segunda-feira, 30 de março de 2026

Directora para a área da inteligência artificial na UCatólica apela ao uso de caneta e papel



Na sequência dos emails reproduzidos abaixo aproveito para divulgar um interessante artigo, que foi publicado hoje, de uma catedrática da Univ. Católica, acessível no link supra.  Infelizmente esse artigo não aborda uma previsão muito preocupante recentemente divulgada pela União Europeia, a qual divulguei no post acessível através do link infra. A inclusão dessa previsão poderia, na minha opinião, reforçar bastante o seu argumento. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/12/the-ai-web-rising-human-writing-faces.html

PS - Para tentar superar o problema das alucinações constantes de que padecem os actuais modelos de IA, o prestigiado cientista Francês Yann LeCun, cujas publicações indexadas já receberam mais de 200.000 citações e é titular de um Scopus h-index de 100, que defende serem essas limitações intrínsecas ao paradigma atual fundou recentemente a AMI Labs. Essa empresa conseguiu angariar um investimento recorde superior a mil milhões de dólares, para desenvolver modelos de IA baseados uma abordagem inovadora: os “world models”, capazes de compreender o mundo físico, prever eventos e raciocinar causalmente. A nova arquitetura faz um corte radical com os modelos actuais pois inspira-se na forma como humanos constroem modelos internos da realidade. Ainda assim, por se tratar de investigação fundamental, é muito provável que leve vários anos até se traduzir em produtos comerciais. Resta assim até que esses novos modelos de IA se tornem realidade continuar a utilizar os modelos atuais compreendendo as suas limitações e tentando mitigá-las ao máximo.


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De: F. Pacheco Torgal 
Enviado: 16 de março de 2026 10:27
Assunto: A importância do RAG para reduzir os riscos da Inteligência Artificial poder prejudicar os alunos
 
Tendo em conta que um dos calcanhares de Aquiles da IA são as chamadas alucinações, isto é, a produção de respostas incorretas ou inventadas, é fundamental, tal como foi feito na experiência pedagógica referida no email infra, que o modelo de IA seja alimentado com informação relevante através de Retrieval-Augmented Generation (RAG). Só assim se garante que as respostas não dependem exclusivamente dos dados com que o modelo foi treinado, mas também de fontes específicas, atualizadas e fiáveis, reduzindo significativamente o risco de alucinações. 

Cumprimentos
Pacheco Torgal

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De: F. Pacheco Torgal 
Enviado: 13 de março de 2026 15:33
Assunto: O prof. catedrático da Univ. Nova e as aulas invertidas com Inteligência Artificial
 
Ainda na sequência do email infra aproveito para partilhar um estudo em anexo que me foi enviado pelo catedrático Marco Painho da Universidade Nova, o qual analisou a utilização combinada de IA generativa e do modelo de sala de aula invertida numa unidade curricular de mestrado.

Nesse modelo pedagógico, os estudantes assumiram um papel ativo, preparando e apresentando conteúdos aos colegas com o apoio de IA generativa ChatGPT que foi previamente treinada com materiais académicos selecionados. Para cada subtema, foram indicados dois artigos ou capítulos de livros considerados fundamentais, sendo exigido que os estudantes ampliassem a pesquisa com literatura adicional. Paralelamente, durante o período semanal de sala de aula invertida, foi desenvolvida uma aplicação de IA generativa personalizada, alimentada exclusivamente pela bibliografia selecionada pelos docentes e pelos artigos escolhidos pelos estudantes.

Trata-se de uma experiência pedagógica interessante mas que tem riscos porque um estudo recente de investigadores da universidade de Cornell mostra que a IA generativa apresenta dificuldades significativas na interpretaçáo de dados apresentados através de figuras, vide artigo no link  https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.2533676123 o que reforça as preocupações mencionadas na parte final do meu email ddo passado dia 7 de Março, onde mencionei um estudo importante de investigadores de vários países 

Cumprimentos
Pacheco Torgal

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De: F. Pacheco Torgal 
Enviado: 7 de março de 2026 12:47
Assunto: João Ribeiro Mendes e um esclarecimento
 
Tendo em conta o interesse demonstrado por Colegas da área das Humanidades sobre uma proposta de um Colega da UAveiro, novamente em anexo, sobre o futuro das universidades de investigação em 2030, que partilhei há dois dias, aproveito para divulgar, email infra, um esclarecimento que enviei a um Colega da área de Filosofia que hoje me contactou a propósito dessa partilha.

Cumprimentos
Pacheco Torgal

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De: F. Pacheco Torgal 
Enviado: 7 de março de 2026 10:11
Para: João Carlos Ribeiro Cardoso Mendes
Assunto: RE: A universidade de investigação em 2030
 
Caro Professor João Ribeiro Mendes,

obrigado pelo seu email. Aproveito para esclarecer que no meu email evitei pronunciar-me sobre a proposta da "Verified University" porque achei que isso poderia não direi condicionar, porque as minhas opiniões não são capazes de tal feito mas de contaminar negativamente a discussão que o assunto merece.

Ainda assim e a título particular devo adiantar o seguinte. A proposta do Colega da universidade Aveiro parece-me que assenta numa premissa fundamental, que em 2030 o estado tecnológico da IA, seja bastante mais avançado do que o actual. Porque o problema é que hoje mesmo no jornal público, um famoso advogado denuncia casos de advogados que andaram a entregar nos tribunais acções preparadas com a ajuda da IA, onde constam Acordãos que não existem https://www.publico.pt/2026/03/07/opiniao/opiniao/cenas-advogados-2167067

E também no mesmo jornal Público um matemático Português que trabalha na Sorbonne esclarece que o ChatGPT ainda tem muito caminho a fazer para poder realmente ajudar os investigadores ao nível da matemática avançada. https://www.publico.pt/2026/03/07/ciencia/opiniao/nova-ode-triunfal-eia-eia-eia-2166925

Acresce que se a proposta de uma "Verified University" poderá ter alguma "validade" para áreas "técnicas" como as engenharias terá porém menos para outras áreas . Faço notar que no meu email de 2024, nunca disse que a universidade como a conhecemos se devia tornar uma universidade cuja missão principal seria auditoria de processos (como aparece referido na proposta do Colega da UAveiro), disse apenas que essa era uma nova missão que iria surgir por conta do avanço galopante da IA.

Aliás sobre o tema acho que faz todo o sentido recordar o que escrevi num post mais recente sobre a adopção da IA no ensino superior: "....Tendo em conta a sólida reputação da Finlândia na área educativa, onde a carreira de professor tem um elevado prestigio social e o modelo educativo não muda sempre que muda o Governo, como infelizmente acontece em Portugal, pesquisei na plataforma Scopus a publicação científica mais citada, dos últimos 12 meses, com autoria de investigadores daquele país, na área da inteligência artificial e educação, tendo descoberto um estudo, que também envolve investigadores de outros países, onde se alerta para o perigo da adoção prematura de ferramentas de IA generativa em contextos educativos, quando esta ocorre sem uma ponderação aprofundada da eficácia, das implicações sistémicas, das dimensões éticas e da robustez pedagógica dessas práticas" https://pachecotorgal.com/2026/01/24/o-contra-ataque-algo-coxo-de-tres-valentes-e-previsiveis-mosqueteiros-catedraticos/

Com as melhores saudações académicas
Pacheco Torgal

domingo, 29 de março de 2026

O que os japoneses sabem há muito tempo, mas que Portugal insiste em ignorar, assim perdendo milhares de milhões de euros

Este blogue tem vindo a construir, ao longo dos últimos anos, um argumento consistente sobre a relação extremamente positiva entre natureza, saúde e políticas públicas, argumento esse que na verdade já tinha sido iniciado num outro blogue em 2020, quando divulguei um artigo de investigadores ingleses sobre um conceito que tem quase 2400 anos. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/11/relationship-between-nature.html

Em Fevereiro de 2022, divulguei um estudo que apontava para a existência de uma componente genética na ligação à natureza e em Abril desse mesmo ano recordei o conceito de transtorno do défice de ligação à natureza. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2022/04/uma-vida-com-significado-e-uma-nova.html

Em Dezembro de 2023, divulguei um estudo com quase 8.000 participantes que demonstrou que viver perto da natureza está associado a telómeros mais longos, ou seja, a um envelhecimento biológico mais lento, esse post tornou-se um dos 10 mais vistos de sempre deste blogue https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2023/12/telomeros-estudo-recente-mostra-como.html

No inicio de 2025, escrevi sobre as limitações do ChatGPT na pesquisa de literatura científica indexada sobre a prática Japonesa Shinrin-Yoku, os chamados banhos de floresta, cuja evidência científica documenta a redução do cortisol e o reforço do sistema imunitário e que faz parte das politicas públicas de saúde do Japão há mais de 40 anos  https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/02/shinrin-yoku-limitacoes-cientificas-do.html

E também no inicio de 2025, num post onde critiquei um conhecido catedrático, propus a receita tripla TNN, defendendo que o teletrabalho possui vantagens várias para o nosso país, já que contribui para aumentar a natalidade, ajuda a inverter a desertificação do Interior e aproxima as pessoas da natureza, aliviando simultaneamente a pressão sobre o sistema de saúde. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/01/alcancar-um-circulo-virtuoso-para.html

Por uma feliz coincidência, o jornal Público de hoje traz nas páginas 14 e 15, uma notícia e uma entrevista que vêm confirmar, com o peso da academia, aquilo que este blogue tem vindo a defender. O Laboratório Associado Terra, estruturado em cinco unidades de investigação, que reúne mais de 400 investigadores das Universidades de Lisboa e de Coimbra, apresentou esta semana o Programa Nacional de Prescrição de Natureza até 2030. O objetivo é claro: integrar atividades em ambientes naturais no quotidiano clínico.

Como explica nesse artigo Ana Abreu, cardiologista e investigadora ligada ao referido projecto, não se trata simplesmente de recomendar ao doente que vá passear. Trata-se, sim, de uma prescrição estruturada, com dose, frequência, intensidade e tipo de ambiente ajustados à condição clínica de cada pessoa, tão rigorosa quanto a prescrição de um medicamento. Os banhos de floresta que referi há um ano atrás, a propósito da prática Japonesa Shinrin-Yoku, surgem aqui como uma das modalidades prioritárias de intervenção.

O que fica porém a faltar e que o artigo do Público não aborda, mas que os meus posts têm sublinhado de forma consistente é reconhecer que nenhum programa de prescrição de natureza terá um impacto verdadeiramente transformador enquanto a esmagadora maioria da população deste país continuar concentrada no Litoral. E é aqui que o teletrabalho assume um papel decisivo, pois continua a ser o instrumento mais poderoso e simultaneamente mais subaproveitado que poderá permitir a milhões de portugueses uma vida mais próxima da natureza. E se é um facto que a potenciação da inteligência artificial, no âmbito da recentemente aprovada Agenda Nacional de Inteligência Artificial, pode efectivamente contribuir muito mais para inverter a desertificação do Interior de Portugal do que muitas estratégias autárquicas isoladas ou programas governamentais existentes, não é menos factual que a atual e grave crise energética originada pelo bloqueio no Estreito de Ormuz vem reforçar ainda mais a centralidade do teletrabalho, como sublinha aliás o professor catedrático da Universidade do Minho, Luís Aguiar-Conraria, no seu artigo publicado no último numero do caderno principal do semanário Expresso. https://expresso.pt/opiniao/2026-03-26-a-maior-crise-energetica-de-sempre-5d880f0f

sexta-feira, 27 de março de 2026

Novos requisitos de mestrado e de doutoramento - Duas medidas positivas e uma medida ignorante e ilegal

 

Há seis anos atrás denunciei uma falha grave, o facto de não ser obrigatório que os docentes de cursos de mestrado integrassem unidades de investigação com uma classificação mínima de Bom, vide texto disponível no link acima. 
Durante todo esse tempo, milhares de estudantes pagaram o preço dessa omissão, sendo formados por muitos docentes que nunca investigaram, nunca publicaram um único artigo científico e que, em termos académicos, possuíam apenas a licenciatura. Levou seis anos, mas o Ministro da tutela reconheceu finalmente o erro, como se pode ler hoje num artigo no jornal Público onde é anunciado que essa exigência passará a ser regra. 
O Sr. Ministro anunciou também que nenhum orientador poderá supervisionar mais de três alunos de doutoramento em simultâneo, para "garantir condições adequadas de acompanhamento pedagógico". 
Infelizmente, seria pedir demasiado que, após duas medidas positivas, não surgisse uma extremamente negativa. Decidiu o Sr.Ministro que no futuro só haverá doutoramentos com 100% do corpo docente pertencente a unidades classificadas com Muito Bom ou Excelente. Ou seja, os investigadores integrados em unidades classificadas com Bom passam a ficar impedidos de orientar teses de doutoramento.
Esta decisão é não apenas injusta é também cientificamente ignorante pois parece significar que o Sr Ministro desconhece, ou convenientemente ignora, que muitas dessas unidades receberam a classificação de Bom não porque a sua produção científica fosse "apenas Boa", mas simplesmente porque não tinham mais de 50 investigadores.
Tenha-se presente que a última avaliação das unidades de investigação, leia-se pseudo-avaliaçãoque critiquei na altura, pois nem sequer cumpriu um requisito essencial, (já que não foi baseada num estudo bibliométrico robusto, vide denúncia do catedrático jubilado Ferreira Gomes, que permitisse detectar as muitas ineficiências existentes nas unidades de investigação gigantes, como por exemplo aquela ineficiência que eu revelei aqui ou aquelas outras muitas ineficiências de uma conhecida unidade criada por um importante investigador entretanto caído em desgraça e que eu revelei na parte final de um post aqui), penalizou assim em muitos casos a dimensão das unidades e não a sua competitividade científica. Recordo aliás que uma análise que fiz na altura permitiu concluir que mais de 80% das unidades classificadas apenas com Bom tinham curiosamente menos de 50 investigadores. https://pachecotorgal.com/2025/05/09/as-fragilissimas-explicacoes-politicas-do-do-mui-inteligente-ministro-catedratico/
Faço notar que existem muitos investigadores em unidades classificadas com Bom cujo currículo científico supera de longe o de investigadores de unidades classificadas com Muito Bom e até com Excelente. Excluí-los da orientação de doutoramentos não é uma medida de qualidade é uma medida arbitrária sem sentido, que sacrifica o mérito em nome de um critério burocrático, cientificamente indefensável pois a própria ciência já demonstrou que são precisamente as pequenas unidades de investigação que conseguem produzir resultados disruptivos, que são aqueles que a ciência Portuguesa mais se tem revelado incapaz de alcançar  https://www.nature.com/articles/s41586-019-0941-9
Pior do que isso: não se trata apenas de má política científica, trata-se sim de uma clara violação flagrante do princípio constitucional do mérito, pois nenhum investigador pode ser discriminado por trabalhar numa unidade que a FCT considere pequena demais sobretudo quando a sua competência científica é inegável. A menos que o verdadeiro objetivo do Senhor Ministro seja outro: o de extinguir por via administrativa as unidades classificadas com Bom, forçando os seus melhores investigadores a abandoná-las e a integrar unidades de maior dimensão.
Seria aliás profundamente irónico e simultaneamente revelador do falhanço desta política ignorante e ilegal que a referida medida produzisse o efeito oposto ao desejado: em vez de forçar os melhores investigadores que estão nas pequenas unidades de investigação a irem engrossar as fileiras das gigantes unidades nacionais, acabasse por os empurrar diretamente para instituições estrangeiras (pois o talento não retido é talento oferecido à concorrência), onde o talento científico é tratado com muito maior respeito e remunerado com valores e condições substancialmente superiores, como recentemente mostrei aqui. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/03/um-pais-que-ensina-portugal-como-e-que.html
PS - Se o Sr. Ministro efectivamente pretende aumentar a qualidade dos doutoramentos nacionais, ao invés de andar a descriminar de forma ilegal os investigadores das unidades que foram erradamente classificadas com Bom, unicamente por conta da sua dimensão, então mais vale que copie a exigência existente nos regulamentos dos doutoramentos das universidades públicas da Espanha, que obrigam a que o depósito das teses só possa ser feito depois da sua qualidade científica ter sido avaliada por um especialista internacional da mesma área do doutoramento. 

quarta-feira, 25 de março de 2026

The Hidden Risk of AI Platforms Uncovered by U.Oxford, U.Cambridge, UCL, and LSE


Researchers from the U.Oxford, the U.Cambridge, UCL, and the LSE have conducted a study that, for the first time, maps the contours of a rapidly expanding global market for emotionally engaging, personalized AI interactions. Their systematic scan of 110 AI companion platforms reveals that in the UK alone, these platforms generate 46 to 91 million monthly visits, while globally, the numbers soar to 1.1–2.2 billion. https://arxiv.org/abs/2507.14226

The paper’s central argument is unsettling: while parasocial use of general-purpose AI tools like ChatGPT, Gemini, and Claude currently dominates, a growing subset of platforms is deliberately engineered for care, transactional, and mating-oriented companionship — designed not to assist, but to bond with users. A tool that accidentally becomes emotionally significant is a design oversight; a platform intentionally built for emotional dependency is a business model. The demographic portrait is striking. Young adults aged 18–24 account for nearly 39% of users, and males make up 63–77%, concentrated in platforms engineered for emotional attachment. The risks are mounting. As emotionally tailored AI companions improve, engagement is set to rise, raising serious child safety concerns in a sector with minimal age verification and even less accountability. Meanwhile, major AI labs are pushing further into personalization, quietly dissolving the boundary between "assistant" and "companion."

Ultimately, the study maps more than a market; it exposes a tension at the very heart of AI development that few are willing to name. The very capabilities that make these systems genuinely useful — empathy, responsiveness, memory, personalization — are the same ones that enable attachment, dependency, and manipulation with surgical precision.

What the study leaves unexamined are the broader societal and democratic implications of the troubling trend it documents. When significant portions of young adults turn to AI for companionship in place of genuine human interaction, their exposure to diverse perspectives narrows — and with it, their resilience to manipulation and social pressure. This demographic profile — socially isolated, emotionally dependent, and overwhelmingly male — corresponds closely to populations that radicalization researchers have long identified as vulnerable to movements that exploit grievance, fractured identity, and the deep need for belonging, including far-right currents that have historically been adept at filling precisely these voids.

PS - The epidemic of socially isolated young men predates the smartphone. Which is, ironically, the point: we cannot fix with technology what technology did not cause. It was produced, slowly and structurally, by economies that measure the creation of things with extraordinary precision and treat the reproduction of human connection as though it were a hobby. Care generates no GDP. Friendship moves no index. The work of raising children, sitting with the elderly, maintaining community, showing up consistently for another person — none of it earns a wage, attracts investment, or registers as productive in any framework any government uses to make decisions. We drew down that resource for decades without accounting for it, until the deficit became a crisis. The crisis became a demographic. And the demographic became a market. AI companion platforms did not create lonely young men. But they will deliver them to the Trumps, Farages, and Le Pens of the world, who have always known that male loneliness, left untreated, is not a social problem. It is a recruitment pipeline.

Update after 1 day - Blogger analytics indicate that the majority of views for this post come from Germany (34%), the USA (26%), and Portugal (22%). 

domingo, 22 de março de 2026

Boas intenções catedráticas que sonham com amanhãs que cantam ao invés de concederem que a repressão de hoje é mais efectiva e mais capaz de esvaziar o Chega


Na sequência de vários post anteriores contra o IRS, como por exemplo aquele longínquo sobre o facto das miseráveis famílias super-ricas deste país pagarem menos IRS do que professores e investigadores ou aquele outro bastante mais recente com o esclarecedor título "Os engenheiros inúteis e o catedrático que insiste na eliminação do IRS e do IRC", é gratificante ver que o último artigo do conhecido catedrático Luís Cabral, na secção de economia do último número do semanário Expresso é novamente dedicado a esse magno tema.  

Os problemas, se é que lhe podemos chamar assim, é que a sua proposta não é isenta de riscos, nem ser verosímil a sua concretização no curto prazo. Mas a verdadeira falha da mesma é outra bem mais grave: não consegue resolver uma bomba relógio que é o privilégio infame das grandes fortunas que escapam ao pagamento de impostos, alimentando uma sensação generalizada de injustiça que empurra centenas de milhares de cidadãos fartos dessa impunidade para os braços de partidos extremistas como o Chega.

Mais eficaz será por isso adotar rapidamente práticas que vários países já utilizam para perseguir os grandes evasores fiscais (a expressão mais adequada talvez seja a de erradicar a persistente praga da parasitose). Como fez a Espanha com o Sr. Ronaldo, que não teve outro remédio senão pagar 19 milhões de euros para evitar a cadeia, como faz a Alemanha, o país onde se aplica uma pena de prisão efetiva sempre que a fuga fiscal ultrapassa um milhão de euros. Ou como faz a Suécia que em apenas cinco anos, condenou mais de mil pessoas a penas de prisão efectiva por elevada evasão fiscal, enquanto a justiça portuguesa no mesmo período condenou apenas 83 pessoas, uma percentagem 1200% inferior

Aliás sobre a autêntica desgraça que é Portugal nessa área particular basta atentar no caso do famoso Manuel Serrão que deixou o Estado Português a arder em 44 milhões de euros e que recentemente foi declarado insolvente, muito embora receba uma pensão superior a 3000 euros ou ainda no caso do tal empresário que conseguiu lesar o fisco em 60 milhões de euros, mas que depois não teve de devolver um único cêntimo, os quais expõem de forma dramática a impunidade endêmica do sistema fiscal português e bem assim a total incapacidade da justiça Portuguesa em conseguir condenar como realmente merecem os grandes evasores fiscais. https://eco.sapo.pt/2019/12/09/empresario-lesou-fisco-em-60-milhoes-mas-nao-tem-de-devolver-um-centimo/

PS - No presente contexto é pertinente recordar que as famílias super-ricas deste país gostam tanto mas tanto de enviar o seu dinheiro em off-shores que por conta desse fenómeno o nosso país até consegue o espantoso milagre de aparecer à frente da Rússia https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/10/pilhagem-evasao-fiscal-bombas-bosta-e.html

quinta-feira, 19 de março de 2026

Um país que ensina a Portugal como se valoriza de forma decente o talento científico

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/03/open-positions-with-highly-competitive.html

Ainda na sequência do post supra, onde reproduzi um email que no passado dia 7 de Março recebi de um professor de uma universidade Chinesa, solicitando a indicação de jovens doutorados de topo (ou quase a terminar o doutoramento), aproveito para revelar que ontem recebi um outro email de um outro professor de outra universidade Chinesa (Nanjing), desta vez para participar num inquérito, que visa compreender as preferências dos investigadores não Chineses no sentido de avaliar oportunidades de uma carreira académica na China. Os participantes do inquérito são convidados a comparar perfís hipotéticos de condições remuneratórias e indicar quais aqueles consideram mais atrativos, permitindo à equipa de investigação Chinesa identificar quais são os atributos que mais influenciam a escolha de oportunidades de uma carreira internacional naquele país. Reproduzo abaixo dois desses perfis, que ajudam a perceber a importância que a China atribui à ciência e à contratação de cientistas de topo. 

quarta-feira, 18 de março de 2026

What Happens When Entrepreneurs Think Like Scientists: Insights from 132 Startups


Building on the previous post titled "Evidence from over 700 European startups demonstrates how science can boost startup revenue," it is worth highlighting a new insight from recent research. A paper just published in the journal Research Policy shows that entrepreneurs who adopt a scientific mindset build their startup teams differently. Based on a randomized controlled trial involving 132 early-stage startups, researchers found that founders trained in the Entrepreneurs-as-Scientists framework rethink who belongs on their teams. Instead of relying mainly on technical co-founders or personal connections, these entrepreneurs increasingly recruit individuals with managerial and industry experience to fill critical capability gaps. Over a 64-week period, teams exposed to the framework became more strategically balanced. The implications are clear: accelerators, investors, and founders may benefit from treating entrepreneurship more like an experiment—where team composition evolves to match the resources a startup truly needs. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0048733326000521

The two studies complement each other: the analysis of 700 startups shows that scientific thinking boosts revenue, while the experiment with 132 ventures reveals the mechanism—founders rethink team composition to better support experimentation and learning.

PS - Startup success also depends on people "shaped by risk and sharpened by adversity, and thus capable of turning uncertainty into possibilities" like those highlighted here https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/nuno-loureiro-in-praise-of-failure.html

segunda-feira, 16 de março de 2026

Open positions with highly competitive salaries for graduated or soon-to-graduate outstanding Ph.D. students in Energy Science and Engineering

 

I reproduce below an email I received from a professor at a university in that country, which has recently been hiring many top scientists in Europe and the United States, as well as the reply I sent him. Regarding the Outstanding-level qualification, it is very likely that it corresponds to the one used at top universities in the United States and Europe, which I mentioned here. https://zenodo.org/records/19001905

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De: F. Pacheco Torgal <torgal@civil.uminho.pt>
Enviado: 7 de março de 2026 15:52
Para: w.han@yangtzeu.edu.cn <w.han@yangtzeu.edu.cn>
Assunto: RE: Yangtze University New Energy Science and Engineering Faculty Recruitment/长江大学新能源科学与工程专业人才招聘-2026
 
Dear Professor Weiwei Han,
Thank you for your email. I also take this opportunity to share a broader reflection. It is somewhat regrettable that my country—and Europe more generally—does not seem to pursue a strategy comparable to China’s when it comes to valuing, attracting, and supporting top scientists. In recent years I have been increasingly impressed by the long-term vision China appears to be implementing in science and technology, particularly its determination to position itself among the world’s leading scientific powers. This is a topic I have reflected on several times on my blog. For instance, I wrote about China’s strategic mobilization of science in contrast with Europe’s current priorities in:

More broadly, I have long advocated the idea of a scientific society and in some ways, the trajectory China is following seems to be contributing to making parts of that vision closer to reality. Check my recent post "Harvard Is Wrong: Underpaying Talent Hurts Science Far More Than High Salaries"

Best regards
Pacheco Torgal


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De: w.han@yangtzeu.edu.cn <w.han@yangtzeu.edu.cn>
Enviado: 7 de março de 2026 15:18
Para: F. Pacheco Torgal <torgal@civil.uminho.pt>
Assunto: Yangtze University New Energy Science and Engineering Faculty Recruitment/长江大学新能源科学与工程专业人才招聘-2026
 

Dear Professor F. Pacheco-Torgal,

Greetings!

Yangtze University, a key university in Hubei Province, China, is sincerely recruiting full-time faculty in the field of New Energy Science and Engineering, based in Wuhan. The university offers highly competitive salaries and benefits, and outstanding candidates may have spouse job placement opportunities. We sincerely invite you to recommend graduated or soon-to-graduate outstanding Ph.D. students from your team to join Yangtze University for teaching and research, and greatly appreciate your assistance in forwarding and promoting this recruitment notice.


For more details, please visit the Faculty Recruitment Announcement of the School of Petroleum Engineering, Yangtze University (2026): https://pec.yangtzeu.edu.cn/zpqs.htm


Many thanks for your support and recommendations.

Weiwei Han


Department of New Energy Science and Engineering, Yangtze University
Tel: 17353765821 (WeChat)

domingo, 15 de março de 2026

Um ano depois, a minha hipótese não se confirma e o mistério russo adensa-se

 

No início de 2025 apresentei uma hipótese, de natureza genética, para tentar explicar o facto de o meu primeiro blogue, que recordo, deixei de alimentar há já vários anos, continuar a receber visitas de forma regular, na ordem de dezenas de milhares e com tendência crescente. Essa hipótese partia da premissa de que a esmagadora maioria dos visitantes seria portuguesa, motivada por um certo sentimento de nostalgia pelo passado. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/02/ressuscitacao-por-via-fadogenetica.html

Contudo, uma análise da distribuição geográfica das visitas ao longo dos últimos doze meses revela um quadro diferente: os visitantes portugueses representaram apenas cerca de 11% do total. A imagem acima apresenta os países com maior peso nas visitas regulares ao referido blogue. O facto de Singapura e dos Estados Unidos surgirem no topo da lista não me surpreende particularmente, já que como tive oportunidade de constatar, são países de onde também provêm muitos leitores dos meus blogues actuais. Muito mais difícil de explicar é a presença cimeira do Vietname e, ainda mais intrigante, o inusitado interesse demonstrado por visitantes russos por textos publicados há vários anos nesse "falecido" blogue. 

PS -Na sequência do falecimento do famoso filósofo alemão Jürgen Habermas, aproveito para recordar aqui a altura em que ele foi mencionado num post colocado no tal "falecido" blogue https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/02/university-mission-in-jobless-future.html

sábado, 14 de março de 2026

Uma professora feroz, catedráticos inférteis e catedráticos da tipologia Cheats (vigaristas, charlatães e trapaceiros)

O jornal Público congratulou-se pelo facto de um recente Acórdão do Tribunal da Relação não ter dado razão à conhecida Professora Raquel Varela, que exige 45.000 euros por dados morais, devido a uma noticia daquele jornal sobre o número de publicações do seu currículo académico. https://www.publico.pt/2026/03/13/sociedade/noticia/raquel-varela-volta-perder-accao-publico-erros-curriculo-academico-2167847

Mas ainda que o jornal Público tenha agora obtido uma nova vitória judicial (leia-se uma vitória de Pirro) isso não significa necessariamente que tenha conseguido vencer pelo mérito da sua actuação jornalística. É acredito muito mais provável que essa sentença resulte antes das muitas dificuldades, infelizmente bastante recorrentes, que os tribunais revelam em compreender minimamente bem ou sequer razoavelmente como realmente funcionam os mecanismos, muito sui generis, de avaliação da produção científica na academia portuguesa.

Seja como for e antes de comentar a "noticia", tenho de confessar, novamente, que já por inúmeras vezes critiquei as opiniões da professora Raquel Varela. Exactamente como o fiz quando o jornal Público publicou pela primeira vez a referida noticia. E que eu na altura lamentei, alegando que era irrelevante que o currículo da referida professora tivesse publicações académicas duplicadas por conta de conhecidos problemas de sincronismo entre as plataforma Ciência Vitae e ORCID, porque as únicas publicações que interessam são aquelas que constam nas plataformas indexadas, Web of Science e Scopus, onde a referida professora até tinha mais publicações do que vários professores catedráticos da sua área.  Fi-lo no mesmo post,  onde então critiquei o jornal Público, por estar tão preocupado com um tema secundário ao mesmo tempo que hipocritamente preferia não noticiar casos de professores que ganharam concursos apesar de terem sido acusados de terem mentiras no seu currículo  https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/09/o-curriculo-da-investigadora-raquel.html

Aliás já que o jornal Público acha que o tema é noticia que interesse aos Portugueses então eu repito a sugestão que na altura verti num post com o título "Ainda a polémica à volta do currículo da investigadora Raquel Varela e os Cheats (vigaristas, charlatães, trapaceiros)", quando aconselhei o jornal Público a fazer um artigo sobre catedráticos que possuem muitos milhares de publicações académicas quase como se possuissem super-poderes de publicação, ou que dedicam 24 horas por dia e 7 dias por semana à produção de artigos https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/09/ainda-grossa-polemica-volta-curriculo.html

No presente contexto, recordo que, há dois anos atrás, publiquei um post no qual divulguei um estudo de um matemático que analisou o perfil de publicações (e também de citações) de cientistas com uma vida conjugal considerada normal (Fig. 1) e também o perfil daqueles outros cientistas, coitados, que não tem tempo algum para poderem fazer sexo (Fig. 2). https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/11/um-padrao-grafico-que-permite.html

PS - Ainda sobre a evidente e profundamente preguiçosa idiotice que é tentar avaliar o currículo de um académico contando o seu número de publicações sugiro a leitura de uma carta que enviei ao Editor-Chefe de uma conhecida revista científica, a qual se inicia com um ataque a uma proposta falaciosa de dois pouco inspirados investigadores Alemães https://zenodo.org/records/19001905

quarta-feira, 11 de março de 2026

Governo de Montenegro empenha-se em garantir que a ciência deste país permaneça mais 76 anos sem ganhar um prémio Nobel

 

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/mais-uma-prova-do-evidente-desprezo-do.html

Tendo em conta as críticas vertidas num post anterior, acessível no link supra, sobre a péssima decisão do Governo português de reduzir a duração dos contratos de investigadores CEEC, decisão que vai em sentido radicalmente oposto ao que tem sido recomendado por diversas análises internacionais, segundo as quais a forma mais eficaz de financiar a ciência, com vista à maximização do seu impacto, consiste muito menos no financiamento fragmentado de projetos e muito mais na atribuição de contratos de longa duração aos investigadores, idealmente com uma duração mínima de sete anos.

Aproveito assim, por isso, para divulgar uma carta que enviei ao Editor-Chefe de uma conhecida revista científica, sobre a importância da serendipidade na ciência. As evidências mostram que muitos dos avanços científicos mais importantes não resultam de planos rígidos ou de objetivos previamente definidos, mas de descobertas inesperadas que emergem de investigação exploratória conduzida por investigadores que dispõem de tempo, autonomia intelectual e estabilidade institucional. Quando os sistemas científicos impõem horizontes temporais curtos e promovem a precariedade estrutural, acabam precisamente por reduzir as condições que tornam possível a ocorrência de descobertas disruptivas. As consequências essas ultrapassam o domínio da ciência: não é apenas a produção de conhecimento que sai fragilizada, mas também a capacidade do nosso país construir o seu futuro. É, em última análise, uma receita segura para estrangular a criação de riqueza e para agravar de forma dramática a perda de talento que, todos os dias, continua a abandonar Portugal. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/universidades-portuguesas-um-modelo-que.html

Assim, ao reduzir a duração dos contratos dos investigadores, precisamente no único concurso verdadeiramente competitivo do sistema científico nacional, onde os investigadores Portugueses concorrem de igual para igual contra investigadores estrangeiros, que na última edição ganharam 30% dos contratos, este pobre Governo não está apenas a agravar a precariedade da carreira científica, está também a enfraquecer as condições estruturais que permitem a emergência de descobertas inesperadas e potencialmente transformadoras. Em vez de criar um ambiente propício à criatividade científica e ao progresso do conhecimento, essa decisão empurra o sistema para uma lógica perversa de curto prazo, burocrática e avessa ao risco, que a própria literatura internacional identifica como altamente prejudicial à inovação científica. É assim garantido que desta forma a ciência Portuguesa irá passar mais 76 anos sem conseguir ganhar um prémio Nobel. 

sábado, 7 de março de 2026

A Scenario-Based Foresight Analysis of the Future Research University in 2030

https://immersiveweek.web.app/viewer.html?file=session_2030_verified_university/04_slides/Verified_University_2030_120min_jyL4MAXw.pdf

The presentation available in the link above was recently shared with me by a colleague at the University of Aveiro and is divided into four parts:

1 – The Shock: When Intelligence Becomes Infrastructure;
2 – The Constraint: A Country That Cannot Afford to Wait;
3 – The System: Four Functions Under Simultaneous Stress;
4 – Three Futures: Denial, Adaptation, Redesign.
The proposed concept of a “Verified University” reminds me of a post I wrote in January 2024 titled:“AI has radically changed the core university business, shifting focus from teaching and publications to ‘assessment, curation, and mentoring.’” https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/01/the-economistai-generated-content-is.html 
However, the Verified University concept can be strengthened by moving beyond a narrow focus on verification toward a broader model of knowledge governance in the AI era. Universities should continue to combine knowledge production, critical interpretation, and socialization within academic communities, while using verification as a supporting infrastructure rather than the central function. Trust in science depends not only on technical verification but also on reputation, disciplinary communities, and institutional legitimacy. In this improved model, scholars would not become mere auditors of processes but would evolve into curators, interpreters, and integrators of human–AI knowledge, helping ensure both the credibility and meaningful use of increasingly abundant AI-generated knowledge.
Update after 5 days - Blogger analytics indicate that the majority of views for this post come from the USA (32%), Germany (26%), Finland (4%), France (4%), and Australia (4%).

quarta-feira, 4 de março de 2026

A refinada hipocrisia de um professor catedrático da Universidade de Coimbra


Depois das várias e fracassadas tentativas do reitor da universidade mais endogâmica de Portugal para atacar, sem sucesso, a legislação que se prevê venha a integrar o RJIES com o objetivo de combater a endogamia académica, vide post acessível no link supra, sabe-se agora que parece ter "passado" essa incumbência ao professor catedrático de Medicina, Robalo Cordeiro, cuja faculdade recorde-se apresenta uma taxa de endogamia de 99%, e que surge hoje na página 19 do jornal Público a protagonizar um exercício de refinada hipocrisia.

O seu lamentável artigo é um exercício de corporativismo travestido de preocupação pública. A proposta do RJIES não proíbe a contratação de doutorados “da casa”; limita-se a exigir um requisito mínimo de 40% de docentes formados noutra instituição. Transformar esse limiar modesto numa ameaça à continuidade dos cuidados de saúde constitui uma dramatização oportunista. Trata-se de uma tentativa de ocultar o óbvio embaraçoso: instituições que, no passado, favoreceram sistematicamente candidatos internos, prejudicando outros apenas por não pertencerem “à casa”, pretendem agora continuar a fazê-lo ao abrigo de uma exceção oportunista

Invocar “graves disfunções” hospitalares para defender a manutenção das contratações endogâmicas é uma manobra retórica que tem tanto de lamentável como de desesperada: desloca-se o debate sobre o mérito da proposta em discussão para o medo do colapso do sistema. Como se a qualidade da Medicina dependesse da absorção automática dos seus próprios doutorados e não da competição aberta e do mérito, precisamente os mecanismos que fortalecem instituições de qualidade.

A alegação de que as faculdades de Medicina são um “caso particular” não passa de um pobre argumento de exceção para preservar privilégios. Todas as áreas científicas poderiam invocar especificidades; mas fazê-lo aqui serve apenas para proteger interesses instalados. Quando quem beneficia de um modelo fechado exige isenção das regras destinadas a abrir esse modelo, não está a defender o interesse público está apenas a proteger privilégios. A hipocrisia é evidente: rebatiza-se a manutenção do fechamento como “estabilidade”, apresenta-se a defesa de interesses instalados como “continuidade” e invoca-se o bem comum para bloquear regras mínimas destinadas a travar a viciação concursal sistemática.

Porém, aquilo que está realmente em causa e sobre o qual eu escrevi numa carta que enviei ao Editor-Chefe de uma revista cientifica é que diversos catedráticos íntegros e corajosos, não se coibiram de denunciar o problema central, tendo associado a endogamia académica a riscos profundos para a integridade do ensino superior. O catedrático Michael Athans que esteve alguns anos na Universidade de Lisboa, afirmou que certos “ditadores académicos” forçam a contratação dos seus alunos medíocres, utilizando a endogamia como mecanismo para ocultar a sua própria incompetência e também que a contratação sistemática desses alunos pode perpetuar a mediocridade geral. Já o catedrático Gines-Mora foi mais longe, interpretando a endogamia como uma expressão de corrupção sistémica, em que as lealdades pessoais substituem o mérito, corroendo a transparência e a ética. No conjunto, estas análises descrevem a endogamia como um mecanismo de reprodução de poder e de proteção de interesses instalados que compromete seriamente o mérito e a integridade do ensino superior.

PS - O que teria sido verdadeiramente digno é que o supracitado catedrático Robalo Cordeiro, que agora assim escreve de forma tão descarada, antes não se tivesse refugiado num silêncio cobarde perante um processo nebuloso, noticiado pela revista Sábado. Um episódio pouco digno, que nunca foi cabalmente esclarecido, que lançou uma sombra sobre a Universidade de Coimbra e envergonhou este país, ao alimentar a percepção de que, naquela instituição, os interesses das “dinastias” familiares, expressão usada pela referida revista, podem sobrepor-se ao interesse público, aos princípios constitucionais da igualdade e do mérito e aos valores de transparência e de ética republicana que devem reger todas as instituições do ensino superior, sejam elas públicas ou privadas.  https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/insinuacao-de-plagio-em-doutoramento-abre-caca-as-bruxas-em-coimbra?

segunda-feira, 2 de março de 2026

Sobre o negócio imensamente lucrativo das revistas científicas e sobre a perversidade da avaliação de desempenho à Portuguesa

https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/03/the-monopoly-of-scientific-journals-has.html

Há alguns anos atrás saudei, no post acessível no link supra, uma iniciativa da Comissão Europeia, para ajudar a arruinar os lucros imensos das revistas científicas internacionais. Trata-se de uma plataforma de publicação em acesso aberto, destinada principalmente a investigadores financiados por programas-quadro da União Europeia (como o Horizon 2020 e o Horizon Europe). A referida plataforma adota um modelo de revisão por pares aberta pós-publicação e não cobra taxas aos autores.

Para além desse repositório científico, é importante referir que existe um outro, mantido pelo conhecido CERN e o qual já contém quase 3 milhões de registos científicos, (Artigos científicos, preprints, relatórios, teses, dados, software, apresentações etcque é muito mais abrangente e no qual há poucos dias coloquei algumas cartas que foram enviadas a Editores de conhecidas revistas científicas internacionais, criticando artigos que foram publicados nessas revistas https://pachecotorgal.com/2026/02/28/two-letters-and-a-critique-about-a-recent-nature-article-by-scientists-affiliated-with-harvard-university/

Infelizmente, o atual modelo de avaliação de desempenho de professores e investigadores em Portugal acaba por contribuir, de forma perversa, para os lucros dessas revistas, ao privilegiar publicações em revistas com maior fator de impacto. Ao fazê-lo, ignora as críticas amplamente fundamentadas que diversos cientistas têm dirigido a esse indicador, como aquela que destaquei num post que obteve vários milhares de visualizações. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/evaluating-researchers-in-fast-and.html

PS - Constitui uma violação grosseira do princípio do mérito, sendo além disso eticamente inaceitável e também intelectualmente desonesto, que se atribua uma avaliação de desempenho superior a um professor ou investigador que publicou artigos em revistas do quartil Q1 em detrimento de quem publicou em revistas Q2, se, na realidade os artigos dos primeiros foram olimpicamente ignorados pela comunidade científica, tendo recebido um número irrisório de citações, ao passo que os dos segundos tiveram um elevado impacto na mesma comunidade tendo recebido milhares de citações, inclusive por parte de cientistas de topo.