sábado, 31 de outubro de 2026

A incómoda pergunta de um conhecido catedrático sobre um juiz "medíocre"

 

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/06/a-receita-de-um-catedratico-para.html

O tal catedrático de Economia que mencionei em vários posts, nomeadamente naquele sobre a sua receita para aumentar rapidamente os rendimentos dos portugueses, acessível no link supra, vem agora, no seu último artigo no semanário Expresso, dispensar algumas palavras pouco meigas às sobejamente conhecidas e persistentes demoras do nosso sistema de justiça. Apreciei particularmente a incómoda pergunta que abaixo reproduzo:

"Em 2020, 290 juizes foram avaliados pelo CSM. 160 foram classificados com Muito Bom, 56 com Bom, 6 com suficiente e apenas 1 com Medíocre. Será este juiz "medíocre" responsável por todos os problemas do sistema judicial Português, ou estaremos perante um fenómeno de "inflacção de notas" ?"

Pena é que esse artigo não tenha incluído dados para mostrar a gravidade do problema. Poderia por exemplo ter recordado, como fiz há vários anos atrás que, nos dados então apresentados, o rácio de condenações de Portugal no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, por milhão de habitantes, era 900% superior ao da Alemanha e que cerca de 40% das infrações portuguesas respeitavam à demora excessiva da justiça https://pacheco-torgal.blogspot.com/2019/11/tribunal-europeu-dos-direitos-do.html

Os dados mais recentes do EU Justice Scoreboard 2026, mostram que na primeira instância administrativa, o tempo estimado de escoamento dos processos pendentes em Portugal, é o dobro do Espanha, o triplo do da França e dez vezes superior ao da Suécia, que é de 81 dias. É claro que a enorme diferença para a Suécia talvez pudesse ser explicada pelo facto daquele país poder ter mais juízes ou receber menos processos, porém nenhuma dessas explicações se verifica. Portugal não tem menos juízes do que a Suécia nos tribunais administrativos da primeira instância e sucede até que a Suécia recebe o dobro dos processos administrativos. 

Mais ainda, no presente contexto merece ser recordado o importante estudo do catedrático Nuno Palma e do Nobel da Economia James A. Robinson, "Desbloquear o Crescimento de Portugal — Reformas estruturais e desafios à implementação de políticas económicas" que foi apresentado publicamente no passado mês de julho, e que propõe decisões judiciais num prazo máximo de 90 dias, mediante aplicação gradual, com metas intermédias de 250, 180 e 120 dias, e responsabilização ponderada pela complexidade dos processos.

PS - No artigo referido apreciei também a proposta feita pelo catedrático de publicação de estatísticas individuais e detalhadas sobre os tempos de decisão de cada juiz. Uma medida de elementar transparência, que permitiria confrontar as generosas classificações de desempenho com os resultados efetivamente entregues aos cidadãos. Receio, porém, que tão saudável escrutínio encontre feroz resistência entre os juízes. E, num país onde os políticos tem muito medo dos juízes por conta dos seus muitos “rabos de palha”, dificilmente haverá coragem para impor essa medida. Aliás, a melhor prova desse medo está no facto de há 50 anos atrás um juiz em Portugal ter um vencimento equivalente ao de um professor do ensino secundário e de lá para cá aumentou de tal forma que agora até ganham muito mais do que os professores universitários. Um artigo publicado na revista do Sindicato do Ensino Superior-SNESUP mostra que em apenas 8 anos, a diferença entre o ganho médio mensal de um juiz e de um professor universitário passou de 1483 euros para 2392 euros. Ironicamente, na Suécia o país onde os juízes despacham processos em tempo verdadeiramente recorde o seu salário não é superior ao dos professores catedráticos. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Universidade do Minho: uma dupla liderança no ranking Elsevier–Stanford de 2026

 

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/10/o-voto-de-louvor-da-camara-municipal-de.html

No post anterior, acessível no link supra, ficou por assinalar que a Universidade do Minho, além de apresentar, entre as universidades mais competitivas, o maior rácio Top 0,5%/Top 2% no ranking Elsevier–Stanford, também lidera esse grupo no indicador relativo às auto-citações. Com efeito, no ficheiro referente ao impacto ao longo da carreira, a UMinho regista a menor proporção de investigadores com taxas de auto-citações superiores a 25%, com um valor de apenas 10%, que contrasta favoravelmente com as percentagens das outras universidades, em especial com os elevados 20% observados na Universidade de Lisboa. 

A UMinho encontra-se, assim, numa posição comparativamente mais favorável, consideravelmente mais próxima dos baixos níveis registados nas melhores universidades do mundo, apresentadas na lista infra, onde o referido indicador varia entre 0,8% e 4,3%, do que a ULisboa, cujos seus elevados 20% representam o dobro do valor observado na UMinho e evidenciam um afastamento substancialmente maior face a essas conhecidas e prestigiadas referências internacionais. A UMinho consegue inclusive um resultado melhor do que a universidade francesa com a menor percentagem que é a Paris-Saclay com 13%.

Tenha-se presente que o supramencionado limiar de 25% foi expressamente referido pelo professor catedrático da Universidade de Stanford e principal impulsionador do estudo que esteve na génese do ranking Elsevier–Stanford, num artigo que assinalou a existência de uma maior prevalência de auto-citações em países cientificamente menos avançados, com taxas medianas próximas de 40% nos casos mais extremos, valores que sugerem um evidente desespero na procura a todo o custo de uma visibilidade científica que o reconhecimento por terceiros não terá proporcionado, com suficiente expressão internacional, pelo que os tais 25% podem ser lidos, como sendo o limiar do desespero.

No presente contexto importa recordar que a Clarivate Analytics, cuja lista de cientistas apresenta infelizmente diversas limitações metodológicas, que denunciei há vários anos e assinalei em diversos posts anteriores, como por exemplo um de Novembro de 2020, ou no artigo que posteriormente submeti para a revista Research Evaluation, de título "Assessing Methodological Distortions in the Clarivate Highly Cited Researchers List: International Comparisons and a Reform Framework", e que por conta dessas limitações volta e meia altera os seus critérios, decidiu, há poucos anos, adotar a medida radical de excluir da mesma todos os investigadores com níveis de auto-citação considerados excessivos, não divulgou, contudo, o limiar percentual a partir do qual essa exclusão foi aplicada.

PS - Na lista de carreira do ranking Stanford/Elsevier (2026), a minha taxa de auto-citações é de apenas 5,7%, que fica bastante abaixo da mediana nacional (15,4%). Na U.Minho há apenas dois investigadores com percentagens de auto-citação inferiores, a investigadora de Medicina Marian Anderson (5,4%) e o catedrático de Física Nuno Peres (4,2%), coautor, com os dois vencedores do Nobel da Física de 2010, de um importante artigo sobre o grafeno, que foi citado na documentação científica que acompanhou a atribuição do referido prémio.

Lista das 18 universidades melhor classificadas no ranking Shanghai ordenadas pela percentagem de investigadores do ranking Elsevier-Stanford com auto-citações superiores ao referido limiar de 25%:

1Harvard0,8%
2Yale1,0%
3Stanford1,1%
4U. Washington1,3%
5U. Pennsylvania1,3%
6Columbia1,5%
7U. Chicago1,6%
8Cornell1,9%
9UC San Diego2,0%
10UC Berkeley2,2%
11MIT2,6%
12Tsinghua3,1%
13Cambridge3,5%
14UCLA3,5%
15Oxford3,5%
16UCL3,7%
17Princeton3,7%
18ETH Zurich4,3%

domingo, 25 de outubro de 2026

The Days of a Certain Academic Hypocrisy Seems to Be Entering Its Death Throes

 

Still following my previous post, “The European Commission Highlights an Uncomfortable Truth: Science Depends on Essential Labour Academia Fails to Reward”, an article published in Nature on 20 October exposes a further institutional failure, universities depend on peer review to certify scientific credibility, yet frequently neglect to teach researchers how to perform it. The article advocates making peer review a core research skill through supervised discussions of preprints, confronting an academic culture that systematically trains researchers to pursue publication while neglecting to prepare them for the scrutiny that gives publication its credibility. Universities cannot credibly claim to cultivate independent scientific minds while leaving the disciplined exercise of scientific judgement to chance and informal apprenticeship.

My experience reviewing manuscripts and making editorial decisions has repeatedly exposed the complacent assumption that an extensive publication record qualifies someone to judge the work of others. Publishing prolifically offers no immunity against superficial reading, methodological ignorance or the temptation to turn peer review into an instrument of academic gatekeeping. Rigorous assessment requires distinguishing a fatal methodological flaw from a correctable limitation, a necessary revision from an unreasonable demand, and an original contribution from familiar ideas repackaged in fashionable terminology. It demands the courage to scrutinise prestigious authors as critically as unknown researchers and the intellectual honesty to acknowledge evidence that challenges one’s own publications. Doctoral programmes should explicitly cultivate these abilities, because scientific independence means little if researchers learn to question evidence only when doing so carries no professional risk. 

Yet training more reviewers while continuing to disregard their contribution in career assessments would merely replenish the unpaid workforce of a system that treats scientific judgement as an inexhaustible resource and professional recognition as somebody else’s responsibility. The scale of this imbalance was documented by Hanson et al. (2024): annual indexed article output rose from approximately 1.92 million in 2016 to 2.82 million in 2022, a 47% increase in six years, outpacing growth in the research workforce and intensifying the demands of writing, reviewing and editing. The human consequences were illustrated in my earlier post, “The serious case of papers that remained unassigned to editors for more than a year”, which discussed a manuscript that spent 380 days awaiting an editor before peer review had even begun. 

Such cases expose the human cost of editorial paralysis and sharpen the question of why institutions encourage ever more submissions while offering so little professional recognition to those responsible for assessing them. Universities and funding agencies cannot absolve themselves by blaming reviewer shortages while maintaining assessment criteria that help manufacture those shortages. They must explain why producing a paper counts towards career advancement, whereas undertaking the intellectual work required to determine whether it deserves publication so often merits little beyond a thank-you email, a remarkably cheap substitute for recognition from institutions whose claims to scientific quality depend on the very labour they decline to reward while congratulating themselves on excellence.

sábado, 24 de outubro de 2026

O voto de louvor da Câmara Municipal de Braga e a rebelião organizada contra a ignorância, a doença, o sofrimento e o medo

 

A propósito do recente voto de louvor referido nos emails abaixo, importa recordar que foi precisamente sobre o significado público do reconhecimento que escrevi, no passado dia 18 de agosto, num post que se tornou o segundo mais visualizado dos últimos três meses. Aí escrevi que aquilo que uma sociedade escolhe admirar educa as novas gerações e define a dimensão das suas ambições. Uma sociedade que proclama apostar no conhecimento tem de dar reconhecimento público efectivo a quem o faz avançar e mostrar aos mais jovens que a ciência é muito mais do que uma profissão, é, como defendi num post anterior, acerca de cinco verdades incómodas, dirigido aos jovens que iniciam uma carreira científica, uma  rebelião organizada da humanidade contra a ignorância, a doença, o sofrimento e o medo, e a recusa de aceitar como destino aquilo que podemos compreender, combater e superar.




De: F. Pacheco Torgal 
Enviado: 24 de outubro de 2026 07:12
Para: presidentecm-braga
Assunto: FW: Voto de Louvor à Universidade do Minho | CM/2026/19
 
Exmo Sr. Presidente da Câmara Municipal de Braga,
Relativamente ao voto de louvor aprovado por unanimidade pela Câmara Municipal de Braga aos 72 investigadores da Universidade do Minho que integram o ranking mundial de cientistas Elsevier–Stanford, baseado nas citações registadas na maior plataforma de literatura científica mundial, Scopus, e do qual tive ontem conhecimento oficial, agradeço, enquanto um dos investigadores distinguidos, este reconhecimento.
Merece igualmente louvor o facto de a Universidade do Minho ocupar a primeira posição nacional, entre as seis universidades mais competitivas, no indicador de densidade de excelência científica, aferido pelo rácio entre os investigadores incluídos no Top 0,5% e no Top 2% do mesmo ranking, à frente da Universidade de Lisboa e da Universidade do Porto. Infelizmente, a UMinho não divulgou publicamente este resultado, pelo que o mesmo não chegou ao conhecimento da Câmara Municipal de Braga.
É também merecedora de reconhecimento a recente classificação da Engenharia Civil, área científica a que pertenço, que obteve o melhor resultado entre todas as áreas científicas da Universidade do Minho no prestigiado ranking de Shanghai de 2026. Ao posicionar-se entre as 75 melhores do mundo, a Engenharia Civil da UMinho superou a universidade francesa mais bem classificada nesta área e ficou no mesmo escalão da universidade alemã mais bem posicionada. Recordo que se trata do único ranking de universidades a nível mundial que a Comissão Europeia associa à excelência científica.
A este propósito, importa recordar que, nesse ranking, a Engenharia Civil da Universidade do Porto nunca conseguiu ultrapassar a da Universidade do Minho. Este resultado torna-se ainda mais expressivo à luz da vantagem histórica da Universidade do Porto, cujo curso de Engenharia Civil remonta a 1915, quase sete décadas antes da criação da licenciatura na Universidade do Minho. Apesar desse avanço de partida, a instituição centenária tem sido sistematicamente ultrapassada pela sua congénere mais jovem, em todas as edições daquele ranking, como documentei aqui  https://pachecotorgal.com/2026/09/17/engenharia-civil-da-univ-do-porto-10-anos-de-comprovada-incapacidade-competitiva/
Com os melhores cumprimentos
Fernando Pacheco Torgal


De: Gabinete do Reitor 
Enviado: 23 de outubro de 2026 14:52
Cc: Ana Catarina Ramos Lopes Silva 
Assunto: FW: Voto de Louvor à Universidade do Minho | CM/2026/19
 

Caros Investigadores,

Boa tarde,

 

A pedido do Senhor Reitor, partilho o voto de louvor aprovado por unanimidade pela Câmara Municipal de Braga, na sua reunião de 20 de outubro de 2026, dirigido à Universidade do Minho e aos seus investigadores incluídos na lista World’s Top 2% Scientists 2026.

 

Em nome do Senhor Reitor, apresentamos as mais sinceras felicitações a todos por este reconhecimento.

Com os melhores cumprimentos,

 

 

 

 

 

Helena Julieta Silva

Gabinete do Reitor | Rector’s Office

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A indisfarçável irritação da catedrática Elvira Fortunato com o comité do prémio Nobel


Um infeliz artigo da catedrática Elvira Fortunato no jornal Público, que questiona a credibilidade dos prémios Nobel, pelo facto de haver mais homens do que mulheres que receberam aquele prémio, inicia-se com uma estranha omissão que enfraquece a autoridade do escrutínio que pretende exercer. Em 2020, o semanário Expresso, em má hora, associou o nome da referida catedrática a uma nomeação para Nobel da Física, episódio que então critiquei no meu blogue, desde logo porque as listas de nomeações permanecem secretas durante 50 anos; depois, porque a consulta das listas que já foram tornadas públicas revela casos de cientistas que acumularam dezenas de nomeações sem nunca terem recebido aquele prémio. Essa circunstância exigia por isso uma declaração de interesses por parte da referida catedrática, pois quem questiona a credibilidade alheia deve começar pela mais elementar transparência sobre a sua própria posição. Essa omissão torna-se particularmente incómoda num artigo que termina a questionar a confiança nos prémios Nobel, como se essa insinuação pudesse suprir a manifesta indigência intelectual da argumentação.

O desequilíbrio histórico entre homens e mulheres que ganharam aquele prémio deve em primeiro lugar ser analisado à luz das barreiras profundamente injustas que, durante séculos, impediram ou limitaram fortemente o acesso das mulheres à formação superior e à investigação científica, cujos efeitos não desaparecem simplesmente porque entretanto se alteraram as condições de participação. A verdade inatacável é que, no início do século XX, a presença feminina na ciência era muito reduzida, pelo que não faz qualquer sentido analisar a percentagem de mulheres que nessa altura receberam o prémio Nobel. Mesmo no final da década de 60, um relatório do National Research Council dos EUA, deu conta que as mulheres recebiam apenas 8% dos doutoramentos em ciência e engenharia nos Estados Unidos. Acresce que como entre a realização de uma descoberta e a atribuição do prémio Nobel costumam decorrer várias décadas, então qualquer comparação rigorosa deveria ser feita apenas relativamente às últimas duas décadas. E a esse respeito, é pois, uma estranha coincidência que, entre 2001 e 2026, a percentagem de distinções atribuídas a mulheres nos Nobel da Física, Química e Medicina tenha atingido precisamente os referidos 8%. 

Acresce que uma análise do Hall of Citation Laureates da Clarivate Analytics, que desde 2002 identifica investigadores com base em artigos altamente citados e cujas distinções anteciparam, em várias dezenas de casos, a atribuição de um Nobel, revela que, entre os 487 investigadores distinguidos, figuram 36 mulheres, correspondentes a 7,4% do total. Esta proporção aproxima-se, curiosamente, da percentagem de doutoramentos em ciência e engenharia atribuídos a mulheres nos Estados Unidos no final da década de 1960, precisamente o país que conquistou a maioria dos prémios Nobel científicos nas últimas duas décadas. Ou será também responsabilidade do Comité Nobel que as mulheres representem apenas cerca de 7,4% desta ilustre seleção, baseada somente em citações feitas por milhares de investigadores de cada área científica a nível mundial?

E será que também é culpa do Comité Nobel que a comunidade científica não tenha citado os artigos da catedrática Elvira Fortunato em número suficiente para os aproximar dos trabalhos que distinguem as centenas de investigadores incluídos no Hall of Citation Laureates? Tenha-se presente que nenhum dos artigos, absolutamente nenhum, relativos à invenção que a tornou "famosa", conseguiu ultrapassar as mil citações. A catedrática Fortunato sabe perfeitamente, que o Comité Nobel não determina as dezenas de milhões de referências bibliográficas que constam dos milhões de artigos publicados anualmente em todo o mundo, pelo que não pode imputar ao Comité Nobel a responsabilidade por um reconhecimento dos seus pares aquém daquele que aparentemente considera merecer.

PS - Depois de ter sido Ministra da Ciência e do Ensino Superior no Governo de Costa, a catedrática Fortunato revebeu apenas um único voto na eleição para reitor da Universidade Nova, realizada no final de 2025. Um Nobel daria certamente outro brilho ao currículo e remeteria tão magro resultado eleitoral para um discreto rodapé. Como o prémio teima em não chegar, a culpa será, evidentemente, do Comité que o atribui, eis a cómoda conclusão a que se presta um artigo tão pródigo na insinuação quanto avaro na demonstração.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A crise habitacional: Entre a estreiteza da análise de Martim Avillez Figueiredo e o escrutínio implacável de Jorge Van Krieken

 

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/10/universidade-do-minho-os-20-livros-mais.html

Na sequência do post acessível no link supra, onde no post scriptum citei o próprio Governador do Banco de Portugal, que afirmou que “temos falta de 300.000 casas”, importa examinar a fragilidade da análise desse défice habitacional apresentada por Martim Avillez Figueiredo, gestor e professor convidado da Universidade Católica, num artigo publicado hoje no jornal Público. https://www.publico.pt/2026/10/21/opiniao/opiniao/crise-habitacao-nao-espetaculo-2191964

Avillez Figueiredo afirma que, ao ritmo atual, a indústria da construção levaria mais de dez anos para compensar aquele défice. A conta pode estar certa; a pobreza da análise começa quando a aritmética toma o lugar do pensamento. Dividir o número de casas em falta pela produção anual está ao alcance de qualquer pessoa com uma calculadora; explicar como essa produção poderia aumentar através da industrialização da construção exigiria conhecer tecnologias, processos e modelos de organização que o artigo nem sequer se dá ao trabalho de discutir. Ao projetar sobre a próxima década as limitações do presente, sem examinar as condições necessárias para as superar, o autor transforma a incapacidade atual do setor numa aparente fatalidade. Perante uma crise desta gravidade, seria de esperar que um gestor e professor universitário interrogasse as possibilidades de transformação da indústria. Infelizmente Avillez Figueiredo ficou-se, porém, pela preguiça intelectual da calculadora, conferindo à perpetuação do atraso a aparência respeitável de um diagnóstico. 

Neste contexto importa recordar que, num post anterior de Julho de 2025, de título "Uma das grandes culpadas pela crise da habitação de que curiosamente ninguém fala", critiquei o arcaísmo da indústria da construção nacional, citando exemplos da China, onde foram montados um edifício de dez andares em menos de dois dias, outro de 57 andares em escassos 19 dias de trabalho e um terceiro, de 26 andares e 208 apartamentos, em apenas cinco dias. Estes exemplos ilustram uma transformação profunda na organização da produção, com a transferência de uma parte substancial dos trabalhos do estaleiro para a fábrica que permite produzir componentes industriais em simultâneo com a preparação do local de construção, reduzindo substancialmente os longos prazos de execução nacionais.

Um exercício meramente ilustrativo permite perceber a escala em causa, tomando como referência os 208 apartamentos montados em cinco dias, cada empresa poderia assegurar a montagem de 8320 fogos em 200 dias de trabalho; dez empresas corresponderiam a 83.200 novos fogos anuais e vinte empresas atingiriam 166.400 novos fogos anuais. Estes números não demonstram que Portugal possa reproduzir imediatamente os resultados chineses, mas mostram que o ritmo atual não constitui um limite técnico imutável. Ao apresentar um horizonte superior a uma década sem sequer discutir o potencial da construção industrializada, o referido autor deixou por analisar uma das possibilidades mais relevantes para encurtar esse prazo. A gravidade da crise exigia uma análise das possibilidades de transformação do setor, em vez de uma simples extrapolação da sua insuficiência presente.

Declaração de interesses - Declaro que, certamente não por acaso, sou editor, em conjunto com dois catedráticos chineses, de um livro sobre construção industrializada intitulado "Sustainable Prefabricated Construction: Materials, Digital Technologies and Case Studies", cuja preparação ficará concluída dentro de poucos meses e que será publicado pela conhecida e prestigiada Elsevier.

PS - Há apenas dois dias, o mesmo jornal Público realizou um importante trabalho de escrutínio das quase secretas declarações patrimoniais dos políticos que andaram a aprovar mudanças na lei do arrendamento, analisou 220 declarações de membros do Governo, deputados do PSD, Chega, IL e CDS-PP, tendo apurado 1039 imóveis, 55,6 milhões de euros, 807 mil euros em rendas e 43 sociedades imobiliárias.  Jorge Van Krieken, a quem a idade avançada felizmente não esmoreceu o apurado espírito crítico, foi, porém, mais longe, tomando esse levantamento como ponto de partida para interrogar o que os números expõem e a notícia deixou por discutir, numa implacável reflexão que reproduzo abaixo:

"Os 55,6 milhões são valor patrimonial tributário. O VPT (Valor Patrimonial Tributário) não é o valor da casa, é o valor que o Estado inventa para cobrar IMI. Nasce de um valor base de 665 euros por metro quadrado que o Parlamento fixa e não actualiza, e de coeficientes de localização que ninguém revê. Nas transacções reais, o VPT vale entre um terço e metade do preço, e nos prédios rústicos, nem isso. Ainda se calcula a partir do rendimento agrícola de 1989, dezenas de euros por prédio. Álvaro Castelo Branco, secretário de Estado Adjunto e da Defesa Nacional, declarou quotas em 33 imóveis a um cêntimo cada, 33 cêntimos de património, sem explicar porquê. Não é fraude, é a lei.
Feitas as contas por zona, o património real destes 220 políticos anda entre 150 e 220 milhões de euros. Três a quatro vezes o que o Público publicou. E as declarações são de 2024, antes de mais 20% de subida de preços. Quem fixa o VPT? Eles. Quem decide se os rústicos são reavaliados? Eles. Actualizar o VPT é aumentar o IMI a si próprios e isso não vai acontecer.
Segunda coisa que a notícia não diz. 807 mil euros de rendas sobre 55 milhões de património dá 1,5%. Sobre o valor real, menos de meio por cento. Dirão que vivem nas casas. Vivem numa, talvez em duas. Isso explica 440 dos 623 imóveis urbanos, não explica os outros 183, nem os 412 rústicos, que são terrenos. Mas o ponto não é esse. O ponto é que a declaração não distingue a casa onde se dorme do apartamento que se arrenda, nem o T3 da garagem, nem a renda cobrada da renda englobada no salário ou paga em dividendos por uma das 43 sociedades. Com estes documentos não se sabe quantos senhorios há na Assembleia. Foram desenhados para não se saber. Por quem? Pela Assembleia.
Terceira coisa. Os 412 rústicos. Olivais, pinhais, courelas de herança, o minifúndio do Norte e do Centro. Património pobre, dirão, e é verdade, enquanto for rústico. Esta mesma maioria aprovou a nova Lei dos Solos, que permite reclassificar rústico em urbano por deliberação da Câmara e da Assembleia Municipal, desde que 70% da construção vá para habitação pública ou a "valor moderado". Parece um travão, mas não é. O valor moderado é 125% da mediana do concelho, com tecto em 225% da mediana nacional, calculado à data da escritura. Quando a lei saiu, esse tecto era 3.737 euros por metro quadrado. Hoje é 5.258. Subiu 41% em dezoito meses, porque sobe com o mercado. Um T2 de 90 metros em Lisboa, a valor moderado, custa 473 mil euros. Quem possui terra e vota a lei que decide o que a terra pode vir a ser não precisa de ser corrupto. Basta que a definição de acessível suba com os preços, e ela sobe.
Quarta coisa. A redução do IRS sobre rendas de 25% para 10% tem um tecto de 2.300 euros. Não é um tecto, é uma amnistia. Cobre praticamente todas as rendas do país e todos os senhorios da bancada. A Iniciativa Liberal diz que ser proprietário não configura conflito de interesses porque a lei se aplica a milhões. Tem razão na técnica e nisso está o problema inteiro. Quando a classe que legisla coincide com a classe beneficiada, não há conflito de interesses. Há identidade de interesses.
Quinta coisa. O ranking por número de imóveis engana. No topo estão os herdeiros de minifúndios, o primeiro-ministro com 49 rústicos em Espinho, um secretário de Estado com 45 em Vouzela. O dinheiro está mais abaixo na lista. O presidente da Assembleia com 16 imóveis e perto de três milhões de VPT, seis a oito milhões reais. A ministra do Trabalho com 14 imóveis e dois milhões de VPT. Estes são os senhorios urbanos. Os que a lei do arrendamento vai servir.
Sexta coisa, e a que me importa. Tenho 68 anos. Pertenço à geração que comprou casa quando uma casa custava três anos de salário. Esta Assembleia é a minha geração. 88% são proprietários, mais de metade tem dois ou mais imóveis. No país, nem um quarto das famílias tem mais do que uma casa. Legisla-se a partir de quem já tem, para quem já tem, e a factura vai para os filhos. Não é corrupção. É pior, é só uma classe de políticos a legislar para si própria, convencida de que legisla para todos.

domingo, 18 de outubro de 2026

Os livros mais citados de sempre, a área da Engª Civil e a gravíssima crise habitacional

 

https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2025/12/universidades-e-politecnicos-conseguem.html

Na sequência do post anterior, acessível no link supra, em que comparei a produção de livros indexados na Scopus do conjunto das instituições de ensino superior portuguesas com a da pequena Universidade de Oxford e mostrei que, entre 2010 e 2024, a Universidade do Minho ocupou o terceiro lugar nacional em número de livros publicados, à frente da Universidade do Porto, reproduzo abaixo a lista dos 20 livros mais citados de sempre da Universidade do Minho

A distribuição temática deste top 20 é elucidativa do peso das engenharias, que representam mais de metade dos livros e entre as quais sobressai a área científica da engenharia civil, cuja liderança se afirma tanto em número de títulos como em impacto científico, ao conquistar o primeiro lugar absoluto com o Handbook of Alkali-Activated Cements, Mortars and Concretes, e também a maior média anual de citações nos últimos três anos, demonstrando que o seu impacto científico internacional continua a renovar-se, muito para além do impacto acumulado no passado.

PS - O destaque da engenharia civil na produção científica da Universidade do Minho merece também ser lido à luz da recuperação da procura deste curso e das necessidades crescentes de um país confrontado com uma gravíssima crise habitacional, tendo sido o próprio Governador do Banco de Portugal que afirmou que "temos falta de 300.000 casas", a somar ao envelhecimento das infraestruturas e a urgência da adaptação climática, questões que analisei num post no final do mês de Agosto de título, Ensino superior: projeções de procura até 2029 num curso fundamental e uma área emergente entre os imperativos do futuro https://19-pacheco-torgal-19.blogspot.com/2026/08/ensino-superior-projecoes-de-procura.html

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Na universidade que paga mais de 300 mil euros aos catedráticos, integrar o ranking Elsevier–Stanford é quase uma exigência

 

A propósito da deplorável política da presidência da FCT, que critiquei por perpetuar a servidão académica e assegurar a felicidade dos "lordes feudais", privilegiando o financiamento de bolsas de doutoramento selecionadas por júris caseiros em detrimento da abertura de mais vagas para investigadores cujo mérito foi considerado excelente por júris de peritos estrangeiros, reproduzo na imagem supra uma comparação demolidora entre duas instituições de referência mundial e seis das universidades portuguesas mais competitivas, no rácio investigador altamente citado (Top 0.5%) por centena de docentes. 

O rácio do ETH Zurich é 22 vezes superior ao da universidade portuguesa mais competitiva neste indicador, a Universidade do Porto. Quando porém a simulação abrange todos os investigadores do referido ranking correspondente ao top 2%, o contraste torna-se ainda mais devastador e intelectualmente embaraçoso, mesmo a instituição portuguesa mais bem posicionada apresenta um rácio 86 vezes inferior ao do ETH Zurich, que atinge 99,8 investigadores por cada 100 docentes, o que significa que naquela universidade é praticamente impossível ter um lugar docente sem ser um investigador altamente citado.

Tendo em conta que, em 2020, divulguei um estudo da Nature Communications que associava a colaboração precoce de jovens investigadores com cientistas de topo a uma vantagem persistente ao longo da carreira, e que, em 2024, retomei esta questão, a propósito de uma investigação do Journal of the Royal Society Interface, envolvendo mais de 300 mil académicos de 22 áreas científicas, que identificou uma associação crescente entre o impacto científico dos orientadores e o dos investigadores que formaram, a supracitada política da presidência da FCT revela-se assim triplamente prejudicial: Começa por estrangular o financiamento dos jovens investigadores, expande a formação doutoral para níveis irrazoáveis em absoluto contraciclo com países mais ricos do que o nosso e, mais grave ainda, não consegue assegurar aos doutorandos orientadores com currículos internacionalmente competitivos, transformando as limitações científicas de quem os orienta numa pesada herança que que os próprios terão de carregar ao longo de toda a carreira.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

The Deeply Uncomfortable Question Behind ETH Zurich’s 99.8 Scientific Benchmark

In 2020, I drew attention on my first blog to a study in Nature Communications showing that early coauthorship with leading scientists predicts a competitive advantage extending throughout a researcher’s subsequent career, with the uncomfortable implication that the scientific standing of those with whom young researchers work can shape their prospects long after their initial training. In 2024, I returned to this issue, discussing research published in the Journal of the Royal Society Interface across 22 scientific disciplines, which identified an increasing association between the scientific impact of mentors and that of their protégés.

My current analysis of several leading universities places ETH Zurich at 99.8 researchers listed in the Elsevier–Stanford scientists ranking per 100 faculty members, a benchmark that confronts universities with a conspicuously low representation of highly cited researchers with a question their promotional rhetoric cannot honestly answer: Should they be required to disclose prospective supervisors’ scientific records and explicitly warn doctoral applicants that a supervisor’s weak scientific standing may seriusly compromise their career prospects, restrict their international visibility and curtail their access to influential scientific networks?

Universities that demand years of intellectual labour while publicly proclaiming their excellence should substantiate that promise with their supervisors’ scientific records, enabling applicants to distinguish genuine research achievement from academic titles that too often shelter entrenched scientific mediocrity. Doctoral candidates inherit more than a dissertation topic: they inherit their supervisors’ networks, reputations and sense of what is intellectually possible. They deserve to know whether they are receiving an inheritance worth building on or a crippling debt they may spend their entire careers trying to escape.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Top 10 dos investigadores Portugueses melhor classificados no ranking Elsevier-Stanford na área da Engenharia Civil

Reproduzo abaixo os nomes dos dez investigadores melhor classificados na área científica da Engenharia Civil, de acordo com a lista de impacto científico ao longo da carreira recentemente divulgada pela Elsevier. 

A UMinho destaca-se por reunir três investigadores entre os dez melhor classificados, seguindo-se a UPorto, com dois. As universidades de Lisboa, Coimbra e Aveiro, a Univ. Politécnica de Lisboa e o LNEC estão representados apenas por um investigador cada. 

 

Investigador

Instituição

Ranking europeu (Engenharia Civil)

Ranking mundial (todas as áreas)

1

Lourenço, P. B.

UMinho

10

13 310

2

Brito, J. de

ULisboa

15

19 624

3

Pacheco-Torgal, F.

UMinho

18

21 612

4

Barros, J. A. O.

UMinho

179

109 339

5

Silva, L. S. da

UCoimbra

236

131 994

6

Veiga, M. R.

LNEC

302

153 909

7

Cachim, P. B.

UAveiro

353

166 184

8

Cunha, A.

UPorto

355

166 308

9

Caetano, E. 

UPorto

486

197 600

10

Evangelista, L.

UPLisboa

545

205 834