Portugal só existem duas empresas portuguesas cujo negócio assenta em IA — a Feedzai e a Sword Health”?  Mas mesmo que se admita que a afirmação do CEO da Feedzai se restringisse somente ao universo dos unicórnios, isto é, às empresas com uma valorização superior a mil milhões de dólares, ainda assim tal não confirma os números apresentados pelo Governo.

Acresce que na supracitada Resolução é também afirmado que Portugal é o terceiro país da União Europeia com maior cobertura de fibra ótica, e também o terceiro país na UE em percentagem de estudantes em áreas de engenharia, valores para os quais não encontrei estatísticas oficiais.  E No ponto 1.6 da mesma pode ainda ler-se que existe uma: "Predisposição elevada para adotar IA, com quase 90 % dos portugueses a acreditar que a IA torna a sua vida mais fácil", afirmação que é sustentada num estudo da Netsonda de Maio de 2025. Estes resultados, porém, não coincidem com os de um outro estudo, mais recente, desenvolvido no âmbito de um projeto apoiado pela Fundação “la Caixa” (FP24-2B), relativamente ao qual o investigador Pedro Magalhães afirmou existir um número muito maior de portugueses relutantes do que entusiasmados em relação à IA.

PS - O post anterior, referido no início deste texto, mencionava uma notícia sobre os cronótipos, que permitem identificar o período do dia em que um indivíduo apresenta melhor desempenho profissional. Pois bem, por uma feliz coincidência, uma startup fundada por uma investigadora portuguesa que trabalha numa universidade alemã voltou ontem a merecer atenção pública ao ser novamente premiada. O reconhecimento decorre do desenvolvimento de uma tecnologia avançada que possibilita a quantificação do relógio biológico humano ao nível molecular, através da análise dos genes associados aos ritmos circadianos. Esta inovação abre perspetivas quase revolucionárias de aplicação em domínios como a medicina personalizada, a psicologia, a ciência do desporto e a organização temporal do trabalho. A abordagem integra um teste de saliva com modelos matemáticos e algoritmos de inteligência artificial, permitindo deslocar o conceito de cronótipo de uma categorização comportamental para um marcador biológico personalizado. https://www.publico.pt/2026/01/18/ciencia/noticia/startup-investigadora-portuguesa-vence-premio-alemanha-2161531

sábado, 17 de janeiro de 2026

Catedrático questiona: Por que razão vou contratar um jovem caro e inexperiente se posso utilizar a IA para fazer o trabalho?

 

Na sequência de um post anterior de Maio de 2025, acessível no link supra, intitulado “Péssimas notícias para recém-diplomados: relatório mostra que dezenas de milhões de empresas preferem apostar na inteligência artificial”, faz agora todo o sentido divulgar uma entrevista particularmente interessante que o catedrático Eric Mazur, da prestigiada Universidade de Harvard, concedeu ao jornal Público e que hoje integra a edição impressa daquele diário, entrevista essa de onde retirei a questão que dá título a este post. 

O catedrático Eric Mazur desenvolveu um método de ensino que substitui as aulas expositivas tradicionais por um modelo de aprendizagem activa centrado nos estudantes. Neste método, a transmissão de conteúdos ocorre antes da aula, sendo o tempo presencial dedicado a perguntas, reflexão individual, discussão entre pares e argumentação. 

Tenha-se presente que uma pesquisa no seu perfil de investigador, na plataforma Scopus, que permite saber que o catedrático Mazur é titular de um h-index=75, revela que a sua segunda publicação mais citada de sempre, é precisamente sobre o referido método de ensino inovador: "Peer Instruction: Ten years of experience and results" https://www.scopus.com/authid/detail.uri?authorId=7005375930

Pessoalmente, entendo que a primeira crítica substantiva ao método do catedrático Eric Mazur incide sobre a sua viabilidade prática. Em contextos de ensino com centenas de estudantes, o método revela-se inaplicável, porque as suas próprias premissas pedagógicas assentam numa interação e proximidade entre professor e aluno que são incompatíveis com o ensino massificado. A este propósito, atente-se na descrição seguinte feita por uma professora, que ilustra de forma clara o referido constrangimento: "Depois da minha primeira aula para uma plateia de mais de 700 pessoas, uma estudante esperou pacientemente para se apresentar. Ela confessou que me queria me conhecer porque, do lugar dela no fundo da sala, eu ‘parecia uma formiga’.” https://teaching.resources.osu.edu/teaching-topics/teaching-large-enrollment-courses

O artigo não o refere, mas importa ressalvar, porque isso é evidente, que o método referido assenta numa premissa fundamental: exige docentes com um domínio profundo da matéria que lecionam, e que sejam também capazes de compreender as dificuldades conceptuais típicas dos estudantes, antecipar os seus erros mais frequentes e ainda a capacidade de formular perguntas que estimulem o pensamento crítico e a reflexão. Exigindo por isso docentes bastante diferentes daqueles docentes que no ano passado se tornaram noticia por conta de "pérolas pedagógicas" inspiradoras como aquelas que abaixo se reproduzem:
“não vou explicar porque não vai perceber” 
“Quem não teve mais de 15...pode sair e trabalhar no Pingo Doce" 

Acresce que uma pesquisa no site da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, relativa ao Perfil do Docente do Ensino Superior – 2024/2025, revela que vários milhares de docentes do ensino superior possuem apenas o grau de licenciatura e que por uma feliz coincidência, o jornal Público noticia hoje que mais de 40% dos docentes do ensino superior, representando milhares de docentes, não possuem doutoramento. E, se levarmos ainda em linha de conta que mesmo entre muitos doutorados é frequente não se verificar um domínio profundo da matéria em que alegadamente se especializaram (basta olhar para aqueles com um h-index=0, incapazes de produzir um único artigo científico credível, como aquele professor que a Universidade do Porto despediu, tornam-se evidentes as dificuldades em tentar aplicar o método pedagógico do catedrático Eric Mazur ao ensino superior português. 

PS - Há duas formas de encarar o desmotivador contexto atual em que muitos empresários, especialmente lá fora, porque por cá o talento é escasso, optam por não contratar recém-diplomados, por considerarem que estes não oferecem um valor superior ao da inteligência artificial. Uma é a visão fatalista, resignada, ao estilo do fado lusitano. A outra muito mais inspiradora aconselha a aproveitar a oportunidade que isso representa. Muitos recém-diplomados possuem algo que a IA não tem: uma elevada propensão ao risco e essa virtude permite-lhes aspirar a mais do que simplesmente trabalhar por conta de outrem. Assim, a relutância dos empresários em contratar jovens recém-diplomados pode, paradoxalmente, transformar-se numa oportunidade para um aumento substancial do número de startups, como foi o caso do agora famoso doutorado da Univ. de Aveiro, que se tornou multimilionário, juntamente com vários outros colaboradores da empresa que fundou. E mesmo que que essa aventura empresarial acabe por ser um fracasso económico, é mais fácil para um jovem recém-diplomado, conseguir um emprego numa empresa estrangeira, tendo no currículo uma experiência empresarial mal-sucedida do que tendo apenas um diploma académico.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

When Generative AI Meets Inequality and Kleptocracy on a Path Toward Global Terror

In a previous post from September 2023 (linked above), I discussed new findings from an Economist article describing how artificial intelligence could transform scientific research through tools such as literature-based discovery and so-called “robot scientists.” I also warned that these AI-driven advances could have unintended consequences. In particular, they may disproportionately benefit wealthy countries, widening existing global economic inequalities and undermining the UN Sustainable Development Goal of reducing inequality. Such growing disparities could, in turn, intensify migration pressures from poorer regions to richer ones.

More recently, a paper entitled “Who on Earth Is Using Generative AI?”, published in the Elsevier journal World Development, provides the first comprehensive global analysis of individual-level adoption of generative AI. The study finds that country-level generative AI usage intensity is strongly correlated with both the coverage and quality of digital infrastructure. It further shows a pronounced concentration of usage across income groups: in early 2024, middle-income economies accounted for roughly half of global ChatGPT traffic, while low-income countries together contributed less than one percent. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0305750X25003468

Generative AI risks locking in global inequality rather than breaking it. Unlike earlier digital revolutions that lowered barriers and allowed poorer countries to leapfrog stages of development, AI rewards those who already possess advanced infrastructure, skilled labor, and strong institutions, effectively raising the threshold for participation and pushing many low-income economies to the margins. As AI-driven gains concentrate in wealthy and upper-middle-income countries, global income and opportunity gaps will widen, intensifying migration pressures and economic fragility in already vulnerable regions. The result is not merely economic divergence, but rising financial instability and geopolitical tension that inevitably spill across borders. This is precisely what the world does not need as Donald Trump’s return to power amplifies geopolitical turbulence, undermines international coordination, and ushers in an era of policy volatility and institutional strain—at a moment when global cooperation is already under severe stress.

Preventing AI from entrenching global inequality demands forceful and forward-looking policy choices. Rich countries and major technology firms must stop treating AI as a private advantage and instead recognize it as a shared global capability. This means investing seriously in digital infrastructure and education in poorer regions, enabling meaningful technology transfer, and keeping core AI tools open, affordable, and adaptable to local needs. If governed with ambition and solidarity, AI can become a catalyst for shared prosperity rather than a force that condemns billions to permanent exclusion from progress.

Declaration of competing interests — In January 2019, I proposed a deliberately abrasive idea: that rich countries should admit one African migrant for every €250,000 looted from Africa by its kleptocrats over the past fifty years. Even a conservative estimate lays bare the scale of the crime, well over ten million Africans displaced by the workings of kleptocracy. These are not charity cases, but people whose admission wealthy nations are morally indebted to. By this standard, Switzerland alone would owe asylum to more than one million.

PS — In this context, it is important to recall a previous post highlighting how income inequality and poor living conditions can fuel terrorism and radicalization. It draws on a 2019 study by Krieger and Meierrieks, based on data from 113 countries, which identifies a clear link between inequality and terrorism. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/09/2019-paper-by-german-researchersincome.html

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Teletrabalho, cronótipos e o caso Fundão: Um ensaio geral para o futuro de Portugal ?

 

Na sequência do estudo que divulguei no passado mês de dezembro, acessível no post supra, o qual concluiu que o teletrabalho contribui para a redução de problemas de saúde mental, com benefícios particularmente acentuados nas mulheres, aproveito para dar a conhecer um artigo interessante publicado no caderno de Economia da última edição do Expresso. O referido artigo aborda a crescente tendência de adequação dos horários de trabalho aos diferentes picos de produtividade dos trabalhadores.

Este modelo baseia-se na adaptação do horário laboral aos quatro cronótipos identificados pelo psicólogo clínico Michael Breus, sustentados por estudos desenvolvidos ao longo de várias décadas. De acordo com o artigo do Expresso, diversos especialistas em gestão de recursos humanos salientam que a adoção desta abordagem poderá traduzir-se em ganhos significativos de eficiência e produtividade, particularmente no contexto do teletrabalho. Curiosamente uma pesquisa expedita revela que há aproximadamente um ano atrás foi defendida uma dissertação numa universidade Portuguesa que sintetizou os estudos levados a cabo nesta área nos últimos 20 anos https://repositorio.upt.pt/entities/publication/5d6ff38b-913d-4a1c-9dc4-9d801f6a2c56

Não certamente por coincidência, também na última edição do caderno de economia do Expresso, havia um artigo sobre o aumento do número de profissionais (nacionais e estrangeiros) que aproveitando as vantagens do teletrabalho, estão a trocar as cidades Portuguesas pelos meios rurais, artigo esse no qual é mencionado o caso da pequena cidade do Fundão (que tem muito menos gente do que várias freguesias de Lisboa), na qual já há mais de 1000 (mil) programadores informáticos, por conta da estratégia de atracçáo daquela autarquia potenciada também pelo programa do Governo "Trabalhar no Interior". 

Aquilo que esse artigo não refere, porém, é que a corrida mundial à IA em curso, altamente competitiva, e que em Portugal passou recentemente a dispor de um enquadramento estratégico através da Agenda Nacional de Inteligência Artificial, aprovada na passada Quinta-feira, pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026, documento onde se pode ler que a rápida adoção da IA possa acrescentar entre 18 e 22 mil milhões de euros ao PIB nacional, pode fazer muito mais pela deslocação de pessoas para o Interior do que qualquer estratégia autárquica isolada ou o existente programa governamental de incentivo territorial. 

Ao libertar o talento das amarras geográficas dos grandes centros urbanos, a IA irá permitir abrir caminho a um novo paradigma de escolha: viver no Interior de Portugal poderá deixar de ser sinónimo de limitação, isolamento e irrelevância e poderá passar a afirmar-se como uma decisão ambiciosa e sustentável que junta qualidade de vida e inovação. A que se soma ainda a vantagem divulgada há um ano atrás por um conhecido catedrático de economia de uma famosa universidade, que afirmou que as evidências científicas indicam que o teletrabalho é uma das formas mais eficazes de inverter a quebra da natalidade, uma vez que esta aumenta significativamente entre os casais em regime de teletrabalho. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/01/alcancar-um-circulo-virtuoso-para.html

PS - Ainda sobre IA, é positivo saber que de acordo com o EUROSTAT, os Portugueses estão à frente da média europeia e inclusive à frente de países como a França e a Alemanha, em termos da percentagem de pessoas que mais usaram IA em 2025, sendo porém evidente que só nos conseguiremos aproximar das elevadas percentagens da Noruega e da Suíça, quando mais Portugueses conseguirem perceber as muitas vantagens da sua utilização. Ainda por cima num país, onde mais de um milhão e meio de Portugueses não tem (nem vai ter) médico de família, seria perfeitamente natural que esses recorressem ao ChatGPT, para esclarecimento de dúvidas de saúde. Aliás, eu próprio tenho médico de família e já recorri inúmeras vezes aquele modelo de IA generativa para esse efeito. 

domingo, 11 de janeiro de 2026

A ciência pelas ruas da amargura: Quando é que Portugal conseguirá alcançar a Grécia ?


Há poucos meses, várias universidades públicas portuguesas, como a Universidade do Porto, a Universidade de Coimbra e a Universidade NOVA de Lisboa, congratularam-se com o aumento do número de investigadores incluídos no conhecido ranking Elsevier-Stanford relativamente à edição do ano anterior. Contudo, aquilo que ficou por fazer, porque ninguém o fez, foi uma análise global que permitisse avaliar o desempenho de Portugal em comparação com outros países. E, nesse segmento específico, as notícias estão longe de ser animadoras; muito antes pelo contrário,  revelando fragilidades que suscitam sérias e legítimas preocupações.

Em 2022 já tinha feito esse exercício para uma amostra de 25 países, calculando não o desempenho para a amostra do Top 2%, mas somente o rácio muito mais selectivo associado ao subgrupo de investigadores do Top 0.5% por milhão de habitantes, que se traduziu numa lista cujo primeiro lugar aparecia ocupado pela notável potência científica que é a Suíça e onde Portugal aparecia em último lugar, abaixo da Grécia e do Chipre. Há um ano atrás voltei a fazê-lo, para constatar que infelizmente, o nosso país muito embora tenha crescido ligeiramente não conseguiu ultrapassar nenhum daqueles dois países que obviamente também cresceram  https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/09/nobel-para-ciencia-portuguesa-clarivate.html  

E quando agora, um ano depois, se repete o mesmo exercício verifica-se que Portugal, apesar de um novo e ligeiramente aumento do número de investigadores, ainda continua desgraçadamente abaixo dos referidos dois países, pois eles também aumentaram o seu número de investigadores altamente citados no Top 0.5%. Uma análise das taxas de crescimento médio entre 2022 e 2025, da Grécia (3%/ano) e de Portugal (1.7%/ano) mostra que a esse ritmo de tartaruga o nosso país nunca conseguirá ultrapassar a Grécia. 

E se, ano após ano, o impacto da ciência portuguesa continuar sistematicamente abaixo do da Grécia e do Chipre e muito longe do da Suíça, qual a probabilidade de uma ciência com tão fraco impacto produzir benefícios reais para o nosso país? Num século em que o crescimento económico depende cada vez mais de valor acrescentado, inovação e investigação, é minimamente credível que uma ciência com menos impacto do que a da Grécia e do Chipre nos permite convergir com o nível de riqueza da Suíça? E até quando vamos ignorar que uma ciência persistentemente pouco relevante internacionalmente está a alimentar a fuga permanente de talento e a condenar o país à estagnação económica?

Neste contexto, importa recordar um artigo publicado há um ano atrás na prestigiada revista The Economist, evidenciava que uma das formas mais eficazes de financiar a ciência, com vista à maximização do seu impacto, consiste muito menos no financiamento de projectos mas mais na atribuição de contratos de longa duração aos investigadores com a duração de pelo menos 7 (sete) anos. Não é, por isso surpreendente que o Conselho Europeu de Investigação (ERC) tenha agora decidido financiar contratos com essa duração. Ironicamente, em Portugal, alguém, cuja decisão dificilmente se pode atribuir a uma avaliação informada ou a uma reflexão estratégica sólida, ou sequer a um módico de inteligência, entendeu que reduzir para metade a duração dos contratos dos investigadores é aquilo que melhor serve os interesses da ciência Portuguesa e o futuro de Portugal !

PS - Em Portugal a U.Aveiro e a U.Minho lideram o grupo das universidades públicas em termos de densidade de investigadores no Top 0.5% do ranking Elsevier-Stanford por docente ETI, o que significa que são as duas universidades que mais tem contribuído para que Portugal não esteja ainda mais longe do desempenho da Grécia e do Chipre https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/09/uaveiro-uminho-e-uporto-no-podio-do-top.html

sábado, 10 de janeiro de 2026

O princípio do fim da arrogância médica

 


Há seis anos atrás a The Economist previu que a AI iria retirar os médicos do seu pedestal. Vide post acessível no link supra. À época essa previsão pode ter parecido excessiva, pois na altura ainda não havia nenhum ChatGPT, o modelo que passou a estar disponível ao público apenas dois anos depois. Contudo é precisamente esse modelo de IA generativa que hoje é utilizado diariamente por 40 milhões de pessoas unicamente para questões relacionadas com saúde, facto que levou a empresa proprietária do mesmo a lançar esta semana uma "ferramenta" dedicada somente a questões de saúde https://expresso.pt/newsletters/conversas-ao-ouvido/2026-01-08-40-milhoes-usam-o-chatgpt-todos-os-dias-por-motivos-de-saude.-esta-semana-fui-eu-6304a189

No contexto supra é pertinente recordar que no passado dia 18 de Setembro no post de titulo "O futuro bastante negro dos estudantes que agora ingressam num curso de medicina" divulguei um estudo que demonstrou que a IA consegue acertar em mais de 80% dos diagnósticos clínicos complexos, contra apenas 20% de médicos experientes, divulguei ainda um outro estudo da conhecida universidade Johns Hopkins, que desenvolveu um modelo de IA capaz de prever ataques cardíacos 
fatais com até 93% de precisão, e também o desempenho de um novo modelo de IA, desenvolvido por um consórcio europeu, que consegue prever o risco do aparecimento de mais de mil doenças com várias décadas de antecedência  https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/09/o-futuro-bastante-negro-dos-estudantes.html

Paradoxalmente, enquanto a IA aplicada à medicina evolui a um ritmo alucinante, as faculdades de medicina continuam a formar profissionais como o faziam há várias décadas décadas, preparando-os para competir com máquinas que já os superam de forma clara 
em diagnóstico, previsão e análise clínica. Se ao menos fosse possível dizer que, pelo menos, os médicos ainda conseguem superar as máquinas tratando os doentes de forma bastante empática. Mas nem aí esses profissionais conseguem um melhor desempenho do que a IA: pois como mostra a ciência, a IA é capaz de responder de forma significativamente mais empática do que os próprios médicos. Veja-se, por exemplo, o estudo publicado na revista científica Journal of General Internal Medicine, que envolveu mais de 1.400 participantes.  https://link.springer.com/article/10.1007/s11606-025-10068-w?

Acresce que a utilização da IA em Portugal é especialmente vantajosa por um motivo particular, a IA irá permitir poupar muitos milhões de euros, ao contrário de um elevado número de médicos Portugueses que possui uma estranha atracção pela fraude, que custa aos contribuintes deste país o valor astronómico de quase 800 milhões de euros por ano (um valor superior ao que Portugal gasta todos os anos a pagar o salário de milhares de investigadores), que é basicamente o mesmo que termos 2600 médicos todos os anos a cometerem fraudes de 300.000 euros cada um!  

PS - O presente post não constitui um ataque gratuito a toda a classe médica, mas uma critica contundente aos inúmeros maus profissionais que a integram, os quais escolheram o curso de Medicina apenas como um meio oportunista de enriquecer rapidamente. Como é óbvio, há muitos médicos que são profissionais extraordinários e também pessoas invulgares, e que eu próprio já louvei em posts anteriores, como por exemplo um de nome Domingos Machado, ou aquele médico que mencionei num post que se tornou um dos mais visualizados https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/01/muito-provavelmente-este-e-o-melhor.html

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Um catedrático feroz que não deixa pedra sobre pedra sobre uma "famosa" Escola

 

Na sequência do último texto publicado neste blogue, acessível no link supra, sobre o omnipresente — e tristemente magno — problema da endogamia académica, domínio em que o nosso país, consegue, de forma verdadeiramente miserável, figurar no topo do rankings europeu, aproveito para dar a conhecer um texto recente e bastante corrosivo de um jovem e muito feroz professor catedrático (CV resumido aqui). 

Nesse texto, o referido professor catedrático descreve uma endogamia doentia, entranhada numa escola da universidade de Lisboa, fica porém o aviso que esse texto, singular e bastante explosivo, tem um inicio muito pouco suave onde se pode ler: "É sempre perigoso criticar as instituições da academia portuguesa. Grande parte das pessoas que lá trabalham são mesquinhas e vingativas na proporção da sua incompetência....https://nunopgpalma.wordpress.com/2025/12/30/iseg-um-breve-testemunho-pessoal-vinte-anos-depois/

PS - Diga-se, em abono da verdade, que, consultada a informação mais recente sobre a endogamia das diferentes unidades orgânicas, aquela criticada pelo supracitado catedrático apresenta uma taxa de 47%. Trata-se, de facto, de um valor muito superior ao observado em universidades de países como a Alemanha e o Reino Unido, mas é todavia significativamente inferior ao de muitas unidades orgânicas de universidades nacionais, onde a percentagem de endogamia ultrapassa os 80% e, nalguns casos, mesmo os 90%. https://www.cnedu.pt/content/noticias/nacional/EndogamiaAcademica_2021_2022.pdf

sábado, 3 de janeiro de 2026

Dark Ages Thinking in Modern Science: Assigning blame without culpability

In the paper “Ranking-Based Sanctions for Retraction-Afflicted Elite Researchers,” published in Accountability in Research, the authors propose a framework aimed at holding prominent researchers accountable for retractions. While methodologically detailed, the approach is fundamentally flawed: it reflects a Dark Ages approach to accountability by assigning blame without establishing culpability, misapplying deterrence logic, and actively undermining the process of scientific self-correction. By treating all retractions as equivalent, the framework blurs the critical distinction between deliberate misconduct and honest error, undermining both fairness and scientific integrity, while fostering perverse incentives that discourage transparency, openness, and the responsible correction of the scientific record. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/08989621.2025.2549008

A parallel structural problem exists in major databases such as Scopus and Web of Science, which apply a single, undifferentiated “retraction” label to all withdrawn publications, regardless of whether the underlying cause is fraud, negligence, or honest error. Given the central role these databases play in hiring, promotion, funding, and collaboration decisions, this practice foreseeably and systematically stigmatizes researchers who act in good faith by implicitly associating them with misconduct. Empirical evidence shows that retractions result in enduring harm to reputation and career mobility, often spilling over to an author’s non-retracted work, with early-career researchers being particularly vulnerable. It is therefore urgent that Scopus and Web of Science adopt at least a minimal retraction typology distinguishing intentional misconduct, negligence, and honest mistake. 

Such a reform would preserve accountability where warranted while mitigating unjust, foreseeable, and potentially actionable harm to researchers’ professional standing. Continued reliance on an undifferentiated retraction label risks rendering these databases complicit in the unfair stigmatization of researchers and morally, if not legally, responsible for the avoidable damage inflicted on scientific careers. Science already bears the tragic scars of researchers whose careers were shattered—and in some heartbreaking cases, who took their own lives—after papers were retracted, even when they were later found innocent of direct misconduct. What science must prevent now is another suicide—this time triggered by retractions stemming from honest errors.

Declaration of Competing Interests - I previously argued that retractions in academic publishing should adhere to the principles of justice exemplified in legal systems, with consequences carefully calibrated according to intent, magnitude of harm, and accountability, thereby ensuring that corrections serve the integrity of the scholarly record rather than functioning as arbitrary or punitive measures reminiscent of the Holy Inquisition https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/12/letter-to-editor-retraction-typologies.html

Update after 5 days — Statistics show that the top five foreign countries engaging with this post are the USA, Germany, Finland, Japan, and China. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Um elogio que obviamente não mereço !


Obviamente não mereço o generoso elogio feito ontem pelo catedrático Óscar Afonso, Diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, a meio de um longo e interessante artigo acessível no link infra, onde aquele responde à importante questão: 

"que tipo de inspiração é hoje verdadeiramente relevante para o país e a economia, que contribua para elevar as condições de vida dos portugueses?"   

PS - Excepto, talvez, pelo privilégio inestimável de ter tido a oportunidade singular de poder servir como fonte de "inspiração" para muitos investigadores estrangeiros. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2023/10/1-lugar-na-universidade-do-minho-pelo.html

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O ingénuo prof. catedrático, o arguto prof. associado e o estudo que mostra que as empresas não querem contratar doutorados



Recentemente um catedrático da Universidade de Coimbra criticou num artigo no jornal Público, a politica científica deste Governo, por preferir apostar na ciência aplicada em detrimento da ciência fundamental. Vide link supra. Infelizmente logo no inicio do seu artigo, talvez por ingenuidade, aquele deu crédito à ilusão de que as empresas e bancos Portugueses andam viciados em actividades de investigação, na qual alegadamente gastam milhares de milhões de euros, quando na realidade o que acontece, é que esses milhares de milhões foram canalizados para fundos de capital de risco, em troca de benefícios fiscais. 

Aliás para se perceber que "a bota não batia com a perdigota", bastava atentar no facto de se ter ficado a saber que as mesmas empresas que alegadamente gastavam milhares de milhões em actividades de investigação, recusavam contratar doutorados, nem sequer mesmo que o Estado chegasse ao ponto de lhes conceder um subsidio fiscal no valor de 120% do valor do seu salário, vide estudo, que me foi enviado por um Colega da universidade de Aveiro e que dei a conhecer a um elevado número de colegas, através de um email que reproduzo no final do presente post. 

No respeitante a críticas à política científica deste Governo, esteve porém muito melhor um arguto professor associado do ISCTE, que há poucos dias, escreveu que:  "A ideia de orientar a investigação para as empresas assenta numa visão linear da inovação...Mas há décadas que os estudos de inovação mostram como esta imagem é errada. Mesmo quando há transferências, elas raramente são automáticas: exigem competências internas para compreender, interpretar e combinar conhecimento com activos específicos...Ainda mais importante, o maior contributo da ciência para a economia não está, na maioria dos casos, nos resultados imediatos da investigação, mas nas competências que ela forma e difunde"

Mas, pior do que privilegiar a investigação aplicada em detrimento da investigação fundamental, pior do que permitir que milhares de milhões de euros sejam canalizados directamente para fundos de capital de risco e pior do que confundir as fragilidades do tecido económico com um putativo desalinhamento entre ciência e economia, que justificou a fusão entre a FCT e a ANI, é aquilo que há alguns meses se podia ler no semanário Expresso: "a despesa pública em I&D caiu a pique no período da troika e nunca recuperou desde então, estando agora em níveis inferiores aos registados no ínicio dos anos 1990". Mas se a desculpa é uma alegada falta de dinheiro, que não pode ser, porque na década de 90 não havia mais dinheiro do que agora, então trate o Governo de copiar o que fazem na Suécia e na Alemanha, no que respeita a dar caça aos grandes evasores fiscais, que em Portugal são responsáveis por um buraco de astronómico de mais de 40.000 milhões de euros https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/02/o-que-falta-portugal-para-ser-como.html

PS - Mas, se de facto as empresas Portuguesas não querem contratar doutorados, nem mesmo recebendo subsídios, mais não resta aqueles do que irem trabalhar para empresas em países estrangeiros, que mereçam o seu esforço e o seu talento, ou em alternativa tentarem criar as suas próprias empresas, seguindo o caminho do insigne doutorado da universidade de Aveiro, que fundou uma startup extremamente valiosa e também daqueles cujas startups já recolheram financiamento de vários milhares de milhões de euros https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/11/univ-de-lisboa-uma-noticia-sobre-um-1.html 




De: F. Pacheco Torgal 
Enviado: 4 de julho de 2025 14:19
Assunto: Estudo mostra que as empresas Portuguesas não querem doutorados nem mesmo que lhes paguem muito para os contratar
 
Aproveito para reenviar abaixo link de artigo e também texto de email que há pouco recebi de um colega da U.Aveiro. Sobre o SIFIDE lá referido, declaro que critiquei essa aberração mais de uma dezena de vezes. A última vez que o fiz foi no passado mês de Maio https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/05/que-licoes-se-podem-extrair-do-livro.html

PS - Talvez isso ajude a explicar porque há milhares de doutorados desempregados https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/04/sera-que-aumentar-actual-inflaccao-de.html


Anexo link para paper interessante sobre o SIFIDE. Em resumo: 
Nem com 120% de bonificação as empresas "pegam" nos PhD holders.
Cumprimentos
Daniel