domingo, 8 de fevereiro de 2026

Universidades Portuguesas: Premiar a inércia e a estagnação, castigar o mérito e condenar o país ao empobrecimento

 

Ainda na sequência do post anterior, acessível no link supra, onde afirmei que não era verdadeira a declaração da Universidade de Lisboa, que de forma pouco rigorosa, se vangloriou de ser "a universidade mais empreendedora de Portugal", já que na verdade está apenas em 8º lugar no indicador relativo ao investimento médio captado por startup, ainda por cima com um valor apenas ligeiramente superior ao do Politécnico de Leiria, faz sentido revisitar um post mais antigo com o sugestivo título "Quanto é que Portugal perde com um sistema (comunista a todos os títulos) que premeia a inércia e incentiva a preguiça ?" 

No referido post divulguei aquilo que me foi transmitido por um quase aposentado professor catedrático de uma reputada universidade da Suécia, cujas investigações estiveram na origem da ChromoGenics, e com o qual ao longo de quase uma década e meia editei mais de uma dezena de livros, Claes Goran-Granqvist, que naquele país um professor universitário pode dedicar um dia por semana a actividades remuneradas fora da universidade, sem ser prejudicado no seu vencimento. Em Portugal, pelo contrário, se um professor universitário fizer o mesmo, mesmo que o faça fora do horário de serviço, é castigado com um corte substancial de nada menos de 33% do seu salário mensal ilíquido. 

Este regime força, na prática, os professores universitários a evitarem colaborações remuneradas com a indústria ou a criação das suas próprias empresas, impedindo-os de beneficiar da valorização económica das suas investigações. Mas mais grave ainda, priva o nosso país do valor económico associado à transformação desse conhecimento em atividade empresarial, emprego qualificado e crescimento económico nacional competitivo e sustentável, que é absolutamente indispensável para se conseguir reter o talento que diariamente abandona Portugal de forma continuada, progressiva, sistemática e irreversível.

Estamos perante uma prática profundamente anacrónica, frontalmente oposta às melhores práticas internacionais, cujo efeito concreto é premiar a inércia e a estagnação, penalizar e perseguir o esforço e sufocar o mérito. O contraste com a rica universidade suíça ETH Zurich, onde há alguns anos atrás os professores-auxiliares auferiam entre 10.000 e 15.000 euros/mês e agora ganham entre 13.000 e 19.000 euros/mês enquanto os catedráticos podem ganhar quase 30.000 euros/mês, que não por acaso é a segunda universidade melhor classificada na Europa no ranking de geração das startups mais valiosas (cf. relatório Deep Tech 2025) não podia ser mais elucidativo, pois aquela instituição concede licenças sabáticas de um ano aos seus docentes e investigadores para que possam criar startups. 

Resumindo e concluindo, enquanto que nas universidades portuguesas a criação de valor é, na maior parte das vezes, tratada como uma grave infração, passível até de uma elevada penalização salarial, já nas universidades suíças é reconhecida como uma componente essencial da missão académica, sendo, por esse motivo, não só valorizada mas amplamente incentivada enquanto pilar  estratégico de prosperidade económica e social. https://entrepreneurship.ethz.ch/startup-stories/explore-startup-portraits-and-success-stories/uebersicht-eth-spin-offs.html

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Serendipity Revisited: What 533 Nobel Prizes Reveal About Breakthrough Science


A recent paper published in Scientometrics explores whether scientific breakthroughs—including those often labeled as “serendipitous”—can be explained in causal and statistical terms. The study tests a fundamental hypothesis: whether there is an underlying logical structure to how discoveries emerge, rather than breakthroughs arising purely by chance.

The analysis covers science’s most influential and canonized discoveries, encompassing all 533 Nobel Prize–winning discoveries from the prize’s inception in 1901 through 2022. Given that not all major discoveries receive a Nobel Prize, the study also examines landmark discoveries documented in leading science textbooks, including “top 100” lists of the greatest scientists and their contributions across disciplines and historical periods. The central conclusion is that scientific discovery is far less random than commonly assumed. What are often described as “serendipitous” breakthroughs are, in most cases, enabled by the development and application of new tools and methods, rather than by chance alone. These tools create the conditions in which unexpected findings become possible, repeatable, and increasingly likely.  https://link.springer.com/article/10.1007/s11192-025-05503-y

But if future breakthroughs depend more on tools than on luck, does that mean the future of science is being shaped less by curiosity and more by whoever controls the money, the machines, and the infrastructure, often quietly and without public accountability, deciding what we get to discover and what stays out of sight? And as new tools set the limits of what can be known, will the things we never discover be written off as bad luck or seen for what they are, the result of choices about what gets built, shared, or kept out of reach, with lasting uneven consequences, for who wins, who loses, and whose realities never get noticed?

PS - I find it unfortunate that A. Krauss, the author of the aforementioned study did not cite a closely related study published in Nature Communications, discussed in my previous post, “The Hidden Equations Behind Scientific Progress: The Art of Engineering Serendipity.” That work reinforces the central message that even the most surprising scientific breakthroughs are not acts of pure chance, but emerge from deeper regularities that can be understood, anticipated, and shaped through causal and statistical insight. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/02/the-hidden-equations-behind-scientific.html

Update after 1 day — Statistics show that the top three foreign countries engaging with this post are Germany, the USA, and Finland. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O jornal Público volta hoje a dar destaque a um ranking universitário da pura treta


Infelizmente, o jornal Público volta hoje a dar destaque a um ranking universitário da pura treta. O mais irónico é que isso seja feito pelo mesmo jornal que, há poucos meses atrás, e de forma negligente, nada noticiou sobre as instituições de ensino superior portuguesas que conseguiram o milagre de ultrapassar as melhores universidades da Alemanha em cinco áreas científicas no prestigiado ranking Shanghai por áreas de 2025Um resultado extraordinário, que deveria ter suscitado orgulho coletivo e ajudado a promover uma reflexão urgente sobre o enorme esforço desenvolvido, e a estratégia bem-sucedida dessas áreas científicas e a possibilidade de replicar esse modelo noutras áreas científicas, com vista a elevar a competitividade da ciência portuguesa. Em vez disso, aquele jornal opta agora por dar visibilidade a um ranking de qualidade profundamente duvidosa, com elevado potencial para confundir e desinformar os leitores, em particular aqueles muitos que não possuem conhecimentos mínimos sobre rankings universitários, pelo que mais não me resta assim do que reproduzir abaixo o mesmo comentário contundente que já havia feito num post anterior:

"Mais uma vez o jornal Público não se coibe de promover hoje um ranking da treta, o  QS World University Rankings.  Ou talvez no jornal Público não saibam que o ranking Shanghai, o único ranking a nível mundial que contabiliza os prestigiados prémios Nobel, é o único ranking mencionado num documento da Comissão Europeia sobre excelência científica

Ou talvez no jornal Público não saibam aquilo que conhecidos académicos, como o conhecido professor catedrático David Blanchflower, ou o professor catedrático da universidade de Oxford Simon Marginson, escreveram, em termos nada elogiosos sobre o ranking QS, reproduzidos na parte final deste post.
 
E quem não se lembra daquele outro ranking da treta, também noticiado pelo mesmo jornal Público, que dizia que a Católica era a melhor universidade Portuguesa ranking esse que o então Presidente da A3ES, o catedrático Alberto Amaral, reduziu a pó em dois artigos no Expresso, lembrando que os critérios relativos a citações desse famigerado ranking até colocavam universidades do Irão, do Egito e da Jordânia à frente da própria Universidade de Cambridge. 
 
Porém ainda antes mesmo dos referidos dois artigos do catedrático Alberto Amaral terem sido publicados no Expresso eu enviei na altura um email a alguns milhares de Colegas com o sugestivo título "UCatólica é a melhor universidade Portuguesa____Fake news, incompetência ou ambas?"https://www.docdroid.net/S7WaBal/fake-news-incompetencia-ou-ambas-docx
 
O mais irónico é que o mesmo jornal Público que costuma dar destaque a rankings da treta disse zero sobre o ranking Shanghai por áreas científicas divulgado recentemente https://www.jn.pt/local/noticias/braga/braga/uminho-entre-as-melhores-universidades-do-mundo-em-18-areas-cientificas-12446554.html  o que suscita legitimas dúvidas sobre quais são realmente os critérios jornalisticos do jornal Público. Se os do rigor jornalistico como apregoam aos quatro ventos ou os da desinformação encapotada. Uma coisa é certa como assinante do jornal Público considero uma vergonha pagar para ser "informado" sobre rankings que valem pouco mais do que lixo. 
 
PS - É importante recordar que o famigerado QS World University Rankings é produzido pela firma Quacquarelli Symonds, que foi fundada por um Italiano espertalhaço de nome Nunzio Quacquarelli, quando andou a fazer o seu MBA, firma essa que 
ganha milhões a vender (aos incautos) estrelas e outros serviços de aconselhamento, sobre como subir nos rankings. Vide email de 2018, https://www.docdroid.net/uniDTYH/vice-reitor-docx onde comentei o facto da Universidade de Coimbra ter sido um dos pagantes desse caro serviço, apesar de muito ironicamente isso não ter impedido logo a seguir que essa universidade caisse no ranking Shanghai. Email esse que na altura até foi divulgado pelo Carlos Fiolhais no seu blog.

Selecção de comentários de várias académicos sobre o ranking (da pura treta) QS: 

-David Blanchflower in an article for the New Statesman entitled "The QS Rankings are a load of old baloney"
"This ranking is complete rubbish and nobody should place any credence in it.The results are based on an entirely flawed methodology that underweights the quality of research and overweights fluff"
 
-Simon Marginson, professor of higher education at University of Oxford:
"I will not discuss the QS ranking because the methodology is not sufficiently robust"
 
-Fred L. Bookstein, Horst Seidler, Martin Fieder and Georg Winckler in the journal Scientometrics:
"There are far too many anomalies in the change scores of the various indices"
 
-Isidro F. Aguillo, Judit Bar-Ilan, Mark Levene, José Luis Ortega in the journal Scientometrics:
"The QS is based on a not large and not representative enough survey that means the results are biased towards certain countries"
 
-H. Jons and M. Hoyler in the Geoforum; Journal of Physical, Human, and Regional Geosciences
"The QS ranking was also criticized for the low response rates of the review surveys and for a general lack of methodological transparency"
 
-V. Safon in the journal Scientometrics:
"the majority of the received questionnaires come from English-speaking countries, clearly favoring their universities"

-Mu-Hsuan Huang in the journal Research Evaluation:
"the statistic data adopted by QS Rankings should be further questioned."
 
Andrejs Rauhvargers in Global University Rankings and their Impact- Report II:
"QS admits that a university may occasionally be nominated as excellent and ranked in a subject in which it “neither operates programmes nor research”

domingo, 1 de fevereiro de 2026

The anatomy of a highly cited ChatGPT paper and how it gained more than 3,000 Scopus citations in less than three years


A search in Scopus for publications with “ChatGPT” in the title, abstract, or key-words returns 28,562 documents published since 2022. Within this rapidly expanding body of literature, the second most cited publication is not an empirical study but an opinion paper published in 2023 by more than 70 authors from over 20 countries, titled “So what if ChatGPT wrote it? Multidisciplinary perspectives on opportunities, challenges and implications of generative conversational AI for research, practice and policy.” https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0268401223000233 

That this paper has achieved such prominence within a corpus of more than 28,000 studies is not merely surprising; it is revealing of the field’s early intellectual dynamics. Although informed by a review of 364 publications and a broad international authorship, it introduces no new empirical evidence, testable propositions, or methodological advances, offering instead a wide-ranging interpretive synthesis produced at a moment when ChatGPT’s capabilities, uses, and institutional consequences were still rapidly evolving. 

Despite these limitations, the paper has been elevated to cross-disciplinary authority, with citations spanning nearly all major fields—from social sciences and computer science to business, engineering, medicine, mathematics, and the humanities—allowing a provisional narrative to circulate across communities with markedly different standards of evidence and, in many cases, to substitute for empirical grounding that was not yet available.

The paper enumerates an extensive set of risks and opportunities—spanning education, labour, cybersecurity, bias, and governance—without prioritising their importance, assessing relative likelihood or severity, or translating concerns into concrete policy frameworks. Readers are thus left with a catalogue of what might matter rather than guidance on what matters most. Moreover, many of the issues framed as disruptive simply repackage long-standing debates associated with earlier digital technologies—such as automation-driven job displacement, plagiarism, and misinformation—yet the paper fails to clearly separate what is genuinely new about large language models from familiar cycles of technological alarmism.

PS - In late January 2026, OpenAI’s CEO publicly acknowledged that a recent iteration of ChatGPT had sacrificed writing quality in favor of technical performance. This admission highlights a broader tension: much of the literature that quickly became authoritative was produced while the technology itself remained unstable, with regressions recognized by its developers. The speed with which normative interpretations solidified stands in contrast to the absence of empirically grounded criteria for evaluating capabilities that were still in flux.

O professor catedrático de prestígio mundial e a instituição de ensino superior que vai passar mais um ano a ocupar o último lugar

 


Uma pesquisa efectuada ontem na conhecida plataforma Scopus de literatura científica indexada a nível mundial, revela que mais uma vez e tal como eu tinha previsto há um ano atrás, vide post acessível no link supra, há uma instituição de ensino superior público, que uma vez mais revela o seu inconseguimento, permanecendo a zero no panorama nacional. 

1 - U.Porto................486 publicações que receberam mais de 300 citações
2 - U.Lisboa..............449
3 - U.Coimbra...........207
5 - U.Minho...............178
4 - U.Nova.................160
6 - U.Aveiro...............146
7 - UBI........................62
8 - UALG....................46
11 - IPol. Porto...........36
12 - IPol.Bragança.....29
9 - UTAD....................28
10 - U.Évora..............24
14 - ISCTE.................24
18 - IPol.Viseu............18
20 - IPol.Guarda.........17
15 - UAçores..............17
16 - UMadeira............16
13 - UAberta..............16
17 - IPol.Leiria...........11
21 - IPol.Viana C........11
19 - IPol.Lisboa...........8
22 - IPol.Coimbra........7
25 - IPol.Setubal.........4
23 - IPol.Beja..............3
24 - IPCA....................3
26 - IPol.Santarém......2
27 - IPol.Tomar............1  
28 - IPol.Portalegre.....1   
29 - IPol.C.Branco.......0      

O Instituto Politécnico de Castelo Branco tem 2 publicações com mais de 300 citações na base Scopus, infelizmente quando se removem as auto-citações, cujo valor científico é nulo, ambas deixam de cumprir aquela condição. Compare-se o desempenho daquela instituição com o elevado desempenho do Politécnico da Guarda. Isto já para nem falar do facto da primeira ter actualmente zero investigadores altamente citados (SHCS) no ranking Stanford-Elsevier e o Instituto Politécnico da Guarda ter 5 (cinco). https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/10/os-professores-do-ensino-superior.html

Tendo porém em conta que um dos dois referidos artigos só foi publicado em 2019, e que nesse espaço de tempo já conta com quase 300 citações, é muito provável que ele venha a ultrapassar aquela marca nos próximos anos, até porque conta com a co-autoria de um professor catedrático de prestígio mundial, titular de um Scopus h-index=93encontrando-se classificado no extremamente seletivo subgrupo Top 0,15% no ranking Stanford–ElsevierAliás, entendo como relevante recordar que não certamente por acaso, o referido artigo já tinha sido mencionado por mim neste blogue, no dia 1 de Maio de 2025  https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/05/o-que-se-me-oferece-dizer-sobre-o.html

PS - Há vários anos atrás, divulguei no meu primeiro blogue, um estudo que mostrou que publicar em conjunto com investigadores de topo constitui uma vantagem científica competitiva duradoura e há dois anos voltei a insistir nesse importante tema, divulgando um novo estudo científico que analisou 245.000 colaborações em 22 áreas científicasResulta daqui, que se actualmente ainda há instituições de ensino superior em Portugal que possuem um número residual de artigos, que tenham recebido centenas de citações, é porque nessas instituições há muitos investigadores que ainda não aprenderam essa lição https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/08/o-melhor-conselho-que-se-pode-dar-um.html 

sábado, 31 de janeiro de 2026

Um inusitado escândalo salarial: O Fundão já conseguiu ultrapassar a Covilhã e agora está prestes a ultrapassar Castelo Branco

  

Ainda na sequência do post anterior acessível no link supra, no qual foi mencionado um artigo publicado na secção de Economia do Expresso, onde se podia ler que na pequena localidade do Fundão já trabalham mais de mil programadores informáticos, faz todo o sentido divulgar um novo artigo publicado na última edição do mesmo semanário que apresenta várias figuras que comparam o desempenho de vários concelhos da Beira interior, sendo especialmente interessante aquela que mostra a evolução, ao longo da última década, dos salários médios mensais, onde se constata que o Fundão conseguiu ultrapassar a Covilhã e agora já está prestes a ultrapassar Castelo Branco, pois a diferença que os separa é inferior a 1%. 

É profundamente revelador que logo a Covilhã, berço da Universidade da Beira Interior, onde até parece que já nasceram 66 startups, que foram capazes de captar 104 milhões de euros em financiamento, não tenha conseguido transformar todo esse capital humano e empreendedor numa vantagem salarial robusta que lhe permitisse ultrapassar Castelo Branco e que trágica e ironicamente seja precisamente o Fundão, que toda a vida teve salários inferiores aos da Covilhã, e que agora sem qualquer instituição de ensino superior, esteja prestes a tornar-se o concelho com os salários mais elevados naquela zona. 

Infelizmente, e ao contrário do que possa parecer, os supracitados 104 milhões de euros captados pelas startups nascidas na UBI, traduzem-se num valor médio por startup de apenas 1,6 milhões de euros, um desempenho que é significativamente inferior ao verificado em várias universidades nacionais e até inferior ao do valor médio registado pelas startups do, cientificamente muito menos competitivo, Instituto Politécnico de Leiria. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/12/conseguir-alcancar-104-milhoes-de-euros.html

PS - E se o Fundão, que o Jornal de Negócios descreveu como a cidade do Interior com mais engenheiros per capita, oriundos de mais de uma centena de nacionalidades, já hoje apresenta esse louvável desempenho, é muito provável que, no futuro, consiga atrair ainda mais capital humano, em consequência da tragédia associada à super tempestade Kristin que se abateu sobre as regiões mais próximas do Litoral, onde, ainda hoje, e ao contrário do que sucede no Fundão, muitas localidades permanecem sem energia elétrica. Como é absolutamente evidente, num futuro em que as super tempestades se irão tornar a norma, o Interior afirmar-se-á cada vez mais como uma alternativa cada vez mais competitiva. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/09/artigo-de-investigadores-alemaes-ajuda.html

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O Governo de Portugal prepara-se para uma guerra imaginária e ignora a única guerra que é 100% certa e que já começou a matar


Com mortes já confirmadas, quase um milhão de portugueses sem eletricidade, milhares de habitações destruídas e uma rede rodoviária em colapso, o país atravessa horas de pânico e o Governo viu-se inclusive forçado a apelar à permanência da população em casa, num cenário de emergência que, como descreveu o Expresso, faz lembrar um país sob ataque, quase como se estivesse a ser atingido por mísseis de um exército invasor. Mas nesta “guerra” os milhares de milhões de euros já gastos pelo actual Governo em equipamento militar, um desperdício doze vezes superior ao valor do investimento público em Ciência,  não servem para salvar vidas ou proteger pessoas, revelando-se absolutamente inúteis.

E é precisamente neste quadro de devastação que se torna impossível ignorar as consequências de um importante estudo de investigadores alemães, segundo o qual estes fenómenos não são raros nem exceções meteorológicas, são, muito pelo contrário, um ensaio geral daquilo que ameaça tornar-se nas próximas décadas uma rotina trágica. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2020/09/artigo-de-investigadores-alemaes-ajuda.html

O que aí vem nos próximos anos provocará uma enorme destruição à escala de uma guerra, mas esta não será provocada pela Rússia. Virá de fenómenos atmosféricos extremos, associados a um colapso climático. E perante isto o Governo Português optou, erradamente, por se preparar para uma invasão russa que não chegará nunca, até porque aquele país está economicamente à beira do colapso, enquanto ignora a única guerra que Portugal terá de enfrentar, cuja probabilidade de ocorrência é de 100%, contra a crise climática. Uma guerra que não se combate com misseis, com drones ou tanques blindados, mas com Ciência, investimento público e políticas de adaptação e resiliência climática de longo prazo.

Se este Governo fosse mais competente do que é, não poderia em caso algum ter deixado de extrair lições absolutamente cruciais a partir do famoso apagão ocorrido no final do mês de Abril do ano passado, o qual deveria ter servido para corrigir falhas grosseiras na preparação do nosso país para cortes prolongados de eletricidade, como o actual. Em vez disso, perdeu-se um tempo precioso. O mínimo exigível teria sido a criação de um programa de apoio à aquisição de geradores, com financiamento a 100% para as pessoas em situação de maior vulnerabilidade social ou dependentes de equipamentos elétricos vitais, protegendo desde logo quem mais precisa. 

O Governo também deveria ter incentivado os municípios a criarem reservas locais de geradores de maior potência, para que, em momentos de crise, como o actual, possam desde logo servir para garantir o abastecimento de água e também para serem disponibilizados a lares de idosos e outras instituições de apoio social que não dispõem de meios financeiros suficientes para a sua aquisição. E mesmo que existam autarquias sem capacidade financeira para adquirir os tais geradores de maior potência, é preferível que seja o Governo a assegurar essa aquisição, em vez de desperdiçar dinheiro dos contribuintes em material militar para uma guerra, que é mais do que evidente, nunca acontecerá.

Isto já para nem referir o óbvio, que há muito que este país deveria ter criminalizado qualquer licenciamento autárquico de novas edificações em zonas de risco, nomeadamente em zonas propicias a deslizamentos de terras, em zonas inundáveis, em zonas costeiras ou áreas diretamente expostas à subida do nível do mar, relativamente às quais faz sentido revisitar a frase: "os contribuintes deste país serão obrigados a pagar milhões para evitar que o mar engula "apartamentos a preços milionários, construídos quase em cima do mar." https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/04/the-economist-gorda-factura-das.html

PS - A gravidade dos supracitados fenómenos climáticos extremos tem, paradoxalmente, uma enorme virtude: expõe de forma inequívoca a vacuidade e a indigência do programa político do partido liderado por André Ventura, um programa negligente e incompetente, em que a emergência climática é totalmente ignorada e no qual não se encontra uma única linha, proposta ou visão, por mínima que seja, num vazio programático absoluto, sobre o que o nosso país deve fazer de imediato para prevenir ou mitigar consequências que agora já são bastante devastadoras, mas que ameaçam tornar-se muito mais destrutivas no futuro. Tenha-se presente que as estatísticas da Agência Europeia do Ambiente revelam que, na década de 1980, Portugal sofria prejuízos anuais na ordem dos 70 milhões de euros devido a tempestades e incêndios. Desde então, a fatura climática explodiu: os prejuízos por conta da emergência climática ultrapassam hoje os 600 milhões de euros por ano e, num futuro próximo, irão quebrar a barreira dos 1000 milhões de euros anuaishttps://www.eea.europa.eu/en/analysis/indicators/economic-losses-from-climate-related

sábado, 24 de janeiro de 2026

A minha discordância sobre a opinião de três catedráticos, que negligenciam a probabilidade da IA poder prejudicar uma elevada percentagem de estudantes

   

Depois do catedrático Luís Aguiar-Conraria, da Universidade do Minho, ter aproveitado a sua coluna no primeiro caderno da última edição do Expresso para criticar duramente o grupo de professores universitários que assinou o polémico manifesto apelando à proibição da Inteligência Artificial no ensino superior, surgiram hoje, nas páginas do jornal Público, posições que reforçam essa leitura. Esse apoio veio da catedrática Elvira Fortunato, da Universidade Nova e ex-ministra da Ciência e do Ensino Superior, e também do catedrático Paulo Ferreira, da Universidade de Aveiro, na sua qualidade de presidente do CRUP.

Contudo, nos artigos destes três valentes “mosqueteiros” catedráticos ficou por reconhecer algo absolutamente essencial, que limita fortemente a utilização da IA no ensino superior em Portugal. Trata-se precisamente do tal constrangimento que, como já tinha comentado anteriormente, também inviabiliza a tal solução pedagógica "milagrosa" defendida pelo catedrático da Universidade de Harvard, Eric Mazur, e que é o facto inegável de nenhuma das referidas abordagens conseguir funcionar sem professores extraordinários. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/01/catedratico-questiona-por-que-razao-vou.html 

Quando essa base não existe, como acontece em Portugal, onde as estatísticas mostram que a maioria dos docentes possui apenas licenciatura ou mestrado, tanto as pedagogias que se revelaram eficazes com docentes de excelência como a própria IA tendem a produzir o efeito contrário. Em vez de ajudarem o alunos, irão na maioria dos casos promover a superficialidade, institucionalizar o erro e banalizar a mediocridade. Longe de elevar a qualidade do ensino, a IA acabará por revelar, com raras e honrosas exceções, de forma ainda mais implacável, as debilidades profundas do corpo docente da Academia Portuguesa.

Se alguém como o supracitado Aguiar-Conraria, que conseguiu atingir o topo da carreira académica e cuja obra científica até já foi citada por vencedores de prémios Nobel, reconhece que "não é fácil" e que ele próprio ainda não domina a inteligência artificial e admite também que essa competência é absolutamente essencial para "ajudar os estudantes", torna-se legítimo questionar como se pode esperar que milhares de docentes, com qualificações inferiores, que nem sequer conseguiram obter um diploma de mestrado ou de doutoramento, venham a adquirir essa competência de forma rápida e generalizada ?

PS - Tendo em conta a sólida reputação da Finlândia na área educativa, onde a carreira de professor tem um elevado prestigio social e o modelo educativo não muda sempre que muda o Governo, como infelizmente acontece em Portugal, pesquisei na plataforma Scopus a publicação científica mais citada, dos últimos 12 meses, com autoria de investigadores daquele país, na área da inteligência artificial e educação, tendo descoberto um estudo, que também envolve investigadores de outros países, onde se alerta para o perigo da adoção prematura de ferramentas de IA generativa em contextos educativos, quando esta ocorre sem uma ponderação aprofundada da eficácia, das implicações sistémicas, das dimensões éticas e da robustez pedagógica dessas práticas. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/0144929X.2024.2394886#abstract

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Afinal quem é que fala a verdade ? O CEO da bilionária Feedzai ou o Governo Português ?



No post anterior, acessível através do link supra, onde mencionei o fenómeno sui generis e inspirador da capacidade de atração da pequena cidade do Fundão, foi referida a importância da Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026, de 8 de janeiro, que aprovou a Agenda Nacional de Inteligência Artificial. Esse documento identifica uma lista de várias vantagens competitivas de Portugal, onde se pode ler, no ponto 1.7, que existe no nosso país: "...ecossistema de startups, contando com um total de 5091 empresas...O segmento de IA destaca-se pelas 552 empresas cuja atividade nuclear envolve o uso desta tecnologia... representando um valor empresarial de 25 mil milhões de euros. Destaca-se, ainda, que seis dos sete unicórnios portugueses têm IA no centro dos seus serviços e operações."

Mas como é que é possível compatibilizar esses valores com as recentes e perentórias declarações do diplomado em engenharia informática Nuno Sebastião, CEO da Feedzai (empresa avaliada em quase 2000 milhões de dólares), ao semanário Expresso, segundo as quais “em Portugal só existem duas empresas portuguesas cujo negócio assenta em IA — a Feedzai e a Sword Health”?  Mas mesmo que se admita que a afirmação do CEO da Feedzai se restringisse somente ao universo dos unicórnios, isto é, às empresas com uma valorização superior a mil milhões de dólares, ainda assim tal não confirma os números apresentados pelo Governo.

Acresce que na supracitada Resolução é também afirmado que Portugal é o terceiro país da União Europeia com maior cobertura de fibra ótica, e também o terceiro país na UE em percentagem de estudantes em áreas de engenharia, valores para os quais não encontrei estatísticas oficiais.  E No ponto 1.6 da mesma pode ainda ler-se que existe uma: "Predisposição elevada para adotar IA, com quase 90 % dos portugueses a acreditar que a IA torna a sua vida mais fácil", afirmação que é sustentada num estudo da Netsonda de Maio de 2025. Estes resultados, porém, não coincidem com os de um outro estudo, mais recente, desenvolvido no âmbito de um projeto apoiado pela Fundação “la Caixa” (FP24-2B), relativamente ao qual o investigador Pedro Magalhães afirmou existir um número muito maior de portugueses relutantes do que entusiasmados em relação à IA.

PS - O post anterior, referido no início deste texto, mencionava uma notícia sobre os cronótipos, que permitem identificar o período do dia em que um indivíduo apresenta melhor desempenho profissional. Pois bem, por uma feliz coincidência, uma startup fundada por uma investigadora portuguesa que trabalha numa universidade alemã voltou ontem a merecer atenção pública ao ser novamente premiada. O reconhecimento decorre do desenvolvimento de uma tecnologia avançada que possibilita a quantificação do relógio biológico humano ao nível molecular, através da análise dos genes associados aos ritmos circadianos. Esta inovação abre perspetivas quase revolucionárias de aplicação em domínios como a medicina personalizada, a psicologia, a ciência do desporto e a organização temporal do trabalho. A abordagem integra um teste de saliva com modelos matemáticos e algoritmos de inteligência artificial, permitindo deslocar o conceito de cronótipo de uma categorização comportamental para um marcador biológico personalizado. https://www.publico.pt/2026/01/18/ciencia/noticia/startup-investigadora-portuguesa-vence-premio-alemanha-2161531

sábado, 17 de janeiro de 2026

Catedrático questiona: Por que razão vou contratar um jovem caro e inexperiente se posso utilizar a IA para fazer o trabalho?

 

Na sequência de um post anterior de Maio de 2025, acessível no link supra, intitulado “Péssimas notícias para recém-diplomados: relatório mostra que dezenas de milhões de empresas preferem apostar na inteligência artificial”, faz agora todo o sentido divulgar uma entrevista particularmente interessante que o catedrático Eric Mazur, da prestigiada Universidade de Harvard, concedeu ao jornal Público e que hoje integra a edição impressa daquele diário, entrevista essa de onde retirei a questão que dá título a este post. 

O catedrático Eric Mazur desenvolveu um método de ensino que substitui as aulas expositivas tradicionais por um modelo de aprendizagem activa centrado nos estudantes. Neste método, a transmissão de conteúdos ocorre antes da aula, sendo o tempo presencial dedicado a perguntas, reflexão individual, discussão entre pares e argumentação. 

Tenha-se presente que uma pesquisa no seu perfil de investigador, na plataforma Scopus, que permite saber que o catedrático Mazur é titular de um h-index=75, revela que a sua segunda publicação mais citada de sempre, é precisamente sobre o referido método de ensino inovador: "Peer Instruction: Ten years of experience and results" https://www.scopus.com/authid/detail.uri?authorId=7005375930

Pessoalmente, entendo que a primeira crítica substantiva ao método do catedrático Eric Mazur incide sobre a sua viabilidade prática. Em contextos de ensino com centenas de estudantes, o método revela-se inaplicável, porque as suas próprias premissas pedagógicas assentam numa interação e proximidade entre professor e aluno que são incompatíveis com o ensino massificado. A este propósito, atente-se na descrição seguinte feita por uma professora, que ilustra de forma clara o referido constrangimento: "Depois da minha primeira aula para uma plateia de mais de 700 pessoas, uma estudante esperou pacientemente para se apresentar. Ela confessou que me queria me conhecer porque, do lugar dela no fundo da sala, eu ‘parecia uma formiga’.” https://teaching.resources.osu.edu/teaching-topics/teaching-large-enrollment-courses

O artigo não o refere, mas importa ressalvar, porque isso é evidente, que o método referido assenta numa premissa fundamental: exige docentes com um domínio profundo da matéria que lecionam, e que sejam também capazes de compreender as dificuldades conceptuais típicas dos estudantes, antecipar os seus erros mais frequentes e ainda a capacidade de formular perguntas que estimulem o pensamento crítico e a reflexão. Exigindo por isso docentes bastante diferentes daqueles docentes que no ano passado se tornaram noticia por conta de "pérolas pedagógicas" inspiradoras como aquelas que abaixo se reproduzem:
“não vou explicar porque não vai perceber” 
“Quem não teve mais de 15...pode sair e trabalhar no Pingo Doce" 

Acresce que uma pesquisa no site da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, relativa ao Perfil do Docente do Ensino Superior – 2024/2025, revela que vários milhares de docentes do ensino superior possuem apenas o grau de licenciatura e que por uma feliz coincidência, o jornal Público noticia hoje que mais de 40% dos docentes do ensino superior, representando milhares de docentes, não possuem doutoramento. E, se levarmos ainda em linha de conta que mesmo entre muitos doutorados é frequente não se verificar um domínio profundo da matéria em que alegadamente se especializaram (basta olhar para aqueles com um h-index=0, incapazes de produzir um único artigo científico credível, como aquele professor que a Universidade do Porto despediu, tornam-se evidentes as dificuldades em tentar aplicar o método pedagógico do catedrático Eric Mazur ao ensino superior português. 

PS - Há duas formas de encarar o desmotivador contexto atual em que muitos empresários, especialmente lá fora, porque por cá o talento é escasso, optam por não contratar recém-diplomados, por considerarem que estes não oferecem um valor superior ao da inteligência artificial. Uma é a visão fatalista, resignada, ao estilo do fado lusitano. A outra muito mais inspiradora aconselha a aproveitar a oportunidade que isso representa. Muitos recém-diplomados possuem algo que a IA não tem: uma elevada propensão ao risco e essa virtude permite-lhes aspirar a mais do que simplesmente trabalhar por conta de outrem. Assim, a relutância dos empresários em contratar jovens recém-diplomados pode, paradoxalmente, transformar-se numa oportunidade para um aumento substancial do número de startups, como foi o caso do agora famoso doutorado da Univ. de Aveiro, que se tornou multimilionário, juntamente com vários outros colaboradores da empresa que fundou. E mesmo que que essa aventura empresarial acabe por ser um fracasso económico, é mais fácil para um jovem recém-diplomado, conseguir um emprego numa empresa estrangeira, tendo no currículo uma experiência empresarial mal-sucedida do que tendo apenas um diploma académico.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

When Generative AI Meets Inequality and Kleptocracy on a Path Toward Global Terror

In a previous post from September 2023 (linked above), I discussed new findings from an Economist article describing how artificial intelligence could transform scientific research through tools such as literature-based discovery and so-called “robot scientists.” I also warned that these AI-driven advances could have unintended consequences. In particular, they may disproportionately benefit wealthy countries, widening existing global economic inequalities and undermining the UN Sustainable Development Goal of reducing inequality. Such growing disparities could, in turn, intensify migration pressures from poorer regions to richer ones.

More recently, a paper entitled “Who on Earth Is Using Generative AI?”, published in the Elsevier journal World Development, provides the first comprehensive global analysis of individual-level adoption of generative AI. The study finds that country-level generative AI usage intensity is strongly correlated with both the coverage and quality of digital infrastructure. It further shows a pronounced concentration of usage across income groups: in early 2024, middle-income economies accounted for roughly half of global ChatGPT traffic, while low-income countries together contributed less than one percent. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0305750X25003468

Generative AI risks locking in global inequality rather than breaking it. Unlike earlier digital revolutions that lowered barriers and allowed poorer countries to leapfrog stages of development, AI rewards those who already possess advanced infrastructure, skilled labor, and strong institutions, effectively raising the threshold for participation and pushing many low-income economies to the margins. Research by scholars at UC Berkeley and Harvard University suggests that access to AI support delivers greater benefits to highly skilled entrepreneurs and professionals than to lower-skilled users.  https://journals.aom.org/doi/abs/10.5465/AMPROC.2024.380bp

As AI-driven gains concentrate in wealthy and upper-middle-income countries, global income and opportunity gaps will widen, intensifying migration pressures and economic fragility in already vulnerable regions. The result is not merely economic divergence, but rising financial instability and geopolitical tension that inevitably spill across borders. This is precisely what the world does not need as Donald Trump’s return to power amplifies geopolitical turbulence, undermines international coordination, and ushers in an era of policy volatility and institutional strain—at a moment when global cooperation is already under severe stress.

Preventing AI from entrenching global inequality demands forceful and forward-looking policy choices. Rich countries and major technology firms must stop treating AI as a private advantage and instead recognize it as a shared global capability. This means investing seriously in digital infrastructure and education in poorer regions, enabling meaningful technology transfer, and keeping core AI tools open, affordable, and adaptable to local needs. If governed with ambition and solidarity, AI can become a catalyst for shared prosperity rather than a force that condemns billions to permanent exclusion from progress.

Declaration of competing interestsIn January 2019, I advanced a deliberately abrasive proposition: that wealthy countries should admit one African migrant for every €250,000 extracted from Africa by its kleptocratic elites over the past fifty years. Even under conservative estimates, the magnitude of this crime is stark, well over ten million Africans would qualify for asylum in rich countries. These are not appeals to charity, but claims grounded in moral debt: individuals whose admission wealthy nations owe as a matter of justice. By this reckoning, Switzerland alone would be obligated to grant asylum to more than one million African migrants.

PS — In this context, it is important to recall a previous post highlighting how income inequality and poor living conditions can fuel terrorism and radicalization. It draws on a 2019 study by Krieger and Meierrieks, based on data from 113 countries, which identifies a clear link between inequality and terrorism. https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/09/2019-paper-by-german-researchersincome.html

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Teletrabalho, cronótipos e o caso Fundão: Um ensaio geral para o futuro de Portugal ?

 

Na sequência do estudo que divulguei no passado mês de dezembro, acessível no post supra, o qual concluiu que o teletrabalho contribui para a redução de problemas de saúde mental, com benefícios particularmente acentuados nas mulheres, aproveito para dar a conhecer um artigo interessante publicado no caderno de Economia da última edição do Expresso. O referido artigo aborda a crescente tendência de adequação dos horários de trabalho aos diferentes picos de produtividade dos trabalhadores.

Este modelo baseia-se na adaptação do horário laboral aos quatro cronótipos identificados pelo psicólogo clínico Michael Breus, sustentados por estudos desenvolvidos ao longo de várias décadas. De acordo com o artigo do Expresso, diversos especialistas em gestão de recursos humanos salientam que a adoção desta abordagem poderá traduzir-se em ganhos significativos de eficiência e produtividade, particularmente no contexto do teletrabalho. Curiosamente uma pesquisa expedita revela que há aproximadamente um ano atrás foi defendida uma dissertação numa universidade Portuguesa que sintetizou os estudos levados a cabo nesta área nos últimos 20 anos https://repositorio.upt.pt/entities/publication/5d6ff38b-913d-4a1c-9dc4-9d801f6a2c56

Não certamente por coincidência, também na última edição do caderno de economia do Expresso, havia um artigo sobre o aumento do número de profissionais (nacionais e estrangeiros) que aproveitando as vantagens do teletrabalho, estão a trocar as cidades Portuguesas pelos meios rurais, artigo esse no qual é mencionado o caso da pequena cidade do Fundão (que tem muito menos gente do que várias freguesias de Lisboa), na qual já há mais de 1000 (mil) programadores informáticos, por conta da estratégia de atracçáo daquela autarquia potenciada também pelo programa do Governo "Trabalhar no Interior". 

Aquilo que esse artigo não refere, porém, é que a corrida mundial à IA em curso, altamente competitiva, e que em Portugal passou recentemente a dispor de um enquadramento estratégico através da Agenda Nacional de Inteligência Artificial, aprovada na passada Quinta-feira, pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026, documento onde se pode ler que a rápida adoção da IA possa acrescentar entre 18 e 22 mil milhões de euros ao PIB nacional, pode fazer muito mais pela deslocação de pessoas para o Interior do que qualquer estratégia autárquica isolada ou o existente programa governamental de incentivo territorial. 

Ao libertar o talento das amarras geográficas dos grandes centros urbanos, a IA irá permitir abrir caminho a um novo paradigma de escolha: viver no Interior de Portugal poderá deixar de ser sinónimo de limitação, isolamento e irrelevância e poderá passar a afirmar-se como uma decisão ambiciosa e sustentável que junta qualidade de vida e inovação. A que se soma ainda a vantagem divulgada há um ano atrás por um conhecido catedrático de economia de uma famosa universidade, que afirmou que as evidências científicas indicam que o teletrabalho é uma das formas mais eficazes de inverter a quebra da natalidade, uma vez que esta aumenta significativamente entre os casais em regime de teletrabalho. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/01/alcancar-um-circulo-virtuoso-para.html

PS - Ainda sobre IA, é positivo saber que de acordo com o EUROSTAT, os Portugueses estão à frente da média europeia e inclusive à frente de países como a França e a Alemanha, em termos da percentagem de pessoas que mais usaram IA em 2025, sendo porém evidente que só nos conseguiremos aproximar das elevadas percentagens da Noruega e da Suíça, quando mais Portugueses conseguirem perceber as muitas vantagens da sua utilização. Ainda por cima num país, onde mais de um milhão e meio de Portugueses não tem (nem vai ter) médico de família, seria perfeitamente natural que esses recorressem ao ChatGPT, para esclarecimento de dúvidas de saúde. Aliás, eu próprio tenho médico de família e já recorri inúmeras vezes aquele modelo de IA generativa para esse efeito. 

domingo, 11 de janeiro de 2026

A ciência pelas ruas da amargura: Quando é que Portugal conseguirá alcançar a Grécia ?


Há poucos meses, várias universidades públicas portuguesas, como a Universidade do Porto, a Universidade de Coimbra e a Universidade NOVA de Lisboa, congratularam-se com o aumento do número de investigadores incluídos no conhecido ranking Elsevier-Stanford relativamente à edição do ano anterior. Contudo, aquilo que ficou por fazer, porque ninguém o fez, foi uma análise global que permitisse avaliar o desempenho de Portugal em comparação com outros países. E, nesse segmento específico, as notícias estão longe de ser animadoras; muito antes pelo contrário,  revelando fragilidades que suscitam sérias e legítimas preocupações.

Em 2022 já tinha feito esse exercício para uma amostra de 25 países, calculando não o desempenho para a amostra do Top 2%, mas somente o rácio muito mais selectivo associado ao subgrupo de investigadores do Top 0.5% por milhão de habitantes, que se traduziu numa lista cujo primeiro lugar aparecia ocupado pela notável potência científica que é a Suíça e onde Portugal aparecia em último lugar, abaixo da Grécia e do Chipre. Há um ano atrás voltei a fazê-lo, para constatar que infelizmente, o nosso país muito embora tenha crescido ligeiramente não conseguiu ultrapassar nenhum daqueles dois países que obviamente também cresceram  https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2024/09/nobel-para-ciencia-portuguesa-clarivate.html  

E quando agora, um ano depois, se repete o mesmo exercício verifica-se que Portugal, apesar de um novo e ligeiramente aumento do número de investigadores, ainda continua desgraçadamente abaixo dos referidos dois países, pois eles também aumentaram o seu número de investigadores altamente citados no Top 0.5%. Uma análise das taxas de crescimento médio entre 2022 e 2025, da Grécia (3%/ano) e de Portugal (1.7%/ano) mostra que a esse ritmo de tartaruga o nosso país nunca conseguirá ultrapassar a Grécia. 

E se, ano após ano, o impacto da ciência portuguesa continuar sistematicamente abaixo do da Grécia e do Chipre e muito longe do da Suíça, qual a probabilidade de uma ciência com tão fraco impacto produzir benefícios reais para o nosso país? Num século em que o crescimento económico depende cada vez mais de valor acrescentado, inovação e investigação, é minimamente credível que uma ciência com menos impacto do que a da Grécia e do Chipre nos permite convergir com o nível de riqueza da Suíça? E até quando vamos ignorar que uma ciência persistentemente pouco relevante internacionalmente está a alimentar a fuga permanente de talento e a condenar o país à estagnação económica?

Neste contexto, importa recordar um artigo publicado há um ano atrás na prestigiada revista The Economist, evidenciava que uma das formas mais eficazes de financiar a ciência, com vista à maximização do seu impacto, consiste muito menos no financiamento de projectos mas mais na atribuição de contratos de longa duração aos investigadores com a duração de pelo menos 7 (sete) anos. Não é, por isso surpreendente que o Conselho Europeu de Investigação (ERC) tenha agora decidido financiar contratos com essa duração. Ironicamente, em Portugal, alguém, cuja decisão dificilmente se pode atribuir a uma avaliação informada ou a uma reflexão estratégica sólida, ou sequer a um módico de inteligência, entendeu que reduzir para metade a duração dos contratos dos investigadores é aquilo que melhor serve os interesses da ciência Portuguesa e o futuro de Portugal !

PS - Em Portugal a U.Aveiro e a U.Minho lideram o grupo das universidades públicas em termos de densidade de investigadores no Top 0.5% do ranking Elsevier-Stanford por docente ETI, o que significa que são as duas universidades que mais tem contribuído para que Portugal não esteja ainda mais longe do desempenho da Grécia e do Chipre https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/09/uaveiro-uminho-e-uporto-no-podio-do-top.html

sábado, 10 de janeiro de 2026

O princípio do fim da arrogância médica

 


Há seis anos atrás a The Economist previu que a AI iria retirar os médicos do seu pedestal. Vide post acessível no link supra. À época essa previsão pode ter parecido excessiva, pois na altura ainda não havia nenhum ChatGPT, o modelo que passou a estar disponível ao público apenas dois anos depois. Contudo é precisamente esse modelo de IA generativa que hoje é utilizado diariamente por 40 milhões de pessoas unicamente para questões relacionadas com saúde, facto que levou a empresa proprietária do mesmo a lançar esta semana uma "ferramenta" dedicada somente a questões de saúde https://expresso.pt/newsletters/conversas-ao-ouvido/2026-01-08-40-milhoes-usam-o-chatgpt-todos-os-dias-por-motivos-de-saude.-esta-semana-fui-eu-6304a189

No contexto supra é pertinente recordar que no passado dia 18 de Setembro no post de titulo "O futuro bastante negro dos estudantes que agora ingressam num curso de medicina" divulguei um estudo que demonstrou que a IA consegue acertar em mais de 80% dos diagnósticos clínicos complexos, contra apenas 20% de médicos experientes, divulguei ainda um outro estudo da conhecida universidade Johns Hopkins, que desenvolveu um modelo de IA capaz de prever ataques cardíacos 
fatais com até 93% de precisão, e também o desempenho de um novo modelo de IA, desenvolvido por um consórcio europeu, que consegue prever o risco do aparecimento de mais de mil doenças com várias décadas de antecedência  https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/09/o-futuro-bastante-negro-dos-estudantes.html

Paradoxalmente, enquanto a IA aplicada à medicina evolui a um ritmo alucinante, as faculdades de medicina continuam a formar profissionais como o faziam há várias décadas décadas, preparando-os para competir com máquinas que já os superam de forma clara 
em diagnóstico, previsão e análise clínica. Se ao menos fosse possível dizer que, pelo menos, os médicos ainda conseguem superar as máquinas tratando os doentes de forma bastante empática. Mas nem aí esses profissionais conseguem um melhor desempenho do que a IA: pois como mostra a ciência, a IA é capaz de responder de forma significativamente mais empática do que os próprios médicos. Veja-se, por exemplo, o estudo publicado na revista científica Journal of General Internal Medicine, que envolveu mais de 1.400 participantes.  https://link.springer.com/article/10.1007/s11606-025-10068-w?

Acresce que a utilização da IA em Portugal é especialmente vantajosa por um motivo particular, a IA irá permitir poupar muitos milhões de euros, ao contrário de um elevado número de médicos Portugueses que possui uma estranha atracção pela fraude, que custa aos contribuintes deste país o valor astronómico de quase 800 milhões de euros por ano (um valor superior ao que Portugal gasta todos os anos a pagar o salário de milhares de investigadores), que é basicamente o mesmo que termos 2600 médicos todos os anos a cometerem fraudes de 300.000 euros cada um!  

PS - O presente post não constitui um ataque gratuito a toda a classe médica, mas uma critica contundente aos inúmeros maus profissionais que a integram, os quais escolheram o curso de Medicina apenas como um meio oportunista de enriquecer rapidamente. Como é óbvio, há muitos médicos que são profissionais extraordinários e também pessoas invulgares, e que eu próprio já louvei em posts anteriores, como por exemplo um de nome Domingos Machado, ou aquele médico que mencionei num post que se tornou um dos mais visualizados https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/01/muito-provavelmente-este-e-o-melhor.html