domingo, 11 de outubro de 2026

A presidência da FCT ao serviço da servidão académica e da felicidade dos lordes feudais

 

Num post anterior, critiquei uma política muito pouco inteligente que privilegia a formação de milhares de novos doutorados enquanto comprime e chega mesmo a estrangular as oportunidades de investigadores cujos currículos foram considerados excelentes por painéis internacionais. Mas esta inversão de prioridades admite uma leitura ainda mais incómoda, a sua extraordinária conveniência para muitos catedráticos (leia-se lordes feudais) que tratam a pobre academia nacional como uma coutada onde a subserviência é a lei. Quem precisa de braços para executar trabalho e de artigos para engrossar o próprio currículo tem muito a ganhar com a abertura massiva de bolsas de doutoramento. Financiar a autonomia de quem já demonstrou mérito científico pode, pelo contrário, ameaçar esses feudos académicos. Para quem há muito se habituou a viver dos frutos do trabalho alheio, o financiamento de investigadores que não fazem "favores à casta" é uma ameaça ao seu domínio feudal.

Como tive ocasião de denunciar há vários anos atrás, no meu primeiro blogue, um conhecido catedrático da Universidade de Stanford expôs este problema com uma frontalidade que contrasta com a linguagem cobarde das instituições. Num contundente artigo publicado em 2016 no Journal of Clinical Epidemiology, questionou se certos currículos volumosos de muitos catedráticos traduzem realmente trabalho árduo e orientações brilhantes por parte daqueles ou antes, apenas o resultado da escravatura de jovens investigadores. A expressão que então utilizou não deixa margem para eufemismos foi slave trade of younger researchers.  A denúncia expõe uma perversão fundamental da hierarquia académica, quem ocupa o topo da pirâmide alimentar pode comportar-se como um tubarão, apropriando-se do valor produzido por quem trabalha abaixo. O jovem doutorando executa todo o trabalho e o lorde feudal arrecada o prestígio. Uma lógica que encontra eco num corajoso artigo de um catedrático da Universidade de Coimbra, sobre catedráticos-tubarões e investigadores-rémoras, que se alimentam de restos. 

Convém não esquecer que foi o próprio catedrático jubilado José Ferreira Gomes, agora reitor da Universidade da Maia, quem reconheceu publicamente, em junho de 2018, que a progressão académica favorece quem faz favores "aos mais velhos" (leia-se aos catedráticos). Essa grave declaração tem o valor de um testemunho vindo do interior da hierarquia, quando o favor integra a receita da ascensão, a meritocracia degrada-se em retórica de legitimação e a carreira académica passa a premiar a "arte" da subserviência perante os poderes instalados. Quanto à metáfora dos lordes feudais, vale a pena revisitar este outro post, no qual divulguei um artigo de um catedrático português que também conhece por dentro os costumes feudais da casa e que os descreveu num artigo publicado numa revista internacional 

É verdade que também há investigadores nada jovens contratados pela "quota da endogamia" que continuam e continuarão a prestar favores aos "mais velhos", na expectativa de um dia ascenderem à posição de quem os recebe. A ambição limita-se, nesse caso, a trocar a condição de vassalo pela de senhor feudal, perpetuando o sistema que recompensa a subserviência. Mas, como escrevi no dia 7 de agosto, construir uma carreira científica, sobretudo na era da inteligência artificial, exige coragem intelectual. Quem renuncia a essa coragem para granjear o favor dos seus "superiores" pode até conseguir ascender na hierarquia; mas, de pensamento escravizado e dignidade hipotecada, por mais alto que suba, nunca será merecedor de respeito apenas de pena. A ciência não precisa dessa cobardia moral promovida a prudência e transformada em abjecta estratégia de carreira. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/08/five-uncomfortable-truths-about.html  

PS - A presidência da FCT prepara-se para abrir, daqui a poucos meses, uma segunda edição do malfadado concurso FCT Tenure. Critiquei a primeira edição deste inqualificável concurso por uma concentração de vagas que dificilmente poderia passar despercebida, a UNova, instituição a que pertencia a sua mentora, a genial cabecinha pensadora da catedrática Elvira Fortunato, recebeu mais vagas do que as universidades de Coimbra, Minho e Aveiro juntas. Este concurso concentra o pior dos vícios académicos: põe recursos públicos ao serviço de lugares atribuídos por júris caseiros, favorece a reprodução das hierarquias instaladas e alimenta a endogamia com uma complacência política escandalosa. A mesma presidência que estrangulou o financiamento do concurso CEEC, avaliado por painéis internacionais, prepara-se agora para, hipocritamente, abrir os cordões à bolsa num concurso entregue a júris caseiros. A explicação é evidente, a prioridade da FCT é perpetuar os feudos académicos a qualquer custo e assegurar a felicidade dos lordes feudais.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

The European Commission Highlights an Uncomfortable Truth: Science Depends on Essential Labour Academia Fails to Reward

 

The European Commission has just highlighted a report whose recommendations include “Recognising and rewarding the labour involved in peer review, editorial work and research curation”, while acknowledging that much of the reviewing process depends on unpaid and frequently invisible labour. This recommendation deserves the close attention of every funding agency and evaluation panel entrusted with judging scientific merit, because an assessment system that celebrates published articles while overlooking the intellectual effort required to scrutinise them adopts a conveniently selective understanding of scientific contribution, in which the visible product attracts recognition while those who help safeguard its credibility are expected to remain satisfied with occasional expressions of gratitude.

The consequences of this contradiction were illustrated in my earlier post, “The serious case of papers that remained unassigned to editors for more than a year”, which discussed the reported experience of Noemi Felisi, whose manuscript remained unassigned to an editor for 380 days before peer review had even begun, exposing how an editorial bottleneck can obstruct the dissemination of research and jeopardise opportunities for researchers whose careers depend on timely publications. I also examined this broader problem in a previous post published in 2025, questioning the wisdom of German researchers’ recommendation to increase the number of reviewers per manuscript without first tackling reviewer fatigue and the persistent failure to recognise and reward this essential scientific service. Asking an already strained community to undertake additional reviewing while leaving its professional incentives unchanged amounts to demanding greater generosity from those whose generosity the system already takes for granted, while allowing the benefits of publication and the burden of evaluation to remain unequally distributed.

The Commission’s recommendation should therefore prompt funding agencies and universities to explain how reviewing, editorial responsibility and research curation actually influence their assessments. Scientists who publish hundreds of papers while contributing only a handful of peer reviews should likewise be expected to explain that discrepancy, because systematically relying on the scrutiny of others while scarcely reciprocating raises serious questions about their ethical standards and commitment to scientific citizenship. Recognition must also protect the intellectual independence required to challenge weak research, particularly when its authors occupy positions of academic influence, because rewarding servile deference while expecting rigorous criticism merely reproduces entrenched academic hierarchies under the seductive language of scientific excellence. A system that rewards publication, demands ever more reviewing and then marginalises those who perform it is actively manufacturing the very crisis it subsequently claims to deplore.

PS - As I argued in my January 2024 post, “AI has radically changed the core university business, shifting focus from teaching and publications to ‘assessment, curation, and mentoring’”, generative AI makes this contradiction increasingly indefensible, because the easier academic content becomes to produce, the greater the value of the intellectual judgement required to assess its reliability, distinguish meaningful contributions from plausible prose and guide researchers towards questions worth pursuing. That post also recalled Stanford Professor John Ioannidis’s call to reward scientific citizenship, including peer review, replication and data sharing, rather than allowing publication and grant records to monopolise the definition of scientific merit, an argument that becomes increasingly urgent as the ease of generating superficially plausible academic prose threatens to outstrip the rigorous scrutiny required to establish whether its claims deserve scientific credibility.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Acaba de ser revelada a edição de 2026 do ranking de cientistas Elsevier-Stanford: Lisboa, Porto e Minho lideram no Top 0.5%

 

Reproduzo abaixo somente os nomes dos investigadores que trabalham em instituiçóes Portuguesas e que integram a parte superior da lista de impacto científico ao longo da carreira, correspondente ao Top 0.5%. https://elsevier.digitalcommonsdata.com/datasets/btchxktzyw/9

O pódio das universidades com maior número de investigadores no Top 0,5% é ocupado, pela Universidade de Lisboa, pela Universidade do Porto e pela Universidade do Minho.

É importante reafirmar que se trata do único ranking mundial de investigadores que consegue cumprir três requisitos fundamentais, ao contrário do outro ranking de cientistas da Clarivate,  que não consegue cumprir o terceiro requisito e que pior do que isso só inclui aproximadamente 10% dos prémios Nobel como divulguei aqui https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/01/whats-value-of-scientist-ranking-that.html

Primeiro - Ser baseado na Scopus ou na Web of Science, para assim permitir a desambiguação de publicações, pois existem milhares de perfis "contaminados" no Google Académico com publicações de outros autores e também para evitar o lixo "científico" de citações em publicações não revistas por pares, cujo número explodiu nos últimos anos.
Segundo ​- Ser capaz de remover o efeito da terrível praga das auto-citações, em que muitos cientistas infelizmente se tornaram verdadeiros especialistas​ ​
​Terceiro ​- Ser capaz de anular a vantagem artificial e perniciosa relativa às citações em publicações com centenas ou milhares de co-autores, utilizando para esse efeito a contagem fraccionada, sugerida pela primeira vez em 2008 pelo investigador Alemão Schreiber e mais recentemente por Koltun e outros. 

Top 0.5% do ranking Elsevier-Stanford – edição de 2026

Pereira, José Carlos Fernandes

Davim, J. P.

Guedes Soares, C.

Mano, João F.

Búchler, Markus Wolfgang

Barbas, Carlos F.

Liddle, Andrew R.

Neoptolemos, John P.

Ferro, José Manuel

Machado Tenreiro, J. A.

Jose M., Bioucas-Dias Manuel

Pereira Coutinho, João Araújo

Montemor, M. F.

Figueiredo, Mário A.T.

Barros, Carlos Pestana

Studart, André R.

Figueiredo, José Luís

Cunha, Rodrigo A.

Chaves, M. Manuela

Lourenço, Paulo B.

Peres, Nuno Miguel R.

Lobo, Francisco S.N.

Swash, M.

Reis, R. L.

Egídio Rodrigues, Alírio Egídio

Gama, João M.P.

Cardoso, Vitor

Brett, Christopher Michael Ashton

Catalão, João P.S.

Ferreira, António J.M.

Brito, Jorge De

Loureiro, Sandra María Correia

Pereira, Helena M.

Pacheco-Torgal, Fernando

Malcata, F. Xavier

Cardoso, Fatima

Rocha-Santos, Teresa A.P.

Moreira, Paula I.

Silveirinha, Mario G.

de Falcão, António F.O.

Pereira, Luis S.

Seabra, Miguel C.

Dorogóvtsev, Sergey N.

Prata, Joana Correia

Bertolami, Orfeu

Pombeiro, Armando J.l.

Rocha, João

Sarmento, Bruno Filipe Carmelino Cardoso

Oliveira, Rui Filipe

Derouane, Eric G.

Rodrigues, Ligia R.

Veldhoen, Marc

Ferreira, Mario G. S.

Miguel, Maria Graça Costa

Carvalho, Fernando Piedade

Simões, Manuel Vieira

Oliva-Teles, A.

Santos, Nuno C.

Martins, Rodrigo Ferrão Paiva

Cavaco-Paulo, Artur Manuel

Carmo-Fonseca, Maria

Pȩcas Lopes, Joao A.

Vasconcelos, Vítor Manuel Oliveira

Flores, Paulo

Dinis-Oliveira, R. J.

Barros, Lillian B.

Ferreira, Isabel C.F.R.

Lemos, José P.S.

Marques, Rui Cunha

Manaia, Celia

Phillips, Alan J.L.

Gash, John H.C.

Carlos, Luís D.

Schmitt, F. C.

Graça, Manuel Augusto Simões

Paterson, Russell Monteith

Kundu, Subhas C.

Patel, Ashok R.

De Carvalho, Mamede Alves

João Saraiva, Maria João Mascarenhas

Leitão, Paulo

McGregor, Peter Kenneth

Konotop, Vladimir V.

Semin, Gun Refik

Fernandes, Paulo M.

Costa, Paulo Cardoso

Zilha̧o, João

Sardinha, Luís B. Sardinha Bettencourt

da Silva, Lucas F.M.

Camarinha-Matos, Luis M.

Outeiro, Tiago F.

Fernández-Rossier, Joaquín

Vilar, Rui M.C.S.

Almeida, Ricardo

Flores, Maria Assunção

Carabineiro, Sónia A.C.

Fortunato, Elvira M.C.

de Carvalho, C. C. C. R.

De Melo Órfão, José J.

Bebianno, Maria João

Moreira, Francisco M.

Sobrinho-Simòes, Manuel A.

Haneke, Eckart G.

Trigo, Ricardo Machado

Cruz-Martins, Natália

Cardoso, Pedro

Silvestre, Nuno

Brinchmann, Jarle

Gouveia, Luísa

Branco, Gustavo C.

Cunha, Miguel Pina E.

Carneiro, Fátima M.H.

Pereira, Leonel

Carvalho, Felix Dias

Leite-Moreira, Adelino F.

Teixeira, José A.

Ferreira, J. M. F.

Lavoura, L.

Cohen, Scott A.

da Silva, J. A.P.

Neto, Félix

terça-feira, 6 de outubro de 2026

A brilhante estratégia da presidência da FCT: O suicídio assistido da investigação pública


Terminei o meu último post a questionar o discernimento de uma presidência da FCT que anuncia 145 milhões de euros para bolsas de doutoramento, mais do dobro dos cerca de 63 milhões destinados à oitava edição do concurso CEEC. Importa agora tornar explícita a dimensão desta escolha, estamos a falar de nada menos do que 1.600 novas bolsas de doutoramento, enquanto o CEEC disponibiliza apenas 400 contratos para investigadores já doutorados. Quatro novas bolsas por cada contrato neste concurso. Uma desproporção que denuncia uma "estratégia" intelectualmente indefensável, que resulta de uma alienação perante as necessidades da investigação nacional, ou subordina essas necessidades a interesses obscuros. 

A comparação europeia torna ainda mais flagrante esta inversão de prioridades. As bolsas de doutoramento do concurso FCT correspondem a um rácio de cerca de 149 bolsas por milhão de habitantes. Nos programas analisados, o Reino Unido apresenta 73 por milhão, a Bélgica 69 e Espanha apenas 41. O rácio português aproxima-se, portanto, do dobro dos valores britânico e belga e ultrapassa o triplo do espanhol. Talvez o problema seja dos outros. Talvez britânicos e belgas, com os seus centros de investigação de referência mundial, ainda não tenham alcançado a admirável "clarividência" da presidência da FCT, produzir doutorados em escala industrial enquanto se estrangulam as oportunidades de quem já demonstrou competência científica. Há aqui uma concepção de estratégia que merece o nome de idiotia institucional; parece, contudo, pouco plausível que sejam os britânicos e os belgas a precisar de lições de discernimento científico da presidência da FCT.

Depois da infâmia de reduzir de seis para três anos o financiamento dos contratos CEEC e de cortar para metade o orçamento destinado à contratação de investigadores, a mesma presidência dá prioridade às bolsas de doutoramento, poupadas a semelhante corte e reforçadas em número e orçamento. Financia a formação de novos doutorados enquanto estrangula as oportunidades de investigação daqueles que já formou, comprometendo a continuidade do trabalho, a consolidação das equipas e a preservação das competências científicas que tinha a obrigação de proteger. É uma política de descapitalização científica conduzida por quem tem o dever institucional de a impedir, numa flagrante inversão da missão que lhe cabe e que atraiçoa com total impunidade. A “estratégia” da presidência da FCT constitui, assim, uma forma insidiosa de suicídio assistido da investigação pública. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Governo de Montenegro: Uma generosidade obscena para as universidades do país de Trump, e a privação e o estrangulamento para investigadores portugueses excelentes

 

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/10/a-cegueira-da-presidencia-da-fundacao.html

No post anterior critiquei a presidência da FCT por se dispensar de exercer o discernimento que justifica a sua própria existência e por actuar como agente da descapitalização científica nacional. As suas estranhas prioridades de financiamento obrigam-me agora a confrontá-la com outra manifestação dessa abdicação. Para a oitava edição do concurso CEEC, um concurso altamente selectivo, o único somente com jurados estrangeiros, a salvo da conhecida praga dos concursos combinados, como afirmou um certo Reitor, foram anunciados cerca de 63 milhões de euros. Entretanto, para as parcerias com universidades do país do inqualificável Trump, estão reservados, pasme-se, mais de 90 milhões de euros.

Um conhecido académico jubilado da Universidade da Califórnia, que já citei várias vezes no meu blogue, afirmou que a melhor maneira de os europeus ajudarem os americanos é recusarem financiar a América de Trump. É, por isso, vergonhoso que o Governo de Luís Montenegro tenha escolhido precisamente o caminho contrário, depois de ter cortado largas dezenas de milhões de euros no orçamento da ciência portuguesa, um corte superior ao efectuado pelo Governo de Passos Coelho durante a crise da troika, exiba agora uma generosidade obscena para com universidades americanas, ao mesmo tempo que deixa por contratar investigadores portugueses avaliados como excelentes no concurso CEEC.

É uma escolha política que merece ser denunciada pelo que revela, o Governo de Luís Montenegro dispõe de dinheiro para as universidades do país de Trump, mas reserva aos investigadores portugueses a privação e o estrangulamento. E que sentido de solidariedade nacional preside a uma política tão infame que reserva tamanha generosidade precisamente ao mesmo país cuja administração deporta furiosamente centenas de cidadãos portugueses, incluindo pessoas que ali construíram quase toda a sua vida, como por exemplo uma Portuguesa que lá viveu ao longo de quase 60 longos anos ? https://www.rtp.pt/noticias/mundo/vivia-nos-eua-ha-57-anos-a-historia-de-uma-portuguesa-deportada_v1695582

PS - Infelizmente os erros da presidência da FCT não se esgotam na referida e altamente danosa política. Para as bolsas de doutoramento de 2026, anunciou 145 milhões de euros, mais do dobro do compromisso financeiro do concurso CEEC. Num post de 25 de Abril de 2025, já questionara essa opção pelo financiamento generoso na formação de doutorados, quando ao mesmo tempo uma consulta no site do IEFP mostrava que já havia mais de dois mil doutorados desempregados. Se as empresas não querem e nem sequer precisam de os contratar, porque o Estado já lhes entrega de mão beijada, centenas de milhões de euros em subsídios, para alegadas actividades de investigação, como denunciou no mês de Agosto um Colega da Universidade de Aveiro, por que razão insiste a presidência da FCT numa alocação de verbas públicas que denuncia uma confrangedora ausência de discernimento?

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A cegueira da presidência da Fundação para a Ciência e Tecnologia perante problemas que afligem milhões de portugueses

Em Fevereiro de 2025, divulguei num dos meus blogues, os resultados de um inquérito internacional efectuado que identificou a saúde e os problemas energéticos, entre as principais prioridades que os cidadãos esperam ver assumidas pela comunidade científica. 

Por uma estranha coincidência nessa altura divulguei também que Portugal possui um recorde europeu particularmente preocupante e até vergonhoso, pois é o país europeu com a maior percentagem de pobreza energética. https://pachecotorgal.com/2025/02/11/por-que-razao-viver-em-casas-frias-faz-tao-mal-a-saude/

Entretanto, desde o inicio de 2026 a guerra de Trump contra o Irão veio agravar a vulnerabilidade energética e pressionar os preços à escala mundial. Aos constrangimentos no abastecimento somam-se mais recentemente os ataques dos Houthis às infra-estruturas sauditas e às rotas marítimas, o aumento da procura de petróleo por parte da China e os danos provocados pelos ataques ucranianos às refinarias russas, que reduzem a disponibilidade de combustíveis para exportação. A conjugação destas pressões sobre a oferta e a procura dificulta uma descida sustentada dos preços da energia, o que irá agravar de forma substancial a factura energética e também a situação das famílias portuguesas que não conseguem aquecer adequadamente as suas habitações.

Como se as referidas vulnerabilidade não fossem já suficientemente graves, o comboio de tempestades que atingiu Portugal no início de 2026 afectou mais de 200 mil habitações, segundo o coordenador da Estrutura de Missão para a Recuperação da Região Centro. Portanto às casas que os portugueses não conseguem comprar e às casas que não conseguem aquecer juntam-se agora milhares de casas cuja reparação ou reconstrução ameaça ultrapassar a capacidade financeira das famílias. Construir e reabilitar com maior rapidez, menor custo, melhor desempenho energético e maior resistência a fenómenos meteorológicos extremos tornou-se pelas referidas razões uma evidente urgência nacional.

Perante este cenário, seria legítimo esperar que a presidência da Fundação para a Ciência e a Tecnologia demonstrasse, nas suas decisões de financiamento, alguma correspondência entre as prioridades científicas e as necessidades dos cidadãos cujos impostos a sustentam. Seria expectável que a área da Engenharia Civil que tem um contributo directo para enfrentar dois dos problemas mais prementes do país, não só por melhorar o desempenho energético das habitações e desenvolver soluções que permitam construir e reabilitar de forma mais rápida e económica, fosse discriminada positivamente. Todavia, os resultados dos concursos de contratação de investigadores, através dos concursos CEEC, ontem divulgados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, revelam precisamente o contrário, pois à referida área da Engenharia Civil couberam menos vagas do que à Sociologia, metade das vagas atribuídas à História e apenas um terço das vagas destinadas à área da Filosofia. 

Ao fazer do volume de candidaturas em cada área o critério soberano de selecção, esta presidência da FCT escolheu a comodidade de abdicar de formular uma política científica, limitando-se a conferir autoridade institucional a um automatismo estatístico. Desta abdicação resulta a exclusão de excelentes investigadores de Engenharia Civil, cujo mérito se torna irrelevante perante a aritmética administrativa: penaliza-se a excelência porque a presidência se dispensa de exercer o discernimento que justifica a sua própria existência. Os beneficiários desta singular concepção do interesse nacional serão os países ricos do Norte da Europa, onde essas competências encontram procura e reconhecimento. Portugal financia a formação; a FCT facilita a exportação e economias mais prósperas arrecadam os benefícios. É uma generosidade de Estado exercida à custa de um país que não pode dar-se a esse luxo. Para Portugal, fica a factura de uma instituição que, incumbida de fortalecer a capacidade científica nacional, acaba por actuar como agente da sua descapitalização.

Com que fundamento se considera a referida distribuição de vagas adequada a um país que enfrenta pobreza energética, habitação inacessível, milhares de casas a necessitar de reabilitação urgente e uma pressão crescente sobre os custos da energia? Não constituem os resultados referidos uma demonstração flagrante da cegueira da FCT perante alguns dos problemas mais graves e persistentes que afectam vários milhões de portugueses?

PS - Como divulguei há apenas uma semana atrás, o programa CEBE, que reúne quatro universidades dinamarquesas e a prestigiada universidade suíça ETH Zürich, coloca a área da Engenharia Civil no centro de uma ambiciosa resposta científica aos desafios do ambiente construído, da energia e da emergência climática. Este exemplo torna ainda mais flagrante a cegueira da presidência da FCT, logo num país onde milhões de cidadãos vivem as consequências da degradação das habitações e da pobreza energética, esta instituição atribui uma expressão residual à contratação de investigadores numa área directamente ligada à resolução desses problemas. Uma presidência da FCT que não reconhece a referida urgência revela uma preocupante incapacidade institucional de distinguir entre administrar burocraticamente concursos e servir efectivamente o superior interesse público.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

A Ghent University Study of 3,164 Academic Spin-Offs Exposes a Question Top European Universities Would Rather Avoid Answering

When a university spin-off becomes an international success, the institution wastes precious little time claiming its share of the glory. The founders appear in speeches, promotional videos and annual reports; their company is presented as proof that the university turns research into wealth. Yet the publicity establishes only where the company began. It does not show how much the university actually contributed to what the founders built or whether they succeeded because of its support, despite its limitations, or largely beyond its reach.

A Ghent University-led study published in the Strategic Management Journal examined the performance of 3,164 academic spin-offs founded over a decade, originating from 212 universities in 99 European regions. Regional differences accounted for approximately 27% of the variation in return on assets and 16% of the variation in sales in the authors’ models. The effect attributable to the individual university was negligible. 

That finding raises a question larger than whether universities exaggerate their contribution to individual companies. Are they claiming institutional credit for advantages supplied by an entire region? Investors, skilled workers, prospective customers and other firms all shape the environment in which a spin-off grows. The study does not tell us which of those factors drove any particular company’s success. It does show that performance varied substantially more across regions than across parent universities.  As I argued in Europe’s Humiliating Exodus, Europe too often mistakes regional advantage for institutional excellence. A university that presents a successful spin-off as proof of its own exceptional capacity must therefore explain why the credit belongs chiefly to the institution, rather than to the wider ecosystem in which the company developed.

This does not make universities irrelevant. They may have produced the original research, trained the founders and helped the company get off the ground. But they did not, by virtue of that connection alone, hire every employee, secure every investment, win every customer or conquer every market. The temptation to claim the whole success is hardly mysterious: a study in the Journal of Management Studies found that spin-offs can cast a reputational “halo” over their parent universities and even benefit their research income. The company’s success becomes a university asset, whether or not the university can show how much it contributed to achieving it. Celebrate the founders, by all means. But if an institution wants credit for the company they built, it should provide evidence of its own contribution.

PS - I previously wrote about Sword Health’s acquisition of a German rival. It is the kind of international triumph that universities love to associate with their names. But who built the company, persuaded investors, won customers and made that acquisition possible? What, specifically, did the Portuguese university (U.Aveiro) contribute to those achievements? The European study cannot apportion credit for Sword Health. It does give us a reason to demand evidence before allowing any institution to claim an entrepreneur’s success as its own.