Num post anterior, critiquei uma política muito pouco inteligente que privilegia a formação de milhares de novos doutorados enquanto comprime e chega mesmo a estrangular as oportunidades de investigadores cujos currículos foram considerados excelentes por painéis internacionais. Mas esta inversão de prioridades admite uma leitura ainda mais incómoda, a sua extraordinária conveniência para muitos catedráticos (leia-se lordes feudais) que tratam a pobre academia nacional como uma coutada onde a subserviência é a lei. Quem precisa de braços para executar trabalho e de artigos para engrossar o próprio currículo tem muito a ganhar com a abertura massiva de bolsas de doutoramento. Financiar a autonomia de quem já demonstrou mérito científico pode, pelo contrário, ameaçar esses feudos académicos. Para quem há muito se habituou a viver dos frutos do trabalho alheio, o financiamento de investigadores que não fazem "favores à casta" é uma ameaça ao seu domínio feudal.
Como tive ocasião de denunciar há vários anos atrás, no meu primeiro blogue, um conhecido catedrático da Universidade de Stanford expôs este problema com uma frontalidade que contrasta com a linguagem cobarde das instituições. Num contundente artigo publicado em 2016 no Journal of Clinical Epidemiology, questionou se certos currículos volumosos de muitos catedráticos traduzem realmente trabalho árduo e orientações brilhantes por parte daqueles ou antes, apenas o resultado da escravatura de jovens investigadores. A expressão que então utilizou não deixa margem para eufemismos foi slave trade of younger researchers. A denúncia expõe uma perversão fundamental da hierarquia académica, quem ocupa o topo da pirâmide alimentar pode comportar-se como um tubarão, apropriando-se do valor produzido por quem trabalha abaixo. O jovem doutorando executa todo o trabalho e o lorde feudal arrecada o prestígio. Uma lógica que encontra eco num corajoso artigo de um catedrático da Universidade de Coimbra, sobre catedráticos-tubarões e investigadores-rémoras, que se alimentam de restos.
Convém não esquecer que foi o próprio catedrático jubilado José Ferreira Gomes, agora reitor da Universidade da Maia, quem reconheceu publicamente, em junho de 2018, que a progressão académica favorece quem faz favores "aos mais velhos" (leia-se aos catedráticos). Essa grave declaração tem o valor de um testemunho vindo do interior da hierarquia, quando o favor integra a receita da ascensão, a meritocracia degrada-se em retórica de legitimação e a carreira académica passa a premiar a "arte" da subserviência perante os poderes instalados. Quanto à metáfora dos lordes feudais, vale a pena revisitar este outro post, no qual divulguei um artigo de um catedrático português que também conhece por dentro os costumes feudais da casa e que os descreveu num artigo publicado numa revista internacional
É verdade que também há investigadores nada jovens contratados pela "quota da endogamia" que continuam e continuarão a prestar favores aos "mais velhos", na expectativa de um dia ascenderem à posição de quem os recebe. A ambição limita-se, nesse caso, a trocar a condição de vassalo pela de senhor feudal, perpetuando o sistema que recompensa a subserviência. Mas, como escrevi no dia 7 de agosto, construir uma carreira científica, sobretudo na era da inteligência artificial, exige coragem intelectual. Quem renuncia a essa coragem para granjear o favor dos seus "superiores" pode até conseguir ascender na hierarquia; mas, de pensamento escravizado e dignidade hipotecada, por mais alto que suba, nunca será merecedor de respeito apenas de pena. A ciência não precisa dessa cobardia moral promovida a prudência e transformada em abjecta estratégia de carreira. https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/08/five-uncomfortable-truths-about.html
PS - A presidência da FCT prepara-se para abrir, daqui a poucos meses, uma segunda edição do malfadado concurso FCT Tenure. Critiquei a primeira edição deste inqualificável concurso por uma concentração de vagas que dificilmente poderia passar despercebida, a UNova, instituição a que pertencia a sua mentora, a genial cabecinha pensadora da catedrática Elvira Fortunato, recebeu mais vagas do que as universidades de Coimbra, Minho e Aveiro juntas. Este concurso concentra o pior dos vícios académicos: põe recursos públicos ao serviço de lugares atribuídos por júris caseiros, favorece a reprodução das hierarquias instaladas e alimenta a endogamia com uma complacência política escandalosa. A mesma presidência que estrangulou o financiamento do concurso CEEC, avaliado por painéis internacionais, prepara-se agora para, hipocritamente, abrir os cordões à bolsa num concurso entregue a júris caseiros. A explicação é evidente, a prioridade da FCT é perpetuar os feudos académicos a qualquer custo e assegurar a felicidade dos lordes feudais.


