domingo, 27 de setembro de 2026

Quatro indicadores, quatro últimos lugares: a putativa excelência científica portuguesa de uma certa área posta à prova

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/09/a-excelencia-cientifica-portuguesa.html

Na sequência do post anterior, dedicado ao desempenho dececionante dos investigadores portugueses mais destacados nas áreas científicas contempladas pelos prémios Nobel, faz todo o sentido avaliar, em cada uma dessas áreas, a distância que separa Portugal de outros países. Comecemos pela área da Economia. Uma pesquisa efectuada hoje na Scopus aos 20 artigos mais citados associados a Portugal e a cada um de dez outros países coloca Portugal em último lugar nos quatro indicadores apresentados na tabela supra.

O contraste com Espanha é particularmente embaraçoso e até mesmo humilhante, dos seus 20 artigos mais citados na área da Economia, 18 ultrapassam as mil citações; em Portugal, apenas seis o conseguem. Significa isso que a investigação das "excelentes" unidades de investigação da economia em Portugal anda a escolher questões com pouca relevância internacional ou haverá outra explicação mais miserável para aquele subdesempenho ?

Na verdade, Portugal nem sequer pode reclamar como seus os tais seis artigos com mais de mil citações, pois dois deles são da autoria de investigadores portugueses que trabalham no estrangeiro, pelo que eles pertencem aos países onde aqueles trabalham. O artigo mais citado, com mais de 4000 citações, tem como primeiro autor João M. C. Santos Silva, catedrático cujo trabalho contribui para o prestígio da ciência britânica. Por que haveria ele de querer permanecer num país onde um catedrático cujos trabalhos receberam milhares de citações recebe exatamente o mesmo que outro cuja produção científica soma umas poucas dezenas de citações? Porque haveria ele de querer permanecer num país que, escandalosamente, paga mais à classe política do que aos seus investigadores de topo?

Sobre esta vergonha faço notar que há vários anos critico o facto dos vencimentos dos cargos políticos e também dos muitos cargos que aqueles distribuem de forma generosa por familiares e amigos, ser superior aquilo que as universidades pagam a investigadores de topo, exatamente ao contrário do que acontece nos países do Norte da Europa. A comparação com a Suíça é bastante elucidativa, um deputado federal recebe cerca de 78 mil euros anuais, enquanto a ETH Zürich paga salários anuais entre 206 mil e 282 mil euros aos prof. associados e entre 241 mil e 317 mil euros aos catedráticos. Ou seja, mesmo no início da escala, um catedrático daquela universidade recebe mais do triplo de um deputado. Assim se Portugal quiser respeitar a mesma proporção e assim deixar de desvalorizar os seus professores universitários e investigadores, tem duas opções, ou triplica o seu vencimento ou corta o vencimento dos deputados para cerca de 1700 euros por mês. 

PS - Recordo que em dezembro de 2023, divulguei neste blogue um estudo de um prestigiado catedrático holandês de Economia, publicado no Journal of Informetrics, que dava algumas pistas sobre os fatores associados a uma maior probabilidade de ganhar o Nobel da Economia.