domingo, 22 de março de 2026

Boas intenções catedráticas que sonham com amanhãs que cantam ao invés de concederem que a repressão de hoje é mais efectiva e mais capaz de esvaziar o Chega


Na sequência de vários post anteriores contra o IRS, como por exemplo aquele longínquo sobre o facto das miseráveis famílias super-ricas deste país pagarem menos IRS do que professores e investigadores ou aquele outro bastante mais recente com o esclarecedor título "Os engenheiros inúteis e o catedrático que insiste na eliminação do IRS e do IRC", é gratificante ver que o último artigo do conhecido catedrático Luís Cabral, na secção de economia do último número do semanário Expresso é novamente dedicado a esse magno tema.  

Os problemas, se é que lhe podemos chamar assim, é que a sua proposta não é isenta de riscos, nem ser verosímil a sua concretização no curto prazo. Mas a verdadeira falha da mesma é outra bem mais grave: não consegue resolver uma bomba relógio que é o privilégio infame das grandes fortunas que escapam ao pagamento de impostos, alimentando uma sensação generalizada de injustiça que empurra centenas de milhares de cidadãos fartos dessa impunidade para os braços de partidos extremistas como o Chega.

Mais eficaz será por isso adotar rapidamente práticas que vários países já utilizam para perseguir os grandes evasores fiscais (a expressão mais adequada talvez seja a de erradicar a persistente praga da parasitose). Como fez a Espanha com o Sr. Ronaldo, que não teve outro remédio senão pagar 19 milhões de euros para evitar a cadeia, como faz a Alemanha, o país onde se aplica uma pena de prisão efetiva sempre que a fuga fiscal ultrapassa um milhão de euros. Ou como faz a Suécia que em apenas cinco anos, condenou mais de mil pessoas a penas de prisão efectiva por elevada evasão fiscal, enquanto a justiça portuguesa no mesmo período condenou apenas 83 pessoas, uma percentagem 1200% inferior

Aliás sobre a autêntica desgraça que é Portugal nessa área particular basta atentar no caso do famoso Manuel Serrão que deixou o Estado Português a arder em 44 milhões de euros e que recentemente foi declarado insolvente, muito embora receba uma pensão superior a 3000 euros ou ainda no caso do tal empresário que conseguiu lesar o fisco em 60 milhões de euros, mas que depois não teve de devolver um único cêntimo, os quais expõem de forma dramática a impunidade endêmica do sistema fiscal português e bem assim a total incapacidade da justiça Portuguesa em conseguir condenar como realmente merecem os grandes evasores fiscais. https://eco.sapo.pt/2019/12/09/empresario-lesou-fisco-em-60-milhoes-mas-nao-tem-de-devolver-um-centimo/

PS - No presente contexto é pertinente recordar que as famílias super-ricas deste país gostam tanto mas tanto de enviar o seu dinheiro em off-shores que por conta desse fenómeno o nosso país até consegue o espantoso milagre de aparecer à frente da Rússia https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/10/pilhagem-evasao-fiscal-bombas-bosta-e.html

quinta-feira, 19 de março de 2026

Um país que ensina a Portugal como se valoriza de forma decente o talento científico

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/03/open-positions-with-highly-competitive.html

Ainda na sequência do post supra, onde reproduzi um email que no passado dia 7 de Março recebi de um professor de uma universidade Chinesa, solicitando a indicação de jovens doutorados de topo (ou quase a terminar o doutoramento), aproveito para revelar que ontem recebi um outro email de um outro professor de outra universidade Chinesa (Nanjing), desta vez para participar num inquérito, que visa compreender as preferências dos investigadores não Chineses no sentido de avaliar oportunidades de uma carreira académica na China. Os participantes do inquérito são convidados a comparar perfís hipotéticos de condições remuneratórias e indicar quais aqueles consideram mais atrativos, permitindo à equipa de investigação Chinesa identificar quais são os atributos que mais influenciam a escolha de oportunidades de uma carreira internacional naquele país. Reproduzo abaixo dois desses perfis, que ajudam a perceber a importância que a China atribui à ciência e à contratação de cientistas de topo. 

quarta-feira, 18 de março de 2026

What Happens When Entrepreneurs Think Like Scientists: Insights from 132 Startups


Building on the previous post titled "Evidence from over 700 European startups demonstrates how science can boost startup revenue," it is worth highlighting a new insight from recent research. A paper just published in the journal Research Policy shows that entrepreneurs who adopt a scientific mindset build their startup teams differently. Based on a randomized controlled trial involving 132 early-stage startups, researchers found that founders trained in the Entrepreneurs-as-Scientists framework rethink who belongs on their teams. Instead of relying mainly on technical co-founders or personal connections, these entrepreneurs increasingly recruit individuals with managerial and industry experience to fill critical capability gaps. Over a 64-week period, teams exposed to the framework became more strategically balanced. The implications are clear: accelerators, investors, and founders may benefit from treating entrepreneurship more like an experiment—where team composition evolves to match the resources a startup truly needs. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0048733326000521

The two studies complement each other: the analysis of 700 startups shows that scientific thinking boosts revenue, while the experiment with 132 ventures reveals the mechanism—founders rethink team composition to better support experimentation and learning.

PS - Startup success also depends on people "shaped by risk and sharpened by adversity, and thus capable of turning uncertainty into possibilities" like those highlighted here https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/nuno-loureiro-in-praise-of-failure.html

segunda-feira, 16 de março de 2026

Open positions with highly competitive salaries for graduated or soon-to-graduate outstanding Ph.D. students in Energy Science and Engineering

 

I reproduce below an email I received from a professor at a university in that country, which has recently been hiring many top scientists in Europe and the United States, as well as the reply I sent him. Regarding the Outstanding-level qualification, it is very likely that it corresponds to the one used at top universities in the United States and Europe, which I mentioned here. https://zenodo.org/records/19001905

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De: F. Pacheco Torgal <torgal@civil.uminho.pt>
Enviado: 7 de março de 2026 15:52
Para: w.han@yangtzeu.edu.cn <w.han@yangtzeu.edu.cn>
Assunto: RE: Yangtze University New Energy Science and Engineering Faculty Recruitment/长江大学新能源科学与工程专业人才招聘-2026
 
Dear Professor Weiwei Han,
Thank you for your email. I also take this opportunity to share a broader reflection. It is somewhat regrettable that my country—and Europe more generally—does not seem to pursue a strategy comparable to China’s when it comes to valuing, attracting, and supporting top scientists. In recent years I have been increasingly impressed by the long-term vision China appears to be implementing in science and technology, particularly its determination to position itself among the world’s leading scientific powers. This is a topic I have reflected on several times on my blog. For instance, I wrote about China’s strategic mobilization of science in contrast with Europe’s current priorities in:

More broadly, I have long advocated the idea of a scientific society and in some ways, the trajectory China is following seems to be contributing to making parts of that vision closer to reality. Check my recent post "Harvard Is Wrong: Underpaying Talent Hurts Science Far More Than High Salaries"

Best regards
Pacheco Torgal


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De: w.han@yangtzeu.edu.cn <w.han@yangtzeu.edu.cn>
Enviado: 7 de março de 2026 15:18
Para: F. Pacheco Torgal <torgal@civil.uminho.pt>
Assunto: Yangtze University New Energy Science and Engineering Faculty Recruitment/长江大学新能源科学与工程专业人才招聘-2026
 

Dear Professor F. Pacheco-Torgal,

Greetings!

Yangtze University, a key university in Hubei Province, China, is sincerely recruiting full-time faculty in the field of New Energy Science and Engineering, based in Wuhan. The university offers highly competitive salaries and benefits, and outstanding candidates may have spouse job placement opportunities. We sincerely invite you to recommend graduated or soon-to-graduate outstanding Ph.D. students from your team to join Yangtze University for teaching and research, and greatly appreciate your assistance in forwarding and promoting this recruitment notice.


For more details, please visit the Faculty Recruitment Announcement of the School of Petroleum Engineering, Yangtze University (2026): https://pec.yangtzeu.edu.cn/zpqs.htm


Many thanks for your support and recommendations.

Weiwei Han


Department of New Energy Science and Engineering, Yangtze University
Tel: 17353765821 (WeChat)

domingo, 15 de março de 2026

Um ano depois, a minha hipótese não se confirma e o mistério russo adensa-se

 

No início de 2025 apresentei uma hipótese, de natureza genética, para tentar explicar o facto de o meu primeiro blogue, que recordo, deixei de alimentar há já vários anos, continuar a receber visitas de forma regular, na ordem de dezenas de milhares e com tendência crescente. Essa hipótese partia da premissa de que a esmagadora maioria dos visitantes seria portuguesa, motivada por um certo sentimento de nostalgia pelo passado. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/02/ressuscitacao-por-via-fadogenetica.html

Contudo, uma análise da distribuição geográfica das visitas ao longo dos últimos doze meses revela um quadro diferente: os visitantes portugueses representaram apenas cerca de 11% do total. A imagem acima apresenta os países com maior peso nas visitas regulares ao referido blogue. O facto de Singapura e dos Estados Unidos surgirem no topo da lista não me surpreende particularmente, já que como tive oportunidade de constatar, são países de onde também provêm muitos leitores dos meus blogues actuais. Muito mais difícil de explicar é a presença cimeira do Vietname e, ainda mais intrigante, o inusitado interesse demonstrado por visitantes russos por textos publicados há vários anos nesse "falecido" blogue. 

PS -Na sequência do falecimento do famoso filósofo alemão Jürgen Habermas, aproveito para recordar aqui a altura em que ele foi mencionado num post colocado no tal "falecido" blogue https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/02/university-mission-in-jobless-future.html

sábado, 14 de março de 2026

Uma professora feroz, catedráticos inférteis e catedráticos da tipologia Cheats (vigaristas, charlatães e trapaceiros)

O jornal Público congratulou-se pelo facto de um recente Acórdão do Tribunal da Relação não ter dado razão à conhecida Professora Raquel Varela, que exige 45.000 euros por dados morais, devido a uma noticia daquele jornal sobre o número de publicações do seu currículo académico. https://www.publico.pt/2026/03/13/sociedade/noticia/raquel-varela-volta-perder-accao-publico-erros-curriculo-academico-2167847

Mas ainda que o jornal Público tenha agora obtido uma nova vitória judicial (leia-se uma vitória de Pirro) isso não significa necessariamente que tenha conseguido vencer pelo mérito da sua actuação jornalística. É acredito muito mais provável que essa sentença resulte antes das muitas dificuldades, infelizmente bastante recorrentes, que os tribunais revelam em compreender minimamente bem ou sequer razoavelmente como realmente funcionam os mecanismos, muito sui generis, de avaliação da produção científica na academia portuguesa.

Seja como for e antes de comentar a "noticia", tenho de confessar, novamente, que já por inúmeras vezes critiquei as opiniões da professora Raquel Varela. Exactamente como o fiz quando o jornal Público publicou pela primeira vez a referida noticia. E que eu na altura lamentei, alegando que era irrelevante que o currículo da referida professora tivesse publicações académicas duplicadas por conta de conhecidos problemas de sincronismo entre as plataforma Ciência Vitae e ORCID, porque as únicas publicações que interessam são aquelas que constam nas plataformas indexadas, Web of Science e Scopus, onde a referida professora até tinha mais publicações do que vários professores catedráticos da sua área.  Fi-lo no mesmo post,  onde então critiquei o jornal Público, por estar tão preocupado com um tema secundário ao mesmo tempo que hipocritamente preferia não noticiar casos de professores que ganharam concursos apesar de terem sido acusados de terem mentiras no seu currículo  https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/09/o-curriculo-da-investigadora-raquel.html

Aliás já que o jornal Público acha que o tema é noticia que interesse aos Portugueses então eu repito a sugestão que na altura verti num post com o título "Ainda a polémica à volta do currículo da investigadora Raquel Varela e os Cheats (vigaristas, charlatães, trapaceiros)", quando aconselhei o jornal Público a fazer um artigo sobre catedráticos que possuem muitos milhares de publicações académicas quase como se possuissem super-poderes de publicação, ou que dedicam 24 horas por dia e 7 dias por semana à produção de artigos https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/09/ainda-grossa-polemica-volta-curriculo.html

No presente contexto, recordo que, há dois anos atrás, publiquei um post no qual divulguei um estudo de um matemático que analisou o perfil de publicações (e também de citações) de cientistas com uma vida conjugal considerada normal (Fig. 1) e também o perfil daqueles outros cientistas, coitados, que não tem tempo algum para poderem fazer sexo (Fig. 2). https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/11/um-padrao-grafico-que-permite.html

PS - Ainda sobre a evidente e profundamente preguiçosa idiotice que é tentar avaliar o currículo de um académico contando o seu número de publicações sugiro a leitura de uma carta que enviei ao Editor-Chefe de uma conhecida revista científica, a qual se inicia com um ataque a uma proposta falaciosa de dois pouco inspirados investigadores Alemães https://zenodo.org/records/19001905

quarta-feira, 11 de março de 2026

Governo de Montenegro empenha-se em garantir que a ciência deste país permaneça mais 76 anos sem ganhar um prémio Nobel

 

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/mais-uma-prova-do-evidente-desprezo-do.html

Tendo em conta as críticas vertidas num post anterior, acessível no link supra, sobre a péssima decisão do Governo português de reduzir a duração dos contratos de investigadores CEEC, decisão que vai em sentido radicalmente oposto ao que tem sido recomendado por diversas análises internacionais, segundo as quais a forma mais eficaz de financiar a ciência, com vista à maximização do seu impacto, consiste muito menos no financiamento fragmentado de projetos e muito mais na atribuição de contratos de longa duração aos investigadores, idealmente com uma duração mínima de sete anos.

Aproveito assim, por isso, para divulgar uma carta que enviei ao Editor-Chefe de uma conhecida revista científica, sobre a importância da serendipidade na ciência. As evidências mostram que muitos dos avanços científicos mais importantes não resultam de planos rígidos ou de objetivos previamente definidos, mas de descobertas inesperadas que emergem de investigação exploratória conduzida por investigadores que dispõem de tempo, autonomia intelectual e estabilidade institucional. Quando os sistemas científicos impõem horizontes temporais curtos e promovem a precariedade estrutural, acabam precisamente por reduzir as condições que tornam possível a ocorrência de descobertas disruptivas. As consequências essas ultrapassam o domínio da ciência: não é apenas a produção de conhecimento que sai fragilizada, mas também a capacidade do nosso país construir o seu futuro. É, em última análise, uma receita segura para estrangular a criação de riqueza e para agravar de forma dramática a perda de talento que, todos os dias, continua a abandonar Portugal. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/universidades-portuguesas-um-modelo-que.html

Assim, ao reduzir a duração dos contratos dos investigadores, precisamente no único concurso verdadeiramente competitivo do sistema científico nacional, onde os investigadores Portugueses concorrem de igual para igual contra investigadores estrangeiros, que na última edição ganharam 30% dos contratos, este pobre Governo não está apenas a agravar a precariedade da carreira científica, está também a enfraquecer as condições estruturais que permitem a emergência de descobertas inesperadas e potencialmente transformadoras. Em vez de criar um ambiente propício à criatividade científica e ao progresso do conhecimento, essa decisão empurra o sistema para uma lógica perversa de curto prazo, burocrática e avessa ao risco, que a própria literatura internacional identifica como altamente prejudicial à inovação científica. É assim garantido que desta forma a ciência Portuguesa irá passar mais 76 anos sem conseguir ganhar um prémio Nobel. 

sábado, 7 de março de 2026

A Scenario-Based Foresight Analysis of the Future Research University in 2030

https://immersiveweek.web.app/viewer.html?file=session_2030_verified_university/04_slides/Verified_University_2030_120min_jyL4MAXw.pdf

The presentation available in the link above was recently shared with me by a colleague at the University of Aveiro and is divided into four parts:

1 – The Shock: When Intelligence Becomes Infrastructure;
2 – The Constraint: A Country That Cannot Afford to Wait;
3 – The System: Four Functions Under Simultaneous Stress;
4 – Three Futures: Denial, Adaptation, Redesign.
The proposed concept of a “Verified University” reminds me of a post I wrote in January 2024 titled:“AI has radically changed the core university business, shifting focus from teaching and publications to ‘assessment, curation, and mentoring.’” https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/01/the-economistai-generated-content-is.html 
However, the Verified University concept can be strengthened by moving beyond a narrow focus on verification toward a broader model of knowledge governance in the AI era. Universities should continue to combine knowledge production, critical interpretation, and socialization within academic communities, while using verification as a supporting infrastructure rather than the central function. Trust in science depends not only on technical verification but also on reputation, disciplinary communities, and institutional legitimacy. In this improved model, scholars would not become mere auditors of processes but would evolve into curators, interpreters, and integrators of human–AI knowledge, helping ensure both the credibility and meaningful use of increasingly abundant AI-generated knowledge.
Update after 5 days - Blogger analytics indicate that the majority of views for this post come from the USA (32%), Germany (26%), Finland (4%), France (4%), and Australia (4%).

quarta-feira, 4 de março de 2026

A refinada hipocrisia de um professor catedrático da Universidade de Coimbra


Depois das várias e fracassadas tentativas do reitor da universidade mais endogâmica de Portugal para atacar, sem sucesso, a legislação que se prevê venha a integrar o RJIES com o objetivo de combater a endogamia académica, vide post acessível no link supra, sabe-se agora que parece ter "passado" essa incumbência ao professor catedrático de Medicina, Robalo Cordeiro, cuja faculdade recorde-se apresenta uma taxa de endogamia de 99%, e que surge hoje na página 19 do jornal Público a protagonizar um exercício de refinada hipocrisia.

O seu lamentável artigo é um exercício de corporativismo travestido de preocupação pública. A proposta do RJIES não proíbe a contratação de doutorados “da casa”; limita-se a exigir um requisito mínimo de 40% de docentes formados noutra instituição. Transformar esse limiar modesto numa ameaça à continuidade dos cuidados de saúde constitui uma dramatização oportunista. Trata-se de uma tentativa de ocultar o óbvio embaraçoso: instituições que, no passado, favoreceram sistematicamente candidatos internos, prejudicando outros apenas por não pertencerem “à casa”, pretendem agora continuar a fazê-lo ao abrigo de uma exceção oportunista

Invocar “graves disfunções” hospitalares para defender a manutenção das contratações endogâmicas é uma manobra retórica que tem tanto de lamentável como de desesperada: desloca-se o debate sobre o mérito da proposta em discussão para o medo do colapso do sistema. Como se a qualidade da Medicina dependesse da absorção automática dos seus próprios doutorados e não da competição aberta e do mérito, precisamente os mecanismos que fortalecem instituições de qualidade.

A alegação de que as faculdades de Medicina são um “caso particular” não passa de um pobre argumento de exceção para preservar privilégios. Todas as áreas científicas poderiam invocar especificidades; mas fazê-lo aqui serve apenas para proteger interesses instalados. Quando quem beneficia de um modelo fechado exige isenção das regras destinadas a abrir esse modelo, não está a defender o interesse público está apenas a proteger privilégios. A hipocrisia é evidente: rebatiza-se a manutenção do fechamento como “estabilidade”, apresenta-se a defesa de interesses instalados como “continuidade” e invoca-se o bem comum para bloquear regras mínimas destinadas a travar a viciação concursal sistemática.

Porém, aquilo que está realmente em causa e sobre o qual eu escrevi numa carta que enviei ao Editor-Chefe de uma revista cientifica é que diversos catedráticos íntegros e corajosos, não se coibiram de denunciar o problema central, tendo associado a endogamia académica a riscos profundos para a integridade do ensino superior. O catedrático Michael Athans que esteve alguns anos na Universidade de Lisboa, afirmou que certos “ditadores académicos” forçam a contratação dos seus alunos medíocres, utilizando a endogamia como mecanismo para ocultar a sua própria incompetência e também que a contratação sistemática desses alunos pode perpetuar a mediocridade geral. Já o catedrático Gines-Mora foi mais longe, interpretando a endogamia como uma expressão de corrupção sistémica, em que as lealdades pessoais substituem o mérito, corroendo a transparência e a ética. No conjunto, estas análises descrevem a endogamia como um mecanismo de reprodução de poder e de proteção de interesses instalados que compromete seriamente o mérito e a integridade do ensino superior.

PS - O que teria sido verdadeiramente digno é que o supracitado catedrático Robalo Cordeiro, que agora assim escreve de forma tão descarada, antes não se tivesse refugiado num silêncio cobarde perante um processo nebuloso, noticiado pela revista Sábado. Um episódio pouco digno, que nunca foi cabalmente esclarecido, que lançou uma sombra sobre a Universidade de Coimbra e envergonhou este país, ao alimentar a percepção de que, naquela instituição, os interesses das “dinastias” familiares, expressão usada pela referida revista, podem sobrepor-se ao interesse público, aos princípios constitucionais da igualdade e do mérito e aos valores de transparência e de ética republicana que devem reger todas as instituições do ensino superior, sejam elas públicas ou privadas.  https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/insinuacao-de-plagio-em-doutoramento-abre-caca-as-bruxas-em-coimbra?

segunda-feira, 2 de março de 2026

Sobre o negócio imensamente lucrativo das revistas científicas e sobre a perversidade da avaliação de desempenho à Portuguesa

https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/03/the-monopoly-of-scientific-journals-has.html

Há alguns anos atrás saudei, no post acessível no link supra, uma iniciativa da Comissão Europeia, para ajudar a arruinar os lucros imensos das revistas científicas internacionais. Trata-se de uma plataforma de publicação em acesso aberto, destinada principalmente a investigadores financiados por programas-quadro da União Europeia (como o Horizon 2020 e o Horizon Europe). A referida plataforma adota um modelo de revisão por pares aberta pós-publicação e não cobra taxas aos autores.

Para além desse repositório científico, é importante referir que existe um outro, mantido pelo conhecido CERN e o qual já contém quase 3 milhões de registos científicos, (Artigos científicos, preprints, relatórios, teses, dados, software, apresentações etcque é muito mais abrangente e no qual há poucos dias coloquei algumas cartas que foram enviadas a Editores de conhecidas revistas científicas internacionais, criticando artigos que foram publicados nessas revistas https://pachecotorgal.com/2026/02/28/two-letters-and-a-critique-about-a-recent-nature-article-by-scientists-affiliated-with-harvard-university/

Infelizmente, o atual modelo de avaliação de desempenho de professores e investigadores em Portugal acaba por contribuir, de forma perversa, para os lucros dessas revistas, ao privilegiar publicações em revistas com maior fator de impacto. Ao fazê-lo, ignora as críticas amplamente fundamentadas que diversos cientistas têm dirigido a esse indicador, como aquela que destaquei num post que obteve vários milhares de visualizações. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2021/11/evaluating-researchers-in-fast-and.html

PS - Constitui uma violação grosseira do princípio do mérito, sendo além disso eticamente inaceitável e também intelectualmente desonesto, que se atribua uma avaliação de desempenho superior a um professor ou investigador que publicou artigos em revistas do quartil Q1 em detrimento de quem publicou em revistas Q2, se, na realidade os artigos dos primeiros foram olimpicamente ignorados pela comunidade científica, tendo recebido um número irrisório de citações, ao passo que os dos segundos tiveram um elevado impacto na mesma comunidade tendo recebido milhares de citações, inclusive por parte de cientistas de topo.