quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Na universidade que paga mais de 300 mil euros aos catedráticos, integrar o ranking Elsevier–Stanford é quase uma exigência

 

A propósito da deplorável política da presidência da FCT, que critiquei por perpetuar a servidão académica e assegurar a felicidade dos "lordes feudais", privilegiando o financiamento de bolsas de doutoramento selecionadas por júris caseiros em detrimento da abertura de mais vagas para investigadores cujo mérito foi considerado excelente por júris de peritos estrangeiros, reproduzo na imagem supra uma comparação demolidora entre duas instituições de referência mundial e seis das universidades portuguesas mais competitivas, no rácio investigador altamente citado (Top 0.5%) por centena de docentes. 

O rácio do ETH Zurich é 22 vezes superior ao da universidade portuguesa mais competitiva neste indicador, a Universidade do Porto. Quando porém a simulação abrange todos os investigadores do referido ranking correspondente ao top 2%, o contraste torna-se ainda mais devastador e intelectualmente embaraçoso, mesmo a instituição portuguesa mais bem posicionada apresenta um rácio 86 vezes inferior ao do ETH Zurich, que atinge 99,8 investigadores por cada 100 docentes, o que significa que naquela universidade é praticamente impossível ter um lugar docente sem ser um investigador altamente citado.

Tendo em conta que, em 2020, divulguei um estudo da Nature Communications que associava a colaboração precoce de jovens investigadores com cientistas de topo a uma vantagem persistente ao longo da carreira, e que, em 2024, retomei esta questão, a propósito de uma investigação do Journal of the Royal Society Interface, envolvendo mais de 300 mil académicos de 22 áreas científicas, que identificou uma associação crescente entre o impacto científico dos orientadores e o dos investigadores que formaram, a supracitada política da presidência da FCT revela-se assim triplamente prejudicial: Começa por estrangular o financiamento dos jovens investigadores, expande a formação doutoral para níveis irrazoáveis em absoluto contraciclo com países mais ricos do que o nosso e, mais grave ainda, não consegue assegurar aos doutorandos orientadores com currículos internacionalmente competitivos, transformando as limitações científicas de quem os orienta numa pesada herança que que os próprios terão de carregar ao longo de toda a carreira.