segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Mais uma prova do evidente desrespeito do Governo pela ciência e pelos cientistas

 

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/11/os-inimigos-declarados-da-ciencia.html

No texto acessível no link supra, intitulado O trio de inimigos declarados da Ciência: PSD, CDS e Chega, expressei a minha opinião pessoal sobre o muito pouco ou quase nenhum respeito público que o atual Governo tem demonstrado pela ciência e pelos cientistas.

Posteriormente, quando se esperava que o Governo aumentasse a duração dos contratos dos investigadores, pois um artigo publicado há poucos anos, no final de 2023, na prestigiada revista The Economist, informou que uma das formas mais eficazes de financiar a ciência, com vista à maximização do seu impacto, consiste muito menos no financiamento de projectos mas muito mais na atribuição de contratos de longa duração aos investigadores, com a duração de pelo menos 7 (sete) anos, eis que o Governo, de forma incompreensível, decidiu fazer exactamente o contrário, reduzindo a duração dos contratos CEEC, o único concurso de investigadores verdadeiramente competitivo da Academia, onde a endogamia e o nepotismo mandam zeroonde 90% dos candidatos são rejeitados.  

E como se isso já não fosse suficiente, ainda assim, bastava o facto do Governo ter criado, há poucos dias, um pequeno grupo de trabalho (onde se inclui o CEO da bilionária Feedzai) para “proceder à análise do ecossistema nacional de investigação e inovação”, com o objetivo de produzir um retrato “fiel e atualizado” da realidade nacional, contemplando capacidades instaladas, dinâmicas do sistema, distribuição territorial, colaboração com empresas e administração pública, participação internacional e impacto socioeconómico dos apoios, estruturado em quatro dimensões: (a) capacidade científica instalada (recursos humanos, unidades de I&D e infraestruturas); (b) capacidade tecnológica, de inovação e de interface (transferência de conhecimento e empresas com I&D); (c) resultados científicos e tecnológicos e mecanismos de valorização; (d) posicionamento internacional. E o facto de tudo isso ter de ficar pronto em apenas sete dias, para ser apresentado publicamente amanhã, constitui, para mim, uma claríssima evidência da referida falta de respeito. https://www.publico.pt/2026/02/23/opiniao/opiniao/ai-diagnosticos-solidos-velocidade-luz-2165615

Se o Governo assim se contenta com análises tão expeditas, quase feitas em cima do joelho, pois pelos vistos entende que o seu tempo mediático não é compatível com o tempo necessário a uma análise robusta do ecossistema nacional de investigação e inovação, então mais valia que se se limitasse a copiar o que já fazem na Suécia e na Suíça, países onde a política científica assenta numa estabilidade contratual, que liberta os investigadores da precariedade crónica e lhes permite assumir riscos, numa avaliação rigorosa que distingue o mérito da mediocridade e a excelência da complacência, (ao contrário de Portugal onde 75% das unidades foram classificadas com Excelente ou Muito Bom !!!) e num planeamento estratégico de longo prazo, sustentado por metas claras, financiamento previsível e compromissos institucionais duradouros, (e não numa reiterada desvalorização política do conhecimento científico), que são precisamente os pilares que, entre nós, continuam a ser sistematicamente corroídos pela lógica do improviso, pela volatilidade das decisões e pela submissão da política científica ao calendário político mediáticohttps://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/universidades-portuguesas-um-modelo-que.html

Aditamento em 24 de Fevereiro - Hoje, dia da apresentação pública do relatório supracitado, alguém no Governo terá finalmente percebido o quão insustentável era admitir publicamente que esse documento era fruto de apenas 7 dias de trabalho. Para evitar o descrédito, foi hoje transmitido ao jornal Público que os membros do grupo de trabalho terão começado a preparar o relatório muito antes da data do tal Despacho que formalmente criou o referido grupo de trabalho, alegadamente desde o início de janeiro. Assim, e para afastar a ideia de amadorismo, improvisação e ligeireza, o Governo veio "esclarecer" que afinal esse trabalho foi desenvolvido muito antes da existência formal do próprio grupo de trabalho. Ou seja, para corrigir um problema de credibilidade, assume outro, potencialmente mais grave ao admitir a violação do principio da legalidade, nada menos do que um dos pilares do Estado de Direito.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Cientista feroz exige que se sentem no banco dos réus todos os responsáveis pelo facto de Alcácer do Sal ter ficado submersa

 

O conhecido cientista Miguel Bastos Araújo que recebeu o Prémio Pessoa em 2018, que integra o tal júri do prémio de 1 milhão de euros da Fundação Gulbenkian e, que no ano passado aparecia no segundo lugar de uma lista de 100 cientistas, dá hoje uma entrevista pouco doce ao jornal Público, acessível no link supra, na qual defende a criminalização de todos os políticos que andaram a aprovar construções onde não o podiam nunca ter feito. O que por coincidência eu já tinha defendido no passado dia 28 de Janeiro, quando escrevi: "há muito que este país deveria ter criminalizado qualquer licenciamento autárquico de novas edificações em zonas de risco, nomeadamente em zonas propicias a deslizamentos de terras, em zonas inundáveis, em zonas costeiras ou áreas diretamente expostas à subida do nível do mar, relativamente às quais faz sentido revisitar a frase: "os contribuintes deste país serão obrigados a pagar milhões para evitar que o mar engula "apartamentos a preços milionários, construídos quase em cima do mar." https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/01/o-governo-de-portugal-prepara-se-para.html

Seja como for devo dizer que me causou alguma perplexidade que, nessa entrevista o  referido cientista tenha dito que os engenheiros vão ficar contentes, pois há muitas obras para fazer. Tal observação, para além de manifestamente infeliz, pois não acredito que os engenheiros fiquem felizes com um aumento substancial do número de obras por conta de uma tragédia inesperada, mostra, também que ele parece desconhecer a realidade do sector em causa, pois não só não há empresas de construção em número suficiente, como também há um défice de engenheiros civis neste país que, por negligência ou incompetência, não foi acautelado em devido tempo, e que se irá agravar nos próximos anos,  https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/02/engenharia-civil-em-portugal-azar-dos.html

PS - Recordo, a propósito, que não é de hoje a tendência do cientista Miguel Bastos Araújo para utilizar palavras pouco doces, pois há alguns anos atrás ele já tinha criticado de forma particularmente contundente a Academia Portuguesa, por conta de uma "burocracia cuidadosamente arquitetada para defender os interesses da mediocridade instalada"  https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/11/premio-nobel-excluido-de-concurso-para.html

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Engenharia Civil em Portugal - Azar dos Távoras, negligência ou incompetência ?


Se, ainda antes dos inúmeros estragos causados pelos sucessivos comboios de tempestades, Ingrid, Kristin (a mais violenta desde que há registo), Leonardo e Marta, que danificaram mais de 200.000 edifícios e um elevado número infraestruturas no nosso país, o actual bastonário da Ordem dos Engenheiros já tinha alertado que o número anual de aposentados na área da engenharia civil superava o número de diplomados, uma situação que já de si era bastante grave num país atolado numa dramática crise habitacional, então a situação torna-se agora muito mais preocupante, pois os elevados danos provocados por essas tempestades levarão vários anos a reparar, durante os quais ainda mais se agravará o aludido défice de engenheiros civis. Mas será que isto é apenas o tal azar dos Távoras?
Afinal o que é que os cursos de engenharia civil deste país não fizeram, ou não foram capazes de fazer, para que o crescimento deste curso não se ficasse apenas por um valor residual de 3% ao ano, correspondente a um total de colocados inferior a seis centenas, quando antes de 2011 este curso acolhia na primeira fase de cada ano mais de 1400 alunos ?  Alguém consegue compreender, que por exemplo o curso de engenharia civil da universidade de Coimbra, onde me diplomei há várias décadas atrás, quando então aquele curso recebia mais de uma centena de alunos logo na primeira fase, não consiga agora captar nem sequer metade desse número e nem sequer consegue ultrapassar o número de alunos captados pelo Politécnico do Porto ou pelo Politécnico de Lisboa ?
E será que a formação em engenharia civil necessária para enfrentar o tal futuro de catástrofes permanentes, de que falou há poucos dias o catedrático Ottmar Edenhofer, presidente do conselho científico consultivo europeu sobre alterações climáticas, será aquela muito pouco inspirada e manifestamente insuficiente, de que falou na semana passada um antigo bastonário ao semanário Expresso, uma engenharia civil praticamente igual à do passado, mas com umas alterações mínimas, relacionadas como aumento da capacidade das coberturas resistirem a ventos de pelo menos 150 km/h, e que hoje novamente os jornalistas do Expresso repetem de forma indigente, certamente por acharem que não há neste país, na área da engenharia civil, quem possa dar melhores conselhos?

Ou será muito mais provável que os jornalistas do Expresso tenham dado provas de negligência ou até de incompetência, pois um Engenheiro Civil que se diplomou durante a longínqua década de 70 e que nunca foi sequer especialista em estruturas, como é o caso do ex-Bastonário Fernando Santo, não é definitivamente o profissional mais indicado para dar conselhos do que deverá ser a engenharia civil capaz de acautelar um futuro de catástrofes climáticas, ignorando que nas universidades de Lisboa, do Minho e do Porto, se produz investigação na área da engenharia civil, que no último ano até foi capaz de superar a produzida nas melhores universidades Alemãs e que talvez nessas universidades haja especialistas dessa área que possam dar conselhos cientificamente muito mais robustos?

PS - Aproveito esta ocasião para fazer uma caridade aos jornalistas do Expresso, recomendando a leitura de um interessante artigo publicado na revista Fundamental Research, que não certamente por acaso, faz parte das referências de um capítulo de um livro que estou a actualmente a concluir, e onde se fica a saber alguma coisa sobre a resposta à pergunta supra e do qual abaixo reproduzo um breve mas elucidativo trecho: 
"In a century shaped by climate disruption, resource scarcity, and cascading hazards, structural safety can no longer be confined to the binary question of collapse under a rare event....The profession must adopt a new design ethos: one that values performance over prescription, flexibility over excess, and resilience over redundancy...To meet this moment, engineering education, professional standards, and institutional missions must adapt. Future (civil) engineers must be trained not just in mechanics but in climate science...and sustainable design thinking. Codes and contracts must reward recovery capacity and carbon efficiency, not just compliance...."